—Pois bem. A esses primeiros povoadores do nosso sólo acompanharia sempre no seu voluntario exilio a saudade da patria. E este sentimento não se transmettiria de páes a filhos, como um patrimonio de seu coração?...[{122}]

—Mui ajustado considero o vosso conceito. Até do nosso genio aventureiro razão sobeja me dá.

—Uma esperança trouxe a nossa raça ao Occidente, uma saudade a levará ao Oriente!... Mas pelo mar, para completarmos a nossa revolução, como o Sol!...

—Prouvéra a Deus, que assim fosse!...—exclamou com enthusiasmo fr. Fernão.

—Não me pertence a mim de tal cuidar. A que venho com Affonso de Paiva, é procurar o tão fallado Préste João. Acaso podereis vós dar-me informações, que me alumiem?... Se fôr um rei christão, como dizem, muito ganharia a nossa religião santa, se com elle el-rei contraisse alliança...

—Folgaria de bem vos encaminhar; mas tão escuras correm as noticias d'esse afamado imperador, que chego a persuadir-me, serem todas mal fundadas.

—Na Asia habita, dizem. Em que parte, porém, d'ella?

—Na Asia habitará... O nosso collegio, porém, já conta em Rhodes mais de um seculo, e até hoje—que eu saiba!—não tem constado cá, haver-se descoberto o reino maravilhoso d'esse principe de tanta nomeada.

—Informação de pêso é essa...

—Com effeito existiu na Asia a monarchia do Jonanan, sendo este nome commum a todos os soberanos d'ella, como foi o de Pharaó aos reis do Egypto, o de Dario aos reis persas, o de Cesar[{123}] aos imperadores romanos, e actualmente é o de Turco aos sultões da casa ottomana. Esse nome de Jonanan, derivado de Jonas Propheta, mudaram os europeus em Joan, e o pronome Preste, o mesmo que Presbytero, pozeram-lh'o em razão da cruz, que sempre deante levava arvorada, como os nossos arcebispos. E esse imperador christão, posto que nestoriano, obedecia ao patriarcha de Babilonia, de maneira que tambem a elle obedeciam os christãos, a quem na India se chamavam da Serra ou de S. Thomé. O seu imperio, porém, ha muito que desappareceu.