—E porque não crêr antes, que em paiz desconhecido, e cercado de mysterios o Préste vive ainda, como em toda a Europa corre?... Emfim, eu a Portugal não volto, sem colher informação segura, para a levar a el-rei, meu Senhor.

—Nem al se deve esperar de vós, como brioso cavalleiro que sois.

O resultado, que Pero da Covilhan logrou d'esta pratica, foi tornar-se-lhe cada vez mais problematica a residencia, senão a existencia, do Préste João das Indias. Não soffreu com isso a menor contrariedade o seu animo imperturbavel; serviu antes de maior estimulo á sua diligencia.

De Rhodes, onde se forneceram de mel, com que se dispozeram a negociar, atravessaram os dois viajantes para Alexandria, disfarçados em mercadores.[{124}]
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[VIII]

[BOAS NOVAS]

Era portuguez o navio, que conduziu Pero da Covilhan e o seu companheiro ao porto de Alexandria. As ondas do Mediterraneo mal marulhavam em torno do costado da embarcação, imprimindo-lhe uma arfagem indolente, e fazendo parecer, que o mar se transformára em um grande lago azul e tranquillo. Ao cabo de uma feliz derrota o navio deu fundo em frente da velha cidade egypcia, uma das mais bellas e graciosas cidades do mundo antigo, e laço de união da Europa com o Oriente.

Estava no periodo da sua maior decadencia a patria de Euclides. A sua bibliotheca celebre, que fôra a maior do mundo, e quasi todos os seus monumentos, que davam brilhante e seguro testemunho da sua antiguidade gloriosa, haviam sido arrasados pelos arabes, no VII seculo.

De todas essas preciosidades historicas restavam[{126}] unicamente: a columna de Pompeu, denominada Amud-Assuari pelos musulmanos; dois obeliscos, impropriamente chamados Agulhas de Cleopatra, e as catacumbas.

A sudoeste da cidade, marcando o lugar occupado antes pelo Serapeion, ou templo consagrado a Serapis pelos Ptolomeus e um dos centros do saber, no ponto de união da Necropole com o velho bairro egypcio de Rakotis, levantava-se rodeada de palmeiras a columna de Pompeu, testemunha sobrevivente das épocas classicas. Esta obra de arte genuinamente grega mandou um prefeito romano erigir em honra do governador Diocleciano, genio tutelar da cidade, para lhe demonstrar a sua gratidão pelo trigo, com que soccorrera o povo de Alexandria. Era lavrada em syenito, com o sócco quadrado, em que assentava, e o capitel corinthio, onde se erguia a estatua, já mutilado.