Tomára o nome, as ceremonias e os costumes de mouro, mas Deus sabia, que a sua alma era christã e portugueza de lei. A convivencia com os infieis mais lhe arraigava no coração as suas crenças.[{129}] O seu melhor companheiro, e confidente unico, era a imagem de Thereza, a guiar-lhe os passos, animando-o ao mesmo tempo a proseguir audacioso e firme. Observando tudo com olhos de quem sabia ver, nem uma exclamação nem um gesto eram capazes de trahi-lo, ou de levantar a suspeita, de que não fosse mercador ismaelita.
Quando aportou á bahia de Aden, esta importante cidade maritima da Arabia produziu-lhe viva impressão, que passou completamente despercebida aos olhos dos tripulantes e mercadores que o cercavam.
Defrontou com uma serra mui alta, aspera e crespa, tendo varias quebradas e picos muito agudos, alguns dos quaes fortificados. Ao vê-la assim recortada, lembrou-lhe a serra da Cintra, por parecer-lhe mui similhante. Parte d'ella mettia pelo mar, formando uma comprida peninsula, que talhava duas formosas e largas enseadas, e na de léste espelhava-se a muralha da cidade.
Com effeito Aden, edificada ao sopé da serra, era defendida, para a banda do mar, por um extenso lanço de muro, dividido em muitos pannos por meio de cubellos redondos, e de um lado entestando em uma penha cortada a pique, do outro em um môrro, junto do qual havia um baluarte rouqueiro, cujos tiros podiam varrer a praia. O môrro tornava-se um ilhéo com o preamar, e até ao seu cume, onde estava um castello, subia do baluarte um muro, que torneava o môrro. Por duas[{130}] portas, ambas juntas, se entrava na cidade, indo da praia; e, por unica serventia do lado da terra, em um caminho aberto na rocha de uma quebrada, havia tres portas consecutivas, protegida cada uma por sua fortificação.
Plana, de boa casaria coberta por terrados, em razão do ardor vivissimo do clima, Aden, para ter agua, precisava de manda-la buscar ás fontes detraz da serra, em ôdres transportados por camêlos e juntar a da chuva em enormes tanques abertos na rocha.
O seu principal commercio consistia na venda de mantimentos, de que sempre estava abastecida. A ella desciam os mercadores arabes com os productos de seus paizes, e d'ella levavam a varios mercados as exportações da India, para as caravanas de Damasco e de toda a Asia menor as passarem á Europa pelo Mediterraneo. Por tal motivo a maior parte das náus contentava-se com chegar a Aden, e não curava de entrar as portas do mar Vermelho.
Como Pero da Covilhan soubesse n'esta cidade, haver na Ethiopia um grande rei christão, e considerasse, que o Préste se chamava das Indias, convencionou com Paiva, proseguir este no caminho da Ethiopia e elle no da India, aproveitando logo a monção. Ficaram todavia de se ajuntar ambos em determinada época no Cairo, e aqui darem mutuamente conta das novas, que alcançassem.[{131}]
Affonso de Paiva foi, pois, em uma gelva para Zeila, capital de Adel na costa oriental da Africa, e Pero da Covilhan demandou em uma náu mourisca a cidade de Calicut.
Era Pero da Covilhan o primeiro portuguez conhecido, que atravessava o Oceano Indico.
A náu, que o transportava, tinha, como quasi todas as da India, um só mastro sem gávea, aguentado pelos cabos para a borda, e pelas adriças da véla, que os ajudavam para ré. O leme largo e de taboas delgadas governava com gualdrópes para a borda, alados por um e outro bordo. Ligeiramente construida, de poucas cavernas, e forrada apenas exteriormente, seu taboado cozido a cairo, e de igual modo fixo ao cavername, marcava a differença que ella fazia das pregadiças, nas quaes em vez de quilha havia fundo largo.