A véla, de pendão, era um trapézio de amplas dimensões, ligando o punho da amura a uma antenna, que podendo debruçar-se da borda, permittia á náu navegar em melhor linha de bolina.
Por causa da véla, de difficil manobra, tornava-se necessario arrear para cambar de bordo; e, para diminuir superficie, havia no panno uma especie de rizes, parecendo inteiramente desconhecido o uso de monetas.
Nenhum mareante breava a sua embarcação; tornava-a, porém, muito estanque, betumando as costuras do taboado com quil, e untando-as com azeite de peixe, levado á consistencia de sêbo. Assim[{132}] vedavam tambem os tanques, em que traziam a agua, os quaes consistiam em grandes cubos de madeira com capacidade para trinta ou quarenta pipas, e com as paredes escoradas interna e externamente.
O batel andava atoado, e sómente o mettiam dentro, quando atravessavam da India para o mar Vermelho.
Nas ancoras de pedra ou de madeira rija, na arca da bomba, e em outras particularidades de construcção, esta náu differia muito das portuguezas. Sem coberta, e com a borda feita de esteiras impremiaveis, levava a carga arrumada em compartimentos separados, e resguardada da chuva por folhas sêccas de palmeira, postas em fórma de telhado de duas aguas.
Desprovida de agasalhados, que permittissem aos tripulantes e passageiros abrigar-se, iam, uns e outros, expostos ao tempo, salvo quando o vento soprava muito rijo ou caia alguma chuva, pois que em taes casos recolhiam-se em uma especie de choupana de óla, encostada ao mastro, ou armada a ré, por cima das esteiras de rotas, com que cobriam a carga.
O typo do fogão, em que cada um cozinhava, reduzia-se a uma caixa de madeira, cheia de areia, sobre a qual collocavam tres pedras, que serviam de trempe. O côco, o peixe sêcco e o arroz constituiam os principaes manjares da quotidiana alimentação.[{133}]
E com embarcações tão frageis, como a succintamente descripta, se fazia a navegação dos mares indicos, durante sete mezes de cada anno, sendo depois varadas nas praias e cobertas com óla, á espera de nova monção.
Hoje, que tão commoda e rapidamente se viaja, mal se comprehende que, sem um movimento superior a impulsiona-lo, Pero da Covilhan fizesse esta travessia em similhantes condições, e nem um momento sentisse desfallecer-lhe o animo!
Que provas de valor, dedicação e lealdade ia accumulando na sua peregrinação arriscadissima, para offerecer ao rei, que o enviára, e a Thereza, por quem tudo soffria resignado!