A viagem continuava sem o menor incidente. Um dia, porém, no Céo, que permanecia sereno, algumas nuvens similhantes a vapores cobreados, corriam por elle com ligeireza superior á das aves, ao passo que sulcavam o mar cinco ou seis vagas longas e crescidas, parecendo-se com cordilheiras de collinas, separadas umas das outras por largos e profundos valles. O vento soltava dos vertices angulosos de todas essas collinas aquaticas uma especie de coma de espuma, em que refulgiam aqui e além as brilhantes côres do Iris, e levantava igualmente redemoinhos, como que de poeira esbranquiçada. Mas o mais terrivel era, que os tôpos d'esses vagalhões com a violencia do vento enrolavam-se sobre si, formando enormes abobadas, espumando e rugindo como féras gigantes iracundas.[{134}] A náu, sem governo, vogava de capa, e não era senão joguete do vento e das ondas. Subia essas serranias inclinada sobre um dos bordos, quasi virada, chegava ao cimo, equilibrava-se, e descia depois rapidamente com egual perigo o lado opposto, em quanto se escoava, saindo por debaixo d'ella como de uma comporta, um largo lençól de espuma.

Se fosse muito duradoura esta tempestade medonha, esta borrasca sêcca, mas horrenda, a fragil embarcação sossobraria irremediavelmente.

Salvou-se!

Com a sua bandeira verde içada no tópe do mastro, a náu arribou a Cananor, para fazer aguada e tomar lenha.

A doze legoas para o Sul na mesma costa do Malabar, demorava Calicut; e, por ser a costa mui limpa, a náu, depois de refrescar, seguiu perto de terra o seu rumo com terrenho galerno e perfumado a enfunar-se na véla.

Chegou Pero da Covilhan a Calicut. Cananor pouco abalo havia produzido no seu espirito. Calicut deslumbrou-o. Tinha deante de seus olhos a opulencia e a belleza da primeira cidade do Malabar, e a sua phantasia, que lhe pintára com as côres mais vivas a vegetação luxuriante da India, não o illudira, pois o maravilhoso painel, que estava contemplando, era superior ainda ao que a sua imaginação havia sonhado.

Em um vastissimo jardim á beira mar, com arruamentos[{135}] arbitrariamente traçados, estava disseminada a casaria da cidade, sobresaindo os mais nobres edificios no meio das alfombras odoriferas dos canteiros, das hortas viçosissimas e dos palmares giganteos. Junto da praia as palhotas dos pescadores mucuás, e em lugares apartados as dos pobres poleás, a gente baixa e vil, eram a sombra do quadro, em que resplandecia a sumptuosidade dos pagódes, a elegancia das habitações nobres, e a magnificencia dos paços do rajah, que rematavam a cidade a grandissima distancia da praia.

A cada passo via Pero da Covilhan nas ruas os vaidosos naires, com suas espadas núas e rodellas uns, outros com lanças, e ainda outros com arcos e frechas; e os poleás a bradar, para que os naires se desviassem, ou a fugir, quando topavam com elles de subito, pelo receio que tinham de serem suas victimas.

Passavam pelos naires, e podiam até toca-los, os brahmanes. Estes traziam a tiracólo o seu distinctivo de religiosos, o qual, dos sete aos quatorze annos, consistia em uma correia de pelle crua com pêllo de uma especie de jumento silvestre; e, dos quatorze por deante, em uma fita de linha dobrada de tres fios, com a largura de dois dedos, como a correia.

Tambem os nobres saíam á rua em andores, que, conforme o seu tamanho, dois ou quatro escravos levavam aos hombros. O nobre ia assentado[{136}] ou deitado, ordinariamente mascando o seu béthel, e resguardando-o do sol ou da chuva um sombreiro seguro por um escravo, a que os malabares chamavam boi.