Em boa hora vieram. Um d'elles era o rabbi Abraham, natural de Beja; o outro, Joseph, de Lamego; ambos mensageiros de D. João II.
—Á procura de vós andavamos!—exclamou o rabbi, ao dar casualmente com Pero da Covilhan.[{138}]
Este ao ouvir, pela primeira vez, fallar a sua lingua no Cairo, experimentou um prazer novo, uma sensação gratissima, e respondeu:
—Aqui me tendes, e muito me praz vêr-me tão longe da patria com portuguezes. O que me quereis, e a que vindes?...
Abraham, entregando a Pero da Covilhan as cartas, que para elle trazia, de D. João II, disse-lhe:
—Eu e o meu companheiro Joseph, mensageiros de el-rei somos, como por essas cartas vereis. Lêde-as, pois, e ellas nos acreditarão.
—E como podéstes reconhecer-me, no meio d'esta Babylonia?...—perguntou Pero da Covilhan.
—Guiou-me principalmente a cicatriz, que tendes nas costas da mão esquerda...—respondeu Abraham, apontando para ella.
—Nem este vestigio das minhas travessuras de creança escapou a el-rei meu senhor!...—replicou Pero da Covilhan, sorrindo.
—Além d'isso descreveu-me el-rei com tanta precisão a vossa physionomia, que não era facil enganar-me, apesar de terdes a barba algo crescida.