Nas cartas, que Pero da Covilhan recebeu, ordenava-lhe D. João II, que fosse mostrar a cidade de Ormuz ao rabbi, e que, se não estivesse ainda bem instruido de tudo a que fôra, mandasse pelo judeu Joseph novas do que sabia, não devendo voltar ao reino sem ter visto o Préste João.[{139}]

Joseph observou, que, tendo visitado já a cidade de Bagdad, ouvira lá fallar muito de Ormuz, e de como vinham ter as especiarias e riquezas da India ás cidades de Alépo e Damasco. Do que vira e lhe informáram, fizera depois a narrativa a el-rei, que muito folgou, e lhe déra protecção, para emprehender esta nova viagem, que concertára com o rabbi.

—De tudo estou inteirado—disse Pero da Covilhan.—A vós, Joseph, vou immediatamente despachar com cartas para el-rei, meu Senhor; e—voltando-se para Abraham—comvosco tornarei a vêr Ormuz.

N'aquellas cartas, de que foi, com effeito, portador o judeu de Lamego, fazia Pero da Covilhan miuda relação da sua visita aos principaes portos, que serviam de escala ao commercio oriental, e onde verificára, que a corrente d'este entrava pelo mar Vermelho, indo concentrar-se em Alexandria, seu principal deposito, de que tinham os feitores de Veneza a pósse, garantida por tratado com o sultão do Egypto.

A respeito do porto de Calicut informava que de lá saíam, não só as especiarias, senão tambem tudo quanto a India exportava de mais rico, attrahido áquella cidade pelos seus mercadores, os mais poderosos e opulentos mouros do Malabar.

Enaltecia a importancia de Ormuz, dizendo, que era a India annel valiosissimo, e Ormuz a pedra preciosa engastada n'elle.[{140}]

A proposito encarentava as bellissimas perolas de Bahrein, as esmeraldas de Bagdad, as turquezas de Exaquirimane, os carbunculos ou rubis de Pegu, as espinellas de Ceylão e Cananor, e os diamantes da Golconda.

Mostrando com numerosos factos, que tudo no Oriente era grande, assombroso, parecendo que Deus se havia esmerado em alli conservar eternamente um reflexo brilhante da sua Omnipotencia, fechava Pero da Covilhan uma das suas cartas com a seguinte informação: «Navegando-se pela costa da Guiné adeante, chega-se ao termo do continente: persistindo na derrota para o Sul, e logo dobrando a costa no Occeano indico, o melhor rumo é demandar Sofála, ou uma grande ilha, que os mouros chamam da Lua (Madagascar), e fica mais para a banda do Sul». E addicionou: «em Sofála me foi asseverado pelos mercadores mouros, que dos máres da Guiné se póde navegar para a India».

Em outra carta, na qual dava noticia da morte de Affonso Paiva, communicava tambem, que, emquanto andou pela India, sómente em Cananor ouvira fallar no Préste João, affirmando os mouros, «que este rei christão estava tão longe mettido nas suas terras, que não sabia, que cousa era gente do mundo, e que para ellas ia-se pelo mar Vermelho». E, posto que os mouros não déssem a esse rei o nome de Préste, como já no Cairo e em Aden haviam contado a elle Pero da Covilhan muitas[{141}] cousas do rei abexim, de ser christão, trazer cruz alçada, e possuirem seus estados alguns mosteiros de religiosos, «se veiu a persuadir, que não tinha para que passar adeante, a buscar o que não sabia que houvesse, tendo tão pérto o que lhe diziam que na Ethiopia havia». Cumprindo, pois, as ordens de Sua Alteza, ia mostrar Ormuz ao rabbi Abraham, e na volta procuraria em pessoa o Préste.

Despedido o judeu Joseph, que partiu logo em direcção a Portugal com as cartas e outros documentos, Pero da Covilhan e o rabbi subiram a Aden, e d'este porto sahiram para Ormuz.