Quantas vezes assaltaram Pero da Covilhan ardentissimos desejos de conversar largamente com o seu novo companheiro ácerca da vida intima da côrte portugueza!...

O que poderia, porém, saber d'ella o rabbi?...

Continuava, pois, Pero da Covilhan a ser o confidente de si proprio; e a esperança, que mais lhe sorria agora, de ver seus sonhos de gloria realisados, era o melhor lenitivo da sua saudade.

—Que prazer não sentirá Thereza, quando souber, que mandei dizer a el-rei qual é o caminho da India pelo mar!...—repetiam os echos da sua alma radiante e apaixonada.

E o infatigavel explorador lá foi de novo atravessar as aguas do mar d'Oman.[{142}]
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[IX]

[CONSTANCIA]

Nunca na côrte portugueza se prestou mais livre, menos recatado culto ao espirito, á elegancia, e á formosura da mulher, do que durante os primeiros nove annos do curto reinado de D. João II. Os serões do paço eram exhibição permanente de requebros, de arrufos, de ironias, de motejos deliciosos.

Depois que Pero da Covilhan saíu de Portugal, Maria Thereza tinha uma repugnancia invencivel em assistir a esses passatempos, e, quando apparecia, era unicamente por obediencia.

Ainda em Santarem, uma noite folgava, como de costume, a mocidade fidalga nas salas do palacio real. Os cortezãos, que, nada tendo em geral a contemplar na sua alma, por a trazerem sempre vasia de affectos e attestada de egoismo, a tudo estão attentos, reparavam, que a Maria[{144}] Thereza faltava a sua natural animação, aquelle seu ar de interessar-se pelo que a cercava; e não sabiam explicar, como ella nem sequér encobria o seu incomprehensivel e subito recolhimento.