Maria Thereza, com effeito, quasi não era senhora de si, para antepôr ás suas meditações, porventura chimeras muito queridas, o cuidado de transigir um tanto ao menos, com as hypocrisias da côrte, para se não tornar intratavel.
Os seus adoradores, que eram muitos, perguntavam uns aos outros: o que terá Maria Thereza, ainda ha pouco tão leda e desenvolta, critiquizando maliciosamente os assumptos de nossas trovas, ouvindo e applaudindo com riso franco e jovial nossos apodos, e agora tão calma, e lenta em animar-se?!...
—E o mais estranho—observou Pedro de Barcellos—é, que não occulta o seu mau humor, quando algum de nós tenta galantea-la!...
—Até se torna menos sombria, e fica logo quasi alegre, quando se insiste...—accrescentou Jorge da Silveira.
—De experimentados fallais ambos!...—atalhou D. João de Menezes
—Quem não hade gostar de Thereza!...—tornou Pedro de Barcellos.
—Toda a côrte sabe, que ella é a predilecta da rainha, com quem réza diariamente, horas esquecidas!... Váe caminho do claustro a formosa menina!...—exclamou Gonçalo da Fonseca.[{145}]
Apesar da sua edade, já um pouco avançada, Gonçalo da Fonseca amava a convivencia dos môços, e estes, como elle era de pequena estatura, chamavam-lhe Gonçalinho. Dava-lhe prazer esse tratamento, não só por ser affectuoso, mas porque lhe recordava uma amabilidade de D. João II, tão propria do caracter d'esse soberano, como o leitor vae vêr.
Um dia Pedro da Silva, commendador-mór de Aviz, chamou-lhe Gonçalinho na presença do rei. Este não tomou o diminutivo por signal de confiança, senão por gracejo deprimente, e disse, com um modo muito sêcco, a Pedro da Silva: «se vós vos tomardes com elle, hade parecer-vos Gonçalão».
Este Gonçalo da Fonseca tinha sido embaixador de D. Affonso V junto dos duques de Borgonha, e D. João II mandou-o com Diogo de Azambuja, Duarte Pacheco, e outros, erigir a fortaleza da Mina.