Voltemos, porém, ao ponto.
A conversação continuou, trocando-se ditos maliciosos e crepitantes, ácerca dos mais fallados galanteios da côrte, e prolongou-se, até que, apparecendo Garcia de Rezende, se deu principio ao jogo dos naipes.
Maria Thereza, a quem no meio das reflexões serias, que lhe tomavam a alma, os vãos discursos ceremoniosos, que ouvia em volta de si, pareciam mais desagradaveis ainda, havia chegado a[{146}] uma janella aberta sobre um jardim. Fôra alli respirar o perfume das flôres, e esse prazer parecia infundir algum alento em seu coração entristecido. Estava fazendo confidentes suas as florinhas, as quaes, por seu turno, como que lhe agradeciam a confiança, embalsamando cada vez com mais delicia o ar que ella respirava. De vez em quando voltava-se para a sala, por estar sempre de alcatea, não a chamasse a camareira-mór, que sobre ella exercia a mais particular e carinhosa vigilancia, muito recommendada pela rainha.
Em um d'aquelles movimentos, Maria Thereza viu Pedro de Barcellos a dirigir-se para a janella. Ficou contrariada, e pelo seu pensamento passou rapidamente a seguinte exclamação:—infeliz lembrança!... E tenho de attender com fingido agrado este importuno!...
Ao mesmo tempo no cérebro de Pedro de Barcellos cruzava-se um tropél de duvidas, de esperanças, e de receios, ao passo que o seu coração se debatia em ancias de tranzido amor.
O apaixonado môço cumprimentou Maria Thereza, mas sem poder dizer-lhe:—como sois bella!... que expressão de pensamento profundo!... que physionomia angelica!...—e tantas outras phrases de admiração e amor, que lhe estavam a saltar dos labios, e os echos da alma lhe repetiam.
Enlevado na contemplação da formosura celeste de Maria Thereza, e não logrando evitar,[{147}] que fosse trahido pelo olhar ardente, com que a fitava, rompeu o curto silencio, que se seguiu aos reciprocos cumprimentos, com esta interrogação banal:
—Não vos interessa o jogo dos naipes?
—É sem duvida um gracioso invento de Garcia de Rezende; mas não me praz tomar hoje parte n'essa diversão—respondeu Maria Thereza.
—Por melhor que fosse a sorte que vos saisse, seria sempre inferior á que mereceis...