Os attractivos da vida sevilhana seduzem-nos tanto, que nos offerecem crêr no velho proverbio andaluz, e compensam certamente a princeza do Guadalquivir do muito que lhe falta em monumentos para ser admirada, e em melhoramentos materiaes para rivalisar vantajosamente com as cidades modernas.

O leitor e eu vamos percorre-la no terceiro quartel do seculo XV, em um dia calmoso do estio.

Abrasa tanto calor!...

Em breve zombaremos d'elle.

Os arabes, que faziam de seus palacios pequenos paraizos, rodeavam-n'os de jardins e fontes,[{2}] no intuito de refrescar as regiões ardentes, que povoavam, e até no interior dos proprios edificios possuiam esses mesmos refrigerios. Ora as casas de Sevilha traduzem fielmente os costumes de seus antigos senhores; e, como temos de entrar em uma d'ellas, poupar-nos-hemos a insolações.

Cingem Sevilha fortes muralhas, do alto das quaes se contempla a extensa planicie do vastissimo contorno, povoado de vistosas e alegres alquerias.

Pela porta de Triana sae-se ao importante arrabalde d'este nome, e com elle se communica por uma ponte de madeira fundada sobre grandes barcas, que com grossas cadeias de ferro a sustentam, amarradas no castello. Sob esta corre caudaloso o Guadalquivir, que parece envaidecido da sua justa nomeada, não só por dar ancoradouro seguro ás maiores naves, que sulcam os mares, senão por facilitar assim as relações commerciaes, e animar a florescente industria fabril dos sevilhanos;—o que torna riquissima de população e haveres a formosa metropole andaluza.

Cêrca do rio ergue-se a torre, que, pelo primor da fabrica, se denomina do Ouro.

Á cathedral, cuja edificação começou quasi ao entrar do seculo, em que a estamos vendo, sobre os alicerces da antiga mesquita, chama-se vulgarmente a grande, como á de Toledo a rica, á de Salamanca a forte e á de Leão a bella.[{3}]

Ao lado d'essa immensa móle altea-se suberba a torre de tijolo côr de rosa, que coroava a mesquita, e é rematada por outra de menores dimensões com variedade de pinturas mui singulares em todo seu circuito. Este minarete, o mais notavel monumento arabe, da sua classe, na peninsula, foi construido pelo celebre alchimista e architecto Géber, a quem se attribuio, sem fundamento, a invenção da algebra.