—Não olvide o leitor, que estamos no decimoquinto seculo, em que não existe ainda o Giraldillo, e por isso a torre não é conhecida pelo nome de Giralda.
Numerosa a casaria da praça; alguns edificios podem comparar-se em tudo com palacios realengos.
As mulheres prezam-se de caminhar com garbo e passo curto; de fallar com graça e vivacidade; de vestir com louçania e riqueza; de dançar e cantar ao som das castanholas e das guitarras com elegancia e desenvoltura; [de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos] por tal arte, que parece terem cravado na face um diamante negro, a reflectir a luz fulgorosissima do bello sol da Andaluzia.
O sevilhano passa por nós muito ancho da sua pessoa, e da sua Sevilha, que não só possue os titulos de mui leal, mui nobre e mui heroica, senão que é patria de notabilissimos santos; por isso até um poeta exclama patrioticamente:[{4}]
«Que Dios, Sevilla, en tu preciosas venas
Para el Cielo crió tantos tesoros,
Cuantas el ancho mar esconde arenas,
Cuantas estrellas los celestes coros!»
Sem embargo de tamanha gloria, a cidade de Maria Padilla tem sido tambem algo peccadora...
A nobreza opulenta de rendas de seus vastos dominios ruraes, em que abundam frutos e gados, sustenta luzidas tropas de escudeiros fidalgos, que põe ao seu serviço e ao dos reis, alentando os impulsos das proprias ambições e prosapias.
Nas suas casas tem grandes depositos de armas, e nas suas cavallariças centenares de cavallos. Empara em vida os de sua hoste, e deixa-lhes fartos legados em seus testamentos.
Um d'esses grandes senhores é o duque de Medina Sidonia; ou de Sevilha, como tambem o tratam.
Entremos no seu palacio.