Estava assim satisfeita uma das maiores aspirações[{158}] d'esse tempo—o apparecimento d'aquelle personagem legendario; e ninguem pensava em ir á India pelo mar, excepto D. João II e Colombo; este, porém, navegando pelo Occidente.
Quem entre todos teve puras e santas alegrias, foi Maria Thereza. A esperança de ver chegar Pero da Covilhan coberto de gloria, sorria-lhe agora mais viva, amaciando-lhe simultaneamente os rigores da saudade.
Approximava-se o casamento do principe D. Affonso com a filha dos reis catholicos. D. João II, extraordinario em tudo, preparava para a celebração d'aquella solemnidade as mais apparatosas festas, servindo-lhe de modelo as de seu tio o duque de Borgonha, em Lille.
A côrte estava então em Evora, porque de Lisboa a trazia afastada a peste.
No paço da velha cidade transtagana, faltava uma casa apropriada para banquetes e consoadas. Não era uma difficuldade. O já mutilado convento de S. Francisco dava para tudo.
Antes de D. Affonso V ir a Castella, pediu aos frades as casas de seus estudos para sair d'ellas ao campo; e, como gostou do sitio, tornou a pedir grande parte do convento e da horta, para no espaço occupado por essa parcella da residencia fradesca, mandar construir os paços reaes.
Continuando esta obra, D. João II ainda obteve mais, e cortou tão largamente, que ficaram os frades postos no maior apêrto.[{159}]
Esta amplificação dos paços, acanhando o convento, foi necessaria para se fabricar a sala dos banquetes—aquella sala de madeira,
«que ficara por memoria.
Real em tanta maneira,
de perfeição tão inteira,
de tanta mundana gloria».[[8]]
Um dos franciscanos, exprimindo os sentimentos da communidade, maguada do seu captiveiro e da liberdade alheia em cortar pelo convento, exclamou um dia em tom prophetico: «Quem viver verá, que os mortos, que isto deram a S. Francisco, hão de clamar e pedir justiça a Deus. Agora vão fazer-se festas, que se hão de tornar em pranto!...»