Colombo chegára a Portugal muito antes de Pedro de Barcellos; Bartholomeu Dias transpozéra o Equador, dobrára o cabo da Bôa Esperança, e chegando quasi a respirar as auras embalsamadas do Oriente, foi obrigado a recuar, impellido pela mão mysteriosa do destino. É que muito embóra dois navegadores portuguezes houvessem podido sondar mares desconhecidos, era-lhes vedado frustrar os designios insondaveis da Providencia. A condemnação, a que D. João II estava sujeito, havia de reflectir-se nos seus agentes.

Como se explica a presença de D. Manoel no acto da despedida de Pero da Covilhan, em Santarem?

Por que razão havia de D. João II confiar a seu cunhado, que nenhum interesse directo podia ter nos descobrimentos, aquelle alto segredo do Estado?

Mais ainda. Um astrologo hebraico prognosticou a D. Manoel, que seria o successor de D. João II na corôa. Quem poderia dar credito ao visionario, quando na familia real existia um herdeiro necessario, e ainda outros com mais direito do que D. Manoel? E com que reservado intento concedeu D. João II a D. Manoel uma esphera por empreza, cuja alma era: Spera in Deo? Não parece ser um presentimento muito singular?...[{157}]

[X]

[TENTANDO AS AZAS...]

Recebeu D. João II as cartas, que lhe escrevera Pero da Covilhan. Occultava-se na singella narrativa do explorador um enthusiasmo, que sómente podia ser egualado ao jubilo immenso por ella produzido na alma anciosa do monarcha.

Ao terminar a leitura, exclamou D. João II a meia voz:

—Não ter Bartholomeu Dias, podido avançar!...

Reservando para si as informações ácerca da India, mandou logo espalhar a nova da existencia do Préste. E, como ás novas alegres ordinariamente se dá credito antes de sujeitas a exame, esta correu logo de bôca em bôca, e foi tão bem recebida e festejada, que não só no reino, mas na Europa, acclamaram por Préste João da India o imperador da Ethiopia.