Teve, com effeito, Pedro de Barcellos o melhor acolhimento de D. João II, a quem propôz sondar á propria custa os mares do Occidente, com o intuito de descobrir novas terras.
Na mente aventurosa de Pedro de Barcellos refervia o desejo vehementissimo de saber, d'onde vinham os troncos de arvore, os pedaços de madeira lavrada, as canôas e até os cadaveres de homens de physionomia estranha, arrojados a miude aos mares do archipelago açoriano. E tendo elle abandonado o seu já então pittoresco Minho, para ir tentar fortuna em uma ilha, embóra fertilissima, não era proprio do seu espirito entregar-se ás delicias de Capua, e ser insensivel ás provocações seductoras do mar, que o cercava. Embarcado imaginaria elle muitas vezes, que estava, quando na calada da noite accordasse attonito sobre o seu leito, embalado pelas terriveis e frequentes convulsões do sólo.[{154}]
Quiz, pois, expôr-se aos perigos de uma navegação longa, e D. João II, animando-o, fez-lhe todas as concessões desejadas.
Entretanto, vendo Maria Thereza na côrte, ficou tão impressionado pela sua formosura, que, durante alguns dias, abafou no coração o sentimento, que já lhe havia sido inspirado por Ignez, e chegou até a olvidar, posto que momentaneamente, que tinha com ella a sua palavra compromettida. A nobre attitude de Maria Thereza fê-lo reflectir, e despertou-lhe no coração os seus brios de homem digno.
Despachado por D. João II, foi ao Minho visitar a sua familia, sendo recebido com particular carinho no solar de Entre Homem e Cavado, e tornou logo para a Terceira.
Pouco depois de ter chegado á ilha casou com Ignez Gonçalves Machado, e tratou de construir e armar um navio. Havendo dois filhos de sua mulher, largou da bahia de Angra em fins de 1491, e sómente concluiu a sua viagem em 1495, [depois de ter descoberto a costa do Labrador].
Ora, como Christovam Colombo partiu de Palos tambem para o Occidente, em 3 de agosto de 1492, Pedro de Barcellos aportou naturalmente primeiro do que elle a uma região do Novo Mundo. E assim succedeu, com effeito. O facto, porém, não projecta de modo algum a mais tenue sombra na gloria perduravel do insigne genovez pelo seu descobrimento, que comtudo em nada o torna superior[{155}] ao nosso Pedr'Alvares Cabral, .
Voltando á Terceira, pouco tempo sobreviveu Pedro de Barcellos aos longos e penosissimos trabalhos da sua arriscada viagem. Para premiar seus serviços tomou o rei D. Manoel por seu vassallo um dos filhos do fallecido navegador, concedendo-lhe excepcionaes privilegios em carta passada em Evora, a 7 de junho de 1509. Por cartas dadas igualmente em Evora, a 20 de novembro de 1533, e por outra em Almeirim, a 22 de fevereiro de 1541, concedeu D. João III brazão de armas a tres descendentes legitimos de Pedro de Barcellos, com todas as honras e privilegios de nobres e fidalgos, por procederem [da geração e linhagem dos Machados], por parte de sua mãe e avós.
Repeso talvez de não ter feito o sacrificio de attender a proposta de Colombo, D. João II acceitou com jubilo a de Pedro de Barcellos, no desempenho da qual nada dispendia. Tranquillo por esse lado podia continuar nos preparativos de passar de novo á Africa, e chegar-lhe-iam entretanto novas da India, ou Pero da Covilhan estaria de volta.
Parece, porém, que a justiça divina déra a D. João II, para expiação de suas culpas, o martyrio de lhe mostrar, que era possivel a realização das suas maiores ambições; isto é; atravessar o Oceano Atlantico e levar á India as caravélas portuguezas; comtudo não lhe pertenceria a gloria de resolver esses dois problemas.[{156}]