—É realmente mimoso o vosso villancete, e muito pesar tenho, de que não o divulgueis, pois n'elle se revela um dóte mais do vosso aprimorado espirito... Está-me chamando a camareira-mór!... Quando regressais á ilha?... Crede, que fico sendo-vos muito affeiçoada...

Maria Thereza cortou assim o dialogo, que lhe parecia ter sido já demasiado longo.[{151}]

Ácerca d'ella pouco mais accrescentarei. Distinguia-se na côrte pela extrema bondade de caracter, alliada a uma prudencia tão singular, como precoce. Da sua belleza peregrina basta dizer, que a todos agradava, e isto melhor a explica, do que a mais completa das descripções. A sua orphandade contribuia tambem para ella merecer as geraes sympathias, de que gozava; mas quem verdadeiramente a extremecia era a rainha, a qual muitas vezes pensava com certa tristeza na possibilidade de perder um dia o primeiro lugar, que sempre tinha occupado no coração diamantino da sua filha adoptiva.

D. Leonor ignorava ainda, que Pero da Covilhan lhe havia roubado essa primazia.

Pedro de Barcellos tentou requesta-la. Teve, porém, de conformar-se com a sua recusa formal. A seriedade da mulher digna impõe-se irresistivelmente ao respeito do homem. É uma arma poderosa, com que a mulher se defende contra os perigos sociaes, e, quando sabe servir-se d'ella, triumpha e domina.

Pedro de Barcellos, ou Pedro Pinheiro de Barcellos, tinha o genio aventureiro da sua época. Era dominado por um pensamento constante, que se reflectia do seu amor á gloria. Oriundo da ilha de Barcellos, havia passado á ilha Terceira, poucos annos depois de descoberta, e foi um dos primeiros povoadores d'essa joia do formosissimo archipelago açoriano.[{152}]

Com o illustre flamengo Jacome de Bruges, primeiro capitão donatario d'essa ilha, tinha ido a povoa-la Gonçalo Annes da Fonseca, cavalleiro muito nóbre da cidade de Lagos, ao qual coubéram na partilha, que se fez, das terras da Terceira, as dilatadas campinas, que se extendem entre Porto Martim e os Paues das Vaccas. Tomou Gonçalo Annes posse da sua data, que era um grande condado, e voltou a Lisboa, d'onde regressou á ilha já casado com D. Mecia Annes de Andrade, filha do doutor João Machado, descendente legitimo da casa dos Ricos-homens de Entre Homem e Cavado, e por consequencia tambem rico-homem.—No principio da monarchia era essa a maior dignidade depois da Real, e aos que a possuiam, não só o rei lhes chamava primos, senão tambem estavam cobertos e assentados na sua presença; e não tomava o soberano deliberação alguma assim nas cousas da paz, como nas da guerra, sem o conselho d'elles.

Do consorcio de Mecia de Andrade com o illustre algarvio Gonçalo Annes da Fonseca houve quatro filhos e cinco filhas, sendo o primogenito o primeiro varão, que nasceu na Terceira.

Adoptaram todos o patronymico Gonçalves de seu páe e o appellido Machado de sua mãe, pois que foi estylo observadissimo até o reinado de D. Manoel, ou, com mais rigor, até o de D. Duarte, tomarem os filhos por sobrenome o nome proprio de seu páe: assim João, filho de Fernando, chamava-se[{153}] João Fernandes; Fernando, filho de João era Fernando Annes ou Joannes.

Pedro de Barcellos, havendo-se enamorado de Ignez Gonçalves Machado, primeira filha de Gonçalo e Mecia, veiu a Portugal, sob o apparente pretexto de visitar seu páe, então alcaide-mór de Barcellos, e os seus parentes, que eram as principaes familias do Minho; mas em verdade com o proposito firme de apresentar a D. João II um plano, cuja realisação era o seu sonho aureo.