—E não tendes prezente composição alguma vossa?...

—Porque m'o perguntais?... Poderia ella porventura agradar-vos?...

—Não vos disse já, que vos estimo?...

Este colloquio ia tomando uma phase mais amena, e Pedro de Barcellos, depois de grande hesitação, e com um receio immenso de ser desagradavel a Maria Thereza, confessou-lhe francamente, que se demorava em Portugal por causa d'ella. Protestou-lhe, que não tinha, nem teria nunca outro desejo mais ardente, senão o de consagrar-lhe a vida inteira, se esse anjo de graça e de bondade acceitasse a offerta sem reserva, que lhe fazia d'ella; e terminou, perguntando-lhe com a maior formalidade:

—Porque me não concedeis a vossa mão?...

—Porque não pósso, primo; e rogo-vos, que não insistais...—respondeu Maria Thereza com ar tão nobre e de tão expressivo desengano, que impôz o maximo respeito a Pedro de Barcellos.

Este, reconhecendo que seria importuna e pouco[{150}] delicada qualquer instancia, disse a Maria Thereza:

—Pois bem, prima; vou recitar-vos uma composição minha, de que ninguem mais saberá, senão vós.

E, com o coração amargurado, recitou Pedro de Barcellos o seguinte villancete:

Aqui, onde vou deixar-vos,
esse vosso doce olhar
nunca me verá tornar.
Para o mar vou sem ventura,
sendo mais vosso cativo!
Serei morto, sendo vivo,
sem ver vossa formosura,
pois que a minha sorte dura
de vós me quér apartar
para nunca mais tornar.
E se bem, que me confórte,
esperar me não é dado,
melhor é ditosa morte,
que viver desesperado.
Acabe assim o cuidado
de sómente em vós cuidar,
e no vosso doce olhar!...