—Quem, como vós, pode fazer pontaria a grandezas,[{148}] e leva a palma aos mais vaidosos em prendas de cortezão, seguro deve estar de seus merecimentos... O ar, com que fizestes essa pergunta, manifesta bem que tendes a consciencia d'elles...—redarguiu com reflexiva gravidade Maria Thereza.
—Devem de certo ser brilhantes á luz da vossa phantasia primorosa; prefiro, porém, ás gentilezas do vosso espirito os apreços do vosso coração. Se me não julgais indigno de vós, porque não acceitais o amor que vos offereço?...
—Porque nunca poderia corresponder-lhe.
—Condemnais-me, pois, a um desprezo eterno?...
—Não sejais injusto. Não vos desprézo, estimo-vos.
Convém recordar que, nos frequentissimos galanteios da côrte de D. João II, os versos eram o preludio do amor. Por isso Pedro de Barcellos replicou a Maria Thereza:
—Agradeço a vossa estima, e sobre todas muito a prézo; mas ficai certa, de que sem o vosso amor jámais poderá haver para mim ventura n'este mundo:
«Por mais mal que me façais
nunca mudar me fareis
até que não me acabeis.
Minha fé, minha firmeza
Em vosso poder está;
soffrerei minha tristeza,
pois vossa mercê m'a dá.[{149}]
E meu bem nunca fará
mudança, nem a vereis,
até que não me acabeis.»[[7]]
—Bello villancete, primo!...
—Não me pertence. Exprime, porém, com tanta verdade o que sinto, que me lembrei de recita-lo...