É provavel, pois, que este aprendizado de Sansovino na officina de Pollaiolo determinasse a escolha de Lourenço de Medicis, para satisfazer o empenho de D. João II.
Na esculptura decorativa dos paços d'Evora, imprimiu Sansovino o cunho do seu privilegiado talento; e, na ornamentação das salas e aposentos da familia real, tocou o requinte do seu peregrino gosto artistico.
D. João II avivou com a magnificencia, e o deslumbramento das festas de Evora, as recordações do periodo medieval.
Não satisfeito por expedir por mar e por terra, agentes seus ao extrangeiro, para comprarem os brocados, as sedas, as tapeçarias, as pedras preciosas, um sem numero emfim de objectos necessarios e de luxo, mandou publicar, que tinham entrada livre de direitos em Portugal até ao termo dos festejos, todas as mercadorias de importação. Os fidalgos da côrte foram vestidos á custa do real thezouro; recebendo além d'isso, os que tomavam parte nas justas, armas e cavallo; e os que[{162}] entravam nos mômos e entremezes, cem a duzentos cruzados. Egualmente foi dado vestido e dinheiro aos mouros e mouras do reino, bem como ás mais galantes raparigas e foliantes mocetões do Alemtejo, que vieram com suas danças, toques e descantes concorrer todos para o luzimento e alegria das festas.
O proprio rei, franqueando ao povo a entrada na sala de madeira, appareceu-lhe invencionado no phantastico cavalleiro do cysne, o poetico aventureiro das margens do Rheno; e por outro cavalleiro mandou ler, e depois entregar á princeza, sua nora, um bréve, em que propunha a tenção de a querer servir nas festas do seu casamento, e sobre certas conclusões de amores, que defendia, desafiava em honra d'ella, para justar com seus oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.
Singular caracter o d'este monarcha!
Á carinhosa rainha D. Leonor não eram, nem podiam ser indifferentes os preparativos para a solemnidade imponentissima do casamento de seu unico filho; comtudo não a distrahiam do pensamento, que enchia de gôzo intimo a sua alma enlevada e contemplativa—a fundação da misericordia de Lisboa.
Tão piedosa e santa idéa fôra-lhe suggerida pelo seu confessor frei Miguel de Contreiras, ornamento da ordem religiosa da SS. Trindade.
De visita ao seu mosteiro de Santarem havia[{163}] chegado a Evora o douto e humilde trino, e veiu encontrar a sua augusta penitente, lendo o Evangelho de S. Matheus, cuja doutrina era um orvalho celeste, que penetrava no coração da devota rainha, para o purificar e tornar fecundo.
—Embóra vindes, fr. Miguel!...—disse a rainha ao receber o trinitario, que com profunda reverencia lhe beijou a mão.—Sentae-vos que muito desejo ouvir-vos ácerca da vossa Misericordia...