—Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado, que sua alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...

—Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores—affirmou gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as palavras, que docemente proferia, continuou:—pois bem... mandarei dizer a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás festas... e faço-te a vontade...

Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente[{168}] Maria Thereza, que, não podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem tanto amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:

—Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum tempo a companhia de voss'alteza!...

—Pobre creança!...—interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa. Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente pela cara:

—Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando voltáres, não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de mim...[{169}]

[XI]

[PEREGRINAÇÃO]

Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi desembarcar em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e profundamente catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz dirigiu-se a Mecca, incorporando-se em uma numerosa caravana de peregrinos, e, affectando o recolhimento de um crente da religião de Mafoma, sem mostrar, todavia, como os musulmanos seus companheiros, o semblante macerado e consumido pelo ardor fanatico.

Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico; realisa-la, porém, mórmente no seculo XV, embóra se tivesse envergado o ihram do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.