Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!
O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos sangrentos, os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos, esses pacientes navios do deserto, desarvoravam, partiam á desfilada, zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo instincto de conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo das areias movediças.
Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com segurança a calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e ficasse entregue á mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a sua energia, toda a esperança de sobreviver os abandonava!
Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope, desfalleciam, caíam inanimes[{173}] n'aquelle oceano de areia, que logo lhes servia de mortalha e tumulo, até que novo temporal viesse descobrir as ossádas d'essas victimas numerosissimas do implacavel e deshumano simoun!
De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle proprio fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.
Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a distancia, que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé de um dos montes, que cercavam a mãe das cidades, a Om-el-Kora dos arabes.
A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada pelo propheta a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca, para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.
Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se extendia á roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado Beled-el-Haram.
N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que corre de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus cachos de tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas, como sendo o caracteristico predominante das paizagens orientaes, os homens da caravana fizeram uma ablução geral, chamada ghort, substituiram os seus trajos de viagem pelo ihram,[{174}] o calçado pelas chinelas—besmak—, e perfumaram-se. As musulmanas tambem purificadas, cobriram-se com o seu grande véo, branco como o ihram, e denominado yaschmak.
Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de hadji, depois d'ella era tratado pelo de mohrim; e as suas vestes ficavam santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta, cuidadosamente guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.