A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo caminho—os homens em voz alta e as mulheres em voz baixa—muitas orações, terminando pelo Tebiya ou Lebbeika.

Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita, continuando as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e depois de deixarem atraz de si uma espessa floresta de columnas, que sustentavam arcadas numerosas, pronunciaram o tekbir e o tehlil, que consistem em dizer: Allah Akbar—Deus é grande; Lá lla illá lla—não ha outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos pregoeiros—almuadens ou muezzinos, voltado para a kaaba: observai, observai a casa de Deus, a prohibida! E logo irromperam descalços, foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, approximaram-se da pedra-negraHadjar elaswad, para fazer o touaf, isto é, para dar sete giros em volta da kaaba, offerecendo sempre o lado esquerdo a este santuario,[{175}] que se elevava no meio do atrio, e, conforme a crença arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.

A mesquita—mesgid, guma'a, lugar de reunião, e tambem Beïttallah, casa de Deus, reduzia-se a um claustro—sakhn-el-gama, ou pateo aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de porticos levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de granito outras de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas, destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta inteira.

As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam, eram cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se elevavam sete minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do edificio, e tres de um modo irregular no comprimento das galerias formadas pelas arcadas.

A fórma e architectura da notabilissima kaaba não desmentiam, com effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada para o Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a cima do sólo. Este templo apenas estava patente ao publico na sexta-feira de cada semana, dia guardado pelo muslim, ou de reunião—iom el guma'a, e tambem[{176}] quando se celebrava o anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos anciãos, ou xaibins, pertencia abrir a porta. Para isto subia a uma especie de pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que terminavam os seus pés de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, chamada Albarcá, especie de véo de purpura, que se extendia sobre a porta, e esta era, como a soleira, forrada de laminas de prata.

O povo, ao invadir a kaaba, rompia, de braços abertos e mãos erguidas ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»

O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo por ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um tom negro bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a illuminação. O exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta, chamado Kesoua, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante os primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma de grinalda por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da altura de todo o véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga fita igualmente preta, nas quaes[{177}] se liam inscripções piedosas e textos do Corão.

Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das azas dos anjos, que voavam em torno da kaaba, e que levarão um dia o sagrado véo deante do throno de Allah.

A pedra-negra era o unico ponto da kaaba, permanentemente offerecido á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para nórdéste, achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em chapas de prata.

Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as tribus arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos anjos, e collocada junto de Abraham, para servir-lhe de escabello, quando o velho páe dos crentes estava construindo a kaaba. A Pero da Covilhan, porém, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular de um vermelho carregado, que podia passar por negro.