Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no momento, em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais brilhante e de mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos de tantos homens maculados[{178}] de iniquidades de toda a especie a tinham assim metamorphoseado.
No páteo da mesquita, e pérto da kaaba, elevava-se outra construcção quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que o santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia a tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e denominado pôço de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta com suave murmurio. A sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida de marmore branco, e de todos os lados recebia ar e luz por oito janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte, d'onde se tirava a agua santa para a purificação.
Junto da pedra-negra começavam e terminavam os giros, durante os quaes os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a pedra, se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois no caso contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios. Seguia-se beijar o nobre Alcamamo ou maquam d'Ibrahim, o qual consistia em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e, por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.
Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina d'este nome, voltavam-se para a kaaba e recomeçavam as suas orações. Desciam[{179}] depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre aquella collina e a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada saï, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados para a kaaba: «Ó meu Deus, sê misericordioso; perdôa os meus peccados, ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes direcções, para recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.
Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a festa, com que terminava a peregrinação.
Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença de Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as orações quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e chamava-se Sabah Namazy; a segunda, Oilah Namazy, ao meio-dia; a terceira, Akindy Namazy, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta, Acham Namazy, ao sol posto; e a quinta Yatzu Namazy, ao serrar da noite.
Precedia sempre as orações uma ablução parcial—woudou', que consistia em lavar a cara, as mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o artelho. Antes de começar a reza, o crente extendia no chão o seu tapete quadrado, collocava-se de pé sobre elle, voltava-se para a kaaba, estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a quebla estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de perdão—istigfar, elevava depois[{180}] as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e quasi em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar chamada tekbir. Passava ao fatihah, e pronunciava ao menos tres versiculos, ou ayat, d'esta oração, que é a primeira sura do Corão, collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda, e cravando os olhos no chão. Declamava o tesbihk, inclinando o corpo e a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a posição do fatihah, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma prosternação—soudjoud, durante a qual repetia o tekbir e tres vezes o tesbihk, tendo a face voltada para a terra, os dedos das mãos e pés muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava um momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos, e repetia o tekbir. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a oração, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.
A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um rick'ah.
Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em frente do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um combate contra o espirito das trevas.
No mez de schewal, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro dos mezes da peregrinação,[{181}] accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se igualmente o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova. Na manhã seguinte celebrava-se a oração da paschoa, pois que no mez anterior, o ramadhan, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr do sol até o romper d'alva.