Chegado o primeiro dia do mez de doulkaadah, que era o undecimo, tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até ao dia da subida a Arafat. No setimo dia o iman pronunciava do alto do mimbar na mesquita a khotbat-el-hadjï, isto é, uma allocução, em que explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao valle de Miná. Este dia chamava-se de reflexão—Ianm terwia, alludindo á incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de immolar seu filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se uma suggestão diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia immediato, depois da oração matutina, a caravana subia á montanha de Arafat, onde existia uma capella—turben, a qual santificava o sitio, em que pelo anjo Gabriel fôra ensinada ao páe commum dos homens a primeira invocação. Conforme[{182}] o ritual, os crentes, depois de uma oração feita na propria kubba, armada no acampamento, iam esperar o pôr do sol, e entretanto o iman erguia os braços ao Céo, para invocar a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de vózes unisonas; Lebeïk Allahouma Lebeïk! Nós estamos ás tuas ordens, ó Deus!
Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer a Djebel Farkh, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma catarata de espuma!
No segundo dia punha-se em marcha, atravessava Elmeschar-el-haram—o lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em confusão enorme, o apertado valle Onadi-monhassar—o valle maldito, e chegava de novo a Miná. Atiravam todos para traz das costas, junto do Djamrat-el-Agabé, sete pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo demonio, e gritando antes do arremesso: Bismillah!—Em nome de Deus!
Os sete seixinhos, que tomavam o nome de Hassiato-Aljemar, eram expressamente apanhados em Monzdelifat.
Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a victima, que trouxesse.
A caravana regressava a Mecca para visitar a kaaba, fazia nova romaria a Miná, e tratava logo de sair da cidade santa, antes de commetter algum peccado; mas não partia, sem voltar pela[{183}] terceira e ultima vez á kaaba, a fim de celebrar os Thonaf-wida—procissões da despedida; ao pôço de Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma, como piedosa recordação; e retirava-se finalmente pela porta do adeus—Bab-el-wida.
Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado de um uâdi, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes inundações, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.
As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro, lembravam sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam confiados, por singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli procurar os sectarios do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral as das outras cidades arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e traçadas com certa regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de granito vulgar dos montes suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto monotono.
Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos tanques, cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á bella sultana Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso califa Harun-al-Raschid.
Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que[{184}] em seus bazares accumulavam-se as producções de todos os paizes sujeitos á lei do propheta, e faziam-se negocios importantes.