No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes e carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos, que, mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas foluzes, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em duas alcôfas de differente tamanho, chamadas Magtalá, as compras feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.
O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem fermento, e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal cosidos e molles, como pasta, a que chamavam hops.
De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.
Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós aromaticos, mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa d'esse facto, e soube, que por costume andavam os meccanos sempre perfumados; mas nos mezes da peregrinação chegavam a fazer tão extraordinario uso dos perfumes, que muitas mulheres se privavam até de parte do seu alimento para compra-los, e, quando ellas vistosamente ornadas íam girar ao redor da kaaba, o aroma expirado por seus vestidos[{185}] predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio fragrantissimo.
Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam. A muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por isso os tingiam, velhas e moças, com o kohl, que do mesmo modo empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só ennegreciam, mas ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma tintura, applicada ás palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o kohl um verdadeiro collyrio, e um remedio soberano contra as ophtalmias tão frequentes n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e nas mãos com um certo pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha despolida de ferro ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada, servindo-se para isso de uma erva denominada elhene.
As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as classes um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como que uma pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.
Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa, do Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas uma grande similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica e capa—o que[{186}] sómente bastaria, á falta de outras provas, para demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.
As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos, são o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos alternativos do seu gosto.
O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas, compunha-se geralmente de uma larga tunica—farmla, atada na cintura com o samla ou foutah, e um véo—tarbah, que cobria a cabeça e quasi todo o semblante.
Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem de espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não sacrificava o pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo, por exemplo, as quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente e nos hombros desempenados, as deusas da Grecia antiga.