Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras sómente um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por isso pareciam verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia formosas musulmanas, que, muito embóra usassem a capa até aos pés, deixavam ás vezes cair artificiosamente o véo, regalando os olhos de quem as via.[{187}]

Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam sequér desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.

Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da mesquita, gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a oração deve ser preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu tapete, sobre o qual ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os olhos, fitava os da sua alma na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua fé catholica. Mas não havia preceito do Corão, que elle ignorasse e não cumprisse publicamente.

Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam as cinzas de Mahomet. Os mercadores—gellabys, carregaram de provisões os seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o kyrba, ou gancho indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de sobejo e não lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas essas necessidades occorriam as esmólas dos ricos. Sobre o dorso de muitos animaes viam-se grandes caldeirões de cobre, chamados arraçuato, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes[{188}] eram illuminados por lanternas immensas, que serviam igualmente para as marchas, durante a noite. Em varios meharas enfeitados com collares de sêda, e o henné ou apparelho coberto com magnificos brocados, sobresaíam os attatouch, ou palanquins, para commodamente se recostarem as mulheres opulentas.

O alfange, o punhal—khamtscher, a faca,—bitschak, a lança, a alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.

A cidade do propheta Medinet-el-Nebi, distava de Mecca onze dias de jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E a toda essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado, houdoud-el-haram.

Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada a sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o monumento funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se á grandiosa mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e constantemente illuminada por trezentas lampadas.

O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas tambem os de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se El-Hdjra. Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até dois terços da altura[{189}] por uma grade de ferro com intervallos estreitissimos.

O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro, sob um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de laminas de prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e ouro, elevava-se sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a uma balaustrada de prata, em cima da qual ardiam continuamente perfumes em vasos do mesmo metal. Uma lua de prata, em quarto crescente, artisticamente lavrada e cravejada de pedras preciosas, encimava emfim o sepulchro do fundador do islamismo.

Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da face do enviado.