Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os islamitas tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na mesquita junto do tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o pulpito. No primeiro dia, em que subiu a este, inclinou-se o tronco para o novo lugar occupado pelo propheta, e com tal affecto, que podia comparar-se ao amor da camêla para o seu filhinho. Então Mahomet abraçou o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, suspiraria inconsolavel até ao dia de juizo!»

O pulpito era feito de tamargueira.[{190}]

Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao sudoeste d'ella, no mar Vermelho.

Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha do propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da cratéra de Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos musulmanos, ser transportada um dia para o paraizo, como theatro, que foi, da victoria alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e a oeste elevavam-se tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra, onde o propheta esteve préstes a morrer de sêde, e que será precipitado no inferno, conforme a crença. Ao sul prolongava-se a planicie a perder de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de póços, cujas aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em longe a monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as argilas alternavam com as areias e a greda.

Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde, embarcando em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que percorreu, e, voltando a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.

Chegou emfim ás portas da Abyssinia.[{191}]

[XII]

[NA ABYSSINIA]

Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da Abyssinia.

Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o islamismo.[{192}]