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Rita Farinha (Nov. 2007)
GUERRA JUNQUEIRO
A VELHICE DO PADRE ETERNO
EDITORA
LIVRARIA MINERVA
LISBOA
GUERRA JUNQUEIRO
A VELHICE DO PADRE ETERNO
EDITORA
LIVRARIA MINERVA
LISBOA
Á MEMORIA
DE
Guilherme D'Azevedo
A
Eza de Queiroz
INDICE
| pag. | |
| Aos simples | [9] |
| A vinha do Senhor | [17] |
| A Caridade e a Justiça | [25] |
| O Papão | [30] |
| Parasitas | [31] |
| Resposta ao Sillabus | [33] |
| O Baptismo | [37] |
| Eurico | [38] |
| A Arvore do Mal | [39] |
| A Semana Santa | [43] |
| A Barca de S. Pedro | [61] |
| Ladainha | [63] |
| Como se faz um monstro | [65] |
| Calembour | [70] |
| A agua de Lourdes | [71] |
| Antonelli | [73] |
| O Dinheiro de S. Pedro | [75] |
| Ao nuncio Masella | [77] |
| Ladainha moderna | [85] |
| O Melro | [89] |
| Circular | [103] |
| A benção da locomotiva | [109] |
| A Hidra | [111] |
| A Valla commum | [113] |
| A Sésta do senhor abade | [127] |
| O Genesis | [142] |
| Fantasmas | [145] |
| Post-Scriptum | [149] |
AOS SIMPLES
Ó almas que viveis puras, immaculadas
Na torre do luar da graça e da illusão,
Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas,
As rosas para nós ha tanto desfolhadas
Na aridez sepulchral do nosso coração;
Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,
Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor,
Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha,
E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;
Almas, onde resplende, almas, onde se espelha
A candura innocente e a bondade christã,
Como n'um céo d'Abril o arco da alliança,
Como n'um lago azul a estrella da manhã;
Almas, urnas de fé, de caridade, e esp'rança,
Vasos d'oiro contendo aberto um lirio santo,
Um lirio immorredoiro, um lirio alabastrino,
Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto,
E a piedade florir com seu clarão divino;
Almas que atravessaes o lodo da existencia,
Este lodo perverso, iniquo, envenenado,
Levando sobre a fronte o esplendor da innocencia,
Calcando sob os pés o dragão do peccado;
Bemdictas sejaes, vós, almas que est'alma adora,
Almas cheias de paz, humildade e alegria,
Para quem a consciencia é o sol de toda a hora,
Para quem a virtude é o pão de cada dia!
Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo,
Ficando sempre branca a sorrir e a cantar;
E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro.
—Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro—
É vosso: fostes vós o meu primeiro altar.
Lá da minha distante e encantadora infancia,
D'esse ninho d'amor e saudade sem fim,
Chega-me ainda a vossa angelica fragrancia
Como uma harpa éolia a cantar a distancia,
Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim!
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Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa,
Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Cahia mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
Dormia quieto e manso o impavido lebréu.
Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras,
Como a alma d'um justo, ia em triumpho ao céo!...
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,
Eu balbuciava a minha infantil oração,
Pedindo a Deus que está no azul do firmamento
Que mandasse um allivio a cada soffrimento,
Que mandasse uma estrella a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
Pelos mortos no horror da terra negra e fria,
Por todas as paixões e por todas as magoas...
Pelos míseros que entre os uivos das procellas
Vão em noite sem lua e n'um barco sem vellas
Errantes atravez do turbilhão das aguas.
O meu coração puro, immaculado e santo
Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae,
Para toda a nudez um panno do seu manto,
Para toda a miseria o orvalho do seu pranto
E para todo o crime o seu perdão de Pae!...
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.............................................................
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A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
Mas da sua piedade o fulgor diamantino
Ficou sempre abençoando a minha vida inteira
Como junto d'um leão um sorriso divino,
Como sobre uma forca um ramo d'oliveira!
A VINHA DO SENHOR
I
Existiu n'outro tempo uma vinha piedosa
Doirada pelo sol da alma de Jesus,
Uma vinha que dava uns fructos côr de roza,
Vermelhos como o sangue e puros como a luz.
Inundavam-n'a d'agua os olhos de Maria,
E os virgens corações dos martyres, dos crentes
Eram a terra funda aonde se embebia
A mystica raiz dos pampanos virentes.
Produzia um licor balsamico, divino,
Que aos cégos dava luz, aos tristes dava esp'rança,
E que fazia ver na areia do destino
A miragem feliz da bemaventurança.
Aos mortos restituia o movimento e a falla;
Escravisava a carne, as tentações, a dôr,
E transformou em santa a impura de Magdala,
Como transforma Abril um verme n'uma flôr.
Bebel-o era beber uma virtuosa essencia
Que ungia o coração de perfumes ideaes,
Pondo no labio um riso ingenuo de innocencia,
Como o d'agua a correr, virgem, dos mananciaes.
Dava um tal explendor ás almas, tal pureza
Que nos Circos de Roma até se viu baixar
Diante da nudez das virgens sem defeza
Ao magro leão da Nubia o curuscante olhar.
II
Mas passado algum tempo a humanidade inteira
De tal modo gostou d'esse licor sublime,
Que o extasis christão tornou-se em bebedeira,
E o sonho em pezadello, e o pezadello em crime.
Nas solidões do claustro as virgens inflamadas
Co'as fortes atracções da mistica ambrozia
Torciam-se febris, convulsas, desvairadas,
Meretrizes de Deus n'uma piedosa orgia.
É que no vinho antigo ia á noite o demonio
Lançar co'a garra adunca uma infernal mistura
De mandragora e opio e helleboro e stramonio,
Verdenegro e viscoso extracto de loucura.
Quando uivava de noite o vento nas campinas
Via-se pela sombra, obliquo, Satanaz,
Colhendo aos pés da forca ou buscando entre as ruinas
Hervas, vegetações, prenhes de essencias más.
Era o filtro subtil d'essas plantas de morte
Que fazia da alma um derviche incoherente,
Uma bussola doida á procura do norte
Uma céga a tatear no vacuo, anciosamente!...
E a taça do veneno estonteador e amargo
No funebre banquete ia de mão em mão,
Produzindo o delirio, a syncope, o lethargo
E em cada olhar sinistro uma cruel visão.
Uns viam a espectral sarabanda frenetica
De esqueletos a rir e a dançar com furor
Em torno á Morte podre, impudente, epileptica,
Com dois ossos em cruz rufando n'um tambor.
Outros viam chegado o pavoroso instante
Em que um monstro do fogo, um dragão areolito,
Dava na terra um nó c'oa cauda flammejante,
Arrebatando-a, a arder, atravez do infinito.
E então para fugir ao desespero e ao panico
Bebiam com mais ancia o filtro singular.
Até á epilepsia, ao turbilhão tetanico
Do sabat desgrenhado e erotico, a espumar!
E á força de beber o tragico veneno
Tombou por terra exhausta a humanidade emfim,
Como em Londres, de noite, ao pé d'um antro obsceno
Cáe sob a lama inerte um bebado de gim.
III
Mas n'isto despontou a esplendida manhã
D'um mundo juvenil, robusto, afrodisiaco:
A Renascença foi para a embriaguez christã
A excitação vital d'um frasco de amoniaco.
E na vinha de Deus ainda florescente
Começou a nascer por essa occasião
Um bicho que enterrava escandalosamente
Nos pampanos da crença as unhas da razão.
Propagou-se o flagello; o mal recrudesceu;
A colheita ficou em duas terças partes;
Chega o oidium Lutero, o verme Galileu,
E cai-lhe o temporal de Newton e Descartes.
Em balde Carlos nove, Ignacio e Torquemada,
Catando esses pulgões das bíblicas videiras,
Os entregam á roda, ao cadafalso, á espada,
Ou os queimam por junto aos centos nas fogueiras.
O estrago cada vez era maior, mais forte;
Apezar da realeza, o throno e a sachristia
Andarem sacudindo o enxofrador da morte
No formigueiro vil das pragas da heresia.
Por ultimo Voltaire—filoxera invade
Essa encosta plantada outr'ora por Jesus,
E das cepas ideaes da escura meia idade
Ficaram simplesmente uns velhos troncos nús.
IV
Mas como havia ainda alguns consumidores
D'esse vinho que o sol deixou de fecundar,
Uns velhos cardeaes, habeis exploradores,
Reuniram-se em concilio afim de os imitar.
E é assim que Antonelli, o verdadeiro papa,
O chimico da fé, um grande industrial,
Fabrica para o mundo ingenuo uma zurrapa
Que elle assevera que é o antigo vinho ideal.
Para isso combina os varios elementos
Que compõem esta droga: o nome de Maria,
Anjos e cherubins, infernos e tormentos,
Bastante estupidez e immensa hypocrizia.
Põe isto tudo a ferver, liga, combina, mexe,
E, filtrando atravez d'uns textos de latim,
Eis preparado o vinho, ou antes o campeche,
Que a saúde da alma hade arruinar por fim.
Mas como o paladar de muitos europeus
Quasi prefere já (horrivel impiedade!)
Á falsificação do vinho do bom Deus
O vinho genuino e puro da verdade;
E como já por isso, (assim como era d'antes)
A Igreja não nos queime e o rei não nos enforque,
A curia procurou mercados mais distantes,
O Japão, o Perú, a Australia e Nova York.
Os comis-voiageurs de Roma—os Lazaristas
Com as carregações vão atravez do oceano,
Por toda a parte abrindo os armazens papistas,
A fim de dar consumo ao vinho ultramontano.
Em cada igreja existe uma taberna franca
Para impingir a tal mixordia, o tal horror,
Ou secca ou doce, ou velha ou nova, ou tinta ou branca,
Segundo as condições e a fé do bebedor.
Para Hespanha vão muito uns vinhos infernaes,
Um veneno explosivo e forte que produz
Um delirio tremente—o General Narvaes,
E um vomito de sangue—o cura Santa Cruz.
Portugal quer vinagre. A Italia quer falerno.
Veuillot quer agua-raz que ponha a lingua em braza.
E John Bull, por exemplo, um pouco mais moderno,
Manda ao diabo a botica, e faz a droga em casa.
Ao povo, esse animal, que o Padre Eterno monta,
Como é pobre, coitado, então a Santa Sé
Fabrica lhe uma borra incrivel, muito em conta,
Um pouco de melaço e um pouco d'agua-pé.
A fina flôr christã, a flôr altiva e nobre,
O rico sangue azul do bairro S. Germano,
Para quem o bom Deus é um gentil-homem pobre
A quem se dá de esmola alguns milhões por anno.
Essa como detesta os vinhos maus, baratos,
Como é de raça illustre e debil compleição,
Mandam-lhe um elixir que serve para os flatos,
Ou para pôr no lenço ao ir á communhão.
De resto ha quem, bebendo essa tisana impura,
Sinta a impressão que outr'ora o nectar produzia.
São milagres da fé. Ditosa a creatura
Que no ruibarbo encontra o sabor da ambrosia.
E eu não vos vou magoar, ó almas côr de rosa
Que inda achaes neste vinho o esquecimento e a paz!
Não insulto quem bebe a droga venenosa;
Accuso simplesmente o charlatão que a faz.
A CARIDADE E A JUSTIÇA
No topo do calvario erguia-se uma cruz,
E pregado sobre ella o corpo do Jesus,
Noite sinistra e má. Nuvens esverdeadas
Corriam pelo ar como grandes manadas
De bufalos. A lua ensanguentada e fria,
Triste como um soluço immenso de Maria,
Lançava sobre a paz das coizas naturaes
A merencoria luz feita de brancos ais.
As arvores que outr'ora em dias de calor
Abrigaram Jesus, cheias de magua e dôr,
Sonhavam, na mudez herculea dos heroes.
Deixaram de cantar todos os rouxinoes,
Um silencio pesado amortalhava o mundo.
Unicamente ao longe o velho mar profundo
Descantava chorando os psalmos da agonia.
Jesus, quasi a expirar, cheio de dôr, sorria.
Os abutres crueis pairavam lentamente
A farejar-lhe o corpo; ás vezes de repente
Uma nuvem toldava a face do luar,
E um clarão de gangrena, estranho, singular,
Lançava sob a cruz uns tons esverdeados.
Crucitavam ao longe os corvos esfaimados;
Mas passado um instante a lua branca e pura
Irrompia outra vez da grande nevoa escura,
E inundavam-se então as chagas de Jesus
Nas pulverisações balsamicas da luz.
No momento em que havia a grande escuridão,
Christo sentiu alguem aproximar-se, e então
Olhou e viu surgir no horror das trevas mudas
O cobarde perfil sacrilego de Judas.
O traidor, contemplando o olhar do Nazareno,
Tão cheio de desdem, tão nobre, tão sereno,
Convulso de terror fugiu... Mas nesse instante
Surgiu-lhe frente a frente um vulto de gigante,
Que bradou:
—É chegado emfim o teu castigo
O traidor teve medo e balbuciou:
—Amigo,
Que pretendes de mim? dize, por quem esperas?
Quem és tu?—
—«O Remorso, um caçador de féras,
Disse o gigante. Eu ando ha mais de seis mil annos
A caçar pelo mundo as almas dos tiranos,
Do traidor, [do ladrão], do vil, do scelerado;
E depois de as prender tenho-as encarcerado
Na enormissima jaula atroz da expiação.
E quando eu entro ali na immensa confusão
De tigres, de leões, d'abutres, de chacaes,
De rugidos febris e de gritos bestiaes,
Fica tudo a tremer, quieto de horror e espanto.
Caim baixa a pupilla e vai deitar-se a um canto.
E quando em summa algum dos monstros quer luctar
Azorrago-o co'a luz febril do meu olhar,
Dando-lhe um pontapé, como n'um cão mendigo.
Já sabes quem eu sou, Judas; anda comigo!»
Como um preso que quer comprar um carcereiro,
Judas tirou do manto a bolça do dinheiro,
Dizendo-lhe:
—Aqui tens, e deixa-me partir...
O gigante fitou-o e começou a rir.
Houve um grande silencio. O infame Iskariote,
Como um negro que vê a ponta d'um chicote,
Tremia. Finalmente o vulto respondeu:
«Judas, podes guardar esse dinheiro; é teu.
O oiro da traição pertence-lhe ao traidor,
Como o riso á innocencia e como o aroma á flôr.
Esse oiro é para ti o eterno pesadello.
Oh! guarda-o, guarda-o bem, que eu quero derretel-o,
E lançar-t'o depois caustico, vivo, ardente,
Lançar-t'o gota a gota, inexoravelmente
Em cima da consciencia, a pudrida, a execravel!
Com elle hei de fundir a algema inquebrantavel,
A grilheta que a tua esqualida memoria
Trará, arrastará pelas galés da Historia,
Durante a eternidade illimitada e calma.
Essa bolsa que ahi tens é o cancro da tua alma:
Já se agarrou a ti, ligou-se ao criminoso,
Como a lepra nojenta ao peito do leproso,
Como o iman ao ferro e o verme á podridão.
Não poderás jámais largal-a da tua mão!
És traidor, assassino, hypocrita, perjuro;
A tua alma lançada em cima d'um monturo
Faria nodoa. És tudo o que ha de mais vil,
Desde o ventre do sapo á baba do reptil.
Sahe da existencia! dize á sombra que te acoite.
Monstro, procura a paz! verme, procura a noite!
Que o sol não veja mais um unico momento
O teu olhar obliquo e o teu perfil nojento.
Esse crime, bandido, é um crime que profana,
Todas as grandes leis da vida universal.
Esconde-te na morte, assim como um chacal
No seu covil. Adeus, causas-me nojo e asco.
Deixo dentro de ti, Judas, o teu carrasco!
És livre; adeus. Já brilha o astro matutino,
E eu, caçador feroz, cumprindo o meu destino,
Continuarei caçando os javalis nos matos.»
E dito isto partiu a procurar Pilatos.
Vinha rompendo ao longe a fresca madrugada.
Judas, ficando só, meteu-se pela estrada,
Caminhando ligeiro, impavido, terrivel,
Como um homem que leva um fim imprescriptivel
Uma ideia qualquer, heroica e sobranceira;
De repente estacou. Havia uma figueira
Projectando na estrada a larga sombra escura;
Judas, desenrolando a corda da cintura,
Subiu acima, atou-a a um ramo vigoroso,
Dando um laço á garganta. O seu olhar odioso
Tinha n'esse momento um brilho diamantino,
Recto como um juiz, forte como um destino.
N'isto echoou atravez do negro céo profundo
A voz celestial de Jesus moribundo,
Que lhe disse:
—«Traidor, concedo-te o perdão.
Além de meu carrasco és inda o meu irmão.
Pregaste-me na cruz; é o mesmo, fica em paz.
Eu costumo esquecer o mal que alguem me faz.
Eu tenho até prazer, bem vês, no sacrificio.
Não te cause remorso o meu atroz suplicio,
Estes golpes crueis, estas horriveis dores.
As chagas para mim são outras tantas flôres!»
Judas fitou ao longe os cerros do calvario,
E erguendo-se viril, soberbo, extraordinario,
Exclamou:
—«Não acceito a tua compaixão.
A Justiça dos bons consiste no perdão.
Un justo não perdôa. A justiça é implacavel.
A minha acção é infame, hedionda, miseravel;
Preguei-te nessa cruz, vendi-te aos Farizeus.
Pois bem, sendo eu um monstro e sendo tu um Deus,
Vais vêr como esse monstro, ó pobre Christo nu,
É maior do que Deus, mais justo do que tu:
Á tua caridade humanitaria e doce,
Eu prefiro o dever terrivel!»
E enforcou-se.
O PAPÃO
As creanças têm medo á noite, ás horas mortas
Do papão que as espera, hediondo, atraz das portas,
Para as levar no bolso ou no capuz d'um frade.
Não te rias da infancia, ó velha humanidade,
Que tu tambem tens medo ao barbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençôa os punhaes sangrentos dos tyranos,
Um papão que não faz a barba ha seis mil annos,
E que mora, segundo os bonzos têm escripto,
Lá em cima, de traz da porta do Infinito.
PARASITAS
No meio d'uma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar em cima d'um jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.
Os magros histriões, hypocritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem intendimento.
E toda a gente deu esmola aos taes ciganos;
Deram esmola até mendigos quasi nùs.
E eu, ao ver este quadro, apostolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funambulos da Cruz.
Que andaes pelo universo ha mil e tantos annos
Exhibindo, explorando o corpo de Jesus.
RESPOSTA AO SILLABUS
Fanaticos, ouvi as coisas que eu vos digo:
Dentro d'essa prisão cruel do dogma antigo
A consciencia não póde estar paralisada,
Como n'um velho catre uma velha entrevada.
Tudo se modifica e tudo se renova:
Da escura podridão nojenta de uma cova
Sae uma flôr vermelha a rir alegremente.
A ideia tambem muda a pel' como a serpente.
O que era hontem grão é hoje a seara immensa.
A Verdade sahiu d'esse casulo—a Crença,
Assim como sahiu do velho o mundo novo.
Recolher outra vez a aguia no seu ovo
É impossivel; quebrou o involucro ao nascer.
Como é que pòdes tu ó Egreja, pretender,
Cerrando na tua mão um box enorme—o inferno,
Levar aos encontrões o espirito moderno,
Leval-o para traz, para o passado escuro,
Como um bandido leva um homem contra um muro?!
[A trajectoria] immensa e fulva da verdade
Não se póde suster com a facilidade
Com que Jusué susteve o sol no firmamento.
Atirar a justiça, a ideia, o pensamento
Ás fogueiras da fé, ó bonzos, é impossivel:
Reduzirdes a cinza o que? O incombustivel!
Loucos! ide dizer ao velho Torquemada
Que queime se é capaz n'um forno uma alvorada!
....................................................... Sacristas,
Ajuntae, reuni os balandraus papistas,
As fardas sepulcraes do exercito da fé,
A capa de Tartufo, a loba de Claret,
A cogula do monge, enfim, tudo que seja
Côr da [noite]; arrancae o velho crepe á egreja,
Dos caixões descosei os panos funerarios,
Tisnae co'a vossa lingua as alvas e os sudarios,
E se inda precisaes mais sombras, mais farrapos,
Pedi ao corvo a aza, o ventre immundo aos sapos,
Fabricae d'isto tudo uma cortina immensa,
E tapando com ella o sol da nossa crença,
Nem mesmo assim fareis o eclipse da aurora!
A consciencia não é a besta d'uma nora.
Lembrai-vos que o Progresso é um carro sem travão,
E que apagar em nós o facho da razão
É o mesmo que apagar o sol quando flameja
Com um apagador de lata d'uma egreja.
Bonzos, podeis dizer á humanidade—Pára!—
Co'a foice excomunhão podeis ceifar a ceara
Da heresia; podeis, segundo as ordenanças,
Metter pedras de sal na boca das creanças,
Fazer do Deus do amor o Deus barbaridade,
Chamar á estupidez irmã da caridade
E jesuita a Jesus e Christo a Carlos sete;
Vós podeis discutir junto da campa o frete,
Recoveiros de Deus, o frete que é preciso
Para irdes levar lá cima ao paraiso
A alma d'um defunto; ó bonzos, vós podeis
Ir pedir emprestado um exercito aos reis
E defender com elle o papa, o vaticano,
Do cerco que lhe faz o pensamento humano,
Pondo adiante d'um dogma a boca d'um canhão;
Podeis encarcerar dentro da inquisição
Galileu; vós podeis, anões, contra os ciclopes
Roncar latim, zurrar sermões, brandir hyssopes,
Que não conseguireis que a Liberdade vista
A batina pingada e rota d'um sacrista,
Que o direito se ordene, e que a Justiça queira
Ir a Roma tomar, contricta, o véo de freira!
O BAPTISMO
Exeat de vobis spiritus malignas.
ritual.
Baptisaes: arrancaes d'um anjo um satanaz.
Desinfectaes Ariel banhando-o em aguarraz
De egreja e no latim que um malandro expectora,
Dizeis á noite:—limpa a tunica da aurora,
E ao rouxinol dizeis:—pede a benção da c'ruja.
Daes os lirios em flôr ao rol da roupa suja,
Representaes a farça estupida e sombria
D'um conego a lavar um astro n'uma pia,
Finalmente extrahis da innocencia o pecado,
Que é o mesmo que extrahir d'uma rosa um cevado,
E tudo isto porque?
Porque na biblia um mono
Devora uma maçã sem licença do dono!
EURICO
Cod. civil art. 1057 e 4031
Eurico, Eurico, ó pallida figura,
Lastimoso, romantico levita,
Que nos serros do Calpe em noite escura
Ergues as mãos á abobada infinita;
Rasga a pagina santa da Escriptura;
O espirito de luz que em nós habita
Já não consente essa ideal loucura
Que faz do amor uma paixão maldita.
Deixa a soidão dos montes escalvados;
Não soltes mais os threnos inflamados,
Nem tenhas medo ás garras do demonio.
Beija a Hermengarda, a timida donzella.
E vai de braço dado tu e ella
Contrahir civilmente o matrimonio.
A ARVORE DO MAL
Por debaixo do azul sereno, entre a fragancia
Dos mirtos, dos rosaes,
Viviam n'uma doce e n'uma eterna infancia
Nossos primeiros paes.
Seus corpos juvenis, mais alvos do que a lua,
Mais puros que os diamantes,
Conservavam ainda a virgindade nua
Das coisas ignorantes.
Poz Deus n'esse jardim com sua mão astuta
Ao lado da innocencia
A Arvore do Mal que produzia a fructa
Venenosa da sciencia.
E, apezar de conter venenos homicidas
E o germen do pecado,
Era Deus quem comia á noite, ás escondidas,
Esse fructo vedado.
Por isso Jehovah tinha sciencia infinda,
Tinha um poder secreto,
E Adão que não provara os fructos era ainda
Um anjo analfabeto.
Eva colheu um dia o bello fructo impuro,
O fructo da Rasão.
N'esse instante sublime Eva tinha o Futuro
Na palma da sua mão!
O homem, abandonado a submissão covarde,
Viu o fructo e comeu.
Esse fructo é a luz que a Jupiter mais tarde
Roubará Prometheu.
E ao vêr igual a si a estatua que creara,
O homem reprobo e nu,
Jehovah exclamou: «Maldita seja a seara
cuja semente és tu!»
Veio depois a Egreja e repetiu aos crentes
De toda a humanidade:
«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes
Nos fructos da Verdade!»
A Egreja permittia esse vedado pomo
Sòmente aos sacerdotes.
Da arvore do mal fugia o mundo, como
Os lobos dos archotes.
Se o sabio que buscava o oiro nas retortas
Ia como um ladrão
Roubar timidamente, á noite, ás horas mortas
Algum fructo do chão,
Tiravam-lhe da boca esse fructo damninho
D'uma maneira suave:
Atando-lhe á garganta uma corda de linho
Suspensa d'uma trave.
Um dia um visionario, alma vertiginosa,
Espirito immortal,
Foi deitar-se, que horror! á sombra temerosa
Da Arvore do Mal.
A Egreja ao vêr aquella intrepida heresia
Lança-lhe excomunhões;
Tomba por terra um fructo... e Newton descobria
A lei das atracções!
Sacudi, sacudi, a arvore maldita,
Que os astros tombarão,
Como se sacudisse a abobada infinita
Deus com a propria mão!
E quando o mundo inteiro emfim houver comido
Até á saciedade
O fructo que lhe estava ha tanto prohibido,
O fructo da Verdade,
Homens, dizei então a Jehovah:—«Tirano,
Vai-te embora d'aqui!
Construimos de novo o paraiso humano;
Fizemol-o sem ti.
«Expulsaste do Olimpo a humanidade outr'ora,
Ó despota feroz;
Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora
Expulsamos-te nós!
A SEMANA SANTA.
I
Não podendo dormir no horror da sepultura,
Na podridão escura
Da terra immunda e fria,
Voltaire despedaçando o feretro chumbado,
E cingindo o lençol ao corpo esverdeado
Resuscitou um dia.
Pairava-lhe no labio o riso fulminante
Com que outr'ora gravou nas crenças virginaes,
Como n'um rico espelho a aresta d'um diamante,
Tamanhas abjecções, sarcasmos tão brutaes.
Mas era ao mesmo tempo o riso heroico e bom
Que os tiranos prostrava em misero desmaio,
Riso a que succedeu o verbo de Danton,
Como a um trovão succede o lampejar d'um raio.
Dormira febrilmente um longo somno inquieto
Em quanto andava o mundo a executar-lhe os planos,
E vinha ver emfim, diabolico architeto,
O estado da sua obra ao cabo de cem annos,
Ó satiro divino, ò monstro da ironia,
Genio que Deus conduz e Satanaz impelle,
Que esmagas hoje o infame, e escreves no outro dia
Com a tinta do enxurro os versos da Pucelle;
Tu és feito de luz e feito de baixesas,
Feito de heroicidade e de protervias más;
Corromperam-te a alma os braços das duquezas
E encarguilhou-te a face o rir de Satanaz.
Rasgas ao mundo novo a estrada do futuro
Cantando ao mesmo tempo o sordido deboche:
És como um Juvenal dentro d'um Epicuro,
Ó arlequim-titan, ó semi-deus-gavroche.
N'esse labio mordente esso sorriso eterno
Faz frio como a ponta aguda d'uma espada;
O teu genio, Voltaire, é como o sol do inverno,
Dá muitissima luz, mas não aquece nada.
Em vão por sobre a paz dos campos desolados
Elle entorna do azul seus vivos esplendores;
Não cantam rouxinoes nas sebes dos vallados,
Não faz nascer o trigo e germinar as flores.
É que nunca soubeste o que é a dôr profunda
Que estalla fibra a fibra os grandes corações;
É que nunca choraste, ó Prometheu corcunda,
Como Dante chorou, como chorou Camões
Voltaire, ó rachador de velhos preconceitos,
Aos golpes de teu riso, a golpes de machado
Cairam sobre a terra athleticos, desfeitos
Na floresta da noite os cedros do passado.
Mataste a tradição, o dogma, o privilegio,
Assobiaste a rir a fé de nossos paes,
E andaste pelo azul, hediondo sacrilegio!
A correr á pedrada os deuses immortaes.
Empunhando o alvião terrivel da verdade
Tu minaste, Voltaire, infatigavelmente
O alicerce de bronze à velha sociedade.
Do teu riso cruel a onda dissolvente
Foi como os vagalhões, arietes do mar,
Que cavam sob a rocha um tão profundo abismo
Que a rocha fica quasi assente sobre o ar.
Tu minaste, Voltaire, a rocha despotismo.
E depois de ter feito a excavação noturna,
Como fazem no monte as feras sanguinarias,
Encheste até á bocca essa medonha furna
Com barris de petroleo e bombas incendiarias
E em quanto o niveo pé soberbo de Antonieta
Da França estrangulava a suplicante voz,
Tu lançavas de longe a tragica luneta,
Velho Fauno cruel, rindo com riso atroz.
Até que um dia emfim exausto de cansaço,
Sentindo jà sem força as garras de condor,
Tu chegaste, Arouet, sem te tremer o braço,
Ao rastilho da mina o fogo abrasador.
Cobriu-se então o azul d'uma tormenta escura,
Echoou lugubremente o estrondo de trovão,
Viste arder o rastilho até uma certa altura,
E foste-te esconder, a rir, na sepultura
Mal se ia aproximando a hora da explosão.
Quando resuscitou Voltaire ficou atonito
Vendo os nossos chapeus e as nossas calças pretas,
Mas como desejava andar no mundo incognito,
E não lêr o seu nome impresso nas gazetas,
Oh, a necessidade a quanto nos obriga!
Voltaire o diplomata, o cortezão taful
Largou a juba d'oiro, a cabelleira antiga
E foi vestir-se á moda aos armasens do Pool.
Na sexta feira santa os templos percorria
Voltaire para observar os crentes verdadeiros
No dia da paixão, no luctuoso dia
Em que se faz de Christo o deus dos confeiteiros.
Arouet, ao vêr aquella estupida farçada,
Foi acordar Jesus na sua campa ignorada
E disse-lhe:
II
—«Anda vêr ó Christo estes bandidos.
Que rostos tão floridos,
Que bellas digestões!
Ó pallido Jesus, ò scismador antigo,
Levanta-te da campa e vem d'ahi commigo
A vêr estes ladrões.
Nós vamos passeiar juntos, de braço dado,
Mas vestirás primeiro um frak bem talhado
De fino pano inglez,
E hasde pôr na cabeça este chapeu redondo,
Para ficar gentil, para ficar hediondo
Como qualquer burguez.
Tu odeias de certo estas casacas pretas,
Mas não quero, Jesus, que tu me compromettas
Com esse balandrau muitissimo ratão.
Se eu fosse ao boulevard comtigo e alguem me visse,
Ninguem oh, flôr do tom! ninguem, oh canalhice!
Me apertaria a mão.
O talhe d'um colete e os pontos d'uma luva,
A menor frioleira, um simples guarda chuva,
Substituiram hoje as regras de Lavater:
Passando eu por accaso enodoado e roto,
Diriam: «Que chapeu! que pulha! que maroto!
Aquelle homem não tem nem sombras de caracter!»
Anda, veste a farpella. Agora, sim senhor!
Muito grotesco és, meu pobre Redemptor!
Vais a comprometter-me, ó alma do Diabo!
Que figura infeliz, inteiramente chata!...
Pelo menos corrige o laço da gravata
E põe na boutoniere este jasmim do Cabo.
Necessitas de ter maneiras delicadas
E a arte de dizer uns pequeninos nadas
Com chic e distincção. Ser Deus é muito bom;
Mas é preciso ser um deus da fina roda,
Um deus do nosso tempo, um deus da ultima moda,
Um deus petit-crevé, um deus á Benoiton.
Se amanhã por acaso alguem, medita n'isto,
Te fosse apresentar—Sua Ex. o Christo—
Nos devotos salões do bairro São-Germano,
Oh escandalo! oh farça! oh padre omnipotente!
As duquezas, sorrindo aristocratamente,
Achavam-te decerto um Deus provinciano.
Saiamos para a rua. A gente anda de lucto,
Porque consta que outr'ora un visionario, un bruto,
Se deixara morrer pregado n'um madeiro.
E hoje em memoria d'isto os paes compram ás filhas,
Tres caixas de pastilhas
Na loja d'um doceiro.
Quanta mulher formosa ahi nesses balcões!
Que lindas tentações,
Meu palido judeu!
Deixa por um instante as regiões serenas;
Namora estas pequenas,
Que ellas hão de gostar do teu perfil hebreu.
Arranja um casamento e aprende a ter juizo.
A noiva pouco importa; o dote é que preciso
Discutil-o. Olha lá, os paes que sejam velhos!...
Que vá para o diabo o reino da Utupia!
E hãode-te nomear socio da academia
E, quem sabe! talvez barão dos Evangelhos.
Penetremos na egreja a vêr esta farçada.
Uns entram para vêr a casa illuminada,
Os dandys é por chic, os velhos por decôro;
Estes é para ouvir tocar umas quadrilhas,
E os outros, que sei eu!... para vender as filhas,
Para matar o tempo ou arranjar namoro.
Lá vai o pregador dizer a seremonata
Tussiu cuspiu, sorriu, bebeu a sua orchata
E começa a fallar. Tem uns bonitos dentes.
E com gesto facundo e voz amaneirada
Receita una enfiada
De tropos excellentes.
Acabou se. O auditorio
Gostou do farelorio
Como gostámos nós.
Soltam-se exclamações por entre algum rumor:
—Muito bem! muito bem!—É um grande pregador!—
—Foi um rico sermão!—E que bonita voz!
E é esta a tua casa, ó meu pobre Jesus!
Não te bastou a cruz;
Era preciso o altar,
Que destino cruel, que tragica ironia!
Nasces na estrebaria,
Vives no lupanar!
esfila pela rua immensa multidão.
Saiu a procissão;
Paremos um instante. É curioso isto.
Que farças imbecis, que velhas pompas mudas!
Lá vae pegando ao palio o teu amigo Judas,
Que está, como tu vês, commendador de Christo!
Os anjos theatraes caminham lentamente
Com azas de galão feitas expressamente
Nas lojas de Pariz.
Pobres anjos do céo! querem martirisal-os:
Vão cheios de suor e apertam-lhe os calos
As botas de verniz.
Agora passas tu n'um palanquim bordado.
Coidado!
Muito trabalho tem quem faz religiões!
Repara como vais, olha que bella tunica:
É pavorosa, é unica!
Off'receu-t'a um burguez n'um dia de eleições.
E atraz do velho andor e atraz das velhas opas
Vão desfilando agora os esquadrões das tropas
Com gesto marcial.
Tu que amavas os bons, os simples e as creanças,
Seguido como os reis d'um matagal de lanças,
Meu pobre general!
Terminou a funcção. É negro o firmamento.
Ai que aborrecimento!
Ó meu Jesus, que tedio!
Para poder dormir, para poder ceiar,
Que hade a gente fazer? vamos ao lupanar,
Não ha outro remedio.
Alli tens, meu amigo, os conegos vermelhos:
Que rostos joviaes, brunidos como espelhos,
Que riso debochado e gesto vinolento!
E á noite, a esta hora, uns padres sem batinas
Do certo não virão pregar ás concubinas
O 6.º mandamento!
Os teus guardas fieis depois da procissão,
Já roucos de cantar um velho cantochão,
Deixaram-te no templo abandonado e só.
Uns vieram beijar as carnes prostituídas,
E os outros foram lêr no quarto, ás escondidas,
Romances de Bollot.
E como a noite é linda! a branca lua passa,
Ostentando na fronte a pallidez devassa
D'uma infeliz mulher.
Quando tudo fermenta e tudo anda de rastros
Já não deve admirar que a siphilis chegue aos astros
E precisem tambem xarope de Gibert!
Meu Pae, vamos ceiar. É quasi madrugada;
É a hora do tom, a hora consagrada
Para os ricos festins á viva luz do gaz.
É a hora da morte, a hora do atahude,
E a mesma em que repoisa a candida virtude
Nos braços de Faublas.
Anda não tenhas medo, entra no restaurante.
A sala está repleta. A purpura brilhante
Dos desejos inflama os sonhos tentadores.
O champanhe sacode os craneos embriagados,
E os crimes sensuaes e os vicios delicados
Rompem n'um turbilhão de venenosas flôres.
O punch, illuminando as faces cadavericas,
Faz-nos imaginar as saturnaes chimericas
Que á noite deve haver na morgue de Paris,
Aonde as cortezãs, mais roxas que as violetas,
Ao luar cantarão as verdes cançonetas
Das podridões gentis.
Volteiam pelo ar os ditos picarescos,
Elasticos, febris, doidos, funambulescos,
Como gnomos de luz vestidos de histriões,
Dançando, tilintando os guisos argentinos,
Fazendo á luz do gaz tregeitos libertinos
Com o riso cruel das hallucinações.
Ceiemos. Manda vir as coisas que preferes;
E que nos vão buscar duas ou tres mulheres,
Que as ha perto d'aqui;
O mais, pede por boca, o meu divino mestre;
Mas escuta, olha lá, não peças mel silvestre,
Porque já se não usa e riem se de ti.
E agora é destampar a rubra fantasia!
Bebe, pragueja, ri, inventa, calumnia,
Anda! mostra que tens espirito, ladrão!
Não quero vêr chorar os olhos teus contrictos;
Sê canalha com graça, infame com bons ditos,
Vamos, semsaborão!
Conta-nos em voz alta historias bem galantes,
Segredos irritantes,
Vergonhas sensuaes,
Adulterios da moda, escandalos, miserias,
Tudo isto, já se vê, com optimas pilherias,
Bastante originaes.
Tu precisas perder esse teu ar de adventicio
E um certo horror ao vicio,
D'um pedantismo ignaro;
Formosura sem vicio é coisa que não tenta;
O vicio, meu amigo, é bom como a pimenta,
E o defeito que tem é ser um pouco caro.
Conversemos, alegra a tua fronte augusta.
Sê espirituoso, inventa, o que te custa!
Uma infamia qualquer muitissimo engenhosa...
Tens um amigo? bem, vamos calumnial-o;
Tens amantes? melhor, eu dou-te o meu cavallo
E dás-me a mais formosa.
Parece que o rubor te vai subindo ás faces...
Ó Filho, não me masses!
Ó Filho, tem piedade!
Deixa-te de sermões; no fim de contas eu
Sou muito bom christão... um poucochinho atheu,
Como um christão qualquer da fina sociedade.
Saiamos; rompe a aurora. A burguezia dorme,
Como a giboia enorme
Que resona, depois de devorar um toiro;
Ó giboia feliz, ó burguezia, ò pança,
Dorme com segurança
Que a forca está de guarda aos teus bezerros d'oiro.
E chama-se Progresso, ó Deus, esta farçada!
Isto é o cinismo alvar e em pêllo, à desfilada,
É a prostituição ignobil da mulher,
São desejos brutaes, é carne em plena orgia,
Emfim a saturnal da podre burguezia,
Que resa como o papa e ri como Voltaire.
Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano,
Este mundo burguez, catholico-romano
Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral;
A justiça era elle o Padre-omnipotente;
Esse Padre morreu; ficou nos simplesmente
Um unico evangelho—o codigo penal.
A consciencia humana é um monte de destroços.
Foram-se as orações, foram-se os padres-nossos,
Tombou a fé, tombou o céo, tombou o altar;
E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio
É simplesmente um freio
Para conter a raiva á besta popular.
A crassa burguezia, essa recua fradesca,
Opipara, animal, silenica, grotesca,
Namora a Deuza-carne e adora o Deus-milhão;
E as almas, fermentando assim n'esta impureza,
Resvalam sensuaes do leito para a meza.
Da meza para o chão.
Vendem-se a peso d'oiro as languidas donzellas,
Mais torpes que as cadellas,
Que ao menos dão de graça o libertino amor,
E o Dever, a Saude, o Justo, o Verdadeiro,
Esses ricos metaes fundem-se no brazeiro
D'um sensualismo espresso, atroz, devorador.
A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos,
É o principio rei dominador dos mundos,
É um sangue vital, forte como o cognac.
Engordae, engordae ó bravos homens serios,
Que servis para dar esterco aos cemiterios
E musica a Offenbak.
A vergonha morreu, a dignidade foi-se.
O mundo official è um vergonhoso alcoice,
E a plebe tripudiando em horridas orgias
Lança sobre o Direito um pustulento escarro,
E acende, cambaleando, a ponta do cigarro
Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias.
A familha é um bordel. Os leitos sensuaes
São verdadeiramente esgotos seminaes,
Eroticas latrinas,
Onde entre o tumultuar d'um debochado goso
Se fabrica de noite o sangue escrofuloso
Das raças libertinas.
Calemo-nos. Eu oiço as ferraduras de Argus.
É a Ordem e a Lei; correm a trotes largos,
Vêm n'esta direcção, esconde-te, Jesus!
Metamo-nos aqui n'um beco, anda ligeiro!
Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro,
Mandam-te pendurar segunda vez na cruz.
E agora, Filho, adeus. Eu vou dormir um pouco,
E tu, meu pobre louco,
Descança inda que seja um breve quarto d'hora;
Tingem-se de vermelho as bandas do Oriente,
É hoje a Alleluia, e necessariamente
Tens de resuscitar logo ao romper d'aurora.
Eu mais feliz que tu, simples mortal que sou,
Eu, meu amigo, vou
Dormir até que chegue a hora do jantar.
Adeus, e resuscita apenas surja o dia;
Se queres vem dormir á minha hospedaria,
Que eu mando-te acordar.»
E Arouet partiu, soltando uma cruel risada
E Jesus ficou só na noite desolada,
N'aquella colossal Babilonia impudente,
Entre quatro milhões do almas—quatro milhões
De tigres, do reptis, de abutres e de leões
Agachados na sombra ameaçadoramente!...
Quem a visse do alto essa Londres deserta
Com a fosforencia esmorecida, incerta
Da luz do gaz a arder sob um cèo tumular,
Julgaria estar vendo um grande monstro escuro,
Como que um Leviatham putrido n'um monturo
Immenso a fermentar.
A noite era sinistra. Os ventos a galope
Resfolegavam como as forjas d'um ciclope
Com uivos de alienado e rugidos de feras.
E o mar bramia ao longe athletico, espumante
Qual marmita profunda a ferver trovejante
Sobre cem mil crateras.
E Christo foi andando errante, vagabundo
Atravez dessa vasta imperatriz do mundo,
Opulenta Gomorra hidropica do vicio,
Que Deus não enxofrou talvez, como costuma,
Porque além de estar caro o enxofre, Deus em suma
Já não pode arruinar-se em fogos de artificio.
E elle ia vendo os mil palacios portentosos
Onde a besta feliz dormia, ebria de gosos,
Um inefavel somno.
Em quanto que a miseria anonima, esfaimada
Ás tres da madrugada
Disputava o jantar no enxurro aos cães sem dono.
As altas cathedraes, aonde a borguezia
Vai arrotar um pouco á missa do meio dia;
Tinham como que o ar d'um theatro fechado
O aspecto mercantil d'um armazem colosso,
Em que Deus ao balcão vende os dogmas por grosso
E o céo por atacado.
Os bancos, Pantagrueis do milhão, monumentos
De marmore e granito e bronze, somnolentos
Molochs, cuja pança obesa é um matadouro,
Na virtuosa paz de monstros em descanço
Digeriam de manso
Nos seus ventres de ferro um Himalaia d'oiro.
Nos mundos hospitaes, onde emfim a desgraça
Tem a consolação do agonisar de graça,
Santos, monstros, heroes,—Tropmans, Valgeans, Phrinés—
Anciavam no estertôr do tranze derradeiro,
—Lixo que um bonzo vae entregar a um coveiro
Para o calcar aos pés.
E era aquella immundicie humana a humanidade!
Tinha valido bem a pena na verdade
Pregado n'uma cruz morrer como um ladrão,
Para ao cabo de dois mil annos vir achar
Pilatos sob o throno e Caifaz sobre o altar
De diadema na fronte e baculo na mão!
Arrazou-se de pranto o olhar do Nazareno,
Aquelle olhar profundo, aquelle olhar sereno
Que outr'ora deu alivio a tantos corações,
E a linha virginal de seu perfil suave
Turbou-se, apresentando o aspecto mudo e grave
[Das] nobres afflições.
E marmoreo, espectral, com a fronte sombria
Banhada no suor sangrento da agonia
Foi deitar-se outra vez na leiva tumular,
Athleta que expirou tranzido de mil dôres
E quer dormir, dormir entre as hervas e as flores
Onde escorre piedosa a branca luz do luar.
E quando a christandade á volta do meio dia
Correu ao templo a ver o entremez da Alleluia,
Em logar d'um Jesus banal de ciclorama
Subindo ao firmamento,
D'olhos azues n'um céu d'anil, tunica ao vento,
Sobre nuvens de gloria, de algodão em rama,
Viu-se na tela um Christo em furia, um visionario,
Truculento, febril, colerico, incendiario,
Como que um salteador fugido das galés,
Na bôca uma blasfemia e no olhar um archote,
Expulsando da egreja os christãos a chicote
E expulsando do altar o papa a pontapés!
A BARCA DE S. PEDRO
Na barca de S. Pedro ex-santo, hoje banqueiro,
São tantos os caixões com bulas da cruzada,
E tanto o oiro em barra, as joias, o dinheiro,
O navio é tão velho e a carga é tão pesada;
Os anneis, os setins, as purpuras, as rendas,
As mitras d'oiro fino, os bentos, as imagens,
As pratas, os cristaes, os vinhos, as of'rendas,
Os meninos do côro, os famulos, os pagens;
O macisso tropel de conegos vermelhos,
De sacristas, bedeis, archeiros, missionarios,
E o damasco, o velludo, os bronzes, os espelhos,
o silabus, a curia, as forcas, os rosarios;
As pipas e os toneis com aguas milagrosas,
Que ainda causam hoje o mais profundo assombro;
Dos velhos cardeaes as cortezãs formosas,
E o cura Santa Cruz de bacamarte ao hombro;
Esta orgia pagã, esta riqueza immensa
Atulham de tal forma a barca ultramontana,
É tão desenfreado o vento da descrença,
E o mar é tão revolto, a carga é tão mundana;
Que a barca do senhor, outr'ora dirigida
Por doze galileus descalços, quasi nus,
Ella que atravessava o grande mar da vida
Tendo só por farol os olhos de Jesus;
A barca que atravez do horror da tempestade,
Arvorando no mastro o pavilhão da Esp'rança,
Levava os corações de toda a cristandade
Ao grande porto ideal da Bemaventurança;
Hoje ao peso cruel d'este deboche hediondo
Essa barca da Egreja, esse colosso antigo
Sossobrará, o Deus, com pavoroso estrondo,
Indo dormir ao pé dos galeões de Vigo.
LADAINHA
s. ignacio
Bemdicto quem nos dá o pão de cada dia.
coro de santos
Bemdicta a Estupidez, bemdicta a Hipocrisia.
s. ignacio
Bemdicta seja a forca erguida sobre o mundo.
coro de santos
Bemdicto Carlos sete e D. Miguel segundo.
s. ignacio
Bemdicto seja o tigre e o lobo carniceiro.
coro de santos
Bemdicto seja el-rei D. João terceiro.
s. ignacio
Bemdictas sejaes vós, ovelhas de Maria.
coro de santos
E mais a vossa lã, e mais quem n'a tosquia.
s. ignacio
Bemdictos os chacaes, bemdictas as toupeiras.
coro de santos
E a lingua da verdade e as linguas das fogueiras.
s. ignacio
Bemdictos os febris venenos orientaes.
coro de santos
E o Santo padre Borgia e muitos Santos mais...
s. ignacio
Bemdicta a nossa Fé, bemdicta a nossa Egreja.
coro de santos
Bemdicto o nosso ventre! Amen. Bemdicto seja!
COMO SE FAZ UM MONSTRO
I
Elle era n'esse tempo uma creança loira
Vivendo na abundancia agreste da lavoira,
Ao vento, a chuva, ao sol, pastoreando os gados,
Deitando-se ao luar nas pedras dos eirados,
Atravessando á noite os solitarios montes,
Dormindo a boa sésta ao pé das claras fontes,
Trepando aos pinheiraes, ás fragas, aos barrancos,
No rijo e negro pão cravando os dentes brancos,
Radioso como a aurora e bom como a alegria.
Quando no azul do céo cantava a cotovia,
Aos primeiros clarões vibrantes da alvorada
Transportava ao casebre o leite da manada,
Acordando, a assobiar e a rir pelos caminhos,
Os lebreus nos portaes e as aves nos seus ninhos.
E á tarde quando o sol, extraordinario Rubens,
Na fantasmagoria esplendida das nuvens,
Colorista febril, lança, desfaz, derrama
O topasio, o rubi, a prata, o oiro, a chama,
Elle ia então sosinho, alegre intemerato,
Conduzindo a beber ao tremulo regato,
A golpes de verdasca e gritos estridentes,
N'um ruidoso tropel os grandes bois pacientes.
O seu olhar azul de limpidez virtuosa,
Onde brilhava a audacia heroica e valorosa
A candura infantil e a intelligencia rara,
O timbre da sua voz imperiosa e clara,
A linha do seu corpo altivamente recta,
Tudo lhe dava o ar soberbo d'um athleta
Em miniatura.
II
Um dia o pae, um bravo aldeão,
Chamou-o ao pé de si, e disse-lhe:
«João:
Á força de trabalho e a força de canceiras
A moirejar no monte e a levar gado ás feiras,
Consegui ajuntar ao canto do bahù
Alguns pintos. Vocês são dois rapazes; tu,
Além de ser mais novo, és mais intelligente.
Vou botarte ao latim; quero fazer-te agente.
Hasde-me dar ainda um grande prégador.
Hoje padre é melhor talvez que ser doutor.
Aquillo è grande vida; é vida regalada.
Olha, sabes que mais? manda ao diabo a enxada.
Aquillo é que é vidinha! aquillo é que é descanço!
Arrecada-se a congrua, engrola-se o ripanço,
Arranja-se um sermão ahi com quatro tretas,
Vai-se escorropichando o vinho das galhetas,
E a missa seis vintens e doze os [baptisados].
Depois independente e sem nenhuns cuidados!
Olha, João, vê tu o nosso padre cura:
É, sem tirar nem pôr, uma cavalgadura.
Vi-o chegar aqui mais roto que os ciganos;
Pois tem feito um casão em meia duzia d'annos.
Isto é desenganar; padres sabem-na toda...
É o sermão, é a missa, é o enterro, é a boda,
É pinga da melhor, é tudo quando ha!
Quando o abade morrer hasde vir tu p'ra cá.
Despacha-te o doutor nas côrtes; quando não
Votamos contra elle, e foi-se-lhe a eleição.
Mas que é isso, rapaz? Nada de choradeira!
É tratar da merenda, e quinta ou sexta-feira
Toca pr'o seminario. Eu quero ir para a cova
Só depois de ti ouvir cantar a missa nova.»
III
N'uma tarde d'outomno a somnolente trote
Um macho conduzia em cima do albardão,
Já columna da egreja, o novo sacerdote,
O muitissimo illustre e digno padre João.
Ao entrarem na aldeia os dois irracionaes,
Dos foguetes ao grande e jubiloso estrepito
Um velho recebeu nos braços paternaes,
Em vez do alegre filho, um monstro já decrepito
Que acabava de vir das jaulas clericaes.
Que transfigurão! que radical mudança!
Em logar da innocente, angelica creança,
Voltava um chimpanzé estupido e bisonho.
Com o ar de quem anda hallucinadamente
Preso nas espiraes diabolicas d'um sonho.
Seu corpo juvenil, robusto e florescente
Vergava para o chão exhausto de cansaço:
Os dogmas são de bronze, e a lã d'uma batina
Já vai pesando mais que as armaduras d'aço.
A ignorancia profunda, a estupidez suina
A luxuria d'egreja, ardente, clandestina,
O remorso, o terror, o fanatismo inquieto,
Tudo isto perpassava em turbilhão confuso
Na atonia cruel d'aquelle hediondo aspecto,
Na morna fixidez d'aquelle olhar obtuso.
Metida nas prisões escuras de Loyola
A sua alma infantil, não tendo luz nem ar.
Foi com os rouxinoes, que dentro da gaiola
Perdem toda alegria, e morrem sem cantar.
IV
Como ninguem ignora, os sordidos palhaços
Compram, roubam às mães as loiras creancinhas,
Torcem-lhes o pescoço, as mãos, os pés, os braços,
Transformam-lhes n'um juco elastico as espinhas,
E exhibem-nas depois nos palcos das barracas
Dando saltos mortaes e devorando facas
Ante o espanto imbecil da ingenua multidão;
E para lhes cobrir a lividez plangente
Costumam-lhes pintar carnavalescamente
Na face de alvaiade um rir de vermelhão.
Tambem o jesuitismo hipocrita-romano,
Palhaço clerical, anda pelos caminhos
A comprar, a furtar, assim como um cigano,
As creanças ás mães, os rouxinoes aos ninhos.
Vão leval-as depois ao negro seminario,
Ás terriveis galés, ao sacro matadoiro,
E escondem-nas da luz, assim como o usurario
Esconde tambem d'ella os seus punhados d'oiro.
Dentro da estupidez e da superstição,
Casamata da fé, guardam-lhes a razão,
A analize, esse forte e venenoso [fluido],
Que, andando em liberdade, ao minimo descuido
Poderia estoirar com tragica explosão.
O que o palhaço faz ao corpo da creança
Fazem-lh'o á alma, até que d'ella reste emfim,
Em logar do histrião que nas barracas dança,
O pobre missionario, o inutil manequim,
O histrião que nos prega a bemaventurança
A murros do missal e a roncos de latim.
As almas infantis são brandas como a neve,
São perolas de leite em urnas virginaes.
Tudo quanto se grava e quanto ali se escreve
Cristalisa em seguida e não se apaga mais.
D'esta forma consegue o astucioso clero
Transformar de repente uma creança loira
N'um passaro nocturno estupido e sincero.
É abrir-lhe na cabeça a golpes de tesoira
A marca industrial do fabricante—um zero!
CALEMBOUR
Ó Jesuitas, vois sois dum faro tão astuto,
Tendes tal corrupção e tal velhacaria,
Que é incrivel até que o filho de Maria
Não seja inda velhaco e não seja corrupto,
Andando ha tanto tempo em tão má companhia.
A AGUA DE LOURDES
Se ergueis uma capella á agua milagrosa,
Esse elixir divino,
Então erguei tambem um templo á caparosa
E outro templo ao quinino.
Se a agua faz milagre, o que eu vos não discuto,
E por isso a adorais,
Ajoelhemos então em face do bismuto