ALUIZIO AZEVEDO

O CORTIÇO

QUARTA EDIÇÃO

RIO DE JANEIRO

H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

71, Rua do Ouvidor, 71
E
6, Rue des Saints-Pères, 6

PARIS

«Periculum dicendi non recuso.»

(CICERO.)

«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.»

(Droit criminel.)

«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.»

(JOÃO FRANCISCO LISBOA, Jornal de Timon. Prospecto—Obras completas, 1° vol., pag. 12.)

«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust congé.»

(JACQUES DE VORAGINE, La Légende Dorée. Traduction française.)

INDICE

CAPITULO [I]
CAPITULO [II]
CAPITULO [III]
CAPITULO [IV]
CAPITULO [V]
CAPITULO [VI]
CAPITULO [VII]
CAPITULO [VIII]
CAPITULO [IX]
CAPITULO [X]
CAPITULO [XI]
CAPITULO [XII]
CAPITULO [XIII]
CAPITULO [XIV]
CAPITULO [XV]
CAPITULO [XVI]
CAPITULO [XVII]
CAPITULO [XVIII]
CAPITULO [XIX]
CAPITULO [XX]
CAPITULO [XXI]
CAPITULO [XXII]
CAPITULO [XXIII]

O CORTICO

[I]

João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.

Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p'rali, todos os mezes, vinte mil réis em dinheiro!» E segredou-lhe então o que já tinha junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.

D'ahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era elle quem tomava conta de tudo que ella produzia, e era tambem quem punha e dispunha dos seus peculios, e quem se encarregava de remetter ao senhor os vinte mil réis mensaes. Abrio-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até á venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu João debitava methodicamente essas pequenas quantias n'um quaderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de jornal: «Activo e passivo de Bertoleza.»

E por tal fórma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava d'elle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por ultimo, se alguem precisava tratar com ella qualquer negocio, nem mais se dava ao trabalho de procural-a, ia logo direita a João Romão.

Quando deram fé estavam amigados.

Elle propoz-lhe morarem juntos, e ella concordou de braços abertos, feliz em metter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente o homem n'uma raça superior á sua.

João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma commoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarello já mareadas, um oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande de couro crú taxeado, dous banquinhos de páo feitos de uma só peça e um formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.

O vendeiro nunca tivera tanta mobilia.

—Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta.

N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira.

—Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego!

—Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu!

—Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!

Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.

—O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras!

Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!»

Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os freguezes e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e outras tantas camisas de riscado.

João Romão não sahia nunca a passeio, nem ia á missa aos domingos; tudo que rendia a sua venda e mais a quitandas eguia direitinho para a caixa economica e d'ahi então para o banco. Tanto assim que, um anno depois da acquisição da crioula, indo em hasta publica algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de tempo, de construir tres casinhas de porta e janella.

Que milagres de esperteza e de economia não realizou elle n'essa construcção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o velhaco, fóra d'horas, junto com a amiga, furtavam á pedreira do fundo, da mesma forma que subtrahiam o material das casas em obra que havia por ali perto.

Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do melhor successo, graças á circumstancia de que n'esse tempo a policia não se mostrava muito por aquellas alturas. João Romão observava durante o dia quaes as obras em que ficava material para o dia seguinte, e á noite lá estava elle rente, mais a Bertoleza, a removerem taboas, tijolos, telhas, saccos de cal, para o meio da rua, com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma carga e partia para casa, emquanto o outro ficava de alcatéa ao lado do resto, prompto a dar signal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez.

Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavallos de páo, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.

E o facto é que aquellas tres casinhas, tão engenhosamente construidas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão.

Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega; e, á proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e o numero dos moradores.

Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo nunca a occasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os freguezes, roubando nos pezos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez mais as proprias despezas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa parte da bella pedreira, que elle, todos os dias, ao cahir da tarde, assentado um instante á porta da venda, contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça.

Pôz lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lagedos e parallelepipedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em grosso que, dentro de anno e meio, arrematava já todo o espaço comprehendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnifico para construir.

Justamente por essa occasião vendeu-se tambem um sobrado que ficava á direita da venda, separado d'esta apenas por aquellas vinte braças; de sorte que todo o flanco esquerdo do predio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janellas de peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante portuguez, estabelecido na rua do Hospicio com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-hia elle para lá com a familia, pois que a mulher, Dona Estella, senhora pretenciosa e com fumaças de nobreza, já não podia supportar a residencia no centro da cidade, como tambem sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pallida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo.

Isto foi o que disse o Miranda aos collegas, porém a verdadeira causa da mudança estava na necessidade, que elle reconhecia urgente, de afastar Dona Estella do alcance dos seus caixeiros. Dona Estella era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze annos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo anno de matrimonio, o Miranda pilhou-a em flagrante delicio de adulterio; ficou furioso e o seu primeiro impulso foi de mandal-a para o diabo junto com o cumplice; mas a sua casa commercial garantia-se com o dote que ella trouxera, uns oitenta contos em predios e acções da divida publica, de que se utilisava o desgraçado tanto quanto lhe permittia o regimen dotal. Além de que, um rompimento brusco seria obra para escandalo, e, segundo a sua opinião, qualquer escandalo domestico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a idéa de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e affeito á hombridade de portuguez rico que já não tem patria na Europa.

Acovardado defronte d'estes raciocinios, contentou-se com uma simples separação de leitos, e os dous passaram a dormir em quartos separados. Não comiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra constrangida, quando qualquer inesperado acaso os reunia a contra gosto.

Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco a pouco se foi transformando em repugnancia completa. O nascimento de Zulmira veio aggravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez de servir de elo aos dous infelizes, foi antes um novo isolador que se estabeleceu entre elles. Estella amava-a menos do que lhe pedia o instincto materno por suppol-a filha do marido, e este a detestava porque tinha convicção de não ser seu pae.

Uma bella noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco annos, sentio-se em insupportavel estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repellio logo esta idéa com escrupulosa repugnancia. Continuava a odial-a. Entretanto este mesmo facto de obrigação em que elle se collocou de não servir-se d'ella, a responsabilidade de desprezal-a, como que ainda mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fructo prohibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente em nada diminuisse a sua repugnancia pela perjura, foi ter ao quarto d'ella.

A mulher dormia a somno solto. Miranda entrou pé ante pé e approximou-se da cama. «Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem aquillo!...» Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um instante, immovel, a contemplal-a no seu desejo.

Estella, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda não pôde resistir, atirou-se contra ella, que, num pequeno sobresalto, mais de sorpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados, fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciencia de tudo aquillo.

Ah! ella contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procural-a de novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para resistir ao desejo.

Consummado o delicto, o honrado negociante sentio-se tolhido de vergonha e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho e murcho para o seu quarto de desquitado.

Oh! como lhe doia agora o que acabava de praticar na cegueira da sua sensualidade.

—Que cabeçada!... dizia elle agitado. Que formidavel cabeçada!...

No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silencio, como se nada de extraordinario houvera entre elles acontecido na vespera. Dir-se ia até que, depois d'aquella occurrencia, o Miranda sentia crescer o seu odio contra a esposa. E, á noite d'esse mesmo dia, quando se achou sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais, nunca mais, praticar semelhante loucura.

Mas, d'ahi a um mez, o pobre homem, acommettido de um novo accesso de luxuria, voltou ao quarto da mulher.

Estella recebeu-o d'esta vez como da primeira, fingindo que não acordava; na occasião, porém, em que elle se apoderava d'ella febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre diabo desnorteou, devéras escandalisado, soerguendo-se, brusco, n'um estremunhamento de somnambulo acordado com violencia.

A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; passou-lhe rapido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o com uma metralhada de beijos.

Não se fallaram.

Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer. Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada; descobrio n'ella o capitoso encanto com que nos embebedam as cortezãs amestradas na sciencia do gozo venereo. Descobrio-lhe no cheiro da pelle e no cheiro dos cabellos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro halito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delirio, com verdadeira satisfação de animal no cio.

E ella tambem, ella tambem gozou, estimulada por aquella circumstancia picante do resentimento que os desunia; gozou a deshonestidade d'aquelle acto que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo d'aquelle seu inimigo odiado, achando-o tambem agora, como homem, melhor que nunca, suffocando-o nos seus abraços nús, mettendo-lhe pela bocca a lingua humida e em braza. Depois, n'um arranco de corpo inteiro, com um soluço guttural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se n'um abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ella agonisante, como se a tivessem crucificado na cama.

A partir d'essa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do quarto da mulher, estabeleceu-se entre elles o habito de uma felicidade sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnancia moral em nada enfraquecida.

Durante dez annos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já não era acommettido tão frequentemente por aquellas crises que o arrojavam fora d'horas ao dormitorio de Dona Estella; agora, eis que a leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros do marido, na occasião em que estes subiam para almoçar ou jantar.

Foi por isso que o Miranda comprou o predio vizinho a João Romão.

A casa era boa; seu unico defeito estava na escassez do quintal; mas para isso havia remedio: com muito pouco compravam-se umas dez braças d'aquelle terreno do fundo, que ia até á pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava a venda.

Miranda foi logo entender-se com o Romão e propoz-lhe negocio. O taverneiro recussou formalmente.

Miranda insistio.

—O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza. Nem só não cedo uma pollegada do meu terreno, como ainda lhe compro, sem o quizer vender, aquelle pedaço que lhe fica ao fundo da casa!

—O quintal?

—É exacto.

—Pois você quer que eu fique sem chacara, sem jardim, sem nada?

—Para mim era de vantagem...

—Ora, deixe-se d'isso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe propuz.

—Já disse o que tinha a dizer.

—Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.

—Nem meio palmo!

—Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para alargar-se.

—E eu não cedo, porque preciso do meu terreno!

—Ora qual! Que diabo póde lá você fazer ali? Uma porcaria de um pedaço de terreno quasi grudado ao morro e aos fundos de minha casa! quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda!

—Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!

—É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo, a sua parte ficaria cortada em linha recta até á pedreira, e escusava eu de ficar com uma aba de terreno alheio a metter-se pelo meu. Quer saber? não amuro o quintal sem você decidir-se!

—Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha a dizer já disse!

—Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não póde construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janellas sobre o meu quintal?...

—Não preciso abrir janellas sobre o quintal de ninguem!

—Nem tão pouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janellas da esquerda!

—Não preciso levantar parede d'esse lado...

—Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...

—Ah! isso agora é cá comigo!... O que fôr soará!

—Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!...

—Se me arrepender, paciencia! Só lhe digo é que muito mal se sahirá quem quizer metter-se cá com a minha vida!

—Passe bem!

—Adeus!

Travou-se então uma lucta renhida e surda entre o portuguez negociante de fazendas por atacado e o portuguez negociante de seccos e molhados. Aquelle não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por seu lado, não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tres braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus calculos, valeria oiro, uma vez realizado o grande projecto que ultimamente o trazia preoccupado—a creação de uma estalagem em ponto enorme, uma estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquella miuçalha de cortiços que alastravam por Botafogo.

Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente para essa idéa; sonhava com ella todas as noites; comparecia a todos os leilões de materiaes de construcção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vasio, cujo aspecto tomava em breve o caracter estranho de uma enorme barricada, tal era a variedade de objectos que ali se apinhavam accumulados: taboas e sarrafos, troncos d'arvore, mastros de navio, caibros, restos de carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de arêa e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas partidas, depositos de cal, o diabo emfim; ao que elle, que sabia perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando á noite um formidavel cão de fila.

Este cão era pretexto de eternas resingas com agente do Miranda, a cujo quintal ninguem de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem correr o risco de ser assaltado pela féra.

—É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros.

—Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu tambem tenho capricho!

Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango, fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço. João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando vinganças terriveis, fallando em dar tiros.

—Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella.

D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu principiar as obras da estalagem.

—Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez!

E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para voltar multiplicado.

Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes, aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa, uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as unhas.

Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel. Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor. Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.

Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa: o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.

Creou armazens para deposito, abolio a quitanda e transferio o dormitorio, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas.

Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de tudo: objectos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensilios de escriptorio, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, chapéos de palha proprios para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e anneis e brincos de metal ordinario.

E toda a gentalha d'aquellas redondezas ia cahir lá, ou então ali ao lado, na casa de pasto, onde os operarios das fabricas e os trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até ás dez horas da noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampeões de kerosene.

Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho para ás mãos do velhaco. E sobre este cobre, quasi sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mez, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com penhores de oiro ou prata.

Não obstante, as casinhas do cortiço, á proporção que se atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas seccassem. Havia grande avidez em alugal-as; aquelle era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dous passos da obrigação.

O Miranda rebentava de raiva.

—Um cortiço! exclamava elle, possesso. Um cortiço! Maldito seja aquelle vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janellas!... Estragou-me á casa, o malvado!

E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martellar de sol a sol.

O que aliás não impedio que as casinhas continuassem a surgir, uma após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali afóra, desde a venda até quasi ao morro, e depois dobrassem para o lado do Miranda e avançassem sobre o quintal d'este, que parecia ameaçado por aquella serpente de pedra e cal.

O Miranda mandou logo levantar o muro.

Nada! aquelle demonio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de visitas!

E os quartos do cortiço pararam emfim de encontro ao muro do negociante, formando com a continuação da casa d'este um grande quadrilongo, especie de pateo de quartel, onde podia formar um batalhão.

Noventa e cinco casinhas comportou a immensa estalagem.

Promptas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças vermelhas, por cima de uma taboleta amarella, em que se lia o seguinte, escripto a tinta encarnada e sem ortographia.

«Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras.»

As casinhas eram alugadas por mez e as tinas por dia: tudo pago adiantado. O preço de cada tina, mettendo a agua, quinhentos réis; sabão á parte. As moradoras do cortiço tinham preferencia e não pagavam nada para lavar.

Graças a abundancia d'agua que lá havia, como em nenhuma outra parte, e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender a roupa, a concurrencia ás tinas não se fez esperar; acudiram lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre ellas algumas vindas de bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputal-os.

E aquillo se foi constituindo n'uma grande lavanderia, agitada e barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes e os seus jardinzinhos de tres e quatro palmos, que appareciam como manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o reverbero das claras barracas de algodão crú, armadas sobre os lustrosos bancos de lavar. E os gottejantes giráos, cobertos de roupa molhada, scintillavam ao sol, que nem lagos de metal branco.

E n'aquella terra encharcada e fumegante, n'aquella humidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontanea, ali mesmo, d'aquelle lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.

[II]

E durante dous annos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquella exhuberancia brutal de vida, aterrado defronte d'aquella floresta implacavel que lhe crescia junto da casa, por debaixo das janellas, e cujas raizes, peiores e mais grossas do que serpentes, minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno d'ella, rachando o solo e abalando tudo.

Posto que lá na rua do Hospicio os seus negocios não corressem mal, custava-lhe a soffrer a escandalosa fortuna do vendeiro «aquelle typo! um miseravel, um sujo, que não puzera nunca um paletó, e que vivia de cama e mesa com uma negra!»

Á noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando elle, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido n'uma preguiçosa, junto á mesa da sala de jantar, e ouvia, a contra-gosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem n'uma exhalação forte de animaes cansados. Não podia chegar á janella sem receber no rosto aquelle bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas no coito.

E depois, fechado no quarto de dormir, indifferente e habituado ás torpezas carnaes da mulher, isento já dos primitivos sobresaltos que lhe faziam, a elle, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a prosperidade do vizinho o que lhe obcecava o espirito, ennegrecendo-lhe a alma com um feio resentimento de despeito.

Tinha inveja do outro, d'aquelle outro portuguez que fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; d'aquelle outro que, para ser mais rico tres vezes do que elle, não teve de casar com a filha do patrão ou com a bastarda de algum fazendeiro freguez da casa!

Mas então, elle, Miranda, que se suppunha a ultima expressão da ladinagem e da esperteza; elle, que, logo depois do seu casamento, respondendo para Portugal a um ex-collega que o felicitava, dissera que o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas redeas um homem fino empolgava facilmente; elle, que se tinha na conta de invencivel matreiro, não passava afinal de um pedaço d'asno comparado com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma brasileira mal educada e sem escrupulos de virtude! Imaginára-se talhado para grandes conquistas, e não passava de uma victima ridicula e soffredora!... Sim! no fim de contas qual fôra a sua Africa?... Enriquecêra um pouco, é verdade, mas como? a que preço? hypothecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis, mas incalculaveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjára a vida, sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que elle odiava! E do que afinal lhe aproveitára tudo isso? Qual era afinal a sua grande existencia? Do inferno da casa para o purgatorio do trabalho e vice-versa! Invejavel sorte, não havia duvida!

Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem sequer gozava o prazer de ser pae. Se ella, em vez de nascer de Estella, fora uma engeitadinha recolhida por elle, é natural que a amasse, e então a vida lhe correria de outro modo; mas, n'aquellas condições, a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludibrio materno, e o Miranda estendia até á innocentezinha o odio que sustentava contra a esposa.

Uma espiga a tal da sua vida!

—Fui uma besta! resumio elle, em voz alta, apeiando-se da cama, onde se havia recolhido inutilmente.

E pôz-se a passeiar no quarto, sem vontade de dormir, sentindo que a febre d'aquella inveja lhe estorricava os miolos.

Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu! esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo viesse a casar e a mulher lhe sahisse uma outra Estella, era só mandal-a p'ra o diabo com um pontapé! Podia fazel-o! Para esse é que era o Brasil!

—Fui uma besta! repisava elle, sem conseguir conformar-se com a felicidade do vendeiro. Uma grandissima besta! No fim de contas que diabo possuo eu?... Uma casa de negocio, da qual não posso separar-me sem comprometter o que lá está enterrado! um capital mettido n'uma rêde de transacções que não se liquidam nunca, e cada vez mais se complicam e mais me grudam ao estupor d'esta terra, onde deixarei a casca! Que tenho de meu, se a alma do meu credito é o dote, que me trouxe aquella sem vergonha, e que a ella me prende como a peste da casa commercial me prende a esta Costa d'Africa?...

Foi da suppuração fetida d'estas idéas que se formou no coração vasio do Miranda um novo ideal—o titulo. Faltando-lhe temperamento proprio para os vicios fortes que enchem a vida de um homem; sem familia a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o naufrago agarrou-se áquella taboa, como um agonisante, consciente da morte, que se apega á esperança de uma vida futura. A vaidade de Estella, que a principio lhe tirava dos labios incredulos sorrisos de mofa, agora lhe comprazia á farta. Procurou capacitar-se de que ella com effeito herdara sangue nobre, e que elle, por sua vez, se não o tinha herdado, trouxera-o por natureza propria, o que devia valer mais ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato, fazendo d'isso o objecto querido da sua existencia, muito satisfeito no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem ter, nunca mais, de restituil-o á mulher, nem ter de deixal-o a pessoa alguma.

Semelhante preoccupação modificou-o em extremo. Deu logo para fingir-se escravo das conveniencias, affectando escrupulos sociaes, empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com protecção, sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito serio.

Dados os primeiros passos para a compra do titulo, abrio a casa e deu festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabellos brancos, rejubilou com isso.

Zulmira tinha então doze para treze annos e era o typo acabado da fluminense; pallida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas do nariz, das palpebras e dos labios, faces levemente pintalgadas de sardas. Respirava o tom humido das flores nocturnas, uma brancura fria de magnolia; cabellos castanho claro, mãos quasi transparentes, unhas molles e curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a cutis do rosto, pés pequenos, quadril estreito, mas os olhos grandes, negros, vivos e maliciosos.

Por essa época, justamente, chegava de Minas, recommendado ao pae d'ella, o filho de um fazendeiro importantissimo que dava bellos lucros á casa commercial do Miranda e que era talvez o melhor freguez que este possuia no interior.

O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze annos e vinha terminar na côrte alguns preparatorios que lhe faltavam para entrar na academia de medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do Hospicio, mas o estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ahi ficava mal accommodado, e o negociante, o quem não convinha desagradar-lhe, carregou com elle para a sua residencia particular de Botafogo.

Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco extravagante e gastador, que não despendia um vintem fóra das necessidades de primeira urgencia. De resto, a não ser de manhã para as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão em companhia da familia d'este. Dona Estella, ao cabo de pouco tempo, mostrou por elle estima quasi maternal e encarregou-se de tomar conta da sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha ordem franca do pae.

Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a de Dona Estella, que por sua vez encarregava ao marido de compral-a, sendo o objecto lançado na conta do fazendeiro com uma commissão de usurario. Sua hospedagem custava duzentos e cincoenta mil réis por mez, do que elle todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho do proprio senhor.

Á noite, ás vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estella sahia com elle, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até á praia, e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em sua companhia.

A criadagem da familia do Miranda compunha-se de Izaura, mulata ainda moça, moleirona e tola, que gastava todo a vintemzinho que pilhava em comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada Leonor, muito ligeira e viva, lisa e secca como um moleque, conhecendo de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta technologia da obscenidade, e dizendo, sempre que os caixeiros ou os freguezes da taberna, só para mexer com ella, lhe davam atracações: «Oia, que eu me quexo ao juiz de orfe!» e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de Dona Estella e a quem esta havia alforriado.

A mulher do Miranda tinha por este moleque uma affeição sem limites: dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o comsigo a passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciumes á filha, de tão solicita que se mostrava com elle. Pois se a caprichosa senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se quando se queixavam os dous, um contra o outro, ella nunca dava razão á filha! Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apezar das supplicas e dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estella chorava todos os dias e durante a ausencia d'elle não tocou piano, nem cantou, nem mostrou os dentes a ninguem? E o pobre Miranda, se não queria soffrer impertinencias da mulher e ouvir semsaborias defronte dos criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe humildemente todas as vontades.

Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hospede alem do Henrique, o velho Botelho. Este porém na qualidade de parasita.

Era um pobre diabo caminhando para os setenta annos; antipathico, cabello branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo theor; muito macilento, com uns oculos redondos que lhe augmentavam o tamanho da pupilla e davam-lhe á cara uma expressão de abutre, perfeitamente de accordo com o seu nariz adunco e com a sua bocca sem labios; viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fôra em seu tempo empregado do commercio, depois corretor de escravos; contava mesmo que estivera mais de uma vez na Africa, negociando negros por sua conta. Atirou-se muito ás especulações; durante a guerra do Paraguay ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desillusões, cheio de hemorrhoidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava á sombra do Miranda, com quem por muitos annos trabalhou em rapaz, sob as ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a principio por acaso e mais tarde por necessidade.

Devorava-o, noite e dia, uma implacavel amargura, uma surda tristeza de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não lhe ter sido possivel empolgar o mundo com as suas mãos hoje inuteis e tremulas. E, como o seu actual estado de miseria não lhe permittia abrir contra ninguem o bico, desabafava vituperando as idéas da época.

Assim, eram ás vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, entre outros assumptos palpitantes, vinha á discussão o movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco. Então o Botelho ficava possesso e vomitava phrases terriveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquella valvula para desafogar o velho odio accumulado dentro d'elle.

—Bandidos! berrava apoplectico. Cafila de salteadores!

E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em settas envenenadas, procurando cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a belleza, o talento, a mocidade, a força, a saude, e principalmente a fortuna, eis o que elle não perdoava a ninguem, amaldiçoando todo aquelle que conseguia o que elle não obtivéra; que gosava o que elle não desfructára; que sabia o que elle não aprendêra. E, para individualisar o objecto do seu odio, voltava-se contra o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os portuguezes, e que, no emtanto, o deixára, a elle, na penuria.

Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava ás oito da manhã, lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espirito de vinho; depois ia ler os jornaes para a sala de jantar, a espera do almoço; almoçava e sahia, tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até ás horas do jantar, entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fóra, de fronte d'elle. Tinha a pretenção de conhecer todo o Rio de Janeiro e os podres de cada um em particular. Ás vezes, poucas, Dona Estella encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho desempenhava melhor que ninguem. Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo, posto que tivéra sempre invencivel medo ás armas de qualquer especie, mórmente ás de fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma espingarda, enthusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra; a presença de um official em grande uniforme tirava-lhe lagrimas de commoção; conhecia na ponta da lingua o que se referia á vida de quartel; distinguia ao primeiro lance d'olhos o posto e o corpo a que pertencia qualquer soldado, e, apezar dos seus achaques, era ouvir tocar na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar, e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que accompanhavam a tropa. Então, não tornava para casa emquanto os militares não se recolhessem. Quasi sempre voltava d'essa loucura ás seis da tarde, moido a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar horas e horas ao som da musica de pancadaria. E o mais interessante é que elle, ao vir-lhe a reacção, revoltava-se furioso contra o maldito commandante que o obrigára áquella estopada, levando o batalhão por uma infinidade de ruas e fazendo de proposito o caminho mais longo.

—Só parece, lamentava-se elle, que a intenção d'aquelle malvado era dar-me cabo da pelle! Ora vejam! Tres horas de marche-marche por uma soalheira de todos os diabos!

Uma das birras mais comicas do Botelho era o seu odio pelo Valentim. O moleque causava-lhe febre com as suas petulancias de mimalho, e, velhaco, percebendo quanto ellas o irritavam, ainda mais abusava, seguro na protecção de Dona Estella. O parasita de muito que o teria estrangulado, se não fôra a necessidade de agradar a dona da casa.

Botelho conhecia as fallas de Estella como as palmas da propria mão. O Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes lh'as confiára em occasiões desesperadas de desabafo, declarando francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão porque não a punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia tambem que os serios interesses commerciaes estavam acima de tudo.

—Uma mulher n'aquellas condições, dizia elle convicto, representa nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ella...

—Ora! explicava o marido. Eu me sirvo d'ella como quem se serve de uma escarradeira!

O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas por outro lado, quando ouvia Estella fallar do marido, com infinito desdem e até com asco, ainda mais resplandecia de contente.

—Você quer saber? affirmava ella, eu bem percebo quanto aquelle traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de sociedade, não podemos viver sem o esposo, quando somos casadas; de forma que tenho de aturar o que me cahio em sorte, quer goste d'elle quer não goste! juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se chege ás vezes para mim, é porque entendo que paga mais á pena ceder do que puxar discussão com uma besta d'aquella ordem!

O Botelho, com a sua encanecida experiencia do mundo, nunca transmittia a nenhum dos dous o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim que, certa occasião, recolhendo-se á casa incommodado, em hora que não era do seu costume, ouvio, ao passar pelo quintal, sussurros de vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em geral não ia ninguem.

Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobrio Estella entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando, sem tugir nem mugir, e, só quando os dous se separaram, foi que elle se mostrou.

A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava, fez-se côr de cera; mas o Botelho procurou tranquillisal-os, dizendo em voz amiga e mysteriosa:

—Isso é uma imprudencia o que vocês estão fazendo!... Estas coisas não é d'este modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra pessoa... Pois n'uma casa, em que ha tantos quartos, é lá preciso vir metterem-se n'este canto do quintal?...

—Nós não estávamos fazendo nada! disse Estella, recuperando o sangue frio.

—Ah! tornou o velho, apparentando summo respeito: então desculpe, pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que d'esta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A senhora está moça, está na força dos annos; seu marido não a satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se é torto, não fomos nós que o fizemos torto!... Até certa idade todos temos dentro um bichinho carpinteiro, que é preciso matar, antes que elle nos mate! Não lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra vez, devem ter um pouquito mais de cuidado e...

—Está bom! basta! ordenou Estella.

—Perdão! eu, se digo isto, é para deixal-os bem tranquillos a meu respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que...

O Henrique atalhou, com a voz ainda commovida:

—Mas, acredite, seu Botelho, que...

O velho interrompeo-o tambem por sua vez, passando-lhe a mão no hombro e affastando-o comsigo:

—Não tenha receio, que não o comprometterei, menino!

E, como já estivessem distantes de Estella, segredou-lhe em tom protector: Não torne a fazer isto assim, que você se estraga... Olhe como lhe tremem as pernas!

Dona Estella acompanhou-os a distancia, vagarosamente, affectando preoccupação em compor um ramalhete, cujas flores ella ia colhendo com muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se na pontinha dos pés para alcançar os heliotropos e os manacás.

Henrique seguio o Botelho até ao quarto d'este, conversando sem mudar de assumpto.

—Você então não falia n'isto, hein? Jura? perguntou-lhe.

O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhára em flagrante e que ficára bom tempo a espreita.

Fallar o que, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou convencido que não dará... Quer saber? eu até sympathiso muito com você, Henrique! Acho que você é um excellente menino, uma flôr! E digo-lhe mais: hei de proteger os seus negocios com Dona Estella...

Fallando assim, tinha-lhe tomado as mãos e affagava-as.

—Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se metta com donzellas, entende?... São o diabo! Por dá cá aquella palha fica um homem em apuros! agora quanto ás outras, papo com ellas! Não mande nenhuma ao vigario, nem lhe dôa a cabeça, porque, no fim de contas, nas circumstancias de Dona Estella, é até um grande serviço que você lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha a geito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse oiro em pó! sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ella que você faz o obsequio, mas tambem ao marido: quanto mais escovar-lhe você a mulher, melhor ella ficará de genio, e por conseguinte melhor será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se aborrecer lá por baixo, com os seus negocios, e precisa de um pouco de descanço quando volta do serviço e mette-se em casa! Escove-a, escove-a! que a porá macia que nem velludo! O que é preciso é muito juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue para diante, não só com ella, mas com todas as que lhe cahirem debaixo da aza! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por causa das molestias; nem tão pouco donzellas! Não se metta com a Zulmira! E creia que lhe fallo assim, porque sou seu amigo, porque o acho sympathico, porque o acho bonito!

E acarinhou-o tão vivamente d'esta vez, que o estudante, fugindo-lhe das mãos, affastou-se com um gesto de repugnancia e desprezo, emquanto o velho lhe dizia em voz comprimida:

—Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...

[III]

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas.

Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

A roupa lavada, que ficára de vespera nos córadoiros, humedecia o ar e punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão, esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações de espumas seccas.

Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia, supplantando todos os outros; trocavam-se de janella para janella as primeiras palavras, os bons dias; reatavam-se conversas interrompidas á noite; a pequenada cá fora traquinava já, e lá de dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos, cantar de gallos, cacarejar de gallinhas. De alguns quartos sabiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os loiros, á semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se á luz nova do dia.

D'ahi a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma agglomeração tumultuosa de machos e femeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incommodamente, debaixo do fio d'agoa que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que ellas despiam, suspendendo o cabello todo para o alto do casco; os homens, esses não se preoccupavam em não molhar o pello, ao contrario mettiam a cabeça bem debaixo da agoa e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sahir sem treguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.

O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias accentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruido compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não fallava, gritava-se. Sentia-se n'aquella fermentação sanguinea, n'aquella gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triumphante satisfação de respirar sobre a terra.

Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas, fazendo compras.

Duas janellas do Miranda abriram-se. Appareceu n'uma a Izaura, que se dispunha a começar a limpeza da casa.

—Nhá Dunga! gritou ella para baixo, a sacudir um panno de mesa; se você tem cús-cús de milho hoje, bata na porta, ouvio?

A Leonor surgio logo tambem, enfiando curiosa a carapinha por entre o pescoço e o hombro da mulata.

O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.

O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro.

E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas, sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões.

A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona», portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á parte, mas toda a familia habitava no cortiço.

Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco annos.

Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer roupa branca de homem com muita perfeição.

Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle, brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos, soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza.

Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu temperamento e não do arbitrio do seu caracter.

Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma fama terrivel de leviana entre as suas visinhas.

Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.»

Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente, beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das compras que Florinda fazia diariamente á venda.

Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.

A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente.

Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas, porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da estalagem!»

Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e tres vezes á velha com estas phrases:

—Então? já veio?

—Porque não tenta os banhos de mar?

—Porque não chama outro medico?

—Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!

A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E suspirava resignada.

Quando o Costa apparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva, os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silencio com um respeitoso ar de lastima e piedade, empenhados tacitamente por aquelle caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa.

Pombinha era muito querida por toda aquella gente. Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as contas; quem lia o jornal para os que quizessem ouvir. Presavam-na com muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permittia certo luxo relativo. Andava sempre de botinas ou sapatinhos com meias de côr, seu vestido de chita engommado; tinha as suas joiazinhas para sahir á rua, e, aos domingos, quem a encontrasse á missa na egreja de São João Baptista, não seria capaz de desconfiar que ella morava em cortiço.

Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, côr de espargo cozido e com um cabellinho castanho, deslavado e pobre, que lhe cahia, n'uma só linha, até ao pescocinho molle e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarisado que ellas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença d'elle fallavam de coisas que não exporiam em presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem commovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era sempre Albino quem tratava de reconcilial-os, exhortando as mulheres á concordia. D'antes encarregava-se de cobrar o rol das collegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma republica de estudantes, deram-lhe lá, ninguem sabia porque, uma duzia de bolos, e o pobre diabo jurou então, entre lagrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de receber os róes.

E d'ahi em diante, com effeito, não arredava os pésinhos do cortiço, a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dansarina, passear á tarde pelas ruas e á noite dansar nos bailes dos theatros. Tinha verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro durante o anno para gastar todo com a mascarada. E ninguem o encontrava, domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com a sua calça branca engommada, a sua camisa limpa, um lenço ao pescoço, e, amarrado á cinta, um avental que lhe cahia sobre as pernas como uma saia. Não fumava, não bebia espiritos e trazia sempre as mãos geladas e humidas.

N'aquella manhã levantára-se ainda um pouco mais languido que de costume, porque passára mal a noite. A velha, Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistencia, perguntou-lhe o que tinha.

Ah! muita molleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!

A velha receitou diversos remedios, e ficaram os dois, no meio de toda aquella vida, a fallar tristemente sobre molestias.

E, emquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocadia, a Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e quasi sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte d'ellas, separado pelos giráos, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fóra, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando logar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tregoas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma occupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do cortiço sahiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia ao fundo da estalagem desappareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de calças de brim, chapéo alto e sobrecasaca preta, passou lá fóra, em caminho para o armazem, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solemne, atravessou o pateo, sem fallar a ninguem, nem mesmo á mulher, e recolheu-se á casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o Pompéo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, sahio para a perigrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano.

Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar á Machona pela inhá Rita.

—A Rita Bahiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ella arribou!

A Leocadia explicou logo que a mulata estava com certeza de pandega com o Firmo.

—Que Firmo? interrogou Augusta.

—Aquelle cabravasco que se mettia ás vezes ahi com ella. Diz que é torneiro.

—Ella mudou-se? perguntou o pequeno.

—Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem coisas lá. Você o que queria?

—Vinha buscar uma roupa que está com ella.

—Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te possa dizer alguma coisa.

—Ali?

—Sim, pequeno, n'aquella porta, onde a preta do taboleiro está vendendo! Ó diabo! olha que pizas a boneca de anil! Já se vio que sorte? Parece que não vê onde piza este raio de criança!

E, notando que o filho, o Agostinho, se approximava para tomar o logar do outro que já se ia:—Sahe d'ahi, tu tambem, peste! Já principias na reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade, que fazes tu que não vaes regar a horta do Commendador?

—Elle disse hontem que eu agora fosse á tarde, que era melhor.

—Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil réis, que é fim do mez. Olha! Vae lá dentro e diz a Nênêm que te entregue a roupa que veio hontem á noite.

O pequeno afastou-se de carreira, e ella lhe gritou na pista.—E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido!

Uma conversa cerrada travára-se no resto da fila de lavadeiras a respeito da Rita Bahiana.

—É doida mesmo!... censurava Augusta. Metter-se na pandega sem dar conta da roupa que lhe entregaram... Assim ha de ficar sem um freguez...

—Aquella não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Póde haver o serviço que houver, apparecendo pagode, vae tudo pr'o lado! Olha o que sahio o anno passado com a festa da Penha!...

—Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca vergonha! Est'ro dia, pois você não vio? levaram ahi n'uma bebedeira, a dansar e cantar á viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!

—Para tudo ha horas e ha dias!...

—Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é apparecer quem puxe por ella!

—Ainda assim não é má creatura... Tirante o defeito da vadiagem...

—Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!

—Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia!

—Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem dinheiro é porque o gasta mesmo!

E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa molhada, donde o sol tirava scintillações de prata.

Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente, caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua tranquillidade de entes felizes.

Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta.

—Meio kilo de arroz!

—Um tostão de assucar!

—Uma garrafa de vinagre!

—Dois martellos de vinho!

—Dois vintens de fumo!

—Quatro de sabão!

E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.

Ouviam-se protestos entre os compradores:

—Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!

—O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer!

—Seu Manoel, não me demore essa manteiga!

Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.

N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o vendeiro.

Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto, espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade.

—Então ainda não se póde fallar ao homem? perguntou elle, indo ao balcão entender-se com o Domingos.

—O patrão está agora muito occupado. Espere!

—Mas são quasi dez horas e estou com um gole de café no estomago!

—Volte logo!

—Moro na cidade nova. É um estirão d'aqui!

O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia:

—O homem que ahi está, seu João, diz que se vae embora!

—Elle que espere um pouco, que já lhe fallo! respondeu o vendeiro no meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!

—Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o hercules com a sua voz grossa e sonora.

—Ó filho, almoce ahi mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já podia estar aviado!

—Pois vá lá! resolveu o homemzarrão, sahindo da venda para entrar na casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso, medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ahi se apresentavam pela primeira vez.

E assentou-se a uma das mezinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a lista dos pratos.

—Traga lá o pescado com batatas e venha um martello de vinho.

—Quer verde ou virgem?

—Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo!

[IV]

Meia hora depois, quando João Romão se vio menos occupado, foi ter com o sujeito que o procurava e assentou-se defronte d'elle, cahindo de fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trahir na physionomia o menor symptoma de cansaço.

—Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Elle fallou-me de um homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lagedo...

—Sou eu.

—Estava empregado n'outra pedreira?

—Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me d'ella e quero passar adiante.

—Quanto lhe dão lá?

—Setenta mil réis.

—Oh! Isso é um disparate!

—Não trabalho por menos...

—Eu, o maior ordenado que faço é de cincoenta.

—Cincoenta ganha um macaqueiro...

—Ora! tenho ahi muitos trabalhadores de lagedo por esse preço!

—Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não encontra por cincoenta mil réis quem dirija a broca, pese a polvora e lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres!

—Sim, mas setenta mil réis é um ordenado impossivel!