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SOL DE INVERNO
OBRAS POÉTICAS, COMPLETAS DE ANTONIO FEIJÓ
Sacerdos Magnus, 1881. Transfigurações, 1882. Lyricas e Bucolicas, 1884. Cancioneiro chinês, 1903 (2.^a edição). Ilha dos Amores, 1897. Bailatas, 1907. Sol de Inverno, 1922. Novas Bailatas, no prelo.
Nota: As Bailatas foram publicadas sob o pseudónimo de Ignacio de
Abreu e Lima.
[Figura: Antonio Feijó]
ANTÓNIO FEIJÓ
Sol de Inverno
ULTIMOS VERSOS
(1915)
Livrarias AILLAUD e BERTRAND PARIS-LISBOA 1922
Tip. do Anuário Comercial—Praça dos Restauradores, 24—Lisboa
PREFACIO
I
Com o Sol de Inverno, que, n'este volume, vê a luz da publicidade, e com as Novas Bailatas, que vão entrar no prelo, a obra poetica de Antonio Feijó encerra-se por duas magnificas affirmações do seu alto, delicado e gentilissimo talento. A sua Musa emmudece para sempre. A sua lyra quebra-se. Esses dois livros posthumos são o seu harmonioso canto do cysne… É um grande poeta e um grande artista do verso que dizem o supremo adeus á sua arte, exercida com tanta paixão e tanta nobreza!
Esses livros deixou-os o Auctor dispostos, coordenados, paginados, revistos minuciosamente, para os fazer imprimir. A morte permittiu-lhe, ao menos, cuidar d'esse legado valioso e opulento, que ia testar á litteratura patria. Quando ella o surprehendeu, a 20 de junho de 1917, o trabalho estava acabado.
Mas o mundo ardia em guerra. A Europa era um campo de batalha gigantesco em que os povos, como os Titans da gigantomachia do mytho hellenico, luctavam braço a braço, trucidando-se em torrentes de sangue. As communicações entre a Suecia, onde Feijó fallecera, no seu posto diplomatico, e Portugal, estavam quasi cortadas. Os preciosos e insubstituiveis originaes não podiam ser confiados a transportes aventurosos, a correios irregulares e incertos, ás suspeitas da censura dos belligerantes, aos riscos dos torpedeamentos maritimos. Foi preciso que a paz se fizesse emfim e, com ella, a ordem e a normalidade da vida internacional começassem a restabelecer-se n'esta convulsionada Europa, para que o espolio litterario de Antonio Feijó pudesse vir com segurança para Portugal, trazido pelas mãos dos seus proprios filhos.
A mim, seu velho companheiro e camarada, a elle ligado, desde os dezoito annos, pela mais fraterna amizade, foi confiado o encargo de superintender na publicação d'esses livros e de a preceder de algumas palavras em que se esboce o perfil do Auctor e se ponham em justo relevo os meritos eminentes da sua bella obra.
Encargo, ao mesmo tempo doloroso e grato, em que, á profunda saudade do querido amigo morto, se juntou o enlevo espiritual de me absorver nas altas emoções estheticas que a leitura d'esses dois livros tão intensamente me fazia sentir!
Com que doce melancholia, com que piedoso recolhimento, com que commovida curiosidade, com que alvoroçado interesse eu folheei os dois originaes, copiados á machina, mas, quasi a cada pagina, emendados pela sua lettra, com os offerecimentos aos seus amigos traçados pelo seu punho, com os appendices, em que se archivavam os juizos criticos das suas obras anteriores, por elle proprio coordenados!
Era o seu espirito que, d'essas frias regiões scandinavas, para onde os azares da vida haviam exilado esse meridional de tão viva e ardente imaginação, era o seu espirito que de lá nos vinha n'essas paginas, palpitantes de emoção lyrica, sonoras de rythmos musicaes e de rimas harmoniosas, todas refulgentes do esplendor das imagens e da pureza plastica d'uma forma impecavel! Esse dom de immortalidade espiritual, de revivescencia dos mortos na memoria das suas altas acções ou no esplendor das suas grandes obras, senti-o, n'essa hora, tão profundamente, que o meu coração, por momentos, se hallucinava, dando-se a illusão de que era o proprio poeta que me estava recitando as suas ultimas poesias, n'aquella dicção perfeita que tanto fazia realçar as qualidades do seu verso!
Era com a sua alma que eu estava em contacto tambem,—com a sua alma nos derradeiros annos da sua vida,—porque, n'esses livros, havia muito dos seus affectos, dos seus pensamentos intimos, das suas alegrias e esperanças, das suas mágoas, da suas torturas, das suas dolentes nostalgias…
Ambos elles estavam concluidos e preparados para o prelo antes d'aquelle supremo infortunio da sua vida, que foi a perda da sua adorada mulher, levada pela morte em setembro de 1915, ainda em plena mocidade e em todo o encanto da sua grande elegancia e brilhante formosura.
O offerecimento do Sol de Inverno não é feito á sua memoria, mas a ella ainda viva e presente no lar domestico. Nas cartas que d'elle recebi no curto periodo da sua viuvez,—uns vinte mezes,—referia-se aos dois livros como a uma obra feita. Depois do golpe, de cuja incuravel ferida lhe havia de resultar, mais tarde, a morte, não appareceram, nos seus papeis,—que eu saiba,—vestigios d'um regresso á actividade litteraria. D'isso me fallava ás vezes, quando me escrevia, mas como d'uma intenção, não como d'um facto.
Sol de Inverno e Novas Bailatas devem conter, portanto, as derradeiras producções poeticas de Antonio Feijó. São o fecho da sua obra e são realmente um remate superior, em que o seu talento e a sua arte se ostentam em plena maturação e plena mestria. Não lhe foi dado a elle assistir ao seu maximo triumpho litterario, á publicidade d'aquelle dos seus livros, o Sol de Inverno, que o qualifica, definitivamente e sem favor, um grande poeta.
A esse triumpho tambem os seus amigos não assistem com aquelle jubilo que experimentariam se lhe pudessem manifestar a sua admiração, se pudessem acclamal-o a elle em pessoa, não apenas á sua memoria e ao seu nome, agora gloriosamente consagrados.
Por mim, fal-o-ei n'esta evocação da saudade, que é o conforto da alma no declinar da vida e tem o dom maravilhoso de resuscitar espiritualmente os mortos.
Se julgo poder dominar as suggestões da amizade ao tratar da obra d'um tão grande amigo, não me é, por outro lado, possivel fallar d'elle sem que, a cada passo, esse affecto fraterno não transpareça nas minhas palavras, sem que tenha de referir-me ás nossas intimas relações, mettendo o leitor na confidencia de velhas lembranças pessoaes, que para elle podem, comtudo, ter interesse, por dizerem respeito a uma tão notavel individualidade.
II
Por fins de outubro de 1877,—pouco falta para a conta d'um longo meio seculo!—em Coimbra, um bando alegre de novatos de Direito, no intervallo de duas aulas, subia ruidosamente a ingreme escada da torre da Universidade, e, lá do alto, n'um largo desafogo, estendia a vista por esse incomparavel panorama do valle do Mondego, entre cujo legendario quadro lhes ia correr todo um lustro de intensa vida mental, de tremendas controversias de ideias, de extases poeticos, de sonhos de juventude, de esperanças, de chimeras,—essa divina florescencia do espirito, que marca, na nossa existencia, o seu momento superiormente bello e culminantemente feliz.
Eu era d'esse grupo. Mal nos conheciamos de vista uns aos outros: havia apenas coisa d'uma semana que, pela primeira vez, nos juntaramos nos bancos da nossa aula. Vinhamos de todas as provincias de Portugal: como acontecia sempre nos grandes cursos de Direito, havia, entre nós, minhotos, transmontanos, beirões, extremenhos, alemtejanos, algarvios, ilheus,—cada um com o seu typo ethnico, o seu sotaque regional. Ao acaso, misturavamo-nos, entabolavamos conversas superficiaes, trocavamos impressões rapidas, no deslumbramento d'essa visão de belleza que se estendia, deante dos nossos olhos, da montanha á planicie, da mancha azulada e longinqua da serra da Louzã á ridente campina do Mondego, tocada já pelos tons d'oiro do outomno.
N'essa casual communicabilidade, achei-me a conversar com um rapaz, ao lado do qual havia feito a esfalfante escalada da torre. Era um bello moço, de hombros largos e um tanto cheio de corpo, cabello ligeiramente aloirado, pelle clara e uns olhos castanhos sorridentes e um nada maliciosos, atravez dos quaes como que se lhe via a clara intelligencia e o vivo espirito.
Dissemos meia duzia de coisas vagas sobre a paisagem, sobre Coimbra, sobre os interessantes aspectos da velha Universidade, vista assim do alto, no conjuncto irregular dos seus corpos assymetricos. Facilmente nos descobrimos inclinações litterarias, citámos livros, fallámos de escriptores, de poetas… E, d'esse encontro fortuito, d'esse momento inolvidavel d'uma forte emoção de esthesia, partilhada por duas almas apenas sahidas da adolescencia, nasceu, entre mim e Antonio Feijó, uma amizade de irmãos, uma camaradagem de espirito, uma estreita communhão moral, que, sem sombras, nem collapsos, mesmo através de longos afastamentos, durou quarenta annos e só a Morte,— só ella, a implacavel ceifeira das minhas grandes amizades!—logrou cortar…
Pouco depois, já no decorrer do primeiro anno do seu curso, Feijó revelava-se um poeta á sua geração academica.
Lembro-me perfeitamente dos primeiros versos que, d'elle, li. Appareceram na Sebenta da cadeira de Direito Romano. As Sebentas, por esse tempo, juntavam, ás vezes, á utilidade das suas funcções pedagogicas, o innocente deleite d'uma ou d'outra perpetração litteraria, em que ensaiavam as azas aquelles, do Curso, a quem a Musa já provocava e seduzia…
Um condiscipulo nosso, o bom João Martins, de Redondo, havia, n'uma lição, estadeado uma vasta sabedoria, citando Ortolan com abundante facundia.
Dois dias depois, a Sebenta inseria, em appendice, este soneto anonymo:
Quando o Martins deita falla
Sobre o Foral de Leão,
Palpitam de commoção
Todos os cantos da sala.
Em saber ninguem o eguala!
Merece uma distincção
Quem refuta San Simão
E o positivismo abala;
Quem leva ao fundo chaótico
Do Codigo Wizigothico
A branca luz da manhã,
E, sendo um poço de sciencia,
Nos prova que, em descendencia,
É bisneto de Ortolan!
Esta leve boutade satyrica, d'uma factura correcta, bem versificada, bem rimada, revelando uma facil e fina veia humoristica, fez successo. O auctor escondera-se. Mas, dias depois, alguem o descobriu. Era Feijó.
Não tardou muito que o seu nome passasse a ser conhecido nas rodas litterarias de Coimbra. Já em Braga, onde fizera os preparatorios e onde então João Penha, esse perfeito versificador, doutor «a quem as Musas não fizeram mal», era venerado, e com justiça, como um mestre,—já em Braga Feijó havia publicado, nas secções litterarias dos jornaes da terra, algumas composições que denunciavam as suas notaveis disposições poeticas. Era mais um poeta que o norte do paiz mandava a esse Parnaso de Coimbra, onde, á falta d'uma Faculdade de Lettras, a doce paisagem, os melancholicos olivedos do Penedo da Saudade, o encanto do Mondego, com os seus pallidos renques de salgueiros, os seus laranjaes todos floridos e rescendentes nas noites de maio, com os seus orpheons de milhares de rouxinoes, com os seus luares de sonho que tudo espiritualisam, e, sobre isto, a tradição dos grandes poetas que, desde Camões e o bom Sá, por alli passaram, iniciavam as almas novas nas emoções do lyrismo, desde a graça bucolica do idylio ou da egloga á saudosa plangencia da elegia.
A geração academica, que, por esse tempo, floria em Coimbra, está, póde dizer-se, na derradeira phase da sua declinação, vae a apagar-se de todo no crepusculo do seu occaso. Talvez metade d'ella se tenha sumido já na voragem da morte. E, dos que restam, muitos viram já passada a sua hora, aquella em que a sua personalidade plenamente se revelou no campo de acção para onde as suas faculdades os levaram. A successão das gerações parece vertiginosa a quem observa a diluição d'aquella a que pertenceu nas sombras do tumulo ou no silencio do esquecimento…
E, comtudo, essa geração não foi inteiramente infecunda em individualidades de accentuado valor. D'ella sahiram homens publicos que longo tempo occuparam o tablado politico, homens de lettras que marcaram na vida litteraria do seu tempo, homens de sciencia, professores abalisados, causidicos illustres, artistas notaveis,—e até soldados heroicos e gloriosos, porque, entre os nomes dos que mais vieram a illustral-a, se conta o de Mousinho d'Albuquerque. Foi a geração que celebrou, entre magnificas festas litterarias e artisticas, o Centenario de Camões. Foi a geração que veio a exercer a sua influencia na vida nacional na passagem do seculo XIX para o seculo XX.
Seria uma diversão descabida e longa o tentar agora julgal-a nos seus merecimentos e defeitos, o procurar fixar as caracteristicas do seu espirito e criticar as suas idéas e a sua acção. Mas póde dizer-se que foi uma geração culta, uma geração activa sem impulsivos nervosismos revolucionarios, uma geração intellectualmente equilibrada e até disciplinada, uma geração que começou a romper com as formulas doutrinarias e a vêr com senso critico os problemas philosophicos, as questões politicas e as theses estheticas. D'isto lhe proveio, talvez, aquella pontasinha de scepticismo intellectual que, até certo ponto, lhe contaminou a vontade. Esta faculdade precisa do apoio da convicção e da fé para não fraquejar na suas funcções directivas da acção humana.
Litterariamente, ella produziu, sobretudo, poetas. Jayme de Magalhães Lima e Trindade Coelho foram dos seus poucos prosadores. O verso teve mais quem o cultivasse. E alguns d'esses cultores fizeram-n'o notavelmente, como Feijó, Coelho de Carvalho, Silva Gayo, Luiz Osorio, Queiroz Ribeiro, Alfredo da Cunha, para citar apenas os que persistiram no officio e, pela publicação das suas obras, se cathegorisam escriptores, por assim dizer, profissionaes.
Por esse tempo, as influencias dominantes estavam n'um momento de transição. Passava-se do romantismo grandiloquente e hyperbolico de Hugo, da apaixonada e vehemente sensibilidade de Musset, do satanismo artificial e elegante de Baudelaire para a arte plastica, esculptural e rutilante do parnasianismo, de que eram corypheus illustres Gautier, o parfait magicien ès lettres, Bainville, o virtuose do verso, o correcto e delicado Coppée, o solemne e marmoreo Leconte de Lisle, e Sully Prud'homme, e Dierx, e Heredia, o inimitavel cinzelador e esmaltador, cujos sonetos, ainda não colligidos nos esplendidos Trophées, nos appareciam, uma ou outra vez, nas revistas litterarias francezas.
Dos nossos, admirava-se, enthusiasticamente, João de Deus, Anthero,
Junqueiro, Gomes Leal e apreciava-se com deleite Penha e Gonçalves
Crespo,—todos esses que haviam sido os mestres das gerações anteriores.
O espirito de Feijó vasou-se n'estes moldes e reflectiu as phases d'essa evolução do gosto litterario. Mas, com o tempo, a sua individualidade caracterizou-se, marcou n'um forte relevo o seu perfil. A sua emoção avivou-se e afinou-se. A sua technica apurou-se, desenvolveu recursos excepcionaes. E assim se foi formando, de livro em livro, essa alta figura litteraria,—uma pura e nobre figura de artista, consciencioso até á meticulosidade no exercicio da sua arte, um mestre do verso e um mestre da lingua, que, na sua obra, pouco volumosa, mas de indiscutivel superioridade—pauca sed bona—deixou indelevelmente marcada a grandeza do seu talento.
III
Um mestre, sim! Elle foi-o, não só entre os da sua geração, mas tambem e mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correcção metrica, mais relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais riqueza de rimas, mais graça de rythmo, do que o poeta excellente do Cancioneiro Chinez, da Ilha dos Amores, do Sol de Inverno.
Nem durezas, nem frouxidões, nem hiatos, nem cacophatons, nem alliterações mal soantes, nem muletas, nem rimas forçadas, nem impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases feitas, como clichés sempre promptos para qualquer reproducção.
Já nas Transfigurações e nas Lyricas e Bucolicas, que são as suas juvenilia, esse poder e segurança de technica se haviam revelado. Mas foi no Cancioneiro Chinez que se affirmaram decisivamente. Feijó attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero saboreava essas pequenas composições, finamente desenhadas e coloridas como uma delicada pintura em porcelana ou um cloisonné ricamente esmaltado, commentando-as com um sobrio «É perfeito!»—que, em tal bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica.
Sobre as traducções em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstrucção que é o Cancioneiro, dando á poesia nacional um raro e magnifico exemplar da arte do verso.
Na Ilha dos Amores, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua arte firma-se e completa-se.
A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas «velhas canções d'amor» da Ilha, (onde ha uma lindissima Ignez, tão intensamente dolorida, e uma admiravel Lady D. João, d'um baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do Auto do meu affecto, tocadas da mais delicada graça, quer nas diversas poesias que formam a Alma triste, entre as quaes se encontram, nas mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte.
Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o seu anceio de perfeição plastica no verso, que elle nos formula n'estes soberbos alexandrinos:
Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados
No marmore d'um busto aureolado e sereno!
Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados
A graça e a proporção do sentimento helleno.
Revela-me num gesto os mais altos modelos
Do Verso lapidar, para n'elle esculpir
Com encantos de deusa e doirados cabellos,
Essa flôr de volupia a tremer e a sorrir!
Ensina-me em segredo o genio incomparavel
De poder transformar os versos que componho,
E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel,
N'um distico immortal, a visão do meu Sonho!
Basta o oiro do Sol para a côr dos cabellos;
Para os olhos azues basta o azul crystallino,
Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os
N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!…
Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo, onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades de versificador.
Nas Bailatas, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima, o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante, reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas Novas Bailatas, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico.
N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr.
Algumas d'essas poesias, como Sideria, Felina, Lithurgica e outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e sybillinas,—tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do mais fino e requintado acabamento artistico.
Até n'essas pochades em que elle desenfadadamente se comprazia, dando sahida á sua vis comica, se sentia a mão habil e maravilhosa do mestre.
IV
Mas Sol de Inverno é, sem duvida, a sua obra prima.
No frontespicio, por baixo do titulo,—na realidade bello, mas talvez suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou explicar,—o poeta traçou estas palavras: ultimos versos. E foram-n'o, de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,—o epitaphio da sua Musa,—exprimiam um presentimento fatidico.
Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa (como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia imminente.
É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente d'um meio-dia estival.
N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica esplendidamente. Está alli todo o seu coração, como está todo o seu pensamento,—porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia não nos dá sómente emoções, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos hymnos, póde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feijó ala-se ás regiões mais altas da poesia, áquellas que só attingem os grandes espiritos. São odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde a sua alma se abre toda na adoração da Vida, da Belleza e da Alegria, se contorce nos transes da Dôr, se embebe na melancholia da Solidão ou se abysma na meditação hamletica da Morte.
De todas as peças d'este hymnario, a ultima é talvez a maior, a mais profunda. E encerra uma exegése da morte subtilmente verdadeira. A sensação e a dôr da morte não estão no phenomeno da morte physica, em si, no termo da nossa vida material. Estão na lenta morte moral do nosso coração, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaços vivos da nossa alma.
Toda essa ideia está admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas quadras.
Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!…
A morte que, sem dó, me tortura e suffoca,
É outra—essa que em nós cava sulcos de dores.
Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas affeições,
E deixando-nos sós, lentamente nos mata
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer… O horror
Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.
Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,
—Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
Esta poesia, que Feijó, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para Londres, onde então eu residia, fôra-lhe inspirada pela morte recente d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a consagrou, como se vê do distico votivo que a precede: Meorum amicorumque pie manibus.
Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem, n'elle, como em muitas outras composições do Sol de Inverno, um formal desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente, essa torturada e angustiada Supplica ao Vento, de que transborda toda a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando, tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.
Já, na Alma Triste, essa incuravel nostalgia transparece em algumas poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um leit-motiv favorito. Domingo em terra alheia, Soliloquio do Outomno, No mez de Abril, Silencio, No campo, Inverno, ressumam as melancholias d'um espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.
Ouçamos as lindas quadras finaes do Inverno, onde esse sentimento tão docemente se exprime:
Nasci á beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo crystal;
D'ahi a angustia que me victima,
D'ahi deriva todo o meu mal.
É que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.
São aguas claras sempre cantando,
Verdes collinas, alvôr d'areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua-cheia…
É funda a mágoa que me exaspéra,
Negra a saudade que me devora…
Annos inteiros sem primavera,
Manhãs escuras sem luz d'aurora!
Oh meus amigos, quando eu morrer,
Levae meu corpo despedaçado,
Para que eu possa, já sem soffrer,
Dormir na Morte mais descansado!
V
A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos portuguezes.
Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,—Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de mestre Theo: Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait. Mas o que elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico, na mais ampla plenitude da designação.
Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da galanteria,—são a substancia psychica da sua poesia.
Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas, tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.
Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia ser um poeta popular. O seu publico, de conhecedores e dilettanti da arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a todos os secretos manejos de notoriedade banal.
Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo. Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma qualquer camelotte, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular com abundancia.
Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.
VI
A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um occasional desvio de destino.
Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu, porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver mundo… por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios proprios. Pensára em ser consul.
A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,—talvez ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação.
Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos serviços diplomaticos.
Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a apodrecer»—escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado, inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto, a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados encargos e mais arduos trabalhos—e doía-se de se não ver utilisado. O seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura.
Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade; tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola—o bom-senso.
Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.
E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros. A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que contava uma anedocta, o humour ligeiro, e levemente malicioso ás vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a expansiva jovialidade do seu forte temperamento—faziam d'elle um cavaqueador irresistivelmente atrahente.
Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre, um dyonisiaco, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista, gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica. Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas, devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua ascendencia, do que do d'esse Feijóo escudeiro, do tumulo de Celanova, bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro, a quem o poeta consagra a poesia final da Alma triste.
O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a joie de vivre. Junqueiro chamava-lhe, então, o opiparo Feijó…
VII
Mas um dia, um grande infortunio,—a viuvez inconsolavel, o seu pobre lar em ruinas,—devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes que tanto o torturavam e entristeciam,—a elle, filho d'estas bemditas terras do Sul!…
O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.
Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel torrão de Portugal!
N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.
Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito, immobilisado para sempre!
E de novo ao sahir d'esta angustia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente
Arde a chamma em que toda a escoria se depura.
É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida,
—Borboleta celeste, ebria de Deus—se eleva
Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.
Assim deve ter sido a sua—uma transição insensivel, uma serena Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura, sempre voltada para o Amor e para a Vida!
Luiz de Magalhães.
ANTONIO FEIJÓ, O QUE MORREU DE AMOR
(Lido na Academia Brasileira, sessão de 28 de Junho de 1917)
A Morte astuciosa—ou caridosa?—antes de apoderar-se finalmente da nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa hospedagem. Cada coração, que só carinhos e affectos alojava, eis que um dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe cumpre fazer companheira de casa. E o espaço, a principio exiguo, que ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes ocupe o logar. Vão faltando os parentes, vão morrendo os amigos, um a um, em periodos cada vez menos espaçados. Começamos, ao romper da vida, crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se limita, se estreita, até n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a nossa hora chega, já não é senão um fragmento ultimo e minimo da vida que abandonamos á Morte. O coração, a que ella faz parar a fatigada corda, estava tão atravancado de cadaveres que já não podia bater livremente.
Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e já não são os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que nada e ninguem mais preencherão, na calma felicidade dos meus dias. Em 1915 foi Ramalho Ortigão, esse ao menos depois de uma longa e bem aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno, morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feijó, a mulher querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e um mezes exactos depois da desgraça a que não conseguiu mais resignar-se, é António Feijó que morre por sua vez, que morre de amor e de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida.
Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu para sempre
Deitada no caixão estreito,
Pallida e loira, muito loira e fria,
aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o commovedor necrologio.
Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos. Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor, tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz, alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que, por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol equatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e graciosa capital sueca.
O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr, sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez—formas terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero—que o seu lucto não era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez para escapar-lhes.
Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio.
Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa. Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte, datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher, que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa amarga correspondencia:
18 de julho de 1914: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas, porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas… este mas é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A Imitação de Christo, que eu leio assiduamente, diz que à chaque jour suffit sa peine; mas eu estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que Deus só concede aos eleitos.»
Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção intima. Em 23 de outubro escreve-me:
«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita, mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha, são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam, todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.»
A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo: «Sinto-me num estado de espirito tão desolado e abatido que nem posso conversar á vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova poussée do antigo mal. Trago o coração em sobresaltos.»
Abre-se, então, um longo silencio, que as minhas cartas não conseguem quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo ás minhas instancias, vêem duas palavras pelo telegrapho: «Mercedes sempre doente. Estou desolado.» E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes noticias: «Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não escrevo a ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que padecem são sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos mezes que a vida é para mim um suplicio, e sem esperança de lhe ver um termo. Deus sabe o que terá succedido quando esta carta lhe chegar ás mãos!»
Com effeito. A previsão não falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que eu embarcava para a Europa, que me chegou ás mãos um telegramma de Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: «Tout est fini». A censura de guerra não os deixára transmittir na nossa lingua; mas nem assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este desgosto, não podendo crêr que uma tão luminosa e formosa mocidade se pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim tão contagiosa, não se me communicou desta vez. Fiz uma travessia melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigão, a quem eu queria como a um avô, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos.
Não sei, nem agora me importa saber, se é monotona a descripção de uma dôr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona será, mas ai de quem lhe não sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua mulher, as raras cartas de Antonio Feijó são um lamento continuo, cuja leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se que o viver assim já não tem de viver senão o nome, e verifica-se uma vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da fé, a vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes, é coisa nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para não a copiar toda: «Se um dia nos encontrarmos—do que duvido—então lhe contarei o que foi o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida, vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e alimentar-lhe a esperança da cura, que nunca, felizmente, a abandonou. Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. Não tenho forças para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer resolução. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, são 24 horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo é inutil.»
Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado desesperado da sua dôr. Vive como um somnambulo, não sabendo distrair-se senão com a recordação do passado. «É só,—escreve-me,—e a remexer na minha memoria attribulada, que as horas me passam menos atormentadoramente.» Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle objecta: «Ir a Portugal agora é absolutamente impossivel, e essa viagem não serviria senão para aggravar o meu soffrimento. Não ha sitio nenhum por ahi, nem casa amiga, que me não desperte recordações e saudades pungentes.» Fala-me, além disso, da educação dos filhos, que não deseja perturbar, e vê-se que procura nelles a razão de viver, que a dôr destruiu. Mas não o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de 60 annos, casado e sem filhos, tão grande admirador de Dona Mercedes, que pensou sériamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a fortuna. Feijó sabe o telegramma de cór e transcreve-m'o no original sueco e em traducção. É assim, e parece, na verdade, como elle me dizia, um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: «Receba expressão da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu. Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido é uma ventura que nunca ninguem poderá esquecer.»
Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que não annunciam melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleição para a Academia Brasileira, «pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi votada.» Feijó era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de offerecer algum conforto á angustia que soffria. E esse terno pensamento commoveu-o. Mas a Dôr era sempre a sua nova companheira: «Vou vivendo, com a minha tristeza e a minha saudade. Vou vivendo não é a expressão justa. Deixo-me viver conforme Deus quer, é mais exacto.» Distrai-se relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro: «É a leitura dessas cartas, como já lhe disse, a minha unica distracção. Quando ellas acabarem, não sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na receita de Goethe, puzesse a sua dôr em poemas) é-me absolutamente impossivel. Estas dores não cabem dentro de moldes litterarios. Quem attende ao concerto do que diz não sente o que diz, sentenciava um velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram. É bem possivel que não torne a escrever mais uma linha. Pena, que póde explicar-se, perto está de não sentir-se, como diz o mesmo frade, alludindo a circumstancias identicas.»
Carta em 3 de abril: «Não tenho forças para nada. Escrever uma carta é como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo não me tem curado. Dá-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta. (Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo se vai afastando de mim, cada vez mais.»
Nova carta, em 10 de julho: «A minha cabeça, como a minha alma, andam profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais só, cada vez mais desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estação em que a minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e pittoresco, ou em excursões pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia. Não imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus infeliz. Para evitar recordações, a que não poderia resistir, lembrei-me de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo, acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. Não posso viver só. Amanhã vou partir, não sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a Laponia, para alguma terra onde não encontre lembranças do passado. Perdoe este desabafo. Na verdade, não ha outra coisa a fazer senão a gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca, é preciso viver. Mas, o peior, é que não encontro nada que me interesse ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me ás vezes, agora, estultas frivolidades.»
Escreve-me, em 6 de setembro: «Contava ir este verão a Lisboa, mas esta guerra, que ameaça de se tornar chronica, obrigou-me a pôr de parte os meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas, numa excursão pela provincia, mas o passeio não me serviu de consolação. Era a primeira vez, após 15 annos, que viajava só. Tão angustiado me sentia nos vagões do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolação que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha mandado para o campo. De maneira que estive aqui só, completamente só, desde julho até hontem, porque só hontem elles regressaram. Este mez é para mim todo cheio de terriveis recordações. Fez, no dia 4, um anno que regressei do campo com a minha querida doente. Não imagina quanto essa viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o medico, a garde-malade e uma cunhada minha. Trazia já a impressão de que era o ultimo passeio que dava com Ella… E, n'esse estado de espirito, se foram passando os dias até á morte, no dia 21 do corrente. Na vespera esteve todo o dia ali, naquela chaise-longue, com o sorriso e o bom humor de sempre. E lá está, ha quasi um anno, na capela do cemiterio catholico, tambem á espera que a guerra acabe, para ser transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feijó e que elle adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. Não me consolo, querido amigo. Toda a dôr contém, em essencia, o esquecimento. Mas eu não quero esquecer. Os mortos não morrem completamente emquanto a gente se lembra delles. E eu não quero que Ella morra emquanto eu andar neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraçados são sempre ridiculos. Mas V. não é para mim um estranho, e, diante dos outros ninguem é capaz de ler o que me vai na alma, através da minha serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos do meu coração.»
Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no primeiro anniversario do seu lucto. E continúa: «A 21, foi o primeiro anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do nosso casamento em 1900; hoje, é o anniversario do enterro. Imagine o estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe não escrevo mais. Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas não me consola; socega-me, ás vezes, por intervallos, mas o retour da memoria é sempre inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua falta se me afigura maior.»
Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente envelhecido. «Contemple essa ruina, accrescenta. Não imagine, porém, que foi só a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no esboroamento da minha velha carcassa.» Espera ir no verão a Lisboa. Deseja encontrar-se commigo: «Parece que já estamos separados pelo outro mundo.» Dá-me as boas festas de Natal e Anno Novo: «Como para mim não ha festas, e faço tudo para não me aperceber do que este periodo do anno significa para o meu coração attribulado, ia-me esquecendo de cumprir este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graça e de mysterio, em que um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio a não devastou. Lembre-se de mim!» E na noite de Natal volta a escrever-me, dizendo-me que se fechou só no seu gabinete, com os seus pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras…
Emfim, tem a data de 21 de março de 1917, dezoito mezes justos depois da morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: «Estamos tão longe um do outro, sinto-o tão distante de mim, que parece que já estamos separados pelo outro mundo», repete elle, como quem adivinha. Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica sueca, dando-me informações interessantissimas. Recomeçou a fazer versos, mas não os que desejava. Só lhe saem da penna bailatas, versos de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. Não o consolam. E a doença de alma, a verdadeira, não cessa de minal-o: «Faz hoje anno e meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece que foi hontem. Não ha esforços que consigam afastar o meu pensamento dessa hora terrivel. Não é o desespero dos primeiros tempos; mas é uma saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me. Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas mudadas!»
Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes que me deu o golpe, apesar de tudo não esperado, da morte de Antonio Feijó. Elle era um homem robusto e ainda são, tinha apenas 55 annos, e eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educação dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce saudade a sua dôr dilacerante. Feijó não se estava deixando viver, como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor incuravel, o amor de perdição tão caracterisadamente portuguez, o amor da nossa raça e tradição matou-o como a mais fatal das doenças physicas. Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que só recebi hontem, como que me chega de além-tumulo. E como me doe o coração e se me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias com o meu silencio, de que só a falta de communicações era culpada, e te inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de tantas almas que se affeiçoaram á minha, mas quanto me pesam, e me desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que começam a povoal-a! Feijó, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim Áquella sem cuja companhia desaprendera de viver. Deus lhe haverá concedido todas as bem-aventuranças, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este valle de lagrimas.
Não peço perdão a quem me haja lido ou ouvido, do espaço que consagrei a este romance vivido e sincero, tão digno de ser sentido e meditado por cabeças e corações ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria do alto poeta do Cancioneiro chinez e da Ilha dos Amores, que eu me haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus versos, e que a sua vida me pareça, como a de todos os seres de eleição, mais bella ainda que a sua obra. Mas não me despeço de versar um dia esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feijó figurará sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expressão. O nome de um Feijó illustrou já a historia do Brasil na pessoa do Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e até se parecia com elle no porte da cabeça profundamente encravada entre os hombros. Hoje então são as nossas Letras irmãs que registram, em caracteres indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome.
Ainda uma justificação para esta longa pagina de memorias. Ha muitas pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os transportes do Amor e da Paixão incompativeis com a regra e o pacto do casamento, e que não são capazes de exprimir a poesia, de que as suas almas transbordam, senão em versos errados. Longe de mim o intuito de contradizel-as. Mas não ha mal em que aqui lhes offereça este espelho de casados, no qual poderá remirar-se, ao menos uma vez por outra, a sua perfeição.
Alberto d'Oliveira.
Dans quelques instants de loisir, j'ai fait des vers inutiles; on les lira peut-être, mais on ne retirera aucune leçon pour nos temps…
C.^{te} Alfred de Vigny.
Le vers est une création mystérieuse dont l'habitude seule nos empêche de nous étonner.
Ernest Hello.
[Figura: D. Mercedes de Castro Feijó]
A MINHA MULHER
Romam tu mihi sola facis.
MART. LIV. XII. EPIGR. XIX.
Folhas mortas d'outono ou d'inverno precoce,
No teu regaço amigo, estes versos deponho,
Para que o teu amor lhes dê vida e remoce,
Porque a Arte começa e acaba num sonho…
É pouco; mas eu torno a homenagem mais bella,
Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma,
O verso em que Martial diz á Esposa Marcella:
Tu, tu só, para mim, vales mais do que Roma!
ELEGIA DE ABERTURA
Elegia d'abertura
_A minha Lyra tinha uma corda: Emquanto môço tanto cantei, Que a pobre corda despedacei.
Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar.
Era uma corda que só vibrava
Quando a minh'alma toda chorava,
E tantas mágoas, tantas, cantei,
Que a pobre corda despedacei.
O Amor e as penas da Mocidade,
Chimera ou Sonho de cada dia,
Eram os themas que ella escolhia.
Porém um dia veio a Saudade,
D'olhos vidrados e humedecidos,
Poisar-lhe os dedos emmagrecidos…
Então, vibrando, toda chorosa,
Sob esses dedos, brancos de cera,
Mais angustiada nunca gemera!
E uma alma nova tão dolorosa,
Com tanta mágoa nella ressôa,
Que um ai supremo despedaçou-a!
Desde esse instante, nas minhas penas,
Sem essa corda que me sustinha,
—Pobre Saudade! chora sósinha…
Manhãs d'estio, tardes serenas,
Occasos d'oiro, nocturno ceu,
Para os meus olhos, tudo morreu!
Mas a Saudade, no meu tormento,
Geme e soluça com tanta mágoa,
Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água,
E sem um grito, sem um lamento,
Minh'alma vive na dor que a enleia,
Como uma aranha na sua teia…
A minha Lyra tinha uma corda:
Emquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.
Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguem a corda pode emendar…
A Mocidade não pensa em nada,
E a pobre corda vi-a quebrada
Quando tocava mais afinada…
A Mocidade não pensa em nada_!
I
DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO
A João Arroyo
Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket og Skriget strömme ud over dem, lyde de som en skjöne Musik.
Kirkegaard.
DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO
Quando moço, cantei, mas em formas discretas
Que nunca o meu segredo ousassem revelar,
Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas
Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.
Feliz, o Amor… nem mesmo ephémero sorriso
Deixou nessas canções memoria do seu rastro;
Desditoso, ficou como um luar indeciso,
Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.
A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,
—O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume—
Ennublou muita vez os meus olhos magoados,
Mas se ao labio acudia, era apenas queixume…
Éstos do coração, sobresàltos do instincto,
—Amor ideal, vehemente impulso do desejo,—
Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,
No meu verso expirar, como um simples arpejo.
Se a angustia me opprimia em continua tortura,
Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,
Como alguem que a si proprio illudir-se procura,
Precisando de ouvir a minha voz—cantava!
Echo do meu soffrer, de tão fundo partia,
Que deixando ao passar todo o amargo travor,
Essa voz, rara vez, murmurando trahia
O secreto pungir da primitiva dor.
Mas de cada palavra ou gesto contrafeito
Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca
Os lamentos e os ais suffocados no peito,
Todos os gritos vãos que morreram na boca!
No escrinio da Canção as lagrimas vertidas,
Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma,
Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,
A tremer no cristal transparente da Fórma.
Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;
Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza;
A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste,
Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.
Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio
Da phrase que a primor o artista cinzelou,
Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,
O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.
A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos;
Muda em graça verbal todo o grito pungente;
—Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,
Que a um sopro vão partir da pupilla dormente…
Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,
Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo…
—Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento
Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!
D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,
Se em imagens procura o artista convertê-las,
Espinhos entrelaça em grinaldas de flores,
E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.
Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel,
O espirito banal, nunca pode sentir,
A mágoa que por trás da palavra insensivel,
Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!
Só almas d'eleição commungam no mysterio
Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,
Como á flor que sorri num chão de cemiterio,
O amargo coração que se desfaz na cova.
Só ellas, através d'um molde tão restricto
Como esse em que a palavra as emoções fixou,
Alcançam entrever não sei quê d'infinito
No minuto de sonho em que a Dor se embalou…
A ARMADURA
Ao Dr. Góran Björkman
A ARMADURA
Desenganos, traições, combates, soffrimentos,
Numa vida já longa accumulados, vão
—Como sobre um paúl continuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.
E a cinza com o tempo attinge uma espessura,
Que nem os mais crueis desesperos abalam;
É como tenebrosa, impavida armadura
Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.
Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava,
Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados;
Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava
Que nesse duro arnez se não faça em bocados.
E no entanto, através d'essas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as junctas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o coração verteu d'alguma chaga obscura…
A CIDADE DO SONHO
Ao Visconde de Pindella
A CIDADE DO SONHO
Soffres e choras? Vem commigo! Vou mostrar-te
O caminho que leva á Cidade do Sonho…
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o ingreme trajecto é florido e risonho.
Vae por entre rosaes, sinuoso e macio,
Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
Se o teu animo soffre amarguras na vida,
Deves emprehender essa jornada louca;
O Sonho é para nós a Terra Promettida:
Em beijos o maná chove na nossa boca…
Vistos d'essa eminencia, o mundo e as suas sombras,
Tingem-se no esplendor d'um perpetuo arrebol;
O mais esteril chão tapeta-se de alfombras,
Não ha nuvens no ceu, nunca se põe o sol.
Nella mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jámais nos é dado sentir…
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A propria Dor começa a cantar e a sorrir!
Que importa o despertar? Esse instante divino
Como recordação indelevel persiste;
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe…
BEATITUDE AMARGA
A Silva Ramos, da Academia Brasileira
BEATITUDE AMARGA
Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos
E imagino que estou sentado á beira mar:
Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos,
Naufragios, temporais, mar de leite e de luar…
Medroso, o coração tenta fugir, mas treme:
O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente,
Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente.
Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
E sinto uma impressão d'angustia e de pesar,
—Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma—
Por suppor que partiu para não mais voltar!
Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida,
Com o vago terror e o pensamento incerto
Do naufrago que á praia ainda chegou com vida.
CASTELLO BÁRBARO
A Josè d'Azevedo Castello Branco
CASTELLO BÁRBARO
Um a um sobrepondo os tormentos mais altos,
Da minha propria dor fiz uma Fortaleza,
Que podesse afrontar tempestades e assaltos,
Imponente de rude e bárbara grandeza.
Desde então, sem receio, a tudo invulneravel,
Depondo na panóplia o escudo e as armas rôtas,
Vivo occulto no meu torreão inexpugnavel,
Recompondo em annaes combates e derrotas.
Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia;
Nenhum desejo vão escala essas alturas,
Onde, antigas visões, andam como em demencia
Do passado a evocar saudades e amarguras.
Comtudo, alguma vez, se uma illusão funesta
Um echo juvenil faz em mim despertar,
Como som matinal de campanário em festa
Que no meu coração vem de longe vibrar,
Então,—luz sem egual que tudo em tôrno abrasa—
A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta,
—Raio de sol suspenso a tremer numa asa
Que um instante pairou sobranceira á tormenta.
E atrás d'essa chimera ou sonho allucinante,
Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado,
Como o condor lançando o vôo fulminante
Á presa que entreviu do píncaro escarpado.
Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga,
E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue,
Mais uma nova dor, mais uma nova chaga,
Rutilante de vivo e generoso sangue.
E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida,
Sem sobresaltos vejo os meus dias correr,
De saudades velando o entardecer da Vida,
Que o ter-se sido môço é a dor do envelhecer.
Mas occulto no meu solitário reducto,
Ao abrigo de toda a investida ou traição,
Se de fóra não vêm tempestades nem lucto,
O meu proprio soffrer enche o meu coração.
E assim, na sua noite o espirito submerso,
Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte,
Vou, com o pensamento em mil vôos disperso,
De saudade em saudade alargando o horizonte.
E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma,
Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol…
Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma,
A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol!
Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem,
Projectados ao longe, os tormentos e as dores
Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem,
Como ruinas de sonho em que brotaram flores…
Ruinas que uma luz tão serena illumina
Como se as envolvesse um luar de esquecimento;
E é tão doce a illusão, que nessa hora divina,
Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!…
A AGUIA PRISIONEIRA
A Manoel da Silva Gayo
A AGUIA PRISIONEIRA
Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo,
Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,
Da jaula hedionda a férrea porta escancarou…
A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava
Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra,
Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava,
Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.
Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,
Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia,
Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas,
Sem poder dissipar a treva que a rodeia.
E tão alto subiu no seu vôo desfeito,
Que de repente, não podendo respirar,
Sentiu que lhe estalava o coração no peito,
E veio aos pés do escravo exanime rolar…
Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,
Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,
Quando julga atingir a suprema verdade,
No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!
A SELVA ESCURA
A João Chagas
A SELVA ESCURA
Perdi-me no caminho solitario
D'uma floresta immensa e fria…
Medrosa ainda, a Noite lívida descia,
E o clarão do luar, como um pranto mortuário,
Pelas folhas das árvores corria.
No silencio da Noite, o silencio da Selva
Enchia-se de vozes enigmáticas…
E os meus pés vacillavam sobre a relva,
Entre as sombras das árvores extácticas.
Numa clareira funda, aguas dormentes,
Como um lago lunar, tremeluziam
Nas lágrimas de luz, altas e ardentes
Que das estrellas pálidas caíam.
Nem ruido de mar, folhas ou vento…
O mystério, porém, da Noite e da Floresta
Enchia de terror meu pensamento,
Como um sopro boreal que me gelava a testa.
Não sei se era visão, filha do Mêdo,
Se verdadeira apparição nocturna;
Mas da sombra profunda do arvoredo,
Que o luar tornava muito mais soturna,
Vinham surgindo mysteriosamente
Phantasmas espectraes que eu distinguia
Através do sudário transparente
Como o primeiro alvorecer do dia…
E por deante de mim todos passavam,
E olhavam-me e choravam…
De mágoa ou compaixão,—não sei dizê-lo;
Mas tudo o que aos meus olhos evocavam
Parecia-me um longo pesadelo…
Eram os Sonhos, as Chimeras mortas
Na minha morta Phantasia,
Que do vasto sepulcro abrindo as portas,
Passavam nessa funebre theoria…
Projectos, Intenções, Ideias, Planos,
—Illusões d'um passado esquecido e desfeito,
Na areia que rolou da ampulheta dos annos
E que um vento de morte espalhou no meu peito.
Era a Noiva feudal esquecida a scismar
Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,
Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar,
Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!
Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,
Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,
E tu, Willi immortal das florestas sagradas,
Loira d'olhos azues, como duas estrellas!
Era a Glória, mas já sem a tuba estridente,
Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar;
Era a Ambição, captiva a sua asa fremente,
Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar.
Era o Orgulho… o Poder… a Riqueza… loucuras,
Chimeras juvenis do meu abril risonho,
Borboletas azues, larvas escuras
Que deslisaram no meu sonho…
Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos,
Por deante de mim, lentas, passavam…
E olhavam-me e choravam,
Como espectros de longos desenganos
Que os meus olhos das trevas evocavam…
E olhavam-me e choravam,
Sumindo-se nas sombras da floresta,
Aos primeiros clarões da madrugada
Como um rumor de festa,
Despertavam, partindo em revoada,
As aves a cantar. O sol rompia
E as derradeiras névoas dissipava…
Tudo cantava e ria!
Só eu chorava… só eu chorava…
Só no meu coração não despontava o dia.
Só eu chorava… só eu chorava…
Só eu soffria…
O LIVRO DA VIDA
A Antonio de Cardiellos
O LIVRO DA VIDA
Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia…
—Lia o «Livro da Vida»,—herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.
Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.
Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;
E elle sempre,—inclinada a dorida cabeça,—
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espirito esclareça!
Cada pagina abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Elle tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.
Mas o tempo caminha; os annos vão correndo;
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão…
E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.
Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,
Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!
Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que illuminou todo o caminho andado…
Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas,
Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento,
—Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.
Mas então, lamentando o seu esteril zêlo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou…
II
DYPTICO
EU E TU
DYPTICO
I
M. ***
Perguntas d'onde vem a timidez estranha,
Este quasi terror com que te fallo e escuto,
Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.
Ignoras a razão d'este absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
—Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é signal de coração ardente.
E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
—Se passas como um sol de planetas cercado—
Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!
Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho…
Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.
E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma intima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.
II
EU E TU
Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como
Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,—em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia…
Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva
—O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva—
Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!
Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece,
—Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo,
Como partes d'um todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflamma,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma…
PALADINOS
A Senhora Condessa d'Arnoso
PALADINOS
I
CONDE D'ARNOSO, JOÃO
Como um dos seus avós, em justas e em torneios
—Paes d'Abranches, que foi dos Doze d'Inglaterra—
Com uma ancia de gloria, em altos devaneios,
Corre o mundo, de mar em mar, de terra em terra.
Não leva escudo, o moço illustre, nem couraça,
Que o tempo é vil; mas como arnez de paladino,
Leva a honra e o valor de toda a sua raça,
—Grande exemplo a apontar-lhe o mais nobre destino!
Mão na espada, a entrever combates, a alma pura,
Já bello, d'essa estranha e amarga formosura
Que o fim proximo imprime aos vencidos da Sorte,
Vae na tolda a sonhar,—sonho feito em pedaços!
—Paes d'Abranches voltou com a noiva nos braços,
Elle… voltou tambem, mas nos braços da Morte!
II
CONDE D'ARNOSO, BERNARDO
Este nunca buscou, na lucta ingloria,—fama
Ou proveito. A Ambição, mesmo a mais alta e pura,
Nunca o cegou. Jamais uma ephemera chamma
De orgulho vão tremeu na sua nobre figura!
Foi cortesão; mas da Honra e do Dever escravo.
Nunca esgar de lisonja o seu lábio manchou;
E entre vis defecções, elle só, como um bravo,
Luctou, soffreu, mas nunca o Mestre renegou!
Alma de Campeador! Num disfarce mundano,
Nunca ninguem sonhou coração mais humano,
Mais terno, e ao mesmo tempo, altivo coração!
Ultimo Cavalleiro, á hora em que morria,
No Pantheon Real, da lampada que ardia
Extinguiu-se de todo o ultimo clarão…
CABELLOS BRANCOS
A D. Thomás de Mello Breyner
CABELLOS BRANCOS
Não repares na cor dos meus cabellos
Sem ler primeiro Anacreonte;
Verás que os sonhos juvenis, mais bellos,
Tambem se evolam d'enrugada fronte.
O espirito do Poeta é sempre moço;
O Coração nunca envelhece…
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nelle se illumina e aquece.
Deusas d'eterna graça adolescente,
Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.
Fina e fragil vergontea melindrosa,
Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moça e de formosa,
Nos braços de Booz dorme encantada.
Quantas flores d'inédita fragrancia
Em mãos provectas vão abrindo…
Abisag, ao sair quasi da infancia,
No leito de David entrou sorrindo.
E d'esse beijo, inverno e primavera,
D'esse connubio, oh maravilha!
Como se a ruina fecundasse a hera,
Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.
Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,
Quem as lembrara, se deixassem
Que mãos obscuras, mercenários dedos,
A velhice d'Horacio engrinaldassem?
Quantos nomes illustres! quantos casos!
Mas que direi mais eloquente?
Não ha dias tão pallidos, e occasos
Como explosões d'uma cratera ardente?