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Nacional de Portugal).)

Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141, rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire de o «Só», pour le Portugal.

L.V.

ANTONIO NOBRE

PARIS

LÉON VANIER, ÉDITEUR
19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

1892

Tous Droits Réservés

MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

Aquelle que partiu no brigue Boa Nova,
E na barca Oliveira, annos depois, voltou;
Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
Mas ella disse:—«Vou, alli adiante, à Cova,
Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

*Antonio*

Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!

Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
Á beira-mar.

Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
Contavas-me historias:
Assim… desenterro, do val do passado,
As minhas Memorias.

Sou neto de Navegadores,
Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:

E o vento mia! e o vento mia!
Que irà no mar!

Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distancia!
Vizões enterradas no adro da Igreja,
Branquinha, da Infancia…

Que noite! ó minha Irmã Maria,
Accende um cyrio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto mar…

Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
«Meu lindo menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!»

Ao mundo vim, em terça-feira,
Um sino ouvia-se dobrar!

E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com elle no peito,
Com elle crescia…)

Vim a subir pela ladeira
E, n'uma certa terça-feira,
Estive jà p'ra me matar…

Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
A Esponja do Fel

Ides gelar, agoas dos montes!
Ides gelar!

A Tia Delphina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura…
E sou desgraçado!

Agoas do rio! agoas das fontes!
Cantigas d'agoa pelos monles,
Que sois como amas a cantar…

E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de cor!

Passam na rua os estudantes
A vadrulhar…

E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mail-os francezes,
Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
Levava-me, ás vezes.

Assim como elles era eu d'antes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixae o Poeta trabalhar…

Santinho como ia, santinho voltava:
Peccados? Nem um!
E a instancias do padre dizia (e chorava):
«Não tenho nenhum…»

Ó Job, coberto de gangrenas,
Meu avatar!

As noites, rezava (e rezo ainda agora)
Ao pé da lareira.
(A chuva gemente caia lá fóra,
Fervia a chaleira…)

Conservo as mesmas tuas penas,
Mais tuas chagas e gangrenas,
Que não me farto de coçar!

—Que Deus se amercie das almas do Inferno!
—Amen! Oxalá…
E o moço rosnava, tranzido de inverno:
—Que bom lá está!

E a neve cae, como farinha,
Là d'esse moinho a moer, no Ar:

O sino da Igreja tocava, á tardinha:
Que tristes seus dobres!
Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
O caldo dos pobres…

Ó bom Moleiro, cautellinha!
Não desperdices a farinha
Que tanto custa a germinar…

Ó velhas criadas! na roca fiando,
Nos lentos serões…
Corujas piando, Farrusca ladrando
Com medo aos ladrões!

Andaes, à neve, sem sapatos,
Vos que nâo tendes que calçar!

O Zé do Telhado morara, alli perto:
A triste viuva
A nossa caza ia pedir, era certo,
Em noites de chuva…

Corpos au léu, vesti meus fatos!
Pés nus! levae esses sapatos…
Basta-me um par.

Ó feira das uvas! em tardes de calma…
(O tempo voou!)
Pediam-me os pobres «esmola pela alma
Que Deus lhe levou!»

Quando eu morrer, hirto da magoa.
Deitem-me ao mar!

E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
Mostrando a gangrena!
E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
Que eu tinha mais pena…

Irei indo de fragua, em fragua,
Até que, emfim, desfeito em agoa,
Hei-de fazer parte do mar!

Chegou uma carta tarjada: a estampilha
Bastou-me enxergar…
Coitados d'aquelles que perdem a filha,
Tão longe do lar!

No Panthéon, tragico, o sino
Dà meia-noite, devagar:

Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
Entre herva sedenta…
Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
Luar, agoa-benta…

É o Victor, outra vez menino,
A compor um alexandrino,
Pelos seus dedos a contar!

Ao dar meia-noite no cuco da sala,
Batiam: «Truz! truz!»
E o Avô que dormia, quietinho na valla,
Entrava, Jezus!

Que olhos tristes tem meu vizinho!
Ve-me comer e poe-se a ougar:

Nas sachas de Junho, ninguem se batia
Com nosso cazeiro:
Que espanto, pudéra! se da freguezia
Elle era o coveiro…

Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
Que eu dou-te um copo d'este vinho
E metade do meu jantar.

Morria o mais velho dos nossos criados,
Que pena! que dó!
Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
Á alminha da Avó…

Bairro-Latino! dorme um pouco!
Faze, meu Deus, por socegar…

Ó banzas dos rios, gemendo descantes
E fados do mundo!
Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
Com eiras no fundo!…

Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
Ó boulevard!

Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
Como astros no céu:
E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
O roto chapéu…

Boas almas, vinde ao meu seio!
Espiritos errantes no Ar!

Ó lua encantada no fundo do poço,
Moirinha da magoa!
O balde descia, chymeras de moço!
Trazia só agoa…

Sou médio: evoco-os, noite em meio,
Vos não acreditaes, eu sei-o…
Deixal-o não acreditar.

Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
Escriptos na cal:
Cantavam Aquella que é a roza mais linda
Que tem Portugal!

Se eu vos podesse dar a vista,
Ceguinhos que ides a tactear…

A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
Bailados na terra…
Luar é caleiro que, pallido, caia
Ermidas da serra…

Quanto essa sorte me contrista!
Mas ah! mais vale não ter vista,
Que um mundo d'estes ter d'olhar.

O conde de Furnas sabia o Horacio,
Tin-tin, por tin-tin!
E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
Licção de latim.

A Morte, agora, é a minha ama…
Que bem que sabe acalentar!

E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
N'essa hora da vida!
Uzava uma bluza, que linda que era!
E trança comprida…

Á noite, quando estou na cama:
«Nana, nana! Que a tua ama
Vem jà, não tarda! foi cavar…»

Os outros rapazes furtavam os ninhos
Com ovos a abrir;
Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
Deixava-os fugir…

Camões! ó lua do mar-bravo!
Vem-me ajudar…

Os prezos, ás grades da triste cadeia,
Olhavam-me em face!
E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
Pedir que os soltasse…

Tenho o nome do teu escravo;
Em nome d'elle e do mar-bravo,
Vem-me ajudar!

E quando um malvado moia a chibata
Um filho, ou assim,
Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
Bata antes em mim…»

E o vento geme! e o vento geme!
Que irà no mar!

E quando dobrava na terra algum sino
Por velho, ou donzella,
A meu Pae rogavam «deixasse o menino
Pegar a uma vela…»

Lobos d'agoa, que ides ao leme,
Tende cuidado! a lancha treme…
Orçar! orçar!

Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
Aos tristes cazaes!
Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
Saudes aos paes…

Meu velho cão, meu grande amigo,
Porque me estàs assim a olhar?

A Prima doidinha por montes andava,
Á lua, em vigilia!
Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
Na minha Familia…

Quando ou choro, choras commigo
Meu velho cão! és meu amigo…
Tu nunca me has-de abandonar.

E os annos correram, e os annos cresceram,
Com elles cresci:
Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
Só eu não morri…

Frades do Monte de Crestello!
Abri-me as portas! quero entrar…

Fui vendo que as almas não eram no mundo
Singellas e francas:
A minha que o era ficou, n'um segundo,
Cheiinha de brancas!

Cortae-me as barbas e o cabello,
Vesti-me esse habito singello…
Deixae-me entrar!

Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
Tal qual Pedro-Sem,
Que teve fragatas, que teve galeras,
Que teve e não tem…

Moço Luziada! criança!
Porque estàs trisle, a meditar?

Vieram as rugas, caiu-me o cabello
Qual musgo da rocha…
Fiquei para sempre sequinho, amarello,
Que nem uma tocha!

Ves teu paiz sem esperança,
Que todo allue, à semelhança
Dos castellos que ergueste no Ar?

E a velha Carlota, revendo-me agora
Tão pallido, diz:
«Meu pobre menino! que Nossa Senhora
Fez tão infeliz…»

Pariz, 1891.

*Menino e Moço*

Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
Que d'antes estendia as azas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa vizão de luar que vivia encantada,
N'um castello de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

Leça, 1885.

*Os Cavalleiros*

—Onde vaes tu, cavalleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'elle a ventar…
Não responde o cavalleiro,
Que vae absorto a scismar.
—Onde vaes tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
Vaes bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
—Vaes levar uma mensagem?
Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
Irás em meia viagem
E eu já de volta hei-de estar.
E o cavalleiro, á passagem,
Faz as arvores vergar.
—Vaes escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t'o a escalar:
Não ha no mundo pedreiro
Que a mim se possa egualar!
Não responde o cavalleiro
E o vento torna a fallar:
—Dize, dize! vaes p'ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
Não ha cavallo na Terra
Que tenha tão bom andar…
E os trovões rolam na serra
Como vagas a arrolar!
—E as guerras has-de ganhal-as,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me á frente das balas
Para a força lhes tirar!
E as arvores formam alas
Para os guerreiros passar.
—Vaes guiar as caravellas
Por sobre as agoas do mar?
Guiarei as tuas velas
Á feição hei-de assoprar.
E os astros vêm ás janellas
E a lua vem espreitar…
—Onde vaes na galopada,
Á tua infancia, ao teu lar?
Conheço a tua pousada:
Já lá tenho ido ficar.
E vae longe a trovoada,
Vae de todo a alliviar.
—Vaes ver tua velha tia,
Na roca de oiro a fiar?
Loiro linho que ella fia,
Ajudei-lh'o eu a seccar!
E o luar é a Virgem Maria…
Que lindo vae o luar!
—Vaes ver a tua mãesinha?
Coitada! vi-a expirar:
Tinha a alma tão levezinha,
Que voou sem eu lhe tocar!…
E o cavalleiro caminha,
Caminha sem se importar!
—Vaes ver tua irmã? Ao peito
Traz um menino a criar:
Ai com que bom, lindo geito
Ella o sabe acalentar!
E o vento embala no peito
Uma nuvem, p'ra imitar!
—Onde vaes tu? Aonde, aonde?
Phantasma! vaes-te cazar?
Eu sei da filha d'um conde
Que por ti vive a penar…
E o phantasma não responde,
Sempre, sempre, sempre a andar!
—Vaes á cata da Ventura
Que anda os homens a tentar?
(Ai d'aquelle que a procura
Que eu nunca a pude encontrar…)
N'isto, pára a criatura,
Faz seu cavallo estacar:
—Vento, sim! Espera, espera!
Que estrada devo tomar?
(É um menino, é uma chymera
E todo lhe ri o olhar…)
E o vento, com voz austera,
Dor, querendo disfarçar:
—Toma todas as estradas
Todas, áquem e além-mar:
Serão inuteis jornadas,
Nunca lá has-de chegar…
Palavras foram facadas
Que é vel-o, todo a sangrar…
E seus cabellos trigueiros
Começam de branquiar,
E olham-se os dois cavalleiros…
Quedam-se ambos a scismar.
Brilha o Oriente entre os pinheiros,
Ouvem-se os gallos cantar…
—Adeus, adeus! Nasce a aurora,
Adeus! vamos trabalhar!
Adeus, adeus! vou-me embora:
Chamaram-me as velas, no mar…
E o vento vae por hi fóra,
No seu cavallo, a ventar…

Pariz, 1891.

*Purinha*

O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará p'ra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim!
Ha-de ser alta como a Torre de David,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
E negro como a capa das viuvas…
(Á maneira o trará das virgens de Belem
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhaes,
Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua bocca uma romã,
Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
E ha-de ser natural como as hervas dos montes
E as rolas das serras e as agoas das fontes…
E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
E os rios ao passar hão-de cantal-a.
Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a lua para mim será como uma preta!

Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
E a minha fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
Quando ainda no céu não bole uma aza,
A minha Noiva sairá de caza
Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
E ficará, coitada! como morta!
E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
Com o avental seus olhos enxugando…
E hão-de cercal-a sete madrinhas,
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estreiar vestido novo!
E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
E o povo da freguezia
Esperará mais eu, no adro de Santa Iria.
E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
E animados então (o povo é uma criança!)
Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
«Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
«Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
«Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
É a minha Noiva que parece dia,
Branquinha como a cal de Santa Iria!
E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
E dirá o pastor, com espanto tamanho,
Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
E o pescador explicará ao bom moleiro
Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
Que assim já foram as velhinhas scismarão,
E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
E, em seguida, será a nossa boda,
E festas haverá, na aldeia toda.
E as mais raparigas do sitio, solteiras,
Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
Com trinta moedas de oiro sobre o peito!
E cantigas dirão a seu respeito.
E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
Sorrirá com simplicidade para ellas.
E a noite, pouco e pouco, descerá…
E tudo acabará.
E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
E a sua alcova deitará sobre o quintal,
Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
Que este Palacio de Ventura encerra?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
E a minha fada com sua vara de condão
Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas! lindas meninas
Do Reino de Portugal!

O nosso lar!
Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
Que seja tal qual uma rezidencia,
Alegre, branca, rustica, por fóra.
Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
Mas no interior ella ha-de ser sombria,
Como eu com esta melancholia…
E salas escuras, chorando saudades…
E velhos os moveis, de antigas idades…
(E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
E nas paredes telas de parentes…
E janellas abertas sobre os poentes…
(E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
E cravos vermelhos por cima das mezas…
E o relogio dará as horas devagar,
Como as palpitações de quem se vae finar…
E, dia inteiro, n'esta solidão,
Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
E a scismar e a scismar em que? em quem?
Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no Além?
E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
Rogarei aos Espiritos remedio
E um bom Espirito virá tratar do doente
E ha-de tremer de susto a outra gente.
E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
Mas a Purinha, então, vindo da rua,
Toda de branco surgirá, como uma Lua!
E, então, acordarei d'essa desesperança
E pela mão me levará, como uma criança.
E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
«Não te afflijas…» dirá, baixinho…
E, assim, será piedoza para os mais:
E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
E será a Saude dos Enfermos!
E quando pela estrada encontrar um velhinho
Todo suado, carregadinho,
(Louvado seja Nosso Senhor!)
Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
E, aos sabbados, o dia das esmolas,
A Santa descerá ao patamar da escada,
Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
E mais aos alleijadinhos,
Mais aos que botam sangue pela bocca,
Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
Amores, naufragios e A Nau Cathrineta,
Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
Mais ás viuvas dos degredados…
E tudo seja pelos meus peccados!
E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
As velas rôtas dos pescadores
E a luz do seu olhar benzerá essas velas
E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
E accenderá os cyrios ao Senhor,
(Que sejam como ella no talhe e na cor!)
Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
Fallar á alma que na angustia se consome,
Dar de comer a quem tem fome,
Dar de beber a quem tem sede…
E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
E eu hei-de em minhas obras imital-a
E amal-a como á Virgem e adoral-a.
E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
As marés-vazas d'este doido coração
E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
Que para mim será a lua-nova!
E ha-de ir commigo para a mesma cova,
Pois que no dia em que eu morrer
Veneno tomará, n'uma colher…

Mas em que patria, em que nação é que se esconde
Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
E a minha fada com sua vara de marfim
Tocou meu peito… e alguem sorriu lá dentro: Sim

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

Pariz, 1891.

*Elegia*

Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma criança…
Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
Chegas!
E cae e cae no soalho alguma terra:
Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
Onde levavas as desgraças d'esta vida;
Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
(Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
E tu de novo me verás…
Ah! como deve
Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
Que a tua cova era a unica sem cheiro…
E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
Sem uma mão amiga e cheia de bondade
Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
Que abra a janella para tu veres o sol,
Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

Dobra era meu coração o sino da saudade…

Aqui, no meio d'esta fria soledade,
Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
Meio cerrados, como ao sol uma janella,
Que lindos olhos! uma pomba de Ramella!
E andava á solta pela caza, não fugia,
Que aos libres ares o cazulo preferia…
Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
Mais oiço os sinos a dobrar, em Santa Clara,
E tu encommendando a alminha que voara…
Mais vejo os meus contemporaneos, pela Estrada,
As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
(Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
D'um lado e eu de outro…

Que abençoado refeitorio!

Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
(Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
(Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
(Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
A janella ainda tem o mesmo parapeito
(Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
Na sala de jantar ainda se estende a meza
(Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
Vejo o relogio na parede como outrora
(Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
(Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
(Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
Passam ainda pela Estrada os estudantes
(Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
(Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
As andorinhas ainda têm o mesmo fito
(Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
Ainda dobra por defuntos e defuntas
(Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
Ainda lá está o figueiral com figos,
(Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
O Ruy ainda traz a farda de soldado
(Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
(Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
(Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da Ilha)
Ainda lá estão os cravos, no jardim,
(Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
(Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
A Margareth ainda é a papoila de outrora
(Mas a papoila… já está uma senhora!)
Ainda lá estão as papoilas em flor
(Mas a velhinha já não vae de regador…)
Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
(Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
Tudo ficou, tudo passou…

Que mundo este!

Pariz, 1891.

*Os Sinos*

1

Os sinos tocam a noivado,
No Ar lavado!
Os sinos tocam, no Ar lavado,
A noivado!

Que linda criança que assoma na rua!
Que linda, a andar!
Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
Que vem a andar…

Tambem, algum dia, o povo na rua,
Quando eu cazar,
Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
Que vae cazar…

2

E o sino toca a baptizado
Que lindo fado?
E o sino toca um lindo fado,
A baptizado!

E banham o anjinho na agoa de neve,
Para o lavar,
E banham o anjinho na agoa de neve,
Para o sujar.

Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
Antes o enxugue a Velha! antes Deus t'o leve!
Não soffre mais…

3

Os sinos dobram por anjinho,
Coitadinho!
Os sinos dobram, coitadinho…
Pelo anjinho!

Que aceiada que vae p'ra cova!
Olhae! olhae!
Sapatinhos de sola nova,
Olhae! olhae!

Ó lindos sapatos de solinha nova,
Bailae! bailae!
Nas eiras que rodam debaixo da cova…
Bailae! bailae!

4

O sino toca p'ra novena,
Gratiae plena,
E o sino toca, gratiae plena,
P'ra novena.

Ide, meninas, á ladainha,
Ide rezar!
Pensae nas almas como a minha…
Ide rezar!

Se, um dia, me deres alguma filhinha,
Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
Com sua mãe…

5

E o sino chama ao Senhor-fóra,
A esta hora!
Os sinos clamam, a esta hora,
Ao Senhor-fóra!

Accendei, vizinhos, as velas,
Allumiae!
Velas de cera nas janellas!
Allumiae!

E luas e estrellas tambem poem velas,
A allumiar!
E a alminha, a esta hora, já está entre ellas,
A allumiar…

6

E os sinos dobram a defuntos,
Todos juntos!
E os sinos dobram, todos juntos,
A defuntos!

Que triste ver amortalhados!
Senhor! Senhor!
Que triste ver olhos fechados!
Senhor! Senhor!

Que pena me fazem os amortalhados,
Vestidos de preto, deitados de costas…
E de olhos fechados! e de olhos fechados!
E de mãos postas!

E os sinos dobram a defuntos,
Dlin! dlang! dling! dlong!
E os sinos dobram, todos juntos,
Dlong! dlin! dling! dlong

Pariz, 1891.

*Terças-Feiras*

Ao Alberto

1

Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
Santo de minha extrema devoção,
Alma tamanha, que adorei de perto,
Lá na Thebaida do Sr. João.

Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
Luar branco na minha escuridão!
Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

A ti as Terças-feiras, n'este Inferno,
D'aquelle que nasceu, em terça-feira
E em terça-feira morrerá, talvez…

Quando eu for morto já, noites de inverno,
Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
Para eu ouvir de :

«Era uma vez…

Pariz, 1891.

2

Legenda do Santo

«Era uma vez um velho, mui velhinho,
Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
Dois saccos de Amargura a carregar.

O pobre velho, todo derreadinho,
Já não podia mais, queria arreiar;
Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

E o fidalgo desceu do seu cavallo:
Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
E aos hombros carregou com o maior!

E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
Onde lhe appareceu Nosso Senhor

Pariz, 1891.

3

Prologo

Em hora de afflicçãô, molhei a penna
Na chaga aberta d'esse corpo amado,
Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
Cheia de puz, de sangue já coalhado!

E depois, com a mão firme e serena,
Compuz este missal d'um torturado:
Talvez choreis, talvez vos faça pena…
Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

Abri-o! Orae com devoção sincera!
E, à leitura final d'uma oração,
Vereis cair no solo uma chymera…

Moços do meu paiz! vereis então
O que é esta Vida, o que é que vos espera…
Toda uma Sexta-feira de Paixão!

Coimbra, 1889.

4

Natal d'um Poeta

Em certo reino, á esquina do planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor fôra não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reaes!

E, embora eu seja descendente, um ramo
D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo ideal:

Nada me importas, Paiz! seja meu amo
O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal!

Coimbra, 1889.

5

Ai de Mim!

Venho, torna-me velho esta lembrança!
D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
Infancia, era este o nome da criança
Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
E recebeu, segundo a velha usança,
A chave do caixão o meu Futuro.

Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
Um bacharel formado em illuzões
Pela Universidade da Chymera?

Boa Nova, 1887.

6

Conde

Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse um grande mal)
Torreão de gloria, o que é a phantasia,
Todo de lapis-lazzuli e coral!

N'aquellas redondezas, não havia
Quem se gabasse d'um dominio egual:
Oh o Torreão de gloria! parecia
O territorio d'um Senhor-feudal!

Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
Um vento secco de tortura e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já foi um poderoso Conde,
N'aquella idade em que se é conde assim…

Porto, 1887.

7

Ó Virgens!

Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me transporte ao meu perdido lar…

Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formozura, o luar!

Cantae! cantae as limpidas cantigas!
Das ruinas do meu lar desatterrae
Todas aquellas illuzões antigas

Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
Ó suaves e frescas raparigas;
Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

Porto, 1886.

8

Á Luz de Lua!

Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga…

Porto, 1884.

9

Desobriga

Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

A ti accendo cyrios perfumados,
Faço novenas, queimo-te alecrim,
Quando soffro, me vejo com cuidados…
Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

Que eu seja puro d'alma e pensamento!
E que, em dia do grande julgamento,
Minhas culpas não sejam de maior:

Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
Um processo a correr n'essa comarca,
Cujo delegado é Nosso Senhor…

Hamburgo, 1891.

10

Que Aborrecido!

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a bocca a bocejar sombrios:
Deslizam vagarozos, como os rios,
Succedem-se uns aos outros, egualmente.

Nunca desperto de manhã, contente.
Pallido sempre com os labios frios,
Oro, desfiando os meus rozarios pios…
Fôra melhor dormir, eternamente!

Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter, como têm os mais rapazes,
Olhos boiando em sol, labio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim, emquanto moço,
O que serei, então, depois de velho…

Bellos-Ares, 1889.

11

Poveiro

Poveirinhos! meus velhos pescadores!
Na Agoa quizera com vocês morar:
Trazer o lindo gorro de trez cores,
Mestre da lancha Deixem-nos passar!

Far-me-ia outro, que os vossos interiores
De ha tantos tempos, devem já estar
Calafetados pelo breu das dores,
Como esses pongos em que andaes no mar!

Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

No alto mar, ás trovoadas, entre gritos, Promettermos, si o barco fôri intieiro, Nossa bela á Sinhora dos Afflictos!

Leça, 1889.

12

O Sr. Abbade

Quando vem Junho e deixo esta cidade,
Batina, Caes, tuberculozos céus,
Vou para o Seixo, para a minha herdade:
Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

Tomo o regimen do Sr. Abbade,
E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
No seu direito olhar vejo a bondade,
E ás capellinhas vou ver os judeus.

Que homem sem par! Ignora o que são dores!
Para elle uma ramada é o pallio verde,
Os cachos d'uvas são as suas flores!

Ao seu passal chama elle o mundo todo…
Sr. Abbade! olhe que nada perde:
Viva na paz, ahi, longe do lodo.

Coimbra, 1850.

13

Maes, Vinde Ouvir!

Longe de ti, na cella do meu quarto,
Meu copo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

Para fallar, assim, ve tu! já farto,
Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
Soffres por mim as dores crueis do parto
E trazes-me no ventre nove mezes!

Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, magica bebida!

Fôra melhor não ter nascido, fôra,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d'Africa da Vida…

Coimbra, 1889.

14

Sê Altivo!

Altos pinheiros septuagenarios
E ainda empertigados sobre a serra!
Sois os Enviados-extraordinarios,
Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

A noite, sob aquelles lampadarios,
Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
E tomam notas vossos secretarios,
Que o Livro Verde secular encerra.

Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
Tendes a linha, não vergaes as frontes
Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

Voltaes aos homens com desdem a face…
Ai oxalá! que Pan me despachasse
Addido á vossa extranha legação!

Coimbra, 1888.

15

Sê de Pedra!

Não reparaste nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegraphicos da estrada,
Cantam as aves, desde que o sol nada,
E, á noite, se faz sol a lua cheia…

No entanto, pelo arame que as tenteia,
Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
O Ministro que joga uma cartada,
Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

—Revolução!—Inutil.—Cem feridos,
Setenta mortos.—Beijo-te!—Perdidos!
—Emfim, feliz!—?—!—Desesperado.—Vem!

E as lindas aves, bem se importam ellas!
Continuam cantando, tagarellas:
Assim, Antonio! deves ser tambem.

Colonia, 1891.

16

Vae para um Convento!

Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
Torres por terra! As arvores sem ramos!
Ó meus amigos! todos nós falhamos…
Nada nos resta. Somos uns perdidos.

Choremos, abracemo-nos, unidos!
Que fazer? Porque não nos suicidamos?
Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

Troquemos o burel por esta capa!
Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

Vamos semear o pão, podar as uvas,
Pegae na enxada, descalçae as luvas,
Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

Coimbra, 1889.

17

A França!

Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
Por este mar de Gloria, em plena paz.
Terras da Patria somem-se na treva,
Agoas de Portugal ficam, atraz…

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

Ó Luzitania que te vaes á vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
Na minha Nau Catharineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
Sobe depressa á gavea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!…

Oceano Atlantico, 1890.

18

Tempestade!

O meu beliche é tal qual o bercinho,
Onde dormi horas que não vêm mais.
Dos seus embalos já estou cheiinho:
Minha velha ama são os vendavaes!

Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
O vapor treme! Abraço a Biblia, aos ais…
Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

Coragem! Considera o que has soffrido,
O que soffres e o que ainda soffrerás,
E ve, depois, se accaso é permittido

Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

Golpho de Biscaya, 1891.

19

Continua a Tempestade

Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

Aqui, não tenho um unico deleite!
Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
Sem um beijo, sem uma Ave-Maria,
Sem uma flor, sem o menor enfeite…

Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
Lar adorado, em fumos, a distancia,
Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

Minha velha aia! conta-me essa historia
Que principiava, tenho-a na memoria,
«Era uma vez…»
Ah deixem-me chorar!

Canal da Mancha, 1891.

20

Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
E isto em mim não será uma vaidade?

Mar do Norte, 1891.

21

Paz!

E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha unica afflicção…

Toda a dor pode suspportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva… essa que traz…