Pérez Galdóz

ELECTRA
DRAMA EM CINCO ACTOS

VERSÃO PORTUGUEZA
DE
Ramalho Ortigão

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1901

Unica traducção portugueza auctorisada pelo auctor

Porto—Imprensa Moderna


ACTO PRIMEIRO

Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta dos quartos d’Electra.

SCENA I

MARQUEZ E JOSÉ

José

Estão no jardim... Vou dar parte.

Marquez

Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em obras pias...

José

Oh! lá isso...!

Marquez

E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que, segundo cuido, ha novidade agora na familia...

José

Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se...

Marquez

Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça?

José

Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta.

Marquez

Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França...

José

A senhorita Electra.

Marquez

Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É pessôa amoravel, agradecida?

José

Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente...

Marquez

Quê?

José

A menina é travessasita...

Marquez

A edade!

José

Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia...

Marquez

Mas diz que é linda, que é um anjo...

José

Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal na moleira a todos cá de casa!

Marquez

Estou morto por conhecêl-a!

José

No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em redemoinho tudo.

Marquez

(olhando para o jardim) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores do antigo palacio das Gravelinas...

José

É exacto.

Marquez

O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste?

José

Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na...

Marquez

Bem sei... Chamam-lhe o Magico prodigioso... Conheci-o em Londres... ainda a mulher d’elle era viva.

José

Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois amores!

Marquez

Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos.

José

Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!

Marquez

E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em casa esse diabretesito?

José

(receoso de que venha gente) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (Vê vir D. Urbano pelo jardim) Ahi vem o senhor.

Marquez

Põe-te a andar.

SCENA II

MARQUEZ E D. URBANO

Marquez

(abrindo-lhe os braços) Querido Urbano!

Urbano

Marquez! ditosos olhos!...

Marquez

E Evarista?

Urbano

Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de Ronda...

Marquez

Oh! você não imagina o inverno que passámos...

Urbano

E Virginia?

Marquez

Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.

Urbano

Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim?

Marquez

Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova... (Senta-se) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada, que foram buscar ao collegio.

Urbano

Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.

Marquez

Nem me fale n’isso!

Urbano

Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome, exquisito e novo, de Electra.

Marquez

Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de Agamemnon.

Urbano

D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...

Marquez

Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se que Eleuteria—a quem chamaremos Electra I—mudou de vida, ahi por 88...

Urbano

E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa libertinagem da sua vida...

Marquez

(como quem lhe reprehende o rigorismo) Deus lhe perdoou...

Urbano

Sim, sim... perdão, esquecimento...

Marquez

E tratam então agora de tentear Electra II a vêr se inclinará para bem ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas?

Urbano

Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes, mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas subtilezas que desfia da sua propria ignorancia.

Marquez

Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta?

Urbano

Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino. Destroe, transtorna, perturba, illumina.

Marquez

(levantando-se) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a.

SCENA III

MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo

Cuesta

(entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e dirige-se á mesa) Marquez... Tudo bom por cá?

Marquez

Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente?

Cuesta

(senta-se. Revela um padecimento de coração) O incançavel... começa a cançar.

Urbano

Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel?

Cuesta

Veio de Paris com dois inteiros.

Urbano

Fizeste a nossa liquidação?

Marquez

E a minha?

Cuesta

Estou com isso... (Tira papeis da carteira e escreve a lapis) N’um instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia tirar da conversão.

Marquez

Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido...

Urbano

Naturalmente...

Cuesta

O resultado foi enorme.

Marquez

Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim.

Urbano

(a Cuesta) Vens?

Cuesta

Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos.

Urbano

Deixamos-te em socego. Não queres nada?

Cuesta

(abstrahido nas suas contas) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um copo de agoa. Estou abrasado.

Urbano

Immediatamente. (Sae com o Marquez para o jardim)

SCENA IV

CUESTA E PATROS

Cuesta

(corrigindo as suas notas) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos nove mil francos... (Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. Espera que Cuesta termine a sua conta)

Patros

Ponho aqui, D. Leonardo?

Cuesta

Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então, Patros... (tira do bolso dinheiro, que lhe dá) Toma lá!

Patros

Muito obrigado!

Cuesta

E já te aviso que espero de ti um favôr...

Patros

Dirá, D. Leonardo.

Cuesta

Pois, minha amiga... (remechendo um caramello) Escuta...

Patros

Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal.

Cuesta

Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces, comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno... Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (Recolhe os papeis) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que logar será melhor?

Patros

Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (meditando) terá de ser então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei.

Cuesta

Se pudesse ser hoje, melhor.

Patros

Ainda cá volta hoje?

Cuesta

Volto. Avisa-me.

Patros

Esteja certo. (Recolhe o serviço e sae)

SCENA V

CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído, todo vestido de preto

Cuesta

Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos?

Pantoja

(suspira) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando.

Cuesta

Esperando melhor vida...

Pantoja

Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra.

Cuesta

E de saude que tal?

Pantoja

Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (Inquieto, e como dominado por uma ideia fixa, olha para o jardim)

Cuesta

Que ascetico vem hoje!

Pantoja

Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de creança é que ella é feliz.

Cuesta

Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se quer!

Pantoja

D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei.

Cuesta

Não o entendo bem, amigo Pantoja.

Pantoja

Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (Assustado) Deus de misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda?

Cuesta

Elle mesmo.

Pantoja

Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se para não dar um desgosto a Satanaz!

Cuesta

Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente...

Pantoja

Para isso não! serpente já tinhamos. (Passeia nervoso e displicente pela sala)

Cuesta

E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes trouxe?

Pantoja

(sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não formúla) Ah! sim, já... Ganhou-se muito.

Cuesta

Evarista completará agora a sua grande obra religiosa.

Pantoja

(maquinalmente) Sim.

Cuesta

E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da Penitencia.

Pantoja

Sim... (Voltando á sua ideia fixa) Serpente já tinhamos... Que dizia, amigo Cuesta?

Cuesta

Dizia eu...

Pantoja

Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo, projecte mudar de casa?

Cuesta

Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para proseguir nas experiencias que encetou.

Pantoja

(meditativo) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que...

SCENA VI

PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do jardim

Evarista

(soltando o braço do Marquez) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo vêl-o! (Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão. A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os outros agrupam-se á esquerda falando de negocios.)

Marquez

(reatando com Evarista uma conversação interrompida) Por este andar a minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem no Anno Christão.

Evarista

Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez... Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de chumbo... Que quer dizer tudo isto?

Marquez

Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as concede para que sejam empregadas em servil-o.

Evarista

É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do de Cadiz...

Pantoja

(passando para o grupo da direita) Sem esquecer, minha senhora, a casa dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o santuario da verdadeira Sciencia.

Evarista

Bem sabe que é esse o meu constante pensamento.

Urbano

(passando tambem para a direita) N’isso se pensa n’esta casa de noite e de dia.

Marquez

Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (Levanta-se)

Evarista

(a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita) E agora, amigo Leonardo, que vamos fazer?

Cuesta

(sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações) Por hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro...

(Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista)

Marquez

(passeando na scena com Urbano) Ha de permittir, querido Urbano, que, proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom terço da nossa fortuna...

Urbano

Das mais solidas da Andaluzia.

Marquez

E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte destinada a certos encargos e aos parentes pobres.

Urbano

Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa...

Marquez

É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher catechisou-me.

Urbano

Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro de santo para fóra.

Marquez