A ESCRAVA ISAURA
ROMANCE
POR
BERNARDO GUIMARÃES
RIO DE JANEIRO
B. L. GARNIER
Livreiro-Editor do Instituto
65—Rua do Ouvidor—65
Antigo 69.
Paris.—E. BELHATTE, Livreiro, 14 rua de l’Abbaye
1875
Ficam reservados os direitos de propriedade.
INDICE
[Capitulo I.]
[Capitulo II.]
[Capitulo III.]
[Capitulo IV.]
[Capitulo V.]
[Capitulo VI.]
[Capitulo VII.]
[Capitulo VIII.]
[Capitulo IX.]
[Capitulo X.]
[Capitulo XI.]
[Capitulo XII.]
[Capitulo XIII.]
[Capitulo XIV.]
[Capitulo XV.]
[Capitulo XVI.]
[Capitulo XVII.]
[Capitulo XVIII.]
[Capitulo XIX.]
[Capitulo XX.]
[Capitulo XXI.]
[Capitulo XXII.]
CAPITULO I.
Era nos primeiros annos do reinado do Sr D. Pedro 2º.
No fertil e opulento municipio de Campos de Goitacases, á margem do Parahyba, a pouca distancia da villa de Campos, havia uma linda e magnifica fazenda.
Era um edificio de harmoniosas proporções, vasto e luxuoso, situado em aprazivel vargedo ao sopé de elevadas collinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva e selvatica rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a mão do homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos, em viçosos gramáes e pingues pastagens, sombreados aqui e acolá por gameleiras gigantescas, peróbas, cedros e copahybas, que attestavão o vigor da antiga floresta. Quasi não se via ahi muro, cerca, nem vallado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios circumvisinhos erão divididos por viçosas e verdejantes sebes de bambús, piteiras, espinheiros e gravatás, que davão ao todo o aspecto do mais aprazivel e delicioso vergél.
A casa apresentava a frente ás collinas. Entrava-se nella por um lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma escada de cantaria de seis a sete degráos. Os fundos erão occupados por outros edificios accessorios, senzalas, pateos, curraes e celeiros, por trás dos quaes se estendia o jardim, a horta, e um immenso pomar, que ia perder-se na barranca do grande rio.
Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O sol não era ainda posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de cores cambiantes orlados de fevras de ouro. A viração saturada de balsamicos effluvios se espreguiçava ao longo das ribanceiras accordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravão-se garbosos nas lucidas e tranquillas agoas da ribeira.
Corria um bello tempo; a vegetação reanimada por moderadas chuvas ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a agoa do rio ainda não turvada pelas grandes inchentes, rolando com magestosa lentidão, reflectia em toda a pureza os esplendidos coloridos do horizonte, e o nitido verdor das selvosas ribanceiras. As aves, dando repouso ás azas fatigadas do continuo voejar pelos pomares, prados e balsedos visinhos, começavão a preludiar seos cantos vespertinos.
O clarão do sol poente por tal sorte abraseava as vidraças do edificio, que este parecia estar sendo devorado pelas chammas de um incendio interior. Entretanto quer no interior quer em derredor reinava fundo silencio, e perfeita tranquillidade. Bois truculentos, e nedias novilhas deitadas pelo gramal, ruminavão tranquillamente á sombra de altos troncos. As aves domesticas grasinavão em torno da casa, balavão as ovelhas, e mugião algumas vacas, que vinhão por si mesmas procurando os curraes; mas não se ouvia, nem se divisava voz nem figura humana. Parecia que ali não se achava morador algum. Sómente as vidraças arregaçadas de um grande salão da frente e os batentes da porta da entrada abertos de par em par denunciavão, que nem todos os habitantes daquella sumptuosa propriedade se achavão ausentes.
A favor desse quasi silencio harmonioso da natureza ouvia-se distinctamente o harpejo de um piano casando-se a uma voz de mulher, voz melodiosa, suave, apaixonada, e do timbre o mais puro e fresco que se pode imaginar.
Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibração sonora, ampla e volumosa, que revelava excellente e vigorosa organisação vocal. O tom velado e melancolico da cantiga, parecia gemido suffocado de uma alma solitaria e soffredora.
Era essa a unica voz, que quebrava o silencio da vasta e tranquilla vivenda. Por fora tudo parecia escutal-a em mistico e profundo recolhimento.
As coplas, que cantava, dizião assim?
Desd’o berço respirando
Os ares da escravidão,
Como semente lançada
Em terra de maldição,
A vida passo chorando
Minha triste condição.
Os meos braços estão presos,
A ninguem posso abraçar,
Nem meos labios, nem meos olhos
Não podem de amor fallar;
Deo-me Deus um coração
Sómente para penar.
Ao ar livre das campinas
Seo perfume exhala a flor;
Canta a aura em liberdade
Do bosque o alado cantor;
Só para a pobre captiva
Não ha canções, nem amor.
Cala-te, pobre captiva;
Teos queixumes crimes são;
É uma affronta esse canto,
Que exprime tua afflicção.
A vida não te pertence,
Não é teo teo coração.
As notas sentidas e maviosas daquelle cantar escapando pelas janellas abertas e echoando ao longe em derredor, dão vontade de conhecer a sereia, que tão lindamente canta. Se não é sereia, sómente um anjo pode cantar assim.
Subamos os degráos, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestibulo ao edificio. Entremos sem cerimonia. Logo á direita do corredor encontramos aberta uma larga porta, que dá entrada á sala de recepção, vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sósinha e sentada ao piano uma bella e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenhão-se distinctamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas ainda mais negras do que elle. São tão puras e suaves essas linhas, que fascinão os olhos, enlevão a mente, e paralisão toda analyse. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não saberieis dizer se é leve palidez ou côr de rosa desmaiada. O collo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça ineffavel o busto maravilhoso. Os cabellos soltos e fortemente ondulados se despenhão caracolando pelos hombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondião quasi completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como marmore polido, a luz do occaso esbatia um roseo e suave reflexo; dil-a-hieis mysteriosa lampada de alabastro guardando no seio diaphano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janellas, e o olhar vago pairava-lhe pelo espaço.
Os encantos da gentil cantora erão ainda realçados pela singeleza, e diremos quasi pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinaria azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda em amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como Venus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo d’entre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche presa ao pescoço por uma fita preta constituia o seu unico ornamento.
Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros echos da sua canção.
Entretanto abre-se subtilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era tambem uma formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante. A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril, certo balanceio affectado e languoroso dos movimentos davão-lhe esse ar pretencioso, que acompanha toda a moça bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande belleza deixava de ficar algum tanto eclypsada em presença das formas puras e correctas, da nobre singeleza, e dos tão naturaes e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azues toda a nativa bondade de seo coração.
Malvina approximou-se de manso e sem ser presentida para junto da cantora, collocando-se por detrás della esperou que terminasse a ultima copla.
—Isaura!... disse ella pousando de leve a delicada mãosinha sobre o hombro da cantora.
—Ah! é a senhora?!—respondeo Isaura voltando-se sobressaltada.—Não sabia, que estava ahi me escutando.
—Pois que tem isso?... continúa a cantar;... tens a voz tão bonita!... mas eu antes quizéra que cantasses outra cousa; por que é, que você gosta tanto dessa cantiga tão triste, que você aprendeo não sei onde?...
—Gosto della, porque acho-a bonita, e porque ... ah! não devo fallar...
—Falla, Isaura. Já não te disse, que nada me deves esconder, e nada recear de mim?...
—Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci, coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga, não a cantarei mais.
—Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar que és maltratada, que és uma escrava infeliz, victima de senhores barbaros e crueis. Entretanto passas aqui uma vida, que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teos senhores. Derão-te uma educação, como não tiverão muitas ricas e illustres damas, que eu conheço. És formosa, e tens uma côr tão linda, que ninguem dirá que gyra em tuas veias uma só gota de sangue africano. Bem sabes, quanto minha boa sogra antes de expirar te recommendava a mim e a meo marido. Hei-de respeitar sempre as recommendações daquella santa mulher, e tu bem vês, sou mais tua amiga, do que tua senhora. Oh! não; não cabe em tua boca essa cantiga lastimosa, que tanto gostas de cantar.—Não quero,—continuou em tom de branda reprehensão,—não quero que a cantes mais, ouviste, Isaura? ... senão, fecho-te o meo piano.
—Mas, senhora, apezar de tudo isso que sou eu mais do que uma simples escrava? Essa educação, que me derão, e essa belleza, que tanto me gabão, de que me servem? ... são trastes de luxo collocados na senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é; uma senzala.
—Queixas-te da tua sorte, Isaura?...
—Eu, não senhora; não tenho motivo;... o que quero dizer com isto é que apezar de todos esses dotes e vantagens, que me attribuem, sei conhecer o meo lugar.
—Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem o diz. Bonita como és, não podes deixar de ter algum namorado.
—Eu, senhora!... por quem é, não pense nisso.
—Tu mesma; pois que tem isso?... não te vexes; pois é alguma cousa do outro mundo? Vamos já, confessa; tens um amante, e é por isso, que lamentas não teres nascido livre para poder amar aquelle que te agradou, e a quem cahiste em graça, não é assim?...
—Perdôe-me, sinhá Malvina;—replicou a escrava com um candido sorriso.—Está muito enganada; estou tão longe de pensar nisso!
—Qual longe!... não me enganas, minha rapariguinha!... tu amas, e és mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo; só se fosse um escravo, como tu és, o que duvido que haja no mundo. Uma menina como tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo mocetão, e eis ahi a causa da choradeira de tua canção. Mas não te afflijas, minha Isaura; eu te protesto, que ámanhã mesmo terás a tua liberdade; deixa Leoncio chegar; é uma vergonha, que uma rapariga como tu se veja ainda na condição de escrava.
—Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos em liberdade; ás vezes fico triste á toa, sem motivo nenhum...
—Não importa. Sou eu, quem quero que sejas livre, e has-de sel-o.
Neste ponto a conversação foi cortada por um tropel de cavalleiros, que chegavão e apeavão-se á porta da fazenda.
Malvina e Isaura correrão á janella a ver quem erão.
Capitulo II.
Os cavalleiros, que acabavão de apear-se, erão dous bellos e elegantes mancebos, que chegavão da villa de Campos. Do modo familiar, por que forão entrando, logo se deprehendia que era gente de casa.
De feito um era Leoncio, marido de Malvina; e outro Henrique, irmão da mesma.
Antes de irmos adiante forçoso nos é travar conhecimento mais intimo com os dous jovens cavalheiros.
Leoncio era filho unico do rico e magnifico commendador Almeida, proprietario da bella e sumptuosa fazenda, em que nos achamos. O commendador já bastante idoso e cheio de enfermidades depois do casamento de seo filho, que tivera lugar um anno antes da época, em que começa esta historia, havia-lhe abandonado a administração e uso-fructo da fazenda, e vivia na côrte, onde procurava allivio ou distracção aos achaques, que o atormentavão.
Leoncio achára desde a infancia nas larguezas e facilidades de seos paes amplos meios de corromper o coração e extraviar a intelligencia. Máo alumno e creança incorrigivel, turbulento e insubordinado, andou de collegio em collegio, e passou como gato por brasas por cima de todos os preparatorios, cujos exames todavia sempre salvára á sombra do patronato. Os mestres não se atrevião a dar ao nobre e munifico commendador o desgosto de ver seo filho reprovado. Matriculado na escola de medicina logo no primeiro anno enjoou-se daquella disciplina, e como seos paes não sabião contrarial-o, foi-se para Olinda afim de frequentar o curso juridico. Ali depois de ter dissipado não pequena porção da fortuna paterna na satisfação de todos os seos vicios e loucas fantasias, tomou tedio tambem aos estudos juridicos, e ficou entendendo, que só na Europa poderia desenvolver dignamente a sua intelligencia, e saciar a sua sêde de saber, em puros e abundantes mananciaes. Assim escreveo ao pae, que deo-lhe credito e o enviou a Paris, donde esperava vel-o voltar feito um novo Humboldt. Installado naquelle vasto pandemonium do luxo e dos prazeres, Leoncio raras vezes, e só por desfastio, ia ouvir as eloquentes prelecções dos eximios professores da época, e nem tão pouco era visto nos museos, institutos e bibliothecas. Em compensação era assiduo frequentador do Jardim Mabile, assim como de todos os cafés e theatros mais em voga, e tornára-se um dos mais afamados e elegantes leões dos boulevards. No fim de alguns annos, ora de residencia em Paris, ora de gyros recreativos pelas agoas e pelas principaes capitaes da Europa, tinha elle tão copiosa e desapiedadamente sangrado a bolsa paterna, que o commendador, a despeito de toda a sua condescendencia e ternura para com seo unico e querido filho, vio-se na necessidade de revocal-o á sombra dos patrios lares a fim de evitar uma completa ruina. Mas mesmo assim para não magoal-o colhendo-lhe subita e rudemente as redeas na carreira dos desvarios e dissipações, assentou de attrahil-o suavemente acenando-lhe com a perspectiva de um rico e vantajosissimo casamento.
Leoncio pegou na isca e voltou á pátria um perfeito dandy, gentil e elegante como ninguem, trazendo de suas viagens em vez de conhecimentos e experiencia, enorme dose de fatuidade e petulancia, e um tão perfeito traquejo da alta sociedade, que o tomarieis por um principe. Mas o peor era, que se trazia o cerebro vazio, voltava com a alma corrompida e o coração estragado por habitos de devassidão e libertinagem. Alguns bons e generosos instinctos, de que o dotára a natureza, havião-se apagado em seo coração ao roçar de pessimas doutrinas confirmadas por exemplos ainda peores.
De volta da Europa, Leoncio contava vinte e cinco annos. O pae advertio-lhe com palavras insinuantes e geitosas, que já era tempo de empregar-se em alguma cousa, de abraçar alguma carreira; que já se tinha aproveitado da bolsa paterna mais do que era preciso para sua educação, e que era mister ir aprendendo senão a augmentar, ao menos a conservar uma fortuna, á testa da qual teria de achar-se mais tarde ou mais cedo. Depois de muita hesitação, Leoncio optou emfim pela carreira do commercio, que lhe pareceo ser a mais independente e segura de todas; mas as suas idéas largas e audaciosas a este respeito aterrárão o bom do commendador. O commercio de importação e exportação de generos, mesmo em larga escala, o proprio trafego de africanos, lhe parecião especulações degradantes e improprias de sua alta posição e esmerada educação. O negocio de balcão e a retalho, esse inspirava-lhe asco e compaixão. Só lhe convinhão as altas especulações cambiaes, as operações bancarias, e transacções, em que jogasse com avultados capitaes. Só assim poderia duplicar, triplicar em pouco tempo a fortuna paterna. Com o que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras praças europeas, presumia-se com habilitação bastante para dirigir as operações do mais importante estabelecimento bancario, ou as mais grandiosas emprezas industriaes.
O pae porém não se animou a confiar sua fortuna aos azares especulativos daquelle financeiro em botão, e que até ali só tinha dado provas de grande talento para consumir, em pouco tempo e em pura perda, sommas consideraveis. Resolveo portanto a não tocar-lhe mais naquelle assumpto, esperando que o mancebo creasse mais algum juizo.
Vendo que seo pae esquecia-se completamente dos planos de crear-lhe um peculio proprio, Leoncio olhou para o casamento como o meio suave e natural de adquirir fortuna, como a unica carreira, que se lhe offerecia para ter dinheiro a esbanjar a seo bel-prazer.
Malvina, a formosa filha de um riquissimo negociante da côrte, amigo do commendador, já estava destinada a Leoncio por commum accordo e acquiescencia dos paes de ambos. A familia do commendador foi á côrte; os moços virão-se amárão-se e casárão; foi cousa de poucos dias. Pouco tempo depois de seo casamento Leoncio passou pelo desgosto de perder sua mãe por um golpe inesperado. Esta boa e respeitavel senhora não tinha sido muito feliz nas relações da vida intima com seo marido, que como homem de coração arido e frio, desconhecia as santas e puras delicias da affeição conjugal, e com suas libertinagens e devassidões dilacerava quotidianamente o coração de sua esposa. Para cumulo de males tinha ella perdido ainda na infancia todos os seos filhos, ficando-lhe só Leoncio. Lastimava-se principalmente por não ter-lhe deixado o céo ao menos uma filha, que lhe servisse de companhia e consolação em sua desolada velhice. Quiz entretanto a sorte deparar-lhe em sua propria casa uma tal ou qual compensação a seos infortunios em uma fragil creatura, que veio de alguma sorte encher o vacuo, que sentia em seo bondoso e terno coração, e tornar menos triste e solitario o lar, em que passava os dias tão monotonos e enfadonhos.
Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço attrahio por sua graça, gentileza e vivacidade toda a attenção e sollicitude da boa velha.
Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama favorita e a creada fiel da esposa do commendador. Este, que como homem libidinoso e sem escrupulos olhava as escravas como um serralho á sua disposição, lançou olhos cobiçosos e ardentes de lascivia sobre a gentil mucama. Por muito tempo resistio ella ás suas brutaes sollicitações; mas por fim teve de ceder ás ameaças e violencias. Tão torpe e barbaro procedimento não pôde por muito tempo ficar occulto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeo mortal desgosto.
Acabrunhado por ella das mais violentas e amargas exprobrações, o commendador não ousou mais empregar a violencia contra a pobre escrava, e nem tão pouco conseguio jámais por outro qualquer meio superar a invencivel repugnancia, que lhe inspirava. Enfureceo-se com tanta resistencia, e deliberou em seo coração perverso vingar-se da maneira a mais barbara e ignobil, acabrunhando-a de trabalhos e castigos. Exilou-a da sala, onde apenas desempenhava levianos e delicados serviços, para a senzala e os fragueiros trabalhos da roça, recommendando bem ao feitor, que não lhe poupasse serviço nem castigo. O feitor porém, que era um bom portuguez ainda no vigor dos annos, e que não tinha as entranhas tão empedernidas como o seo patrão, seduzido pelos encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, só lhe dava caricias e presentes, de maneira que dahi a algum tempo a mulata deo á luz da vida a gentil escravinha, de que fallámos. Este facto veio exacerbar ainda mais a sanha do commendador contra a misera escrava. Expellio com improperios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou a mulata a tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento, que em breve a precipitou no tumulo, antes que pudesse acabar de crear sua tenra e mimosa filhinha.
Eis ahi debaixo de que tristes auspicios nasceo a linda e infeliz Isaura. Todavia como para indemnisal-a de tamanha desventura, uma santa mulher, um anjo de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre creança e veio amparal-a á sombra de suas azas caridosas. A mulher do commendador considerou aquella tenra e formosa cria como um mimo, que o céo lhe enviava para consolal-a das angustias e dissabores, que tragava em consequencia dos torpes desmandos de seo devasso marido. Levantou ao céo os olhos banhados em lagrimas, e jurou pela alma da infeliz mulata encarregar-se do futuro de Isaura, creal-a e educal-a, como se fosse uma filha.
Assim o cumprio com o mais religioso escrupulo. Á medida, que a menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe ella mesma ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde procurou-lhe tambem mestres de musica, de dança, de italiano, de francez, de desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se emfim em dar á menina a mais esmerada e fina educação, como o faria para com uma filha querida. Isaura por sua parte, não só pelo desenvolvimento de suas graças e attractivos corporaes, como pelos rapidos progressos de sua viva e robusta intelligencia, foi muito além das mais exageradas esperanças da excellente velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquella joia, que ella dizia ser a pérola entrançada em seos cabellos brancos.—O céo não quiz dar-me uma filha de minhas entranhas,—costumava ella dizer,—mas em compensação deo-me uma filha de minha alma.
O que porém mais era de admirar na interessante menina, é que aquella predilecção e extremosa sollicitude de que era objecto, não a tornava impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com seos parceiros de captiveiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava a natural bondade e candura do coração. Era sempre alegre e boa com os escravos, docil e submissa com os senhores.
O commendador não gostava nada do singular capricho de sua esposa para com a mulatinha, capricho, que qualificava de caduquice.
—Forte loucura!—costumava exclamar com accento de commiseração.—Está ahi se esmerando em crear uma formidavel tafulona, que lá pelo tempo adiante ha-de-lhe dar agoa pela barba. As velhas umas dão para rezar, outras para ralhar desde a manhã até á noite, outras para lavar cachorrinhos ou para crear pintos; esta deo para criar mulatinhas princezas. É um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade; mas ... que lhe faça bom proveito; ao menos emquanto se entretêm por lá com o seo embelego, poupa-me uma boa duzia de impertinentes e rabugentos sermões... Lá se avenha!...
Poucos dias depois do casamento de Leoncio, o commendador, com toda a familia, inclusive os dous novos desposados, transportou-se de novo para a sua fazenda de Campos. Foi então, que o commendador entregou a seo filho toda a administração e uso-fructo daquella propriedade, com toda a escravatura e mais acessorios nella existentes, declarando-lhe que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado queria passar tranquilamente o resto de seos dias, livre de afazeres e preoccupações, para o que bastavão-lhe com sobegidão as rendas, que para si reservava. Feita em vida esta magnifica dotação a seo filho, retirou-se para a côrte. Sua esposa porém preferio ficar em companhia do filho, o que foi muito do gosto e approvação do marido.
Malvina, que apezar da sua vaidade aristocratica tinha alma candida e boa, e um coração bem formado, não pôde deixar de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna affeição pela captiva Isaura. Era esta com effeito de indole tão bondosa e fagueira, tão docil, modesta e submissa, que apezar de sua grande belleza e incontestaveis dotes de espirito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevolencia de todos.
Isaura tornou-se immediatamente não direi a mucama favorita, mas a fiel companheira, a amiga de Malvina, que affeita aos prazeres e passatempos da côrte, muito folgou de encontrar tão boa e amavel companhia na solidão, que ia habitar.
—Por que razão não libertão esta menina?—dizia ella um dia á sua sogra.—Uma tão boa e interessante creatura não nasceo para ser escrava.
—Tem razão, minha filha,—respondeo bondosamente a velha;—mas que quer você?... não tenho animo de soltar este passarinho, que o céo me deo para me consolar e tornar mais supportaveis as pesadas e compridas horas da velhice.
E tambem libertal-a para que? Ella aqui é livre, mais livre do que eu mesma, coitada de mim, que já não tenho gostos na vida nem forças para gozar da liberdade. Quer que eu solte a minha patativa? e se ella transviar-se por ahi, e nunca mais acertar com a porta da gaiola?... Não, não, minha filha; emquanto eu for viva, quero têl-a sempre bem pertinho de mim, quero que seja minha, e minha só. Você ha-de estar dizendo lá comsigo—forte egoismo de velha!—mas tambem eu já poucos dias terei de vida; o sacrificio não será grande. Por minha morte ficará livre, e eu terei o cuidado de deixar-lhe um bom legado.
De feito a boa velha tentou por diversas vezes escrever seo testamento a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida pupilla; mas o commendador, auxiliado por seo filho com delongas e futeis pretextos, conseguia ir sempre adiando a satisfação do louvavel e santo desejo de sua esposa, até o dia, em que fulminada por um ataque de paralysia geral, ella succumbio em poucas horas sem ter tido um só momento de lucidez e reanimação para expressar sua ultima vontade.
Malvina jurou sobre o cadaver de sua sogra continuar para com a infeliz escrava a mesma protecção e sollicitude, que a defunta lhe havia prodigalizado. Isaura pranteou por muito tempo a morte daquella, que havia sido para ella mãe desvelada e carinhosa; e continuou a ser escrava não já de uma boa e virtuosa senhora, mas de senhores caprichosos, devassos e crueis.
Capitulo III.
Falta-nos ainda conhecer mais de perto a Henrique, o cunhado de Leoncio. Era elle um elegante e bonito rapaz de vinte annos, frivolo, estouvado e vaidoso, como são quasi todos os jovens, mórmente quando lhes coube a ventura de terem nascido de um pae rico. Não obstante esses ligeiros senões, tinha bom coração e bastante dignidade e nobreza de alma. Era estudante de medicina, e como estava-se em ferias, Leoncio o convidara a vir visitar a irmã e passar alguns dias em sua fazenda.
Os dous mancebos chegavam de Campos, onde Leoncio desde a vespera tinha ido ao encontro do cunhado.
Só depois de casado Leoncio, que antes disso poucas e breves estadas fizera na casa paterna, começou a restar attenção á extrema belleza e ás graças incomparaveis de Isaura. Posto que lhe coubesse em sorte uma linda e excellente mulher, elle não se havia casado por amor, sentimento esse, a que seo coração até ali parecia absolutamente estranho. Casára-se por especulação, e como sua mulher era moça e bonita, sentira apenas por ella essa paixão, que se ceva no gozo dos prazeres sensuaes, e com elles se extingue. Estava reservado á infeliz Isaura fazer vibrar profunda e violentamente naquelle coração libertino as fibras, que ainda não estavão de todo estragadas pelo attrito da devassidão. Concebeo por ella o mais cego e violento amor, que de dia em dia ia crescendo na razão directa dos serios e poderosos obstaculos, que encontrava, obstaculos, a que não estava affeito, e que em vão se esforçava para superar. Mas nem por isso desistia de sua tresloucada empreza, por que em fim de contas,—pensava elle,—Isaura era propriedade sua, e quando nenhum outro meio fosse efficaz, restava-lhe o emprego da violencia. Leoncio era um digno herdeiro de todos os máos instinctos e da brutal devassidão do commendador.
Pelo caminho, como sua mente andava sempre cheia da imagem de Isaura, Leoncio conversára longamente com seo cunhado a respeito della, exaltando-lhe a belleza, e deixando transluzir com revoltante cynismo as lascivas intenções, que abrigava no coração. Esta conversação não agradava muito a Henrique, que ás vezes córava de pejo e de indignação por sua irmã, mas não deixou de excitar-lhe viva curiosidade de conhecer uma escrava de tão extraordinaria belleza.
No dia seguinte ao da chegada dos mancebos ás oito horas da manhã, Isaura, que acabava de espanejar os moveis e arranjar o salão, achava-se sentada junto a uma janella e entretinha-se a bordar á espera, que seos senhores se levantassem para servir-lhes o café. Leoncio e Henrique não tardárão em apparecer, e parando á porta do salão puzerão-se a contemplar Isaura, que sem se aperceber da presença delles continuava a bordar distrahidamente.
—Então, que te parece? segredava Leoncio a seo cunhado.—Uma escrava desta ordem não é um thesouro inapreciavel? Quem não diria, que é uma andaluza de Cadix, ou uma napolitana?...
—Não é nada disso; mas é cousa melhor, respondeo Henrique maravilhado; é uma perfeita brazileira.
—Qual brazileira! é superior a tudo quanto ha. Aquelles encantos e aquellas dezesete primaveras em uma moça livre, terião feito virar o juizo a muita gente boa. Tua irmã pretende com instancia, que eu a liberte allegando que essa era a vontade de minha defunta mãe; mas nem tão tolo sou eu, que me desfaça assim sem mais nem menos de uma joia tão preciosa. Se minha mãe teve o capricho de creal-a com todo o mimo e de dar-lhe uma primorosa educação, não foi de certo para abandonal-a ao mundo, não achas?... Tambem meo pae parece, que cedeo ás instancias do pae della, que é um pobre gallego, que por ahi anda, e que pretende libertal-a; mas o velho pede por ella tão exorbitante somma, que julgo nada dever recear por esse lado. Vê lá, Henrique, se ha nada que pague uma escrava assim?...
—É com effeito encantadora; replicou o moço,—se estivesse no serralho do sultão, seria sua odalisca favorita. Mas devo notar-te, Leoncio,—continuou, cravando no cunhado um olhar cheio de maliciosa penetração,—como teo amigo e como irmão de tua mulher, que o teres em tua sala e ao lado de minha irmã uma escrava tão linda e tão bem tratada não deixa de ser inconveniente e talvez perigoso para a tranquillidade domestica...
—Bravo!—atalhou Leoncio galhofando, para a idade que tens, já estás um moralista de polpa!... mas não te dê isso cuidado, meo menino; tua irmã não tem dessas velleidades, e é ella mesma quem mais gosta de que Isaura seja vista e admirada por todos. E tem razão; Isaura é como um traste de luxo, que deve estar sempre exposto no salão. Querias, que eu mandasse para a cosinha os meos espelhos de Veneza?...
Malvina, que vinha do interior da casa, risonha, fresca e alegre como uma manhã de abril, veio interromper-lhes a conversação.
—Bom dia, senhores preguiçosos!—disse ella com voz argentina e festiva como o trino da andorinha.—Até que em fim sempre se levantárão!
—Estás hoje muito alegre, minha querida,—retorquio-lhe sorrindo o marido;—viste algum passarinho verde de bico dourado?...
—Não vi, mas hei-de ver; estou alegre mesmo, e quero que hoje aqui em casa seja um dia de festa para todos. Isto depende de ti, Leoncio, e estava afflicta por te ver de pé; quero dizer-te uma cousa; já devia tel-a dito hontem, mas o prazer de ver este ingrato de irmão, que ha tanto tempo não vejo, me fez esquecer...
—Mas o que é?... falla, Malvina.
—Não te lembras de uma promessa, que sempre me fazes, promessa sagrada, que ha muito tempo devia ter sido cumprida?... hoje quero absolutamente, exijo, o seo cumprimento.
—Devéras!?... mas que promessa?... não me lembro.
—Ah! como te fazes de esquecido!... não te lembras, que me prometteste dar liberdade a....
—Ah! já sei, já sei;—atalhou Leoncio com impaciencia.—Mas tratar disso aqui agora? em presença della?... que necessidade ha de que nos ouça?—
—E que mal faz isso? mas seja como quizeres,—replicou a moça tomando a mão de Leoncio e levando-o para o interior da casa;—vamos cá para dentro. Henrique, espera ahi um momento, emquanto eu vou mandar preparar-nos o café.
Só depois da chegada de Malvina Isaura deo pela presença dos dous mancebos, que a certa distancia a contemplavão cochichando a respeito della. Tambem pouco ouvio ella e nada comprehendeo do rapido dialogo, que tivera lugar entre Malvina e seo marido. Apenas estes se retirárão, ella tambem se levantou e ia sahir, mas Henrique, que ficara só, a deteve com um gesto.
—Que me quer, senhor?—disse ella baixando os olhos com humildade.
—Espera ahi, menina; tenho alguma cousa a dizer-te,—replicou o moço, e sem dizer mais nada collocou-se diante della devorando-a com os olhos, e como estatico contemplando-lhe a maravilhosa belleza. Henrique sentia-se acanhado diante daquella nobre figura radiante de belleza, e de angelica serenidade. Por seo lado Isaura tambem olhava para o moço, atonita e tolhida, esperando em vão, que lhe dissesse o que queria. Por fim Henrique, affouto, e estouvado como era, lembrando-se que Isaura, a despeito de toda a sua formosura, não passava de uma escrava, entendeo que fazia um ridiculo papel, deixando-se ali ficar diante della em muda e estatica contemplação, e chegando-se a ella com todo o desembaraço e petulancia travou-lhe da mão, e.
—Mulatinha, disse,—tu não fazes idéa de quanto és feiticeira. Minha irmã tem razão; é pena que uma menina assim tão linda não seja mais que uma escrava. Se tivesses nascido livre, serias incontestavelmente a rainha dos salões.
—Está bem, senhor, está bem! replicou Isaura soltando-se da mão de Henrique; se é só isso o que tinha a dizer-me, deixe-me ir embora.
—Espera ainda um pouco; não sejas assim má; eu não te quero fazer mal algum. Oh! quanto eu daria para obter a tua liberdade, se com ella pudesse obter tambem o teo amor!... És muito mimosa e muito linda para ficares por muito tempo no captiveiro; alguem impreterivelmente virá arrancar-te delle, e se has-de cahir nas mãos de algum desconhecido, que não saberá dar-te o devido apreço, seja eu, minha Isaura, seja o irmã de tua senhora, que de escrava te haja de fazer uma princeza...
—Ah! senhor Henrique! retorquio a menina com enfado;—o senhor não se peja de dirigir esses galanteios a uma escrava de sua irmã? isso não lhe fica bem; há por ahi tanta moça bonita, a quem o senhor pode fazer a côrte...
—Não; ainda não vi nenhuma, que te iguale, Isaura, eu te juro. Olha, Isaura; ninguem mais do que eu está nas circumstancias de conseguir a tua liberdade; sou capaz de obrigar Leoncio a te libertar, por que, se me não engano, já lhe adivinhei os planos e as intenções, e protesto-te que hei-de burlal-os todos; é uma infamia, em que não posso consentir. Além da liberdade terás tudo o que desejares, sedas, joias, carros, escravos para te servirem, e acharás em mim um amante extremoso, que sempre te ha-de querer, e nunca te trocará por quanta moça ha por esse mundo, por bonita e rica que seja, porque tu só vales mais que todas ellas juntas.
—Meu Deos!—exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa;—tanta grandeza me attérra; isso faria virar-me o juizo. Nada, meo senhor; guarde suas grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou contente com a minha sorte.
—Isaura!... para que tanta crueldade!... escuta,—disse o moço lançando o braço ao pescoço de Isaura.
—Senhor Henrique!—gritou ella esquivando-se ao abraço,—por quem é, deixe-me em paz!
—Por piedade, Isaura!—insistio o rapaz continuando a querer abraçal-a;—oh!... não falles tão alto!... um beijo ... um beijo só, e já te deixo...
—Se o senhor continúa, eu grito mais alto. Não posso aqui trabalhar um momento, que não me venhão perturbar com declarações, que não devo escutar...
—Oh! como está altaneira!—exclamou Henrique, já um tanto agastado com tanta resistencia.—Não lhe falta nada!... tem até os ares desdenhosos de uma grande senhora!... não te arrufes assim, minha princeza...
—Arre lá, senhor!—bradou a escrava já no auge da impaciencia.—Já não bastava o senhor Leoncio!... agora vem o senhor tambem....
—Como?... que estás dizendo?... tambem Leoncio?... oh!... oh! bem o coração me estava adivinhando!... que infamia!... mas de certo tu o escutas com menos impaciencia, não é assim?
—Tanto, como escuto ao senhor.
—Não duvido, Isaura; a lealdade, que deves á tua senhora, que tanto te estima, não te permitte que dês ouvidos áquelle perverso. Mas commigo o caso é differente; que motivo ha para seres cruel assim.
—Eu cruel para com meos senhores!!! Ora, senhor, pelo amor de Deos!... Não esteja assim a escarnecer de uma pobre captiva.
—Não! não escarneço;... Isaura!... escuta,—exclamava Henrique forcejando para abraçal-a e furtar-lhe um beijo.
—Bravo!... bravissimo!—retumbou pelo salão uma voz acompanhada de sardonica e estrepitosa gargalhada.
Henrique voltou-se sobressaltado. Toda a sua amorosa exaltação tinha-se-lhe gelado de subito no amago do coração.
Leoncio estava em pé no meio da porta, de braços cruzados e olhando para elle com sorriso do mais insultante escarneo.
—Bravo! muito bem, senhor meo cunhado!—continuou Leoncio no mesmo tom de mofa.—Está pondo em pratica bellissimamente as suas lições de moral!... requestando-me as escravas!... está galante!... sabe respeitar divinamente a casa de sua irmã!...
—Ah! maldito importuno! murmurou Henrique, trincando os dentes de cólera, e seo primeiro impulso foi investir de punho fechado, e responder com cachações aos insolentes sarcasmos do cunhado. Reflectindo porém um momento, sentio que lhe seria mais vantajoso empregar contra o seo aggressor a mesma arma, de que se servira contra elle, o sarcasmo, que as circumstancias lhe permittião vibrar de modo victorioso e decisivo. Acalmou-se pois, e com sorriso de soberano desdem:
—Ah! perdão, meo cunhado!—disse elle—não sabia que a peregrina joia do seo salão lhe merecesse tanto cuidado, que o levasse a ponto de andal-a espionando; creio, que tem mais zelo por ella, do que mesmo pelo respeito, que se deve á sua casa e a sua mulher. Pobre de minha irmã!... é bem simples, e admira, que ha mais tempo não tenha conhecido o bello marido, que possue!...
—O que estás dizendo, rapaz?—bradou Leoncio com gesto ameaçador;—repete; que estás dizendo?
—O mesmo, que o senhor acaba de ouvir,—redarguio Henrique com firmeza,—e fique certo, que o seo indigno procedimento não ha-de ficar por muito tempo occulto a minha irmã.
—Qual procedimento!? tu deliras, Henrique?...
—Faça-se de esquerdo!... pensa que não sei tudo?... emfim, adeos, senhor Leoncio; eu me retiro, por que seria altamente inconveniente, indigno e ridiculo da minha parte estar a disputar com o senhor por amor de uma escrava.
—Espera, Henrique ... escuta...
—Não, não; não tenho negocio nenhum com o senhor. Adeos!—disse e retirou-se precipitadamente.
Leoncio sentio-se esmagado, e arrependeo-se mil e uma vezes de ter provocado tão imprudentemente aquelle leviano e estouvado rapaz. Ignorava, que seo cunhado estivesse ao facto da paixão, que sentia por Isaura, e dos esforços, que empregava para vencer-lhe a isenção e lograr seos favores. É verdade que lhe havia fallado sem muito rebuço a esse respeito; mas algumas palavras ditas entre rapazes, em tom de mera chocarrice, não constituião base sufficiente, para que sobre ella Henrique podesse articular uma accusação séria contra elle em face de sua mulher. De certo a rapariga lhe havia revelado alguma cousa, e isto o fazia espumar de despeito e raiva contra um e outra. Bem pouco lhe importava a perturbação da paz domestica, o que o enfurecia era o perigo, em que se collocára de ver desconcertados os seos perversos designios sobre a gentil escrava.
—Maldição!—rugia elle lá comsigo.—Aquelle maluco é bem capaz de desconcertar todos os meos planos. Se sabe alguma cousa, como parece, não porá duvida em levar tudo aos ouvidos de Malvina...
Leoncio ficou por alguns momentos em pé, immovel, sombrio, carrancudo, com o espirito entregue á cruel inquietação, que o fustigava. Depois, pairando as vistas em derredor, deo com os olhos em Isaura, a qual, desde que Leoncio se apresentára, corrida, trémula e anhelante, fôra sumir-se em um canto da sala; dali presenciára em silenciosa anciedade a altercação dos dous moços, como corsa mal ferida escutando o rugir de dous tigres, que disputão entre si o direito de devoral-a. Por seo lado tambem se arrependia do intimo d’alma, e raivava contra si mesma pela indiscreta e louca revelação, que em um assomo de impaciencia deixára escapar de seos labios. Sua imprudencia ia ser causa da mais deploravel discordia no seio daquella familia, discordia, de que por fim de contas ella viria a ser a principal victima. A desavença entre os dous mancebos era como o choque de duas nuvens, que se encontrão e continuão a pairar tranquillamente no céo; mas o raio desprendido de seo seio teria de vir cahir certeiro sobre a fronte da infeliz captiva.
Capitulo IV.
—Ah! estás ainda ahi?... fizeste bem,—disse Leoncio mal avistou Isaura, que trémula e confusa não ousára sahir do cantinho, a que se abrigára, e onde fazia mil votos ao céo, para que seo senhor não a visse, nem se lembrasse della naquelle momento.—Isaura, continuou elle,—pelo que vejo, andas bem adiantada em amores!... estavas a ouvir finezas daquelle rapazóla...
—Tanto como ouço as suas, meo senhor; por não ter outro remedio. Uma escrava, que ousasse olhar com amor para seos senhores, merecia ser severamente castigada.
—Mas tu disseste alguma cousa áquelle estouvado, Isaura?...
—Eu!?—respondeo a escrava perturbando-se;—eu nada, que possa offender nem ao senhor, nem a elle...
—Pesa bem as tuas palavras, Isaura; olha não procures enganar-me. Nada lhe disseste a meo respeito?
—Nada.
—Juras?
—Juro,—balbuciou Isaura.
—Ah! Isaura, Isaura!... tem cuidado. Se até aqui tenho soffrido com paciencia as tuas repulsas e desdens, não estou disposto a supportar, que em minha casa, e quasi em minha presença, estejas a escutar galanteios, de quem quer que seja, e muito menos revelar o que aqui se passa. Se não queres o meo amor, evita ao menos de incorrer no meo odio.
—Perdão, senhor, que culpa tenho eu de andarem a perseguir-me?
—Tens alguma razão; estou vendo, que me verei forçado a desterrar-te desta casa, e a esconder-te em algum canto, onde não sejas tão vista e cobiçada...
—Para que, senhor....
—Basta; não te posso ouvir agora, Isaura. Não convem que nos encontrem aqui conversando a sós. Em outra occasião te escutarei.—É preciso estorvar, que aquelle estonteado vá intrigar-me com Malvina,—murmurava Leoncio retirando-se.—Ah! cão! maldita a hora, em que te trouxe a minha casa!
—Permitta Deos que tal occasião nunca chegue—exclamou tristemente dentro da alma a rapariga, vendo seo senhor retirar-se. Ella via com angustia e mortal desassocego as continuas e cada vez mais encarniçadas sollicitações de Leoncio, e não atinava com um meio de oppor-lhes um paradeiro. Resolvida a resistir até á morte, lembrava-se da sorte de sua infeliz mãe, cuja triste historia bem conhecia, pois a tinha ouvido, segredada a medo e mysteriosamente, da boca de alguns velhos escravos da casa, e o futuro se lhe antolhava carregado das mais negras e sinistras cores.
Revelar tudo a Malvina era o unico meio, que se lhe apresentava ao espirito para pôr termo ás ousadias do seo marido, e atalhar futuras desgraças. Mas Isaura amava muito sua jovem senhora para ousar dar semelhante passo, que iria derramar-lhe no seio um pégo de desgostos e amarguras, quebrando-lhe para sempre a risonha e doce illusão, em que vivia?
Preferia antes morrer como sua mãe, victima das mais crueis sevicias, do que ir por suas mãos lançar uma nuvem sinistra no céo até ali tão sereno e bonançoso de sua querida senhora.
O pae de Isaura, o unico ente no mundo, que á excepção de Malvina se interessava por ella, pobre e simples jornaleiro não se achava em estado de poder protegel-a contra as perseguições e violencias, de que se achava ameaçada. Em tão cruel situação Isaura não sabia senão chorar em segredo a sua desventura, e implorar o céo, do qual sómente podia esperar remedio a seos males.
Bem se comprehende pois agora aquelle accento tão dorido, tão repassado de angustia, com que cantava a sua canção favorita. Malvina enganava-se attribuindo sua tristeza a alguma paixão amorosa. Isaura conservava ainda o coração no mais puro estado de isenção. Com quanto mais dó não a teria lastimado sua boa e sensivel senhora, se podesse adivinhar a verdadeira causa dos pezares, que a ralavão.
Capitulo V.
Isaura despertando de suas pungentes e amargas preoccupações, tomou seo balainho de costura e ia deixar o salão, resolvida a sumir-se no mais escondido recanto da casa, ou amoitar-se em algum escondrijo do pomar. Esperava assim esquivar-se á repetição de scenas indecentes e vergonhosas, como essas por que acabava de passar. Apenas déra os primeiros passos foi detida por uma extravagante e grotesca figura, que penetrando no salão veio postar-se diante de seos olhos.
Era um monstrengo affectando formas humanas, um homunculo em tudo mal construido, de cabeça enorme, tronco rachitico, pernas curtas e arqueadas para fora, cabelludo como um urso, e feio como um mono. Era como um desses truões disformes, que formavão parte indispensavel do sequito de um grande rei da media idade, para divertimento delle e de seos cortezãos. A natureza esquecera de lhe formar o pescoço, e a cabeça disforme nascia-lhe de dentro de uma formidavel corcova, que a resguardava quasi como um capuz. Bem reparado todavia o rosto não era muito irregular, nem repugnante, e exprimia muita cordura, submissão e bonhomia.
Isaura teria soltado um grito de pavor, se ha muito não estivesse familiarizada com aquella estranha figura, pois era elle, sem mais nem menos, o senhor Belchior, fiel e excellente ilhéo, que ha muitos annos exercia naquella fazenda mui digna e conscienciosamente, apezar de sua deformidade e idiotismo, o cargo de jardineiro. Parece que as flores, que são o symbolo natural de tudo quanto é bello, puro e delicado, devião ter um cultor menos disforme e repulsivo. Mas quiz a sorte ou o capricho do dono da casa estabelecer aquelle contraste, talvez para fazer sobresahir a belleza de umas á custa da fealdade do outro.
Belchior tinha em uma das mãos o vasto chapéo de palha, que arrastava pelo chão, e com a outra empunhava, não um ramalhete, mas um enorme feixe de flores de todas as qualidades, á sombra das quaes procurava eclipsar sua disgraciosa e extravagante figura. Parecia um desses vasos de louça, de formas phantasticas e grotescas, que se enchem de flores para enfeitar bufetes e aparadores.
—Valha-me Deus!—pensou Isaura ao dar com os olhos no jardineiro.—Que sorte é a minha! ainda mais este!... este ao menos é de todos o mais supportavel: os outros me amofinão, e atormentão; este ás vezes me faz rir.
—Muito bem apparecido, senhor Belchior! então, o que deseja?
—Senhora Isaura, eu... eu... vinha...—resmungou embaraçado o jardineiro.
—Senhora!... eu senhora!... tambem o senhor pretende caçoar commigo, senhor Belchior?...
—Eu caçoar com a senhora!... não sou capaz ... minha lingoa seja comida de bichos, se eu faltar com o respeito devido á senhora... Vinha trazer-lhe estas froles, se bem que a senhora mesma é uma frol...
—Arre lá, senhor Belchior!... sempre a dar-me de senhora!... se continúa por essa forma, ficamos mal, e não acceito as suas froles... Eu sou Isaura, escrava da senhora D. Malvina; ouvio, senhor Belchior!
—Embora lá isso; é sóverana cá deste coração, e eu, menina, dou-me por feliz se puder beijar-te os pés. Olha, Isaura...
—Ainda bem! Agora sim; trate-me desse modo.
—Olha, Isaura, eu sou um pobre jardineiro, lá isso é verdade; mas sei trabalhar, e não has-de achar vazio o meo mealheiro, onde já tenho mais de meio mil cruzados. Se me quizeres, como eu te quero, arranjo-te a liberdade, e caso-me contigo, que tambem não és para andar ahi assim como escrava de ninguem.
—Muito obrigada pelos seus bons desejos; mas perde seu tempo, senhor Belchior. Meos senhores não me libertão por dinheiro nenhum.
—Ah! devéras!... que malbados!... ter assim no catibeiro a rainha da fermosura!... mas não importa, Isaura; terei mais gosto em ser escravo de uma escrava como tu, do que em ser senhor dos senhores de cem mil captivos. Isaura!... não fazes idéa de como te quero. Quando vou molhar as minhas froles, estou a lembrar-me de ti com uma soidade!...
—Devéras! ora vio-se que amor!...
—Isaura!—continuou Belchior, curvando os joelhos,—tem piedade deste teo infeliz captivo...
—Levante-se, levante-se,—interrompeo Isaura com impaciencia.—Seria bonito que meos senhores viessem aqui encontral-o fazendo esses papeis!... que estou-lhe dizendo?... eil-os ahi!... ah! senhor Belchior!
De feito, de um lado Leoncio, e de outro Henrique e Malvina, os estavão observando.
Henrique, tendo-se retirado do salão, despeitado e furioso contra seo cunhado, assomado e leviano como era, foi encontrar a irmã na sala de jantar, onde se achava preparando o café e ali em presença della não hesitou em desabafar sua cólera, soltando palavras imprudentes, que lançárão no espirito da moça o germen da desconfiança e da inquietação.
—Este teo marido, Malvina, não passa de um miseravel patife,—disse bufando de raiva.
—Que estás dizendo, Henrique?!... que te fez elle?...—perguntou a moça, espantada com aquelle rompante.
—Tenho pena de ti, minha irmã ... se soubesses ... que infamia!...
—Estás doudo, Henrique!... o que ha então?
—Permitta Deos que nunca o saibas!... que vilania!...
—O que houve então, Henrique?... falla, explica-te por quem és,—exclamou Malvina, palida e offegante no cumulo da afflicção.
—Oh! que tens?... não te afflijas assim, minha irmã,—respondeu Henrique, já arrependido das loucas palavras que havia soltado. Tarde comprehendeo que fazia um triste e deploravel papel, servindo de mensageiro da discordia e da desconfiança entre dois esposos, que até ali vivião na mais perfeita harmonia e tranquillidade. Tarde e em vão procurou attenuar o terrivel effeito de sua fatal indiscrição.
—Não te inquietes, Malvina, continuou elle procurando sorrir-se;—teo marido é um formidavel turrão, eis ahi tudo; não vás pensar, que nos queremos bater em duello...
—Não; mas vieste espumando de raiva, com os olhos em fogo, e com um ar...
—Qual!... pois não me conheces?... sempre fui assim; por—dá cá aquella palha—pego fogo, mas tambem é fogo de palha.
—Mas pregaste-me um susto!...
—Coitada!... toma isto,—disse-lhe Henrique, offerecendo-lhe uma chicara de café,—é a melhor cousa que ha para aplacar sustos e ataques de nervos.
Malvina procurou acalmar-se, mas as palavras do irmão tinham-lhe penetrado no amago do coração, como a dentada de uma vibora, ahi deixando o veneno da desconfiança.
O apparecimento de Leoncio, que vinha do salão, pôz termo a este incidente. Os tres tomárão café á pressa e sem trocarem palavras; estavão já resabiados uns com outros, olhavão-se com desconfiança, e de um momento para outro a discordia insinuára-se no seio daquella pequena familia, ainda ha pouco tão feliz, unanime e tranquilla. Tomado o café retirárão-se, mas todos por um impulso instinctivo, dirigirão seos passos para o salão, Henrique e Malvina de braços dados pelo grande corredor da entrada, e Leoncio sósinho por compartimentos interiores, que comunicavão com o salão. Era ali com effeito, que se achava o pomo fatal, mas innocente, que devia servir de instrumento da desunião e descalabro daquella nascente familia.
Chegárão ainda a tempo de presenciar o final da scena ridicula, que Belchior representava aos pés de Isaura. Leoncio porém, que os espiava através das sanéfas entre-abertas de uma alcôva, não avistava Henrique e Malvina, que havião parado no corredor junto á porta da entrada.
—Oh! oh!—exclamou elle no momento em que Belchior prostrava-se aos pés de Isaura. Creio que tenho dentro de casa um idolo, diante do qual todos vem ajoelhar-se e render adorações!... até o meo jardineiro!... O’lá, senhor Belchior, está bonito!... Continue com a farça, que não está má ... mas para tratar dessa flor não precisamos de seos cuidados, não; tem entendido, senhor Belchior!...
—Perdão, senhor meo,—balbuciou o jardineiro erguendo-se trémulo e confuso;—eu vinha trazer estas froles para os basos da sala...
—E apresentál-as de joelhos!... essa é galante!... Se continúa nesse papel de galant, declaro-lhe que o ponho pela porta fora com dous pontapés nessa corcova.
Corrido, confuso e azoinado, Belchior, cambaleando e esbarrando pelas cadeiras, lá se foi ás cegas em busca da porta da rua.
—Isaura! ó minha Isaura!—exclamou Leoncio sahindo da alcôva, avançando com os braços abertos para a rapariga, e dando á voz até ali aspera a rude, a mais suave e terna inflexão.
Um ai agudo e pungente, que echoou pelo salão, o fez parar mudo, gelido e petrificado. Tinha avistado no meio da porta Malvina, que palida e desfallecida occultava a fronte no hombro de seo irmão, que a amparava nos braços.
—Ah! meo irmão!—exclamou ella voltando de seo deliquio,—agora comprehendo tudo que ainda ha pouco me dizias.
E com uma das mãos comprimindo o coração, que parecia querer-lhe estalar de dor, e com a outra escondendo no lenço as lagrimas, que dos formosos olhos lhe brotavão aos paser, correo a encerrar-se em seo aposento.
Leoncio desconcertado pelo terrivel contratempo, de que acabava de ser victima, ficou largo tempo a passear, frenetico e agitado, de um a outro lado ao longo do salão, furioso contra o cunhado, a cuja impertinente leviandade attribuía as fataes occurrencias daquella manhã, que ameaçavão burlar todos os seos planos sobre Isaura, e excogitando meios de safar-se das difficuldades em que se via empenhado.
Isaura, tendo resistido em menos de uma hora a tres abordagens consecutivas, dirigidas contra o seo pudor e isenção, aturdida, cheia de susto, confusão e vergonha, correo a esconder-se entre os laranjaes como lebre medrosa, que ouve ladrarem pelos prados os galgos encarniçados a seguirem-lhe a pista.
Henrique altamente indignado contra o cunhado, não lhe queria ver a cara; tomou sua espingarda e sahio disposto a passar o dia inteiro passarinhando pelos matos, e a retirar-se impreterivelmente para a côrte ao romper do dia seguinte.
Os escravos ficárão pasmos, quando á hora do almoço Leoncio achou-se sósinho á mesa. Leoncio mandou chamar Malvina, mas esta, pretextando uma indisposição, não quiz sahir de seo quarto. Seo primeiro movimento foi um impeto de cólera brutal; esteve a ponto de atirar toalha, pratos, talheres e tudo pelos ares, e ir esbofetear o desassisado e insolente rapaz, que em má hora viera á sua casa para perturbar a tranquillidade do seo viver domestico. Mas conteve-se a tempo, e acalmando-se entendeo, que melhor era não se dar por achado, e encarar com ares da maior indiferença e mesmo de desdem, os arrufos da esposa, e o máo humor do cunhado. Estava bem persuadido que lhe seria difficil se não impossivel dissimular mais aos olhos da esposa o seo torpe procedimento; incapaz porém de retratar-se e implorar perdão, resolveo amparar-se da tempestade, que ia despenhar-se sobre sua cabeça, com o escudo da mais cynica indifferença. Inspiravão-lhe este alvitre o orgulho, e o máo conceito em que tinha todas as mulheres, nas quaes não reconhecia pundonor nem dignidade.
Depois do almoço Leoncio montou a cavallo, percorreo as roças e cafesaes, cousa que bem raras vezes fazia, e ao descambar do sol voltou para casa, jantou com o maior socego e appetite, e depois foi para o salão, onde repoltreando-se em macio e fresco sofá, pôz-se a fumar tranquillamente o seo havana.
Nesse comenos chega Henrique de suas excursões venatorias, e depois de procurar em vão a irmã por todos os cantos da casa, vae em fim encontral-a encerrada em seo quarto de dormir desfigurada, palida, e com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
—Por onde andaste, Henrique?... estava afflicta por te ver,—exclamou a moça ao avistar o irmão.—Que má moda é essa de deixar a gente assim sósinha!...
—Sósinha?!... pois até aqui não vivias sem mim na companhia de teo belo marido?...
—Não me falles nesse homem ... eu andava illudida; agora vejo que andava peor do que sósinha, na companhia de um perverso.
—Ainda bem, que presenciaste com teos proprios olhos o que eu não tinha animo de dizer-te. Mas, vamos! que pretendes fazer?...
—O que pretendo?... vás ver neste mesmo instante... Onde está elle?... viste-o por ahi?...
—Se me não engano, vi-o no salão; havia lá um vulto sobre um sofá.
—Pois bem, Henrique; acompanha-me até lá.
—Por que razão não vás só? poupa-me o desgosto de encarar aquelle homem...
—Não, não; é preciso, que vás commigo; estava á tua espera mesmo para esse fim. Preciso de uma pessoa, que me ampare e me alente. Agora até tenho medo delle.
—Ah! comprehendo; queres que eu seja teo guarda-costa, para poderes descompor a teo geito aquelle birbante. Pois bem; presto-me de boa vontade, e veremos se o patife tem o atrevimento de te desrespeitar. Vamos!—
Capitulo VI.
—Senhor Leoncio,—disse Malvina com voz alterada approximando-se do sofá, em que se achava o marido,—desejo dizer-lhe duas palavras, se isso não o incommoda.
—Estou sempre ás tuas ordens, querida Malvina,—respondeo levantando-se lesto e risonho, e como quem nenhum repáro fizera no tom ceremonioso, com que Malvina o tratava.—Que me queres?...
—Quero dizer-lhe,—exclamou a moça em tom severo, e fazendo vãos esforços para dar ao seo lindo e mavioso semblante um ar feroz,—quero dizer-lhe, que o senhor me insulta e me atraiçoa em sua casa, da maneira a mais indigna e desleal...
—Santo Deos!... que estás ahi a dizer, minha querida?... explica-te melhor, que não comprehendo nem uma palavra do que dizes...
—É debalde, que o senhor se finge sorprehendido; bem sabe a causa do meo desgosto. Eu já devia ter presentido esse seo vergonhoso procedimento; ha muito que o senhor não é o mesmo para commigo, e me trata com tal frieza e indifferença...
—Oh! meo coração, pois querias que durasse eternamente a lua de mel?... isso seria horrivelmente monotono e prosaico.
—Ainda escarneces, infame!—bradou a moça, e desta vez as faces se lhe afogueárão de extraordinario rubor, e fuzilárão-lhe nos olhos lampejos de cólera terrivel.
—Oh! não te exasperes assim, Malvina; estou gracejando,—disse Leoncio procurando tomar-lhe a mão.
—Boa occasião para gracejos!... deixe-me, senhor!... que infamia!... que vergonha para nós ambos?...
—Mas emfim não te explicarás?
—Não tenho que explicar; o senhor bem me entende. Só tenho que exigir...
—Pois exige, Malvina.
—Dê um destino qualquer a essa escrava, a cujos pés o senhor costuma vilmente prostrar-se: liberte-a, venda-a, faça o que quizer. Ou eu ou ella havemos de abandonar para sempre esta casa; e isto hoje mesmo. Escolha entre nos.
—Hoje!?
—E já!
—És muito exigente e injusta para commigo, Malvina,—disse Leoncio depois de um momento de pasmo e hesitação.—Bem sabes que é meo desejo libertar Isaura; mas acaso depende isso de mim sómente? É a meo pae, que compete fazer o que de mim exiges.
—Que miseravel desculpa, senhor! seo pae já lhe entregou escravos e fazenda, e dará por bem feito tudo quanto o senhor fizer. Mas se acaso o senhor a prefere a mim....
—Malvina!... não digas tal blasphemia!...
—Blasphemia!... quem sabe!... mas em fim dê um destino qualquer a essa rapariga, se não quer expellir-me para sempre de sua casa. Quanto a mim não a quero mais nem um momento em meo serviço; é bonita demais para mucama.
—O que lhe dizia eu, senhor Leoncio? acudio Henrique, que já cançado e envergonhado do papel de mudo guarda-costas, entendeu que devia intervir tambem na querella.—Está vendo?... eis-ahi o fructo que se colhe d’esses belos trastes de luxo, que quer por força ter em seo salão...
—Esses trastes não seriam tão perigosos, se não existissem vis mexeriqueiros, que não hesitam em perturbar o socego da casa dos outros para conseguir seos fins perversos...
—Alto lá, senhor!... para impedir, que o senhor não transportasse o seu traste de luxo do salão para a alcova, percebe?... o escandalo cedo ou tarde seria notorio, e nenhum dever tenho eu de ver de braços cruzados minha irmã indignamente ultrajada.
—Senhor Henrique! bradou Leoncio avançando para elle, hirto de cólera e com gesto ameaçador.
—Basta, senhores!—gritou Malvina interpondo-se aos dois mancebos.—Toda a disputa por tal motivo é inutil e vergonhosa para nós todos. Eu já disse a Leoncio o que tinha de dizer; elle que se decida; faça o que entender. Se quizer ser homem de brio e pundonor, ainda é tempo. Se não, deixe-me, que eu o entregarei ao desprezo, que merece.
—Oh! Malvina! estou prompto a fazer todo o possivel para te tranquillizar e contentar; mas deves saber que não posso satisfazer o teo desejo sem primeiro entender-me com meo pae, que está na côrte. É preciso mais que saibas, que meo pae nenhuma vontade tem de libertar Isaura, tanto assim, que para se ver livre das importunações do pae della, que tambem quer a todo custo libertal-a; exigio uma somma por tal forma exorbitante, que é quase impossivel o pobre homem arranjal-a.
—Ó de casa!... dá licença?—bradou neste momento com voz forte e sonora uma pessoa, que vinha subindo a escada do alpendre.
—Quem quer que é, pode entrar,—gritou Leoncio dando graças ao céo, que tão a proposito mandava-lhe uma visita para interromper aquella importuna e detestavel questão e livral-o dos apuros, em que se via entalado.
Entretanto, como se verá, não tinha muito de que congratular-se. O visitante era Miguel, o antigo feitor da fazenda, o pae de Isaura, que havia sido outróra grosseiramente despedido pelo pae de Leoncio.
Este, que ainda o não conhecia, recebeo-o com affabilidade.
—Queira sentar-se,—disse-lhe,—e dizer-nos o motivo por que nos faz a honra de procurar.
—Obrigado!—disse o recemchegado, depois de cumprimentar respeitosamente Henrique e Malvina.—Vª. Sª. sem duvida é o senhor Leoncio?...
—Para o servir.
—Muito bem!... é com Vª. S.ª, que tenho de tratar na falta do senhor seo pae. O meo negocio é simples, e julgo que o posso declarar em presença aqui do senhor e da senhora, que me parecem ser pessoas de casa.
—Sem duvida! entre nós não há segredo, nem reservas.
—Eis aqui ao que vim, senhor meo,—disse Miguel, tirando da algibeira de seo largo sobretudo uma carteira, que apresentou a Leoncio;—faça o favor de abrir esta carteira; aqui encontrará Vª. Sª. a quantia exigida pelo senhor seo pae, para a liberdade de uma escrava desta casa por nome Isaura.
Leoncio enfiou, e tomando machinalmente a carteira, ficou alguns instantes com os olhos pregados no teto.
—Pelo que vejo,—disse por fim,—o senhor deve ser o pae.... aquelle que dizem ser o pae da dita escrava;...—é o senhor....—não me lembra o nome....
—Miguel, um criado de Vª. Sª.
—É verdade; o senhor Miguel. Folgo muito que tenha arranjado meios de libertar a menina; ella bem merece esse sacrificio.
Enquanto Leoncio abre a carteira, e conta e reconta mui pausadamente nota por nota o dinheiro, mais para ganhar tempo a reflectir sobre o que deveria fazer naquellas conjuncturas, do que para verificar se estava exacta a somma, aproveitemo-nos do ensejo para contemplar a figura do bom e honrado portuguez, pae da nossa heroina, de quem ainda não nos occupámos senão de passagem.
Era um homem de mais de cincoenta annos; em sua physionomia nobre e aberta transpirava a franqueza, a bonhomia, e a lealdade.
Trajava pobremente, mas com muito alinho e limpeza, e por suas maneiras e conversação conhecia-se, que aquelle homem não viera ao Brazil, como quasi todos os seos patricios, dominado pela ganancia de riquezas. Tinha o trato e a linguagem de um homem polido, e de accurada educação. De feito Miguel era filho de uma nobre e honrada familia de Miguelistas, que havia emigrado para o Brazil. Seos paes, victimas de perseguições politicas, morrerão sem ter nada que legar ao filho, que deixárão na idade de dezoito a vinte annos. Sósinho, sem meios e sem protecção, vio-se forçado a viver do trabalho de seos braços, mettendo-se a jardineiro e horticultor, mister este, que como filho de lavrador, robusto, activo e intelligente desempenhava com summa pericia e perfeição.
O pae de Leoncio, tendo tido occasião de conhecel-o, e apreciando o seo merecimento, o engajou para feitor de sua fazenda com vantajosas condições. Ali servio muitos annos sempre mui respeitado e querido de todos, até que aconteceo-lhe a fatal, mas muito desculpavel fraqueza, que sabemos, e em consequencia da qual foi grosseiramente despedido por seo patrão. Miguel concebeo amargo resentimento e magoa profunda, não tanto por si, como por amor das duas infelizes creaturas, que não podia proteger contra a sanha de um senhor perverso e brutal. Mas forçoso lhe foi resignar-se. Não lhe faltava serviço nem acolhimento pelas fazendas vizinhas. Conhecedores de seo merito, os lavradores em redór o aceitarião de braços abertos; a difficuldade estava na escolha. Optou pelo mais vizinho, para ficar o mais perto possivel de sua querida filhinha.
Como o commendador quase sempre achava-se na côrte ou em Campos, Miguel tinha muita occasião e facilidade de ir ver a menina, á qual cada vez ia criando mais entranhado affecto. A esposa do commendador, na ausencia deste, dava ao portuguez franca entrada em sua casa, e facilitava-lhe os meios de ver e affagar a filhinha, com o que vivia elle mui consolado e contente. De feito o céo tinha dado á sua filha na pessoa de sua senhora uma segunda mãe tão boa e desvelada, como poderia ser a primeira, e que mais do que esta lhe podia servir de amparo e protecção. A morte inesperada daquella virtuosa senhora veio despedaçar-lhe o coração, quebrando-lhe todas as suas lisonjeiras esperanças.
Muito pode o amor paterno em uma alma nobre e sensivel!... Miguel sobrepujando todo o odio, repugnancia e asco, que lhe inspirava a pessoa do commendador, não hesitou em ir humilhar-se diante delle, importunal-o com suas supplicas, rogar-lhe com as lagrimas nos olhos, que abrisse preço á liberdade de Isaura.
—Não ha dinheiro que a pague; ha-de ser sempre minha,—respondia com orgulhoso cynismo o inexoravel senhor ao infeliz e afflicto pae.
Um dia enfim para se ver livre das importunações e supplicas de Miguel, disse-lhe com máo modo.
—Homem de Deos, traga-me dentro de um anno dez contos de réis, e lhe entrego livre a sua filha e ... deixe-me por caridade. Se não vier nesse prazo, perca as esperanças.
—Dez contos de réis! é somma demasiado forte para mim;...—mas não importa!... ella vale muito mais do que isso. Senhor commendador, vou fazer o impossivel para trazer-lhe essa somma dentro do prazo marcado. Espero em Deos, que me ha-de ajudar.
O pobre homem, á força de trabalho e economia, impondo-se privações, vendendo todo o superfluo, e limitando-se ao que era estrictamente necessario, no fim do anno apenas tinha arranjado metade da quantia exigida. Foi-lhe mister recorrer á generosidade de seo novo patrão, o qual, sabendo do santo e nobre fim a que se propunha seo feitor, e do vexame e extorsão, de que era victima, não hesitou em fornecer-lhe a somma necessaria, a titulo de emprestimo ou adiantamento de salarios.
Leoncio, que como seo pae julgava impossivel que Miguel em um anno pudesse arranjar tão consideravel somma, ficou atonito e altamente contrariado, quando este se apresentou para lh’a metter nas mãos.
—Dez contos,—disse por fim Leoncio acabando de contar o dinheiro.—É justamente a somma exigida por meo pae.—Bem estólido e avaro é este meo pae, murmurou elle comsigo,—eu nem por cem contos a daria.—Senhor Miguel,—continuou em voz alta, entregando-lhe a carteira,—guarde por ora o seo dinheiro; Isaura não me pertence ainda; só meo pae póde dispor della. Meo pae acha-se na côrte, e não deixou-me autorisação alguma para tratar de semelhante negocio. Arranje-se com elle.
—Mas Vª. Sª. é seo filho e herdeiro unico, e bem podia por si mesmo...
—Alto lá, senhor Miguel! meo pae felizmente é vivo ainda, e não me é permitido desde já dispor de seos bens, como minha herança.
—Embora, senhor; tenha a bondade de guardar esse dinheiro e envial-o ao senhor seo pae, rogando-lhe da minha parte o favor de cumprir a promessa, que me fez de dar liberdade a Isaura mediante essa quantia.
—Ainda pões duvida, Leoncio?!—exclamou Malvina impaciente e indignada com as tergiversações do marido.—Escreve, escreve quanto antes a teo pae; não te podes esquivar sem desonra a cooperar para a liberdade dessa rapariga.
Leoncio, subjugado pelo olhar imperioso da mulher, e pela força das circumstancias, que contra elle conspiravão, não poude mais escusar-se. Palido, sombrio e pensativo, foi sentar-se junto a uma mesa, onde havia papel e tinta, e de penna em punho pôz-se a meditar em attitude, de quem ia escrever. Malvina e Henrique, debruçados a uma janella, conversavão entre si em voz baixa. Miguel, sentado a um canto na outra extremidade da sala, esperava pacientemente, quando Isaura, que do quintal, onde se achava escondida, o tinha visto chegar, entrando no salão sem ser sentida, se lhe apresentou diante dos olhos. Entre pai e filha travou-se a meia voz o seguinte dialogo:
—Meo pae!... que novidade o traz por aqui?... a modo que lhe estou vendo um ar mais alegre que de costume.
—Caludo!—murmurou Miguel, levando o dedo á boca e apontando para Leoncio.—Trata-se da tua liberdade.
—Devéras meo pae!... mas como poude arranjar isso?
—Ora como?!... a peso de ouro. Comprei-te, minha filha, e em breve vás ser minha.
—Ah! meo querido pae!... como vmce. é bom para sua filha!... se soubesse, quantos hoje já me vieram offerecer a liberdade!... mas por que preço! meo Deos!... nem me atrevo a lhe contar. Meo coração adivinhava, continuou beijando com terna efusão as mãos de Miguel;—eu não devia receber a liberdade senão das mãos daquelle, que me deo a vida!...
—Sim, querida Isaura!—disse o velho apertando-a contra o coração.—O céo nos favoreceo, e em breve vás ser minha, minha só, minha para sempre!...
—Mas elle consente?... perguntou Isaura apontando para Leoncio.
—O negocio não é com elle, é com seo pae, a quem agora escreve.
—Nesse caso tenho alguma esperança; mas se minha sorte depender sómente daquelle homem, serei para sempre escrava.
—Arre! com mil diabos!... resmungou comsigo Leoncio levantando-se, e dando sobre a mesa um furioso murro com o punho fechado.—Não sei que volta hei-de dar para desmanchar esta inqualificavel loucura de meo pae!
—Já escreveste, Leoncio?—perguntou Malvina voltando-se para dentro.