Eça de Queiroz
A Illustre Casa de Ramires
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900
Porto—Imprensa Moderna
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Obras do mesmo auctor:
| Revista de Portugal. 4 grossos volumes | 12$000 |
| As Minas de Salomão, 1 volume | 600 |
| Os Maias. 2 grossos volumes | 2$000 |
| O Crime do Padre Amaro. Terceira edição inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva, 1 grosso volume | 600 |
| O Primo Bazilio. Terceira edição, 1 grosso volume. | 1$000 |
| A Reliquia, 1 grosso volume | 1$000 |
| O Mandarim. Quarta edição, 1 volume | 500 |
| Correspondencia de Fradique Mendes, 1 volume | 600 |
No prelo:
| A Cidade e as Serras. |
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
I
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Junto à fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgada pára...
Monge, escuta! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluira,
Se jámais um bastardo lhe pisasse,
Com sapato aviltado, as lages puras!
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
II
Quando fôres ao cemiterio
Ai Soledad, Soledad!...
Ai! que dos teus negros olhos
Me vem hoje a perdição...
Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é como se eu morto fôra.
E não me verás nunca mais!...
Quem te v'rá sem que estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada,
Por noites de lua cheia...
Ai! Assim callada, tão negra,
Torre de Santa Ireneia!
Ai! ahi estás, forte e soberba,
Com uma historia em cada ameia,
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Ireneia!...
Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Ireneia!
Lá passa a negra figura...
Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...
Que farás tu, mais velho dos Ramires?
Se ao pendão leonez juntas o teu
Trahes o preito que deves ao rei vivo!
Mas se as Infantas deixas indefezas
Trahes a jura que déstes ao rei morto!...
Á moça, que na fonte enchia a bilha,
O frade rouba um beijo e diz Amen!
III
IV
Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes...
V
Que liquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ebano!
Junto á fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgadura pára...
Lagrimas irrepresas lhe rebentam,
Arfa o arnez c'o soluçar ardente!...
Ora, quem te vê solitaria,
Torre de Santa Ireneia...
Todo alegre, e a mão no cinto.
Junto da Signa Real,
Gritando ás naus—«Amainae
Por El-Rei de Portugal!...»
—Velha casa de Ramires,
Honra e flor de Portugal!
VI
Trabalhar, meu irmão, que o trabalho
É André, é virtude, é valor!...
VII
VIII
IX
Quem te verá sem que estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada
Por noites de lua cheia...
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo a esperança...
Que junte os seus Cavalleiros
E que salve o Rei de França!
Ai, que junte os seus cavalleiros
E que salve o Rei de França!...
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo esperança...
Que junte os seus cavalleiros
E que salve o Rei de França!...
X
Velha casa de Ramires
Honra e flor de Portugal!
Os Ramires d'outras eras
Venciam com grandes lanças,
Este vence com um chicote,
Vêde que estranhas mudanças!
É que os Ramires famosos,
Da passada geração,
Tinham a força nas armas
E este a tem no coração!
Nem trillo d'ave em balançado ramo!
Nem fresca flôr junto de fresco arroio!
Só rocha, mattagal, ribas soturnas,
E em meio o Pego, tenebroso e morto!...
XI
Monsieur de Charette a dit à ceux d'Ancenes
"Mes Amis!...
Monsieur de Charette a dit...
"Mes amis!
Le Roy va rammener les Fleurs de Lys!"