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GARIBALDI.
MEMORIAS
DE
JOSÉ GARIBALDI
TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL
POR
ALEXANDRE DUMAS
VOLUME I.—SEGUNDA EDIÇÃO
LISBOA—1860
EDICTOR A. P. C.
CHIADO, 83-85
MEMORIAS DE GARIBALDI
PROLOGO
Como todo o presente tem ligação com o passado é impossivel começar qualquer narração, ainda que seja a historia de um homem ou de um successo, sem lançar os olhos para esse mesmo passado.
Obrigados pelo caracter aventureiro do homem de que começamos hoje a publicar as memorias, seremos muitas vezes forçados a ir ao Piemonte, patria de Garibaldi. Os homens de acção politica, quando pertencem ao progresso, teem momentos de desalento, nos quaes como Anteo tem necessidade para recobrar novas forças de tocar n'essa terra patria que Bruto na sua fingida loucura beijava como a mãe commum. É pois mui importante fazer um estudo rapido dos acontecimentos que tiveram logar no Piemonte de 1820 a 1834, época em que começa esta historia.
As guerras da republica e as invasões do imperio tinham trazido á Sardenha dous homens que haviam partido para o exilio ainda jovens e voltavam velhos; eram dois irmãos, nos quaes terminava a posteridade masculina dos duques de Saboia: fallamos de Victor Manuel I e Carlos Felix.
Ambos reinaram.
O ramo mais novo da familia Saboia era representado pelo principe de Carignan, que em 1823 fez como granadeiro do exercito francez a campanha de Hespanha, tendo-se distinguido principalmente no Trocadéro.
Em 1840 n'uma audiencia que me concedeu mostrou-me o seu sabre de granadeiro, e as dragonas de lã encarnada que conservava como reliquias da mocidade.
Victor Manuel I subindo ao throno, que provavelmente não lhe fora dado senão com esta condição, havia promettido aos soberanos seus alliados, o não fazer ao seu povo, fossem quaes fossem as circunstancias, em que se encontrasse a mais pequena concessão.
Mas o que era facil de prometter em 1815, era difficil de cumprir em 1821.
Desde 1820 os carbonarios haviam-se espalhado em toda a Italia. Em um livro que é mais uma historia do que um romance, no José Balsamo dissemos as origens do illuminismo e da franc-maçonaria.
Estes dois temiveis inimigos da realeza de que a divisa era L. P. D. (Lilia Pedibus Destrue) tiveram uma grande parte na revolução franceza. Swedenborg, de quem os adeptos assassinaram Gustavo III, era mago. Quasi todos os jacobinos e grande numero de cordeliers eram maçons, Philippe-Egalité era do grande oriente. Napoleão tomou a maçonaria debaixo da sua protecção, mas protegendo-a, desvirtuou-a, desviando-a dos seus fins, torcendo-a á sua conveniencia e fazendo d'ella um instrumento de despotismo. Não foi esta a unica vez que se forjaram cadeias com espadas.
José Napoleão foi grão-mestre da ordem, o archi-chanceller Cambacéres grão-mestre adjunto. A imperatriz Josephina estando em Strasbourg em 1805, presidiu á festa da adopção da loja dos franc-maçons de Paris. Por este mesmo tempo Eugenio Beauharnais era veneravel honorario da loja de Santo Eugenio de Paris, e tendo vindo mais tarde á Italia com a dignidade de vice-rei, o Grande Oriente de Milão o nomeou grão-mestre e soberano conservador do supremo conselho do gráo XXXII, isto é, concedeu-lhe a maior honra que segundo os estatutos da ordem se póde dar.
Bernardotte era maçon, seu filho o principe Oscar foi grão-mestre da loja sueca. Em differentes lojas de Paris foram successivamente iniciados: Alexandre, duque de Wurtemberg, o principe Bernardo de Saxe-Weimar, e até o embaixador persa Askeri-Khan. O presidente do senado, conde de Lacépêde presidia ao grande Oriente de França de que eram officiaes os generaes Kellermann, Massena, Soult, os principes, os ministros e os marechaes, os officiaes, os magistrados, emfim todos os homens notaveis pela sua gloria ou consideraveis pela sua posição ambicionavam a honra de serem maçons. As proprias mulheres quizeram ter as suas lojas maçonicas, nas quaes entraram M.mes de Vaudemont, de Carignan, de Girardin, de Bosi, de Narbonne, e muitas outras pertencentes á alta aristocracia franceza. Uma unica foi recebida, não com o titulo de irmã, mas com o de irmão: foi a celebre Xaintrailles, a quem o primeiro consul tinha dado a patente de chefe de esquadrão.[1] Mas não era só em França que n'essa época florescia a maçonaria.
O rei da Suecia, em 1811 instituiu a ordem civil da maçonaria. Frederico Guilherme III da Prussia tinha, pelos fins do mez de julho de 1800 approvado a constituição da grande loja de Berlin. O principe de Galles não cessou de governar a ordem em Inglaterra, senão quando em 1813 foi nomeado regente. Emfim no mez de fevereiro 1814, o rei da Hollanda, Frederico Guilherme, declarou-se protector da maçonaria, e permittiu que o principe real, seu filho acceitasse o titulo de veneravel honorario da loja de Guilherme Frederico de Amsterdam.
Depois da volta dos Bourbons á França o marechal Bournonville pediu a Luiz XVIII para collocar a maçonaria debaixo da protecção d'uma pessoa da familia real; mas como Luiz XVIII era dotado de excellente memoria, e não havia esquecido a parte que ella tinha tomado na catastrophe de 1793 recusou, dizendo que nunca consentiria que membro algum da familia real, formasse parte de qualquer sociedade secreta fosse ella qual fosse.
Na Italia a maçonaria cahiu com o dominio francez, mas em seu logar vieram os carbonarios, que mostravam querer continuar o seu pensamento libertador.
Duas outras seitas appareceram ao mesmo tempo.
Uma que se chamava a Congregação catholica apostolica romana, e a outra a Consistorial.
Os socios da Congregação tinham, como signal de reconhecimento, um cordelinho de seda amarella com cinco nós. Os pertencentes aos gráos inferiores não fallavam senão de actos de piedade e benificencia. Dos segredos da seita, conhecidos unicamente pelos altos dignatarios, só se podia fallar quando se achavam presentes dois associados; se por acaso um terceiro chegava, a conversação cessava immediatamente. A palavra de passe dos confrades era éleutheria, isto é, liberdade, a palavra secreta era ode, isto é, independencia.
Esta seita creada em França, entre os neo-catholicos, e a que pertenceram muitos dos nossos melhores e mais constantes republicanos, tinha atravessado os Alpes, chegado ao Piemonte e de lá á Lombardia. Mas aqui foram infelizes, pois obtiveram poucos adeptos, não tardando muito a extinguir-se, tendo os agentes de policia alcançado em Genova os diplomas que se entregavam aos adeptos assim como os estatutos e signaes de reconhecimento.
A consistorial era dirigida principalmente contra os austriacos. Á sua frente se achavam os principaes principes da Italia que não pertenciam á casa de Kabsbourg e era presidida pelo cardeal Gonsalvi. O unico principe que não foi excluido foi o duque de Modena. Logo que esta liga foi conhecida começaram as terriveis perseguições d'este principe contra os patriotas. É que elle queria obter da Austria o perdão da sua deserção, sendo necessario o sangue de Menotti seu companheiro na conspiração para o alcançar.
Os consistoriaes queriam tirar a Italia a Francisco II e dividil-a entre si.
Além de Roma e da Romania que elle guardava, o papa adquiria a Toscana. A ilha de Elba e as Marchés passavam para o poder do rei de Napoles; Parma, Pelazainge, e uma parte da Lombardia, com o titulo de rei ao duque de Modena; Massa, Carrara, e Luca ao rei da Sardenha. Emfim o imperador Alexandre da Russia que pela sua aversão á Austria protegia esta conspiração, ou recebia Ancona, Civita-Vecchia, ou Genova para poder ter um estabelecimento no Mediterraneo. Por esta fórma sem se consultar a vontade dos povos nem as demarcações territoriaes, dispunha-se de uma grande porção de almas, negando-se-lhe esse direito de escolha a que a ultima creatura nascida no solo europeo tem direito.
Por felicidade um unico de todos estes projectos, o dos carbonarios, parecia emanado de Deus e quasi a realisar-se.
Os carbonarios em quem unicamente havia esperança augmentavam consideravelmente nas Romanias. Haviam-se reunido á seita dos guelfos que tinham a sua séde em Ancona, e se apoiavam nos bonapartistas.
Luciano tinha sido elevado á dignidade de grão-mestre da ordem. Nas reuniões secretas mostrava-se a necessidade de tirar aos padres o poder que haviam alcançado; invocava-se o nome de Bruto e preparavam-se os animos á revolta.
Em a noute de 24 de junho teve logar a revolução, obtendo o funesto resultado que todas as primeiras tentativas d'este genero costumam alcançar. Toda a religião que deve ter apostolos, começa por ter martyres. Cinco carbonarios foram fuzilados, outros condemnados ás galés perpetuamente, e alguns julgados menos culpados foram encerrados por dez annos em uma fortaleza.
Então a seita tornando-se mais prudente mudou de nome, começando a chamar-se a Sociedade Latina. Nesta occasião a mesma sociedade conspirava na Lombardia, estendendo-se pelas outras provincias da Italia. No meio d'um baile dado pelo conde Porgia em Rovigo o governo austriaco fez prender muitas pessoas e declarou no dia seguinte criminoso d'alta traição todo o individuo que se filiasse nas lojas dos carbonarios.
Em Napoles foi aonde a rebellião appareceu com mais violencia. Cobetta affirma na sua historia que o numero dos carbonarios era de 642:000 e segundo um documento da chancellaria aulica de Vienna este numero ainda está muito abaixo da verdade. «Os carbonarios nas Duas Sicilias diz este documento contam mais de 800:000 adeptos, e não havendo policia nem vigilancia possivel para evitar tal alistamento seria loucura tentar anniquilal-os.»[2]
Ao mesmo tempo que a rebellião tinha logar em Napoles, Riego, outro martyr que deixou um cantico de morte, tornado depois em canção de victoria, levantava no 1.o de janeiro de 1820 a bandeira da liberdade, e um decreto de Fernando VII annunciou que tendo-se manifestado a vontade do povo, estava prompto a jurar a constituição proclamada pelas côrtes geraes e extraordinarias de 1812.
As prisões abrindo-se deram um ministerio á Hespanha.
Fernando I de Napoles na sua qualidade de principe de Hespanha, devia, ficando rei absoluto, jurar obediencia á constituição hespanhola. Teve então logar uma grande rebellião na Calabria, em Capitanata e em Palermo. O governo napolitano fraco, indeciso e desconfiado decretou algumas refórmas insufficientes que não impediram o general Pepe de fazer uma revolução. Napoles teve então como 1798, um governo provisorio e uma camara de deputados.
Foi algum tempo depois que por sua vez rebentou a revolução piemonteza. Na manhã de 10 de março o capitão conde Palma dando o grito de «o rei e a constituição hespanhola» fez pegar em armas ao regimento de Genova.
No dia seguinte um governo provisorio estava estabelecido, e em nome do reino de Italia declarava a guerra á Austria.
D'este modo a revolução partindo d'Ancona tinha chegado a Napoles voltando a Turim. Tres volcões se tinham aberto na Italia sem contar a Hespanha; agitando-se a Lombardia n'um triangulo de fogo.
O rei Victor Manuel havia promettido, como já dissemos, á santa alliança não fazer ao seu povo nenhuma concessão.
No dia seguinte para ficar fiel á sua palavra, o rei Victor Manuel abdicou em favor de seu irmão Carlos Felix que se achava então em Modena, e nomeou regente o principe de Carignan, que foi depois o rei Carlos Alberto.
Para todos os patriotas esta abdicação de um rei dedicado aos italianos em um principe dominado pela côrte de Austria era uma grande desgraça.
Santa Rosa um dos primeiros promotores da rebellião diz:
«A noute de 13 de março de 1821 foi bem fatal para minha patria. Foi n'essa noute que perdemos todas as nossas esperanças, foi n'essa noute que milhares de espadas erguidas para a defeza da patria se abaixaram. Com o rei Victor Manuel a patria estava no rei, ella se personalisava n'esse coração leal, e nós fazendo esta revolução, diziamos: «Coragem! O rei talvez um dia nos perdoe de o havermos feito senhor de seis milhões de italianos.»
Com Carlos Felix succedia exactamente o contrario. Estavam outra vez debaixo do jugo da Austria, e viam-se obrigados a começar de novo os seus trabalhos.
Comtudo toda a esperança ainda não estava perdida.
No dia 14 de março o principe de Carignan nomeado regente appareceu á janella, e no meio dos vivas calorosos do povo proclamou a constituição de Hespanha.
Como este facto devia ter no futuro grande importancia, como o principe Carlos Alberto devia um dia desmentir o principe de Carignan, é necessario não só citar o facto da constituição proclamada em alta voz, mas tambem dar uma cópia do edital que foi affixado nos muros de Turim.
Eis a traducção fiel:
«Nas circumstancias difficeis em que nos achamos é necessario sahir fóra dos limites que a nossa qualidade de regente nos impõe. O nosso respeito e submissão a sua magestade Carlos Felix, actual soberano, devia-nos obstar a que fizessemos alguma alteração nas leis fundamentaes do estado, até que soubessemos as intenções do nosso novo soberano, mas como as circumstancias imperiosas porque passamos são conhecidas por todos, e como queremos entregar ao novo rei um povo socegado e feliz e não despedaçado pela guerra civil, decidimos, ouvido o nosso conselho e na esperança de que sua magestade levado pelas mesmas considerações, revistirá a nossa deliberação da sua approvação soberana, que a constituição de Hespanha seja reconhecida como lei do estado, fazendo-se as alterações que o rei e a representação nacional entenderem.»
Eis o que os carbonarios tinham obtido cinco annos depois do seu estabelecimento em Italia: uma constituição em Hespanha, outra em Napoles, e outra no Piemonte.
Mas esta tendo sido a ultima em apparecer, foi a primeira a ser destruida.
Em logar de voltar a Genova ou a Milão, em logar de approvar as liberdades concedidas pelo principe de Carignan, o rei Carlos Felix publicou no dia 3 de abril seguinte o edito que vamos ler:
«Sendo o dever de todo o subdito fiel sujeitar-se da melhor vontade á ordem de cousas estabelecidas por Deus e pelo exercicio da soberana authoridade, declaro que emanando o nosso poder só de Deus, só a nós pertence escolher os meios que julgarmos mais convenientes para chegar a qualquer fim, e que em consequencia não teremos como subdito fiel aquelle que se atrever a murmurar contra as medidas que julgarmos necessario adoptar, ficando conhecidos só como vassallos fieis aquelles que se submetterem immediatamente, impondo esta submissão como condicção para voltarmos aos nossos estados.»
Ao mesmo tempo que o rei Carlos Felix publicava este edito modelo de cegueira e asneira, nomeava uma commissão militar encarregada de tomar conhecimento dos crimes de traição, rebellião e insubordinação que tinham sido commettidos.
Felizmente os principaes criminosos, isto é, aquelles de que os nomes são hoje os mais gloriosos do Piemonte, haviam tomado a fuga.
A commissão nomeada por Carlos Felix não perdeu o tempo. Em cinco mezes, cento e setenta e oito prisioneiros foram julgados. Setenta e tres foram condemnados á morte e ao fisco, e os outros á prisão e galés. Dos condemnados á morte sessenta eram contumazes e foram enforcados em effigie.
Julgamos conveniente dizer os nomes d'esses homens para que se conheçam aquelles que feriram esse poder estupidamente absoluto que desde Tarquino não tem sabido abater senão as cabeças mais intelligentes e elevadas.
Eram os tenentes Pavia e Ansaldi, o medico Ratazzi, o engenheiro Appiani, o advogado Dossena, o advogado Lurri, o capitão Baroni, o conde Bianco, o coronel Regis, o major Santa-Rosa, o capitão Lesio, o coronel Caraglio, o major Collegno, o capitão Radice, o coronel Morozzo, o principe della Cisterna, o capitão Ferraso, o capitão Pachiarotte, o advogado Marochetti, o segundo tenente Auzzano, e o advogado Ravina.
Ao todo seis officiaes superiores, trinta officiaes subalternos, cinco medicos, dez advogados, e um principe, todos notaveis pela intelligencia e pelas qualidades moraes.
Dois tinham sido presos e executados.
Eram o tenente de carabineiros João Baptista Lanari e o capitão Jacome Garelli.
Um foi executado a 21 de julho, e o outro a 25 de agosto.
O principal criminoso era, sem duvida, Carlos Alberto, pois havia proclamado a constituição, não como dizem os seus partidarios, salvo a approvação de Carlos Felix, mais n'estes termos que estão mui longe de serem reservados:
«Nella fiducia che sua Maesta il re, nosso dál eistesse considerazioni SARA PER RIVESTIRE questa deliberazione della sua socrasia approvazione, la constituzione di Spagna SARA PROMULGATA ET OSSERVATA COM LEGE DELLO STATO.»
Por isso assim que o principe de Carignan recebeu a carta que lhe participava a recusa do rei Carlos Felix, correu a Modena, mas o rei recusou recebel-o e o duque mandou-o intimar para deixar os seus estados.
O principe de Carignan retirou-se para Florença para o lado do grão duque de Toscana.
Para Carlos Alberto não se tratava unicamente de um simples exilio, ou d'um desvalimento momentaneo, mas sim da perda do throno do Piemonte. Espalhou-se então que Carlos Felix legava a corôa ao duque de Modena, e este que não a havia alcançado na conspiração dos principes italianos contra a Austria, esperava esta vez realisar a sua ardente ambição.
O principe de Carignan disse ao conde de la Maison-Fort, nosso ministro em Florença, qual era a sua posição, e este escreveu a Luiz XVIII relatando-lhe tudo.
Eis um fragmento da carta d'este ministro:
«Para despojar o principe de Carignan da sua herança é necessario chamar ao throno a duqueza de Modena, filha mais velha do rei Victor Manuel. Esta facilidade em affastar a nobre casa da Saboia de um throno por ella creado, esta ingratidão, exemplo do seculo em que vivemos, não póde ser partilhada pelo chefe de uma casa alliada com a Saboia dezoito vezes. A França pois não póde seguir esta politica, porque tem ao menos o direito de exigir a completa independencia do soberano que possue a chave da Italia.»
Luiz XVIII foi de opinião do seu ministro, e escreveu ao principe offerecendo-lhe um refugio na côrte de França. A conducta de Luiz XVIII era o mesmo que dizer—Não tem cousa alguma a receiar, tomo-o debaixo da minha protecção e não consentirei que outro seja rei do Piemonte.
E na verdade um rei que havia dado a carta ao seu povo, não podia criminar um principe por ter promettido uma constituição que não havia reconhecido.
Das tres constituições creadas pelos carbonarios, uma, a do Piemonte tinha sido logo anniquilada pelo rei Carlos Felix; a de Napoles havia sido destruida pela invasão austriaca, e a terceira, a unica existente ia desapparecer com a invasão franceza.
Era, pois, necessario ao principe de Carignan que havia proclamado a constituição hespanhola em Turim ir combater essa mesma constituição a Madrid.
Na realidade era uma posição difficil para o principe, mas a corôa do Piemonte tinha muitos attractivos para elle se occupar de bagatellas.
O principe de Carignan occultou a vergonha debaixo da barretina de granadeiro; fez a campanha de Hespanha e foi um dos vencedores de Trocadéro. D'esta sorte quando Carlos Felix falleceu, 27 de abril de 1851, o principe de Carignan subiu ao throno, com o nome de Carlos Alberto, tendo a vencer poucas difficuldades. A Austria que antes queria ver no throno o seu archi-duque de Modena, enfureceu-se e apresentou aos reis Carlos Alberto como um carbonario, e aos carbonarios como um traidor.
A Austria mentia.
Carlos Alberto não era carbonario: a proclamação em que concedia a constituição mostrava que a dava contra sua vontade.
Carlos Alberto não era um traidor, era um principe que ambicionando o titulo de rei, não havia feito compromissos pessoaes. A vergonha de ir abolir á Hespanha a constituição que tinha proclamado em Turim, tinha desapparecido pela coragem do granadeiro: o soldado havia absolvido o principe.
D'esta sorte a sua acclamação foi saudada com alegria pelos patriotas italianos.
Del Pozzo escreveu-lhe de Londres aonde se achava refugiado:
«Os meios termos e as medidas incompletas na politica não servem para cousa alguma: o Piemonte quer um rei constitucional.»
Outro patriota que guardou o incognito, escreveu-lhe de Marselha:
«Colloque-se á frente da nação, escreva na sua bandeira—União, liberdade e independencia—declare se vingador e interprete dos direitos populares, trate de regenerar a Italia, livre-a dos seus inimigos, e cuidando no futuro dê o seu nome a um seculo, e seja o Napoleão da liberdade italiana.
«Atire á Austria com a luva o nome da Italia, e estou certo que com este escudo fará prodigios. Appelle para tudo o que ha de grande e generoso na Peninsula. Uma mocidade ardente e corajosa impellida pelas duas paixões que fazem os heroes, o odio e a gloria, vive ha muito tempo com um só pensamento, e o seu mais ardente desejo é realisal-o.
«Chame essa mocidade ás armas, ponha as cidades e fortalezas debaixo da guarda dos cidadãos, e livre por este modo de todo e qualquer cuidado que não seja o vencer, reuna em volta de si todos aquelles que sendo notaveis pela intelligencia e pelo valor estejam isemptos de paixões infames. Inspire confiança ao povo, dissipe todas as duvidas sobre as suas intenções, chamando para o seu lado os homens livres. Senhor, digo-lhe a verdade: os verdadeiros patriotas hão-de avalial-o pelas suas acções, mas sejam ellas quaes forem, esteja seguro de que a posteridade verá em V. M. o primeiro dos homens ou o ultimo dos tyrannos.
«Escolha.»
O que na realidade torna os reis os escolhidos do Senhor é que só a elles se escrevem similhantes cartas. Se Carlos Alberto tivesse seguido os conselhos do seu mysterioso correspondente, teria sem duvida começado por Goita, mas talvez não tivesse finalisado por Novara.
Carlos Alberto despresou estes conselhos, e em logar de entrar no largo caminho que se lhe apresentava, metteu-se em uma estrada tortuosa d'onde poucos teem saido incolumes.
Desde este momento o divorcio foi declarado entre o rei da Sardenha e a joven Italia. A joven Italia! Foi por esta epocha que pela primeira vez se pronunciaram estas tres palavras. De que se compunha ella então? De José Mazzini o infatigavel promotor da união italiana. José Mazzini apenas conhecido n'esta epocha por algumas publicações politicas vendo-se perseguido pela policia havia-se refugiado em Marselha aonde collocava a primeira pedra da sua grande empreza enviando com milhares de difficuldades para o Piemonte os exemplares da sua Joven Italia.
A nobreza e o clero piemontez que se haviam apoderado do espirito de Carlos Alberto, começaram a receiar pelo seu poder. Havia dois annos que se tinham estabelecido na côrte, e por isso conheciam qual elle era. Desconfiavam da politica duvidosa de Carlos Alberto, e tinham medo que um dia lhe apparecesse, não alguma sombra de liberdade, mas sim uma idéa ambiciosa. Sabiam que Carlos Alberto n'essas noites de febre, como só os reis teem, sonhava com o throno da Italia.
Para alcançar esse throno seria necessario coadjuvar a revolução. O throno de Italia não estava á disposição dos reis, mas sim do povo.
Era necessario collocar uma barreira entre elle e os patriotas.
Um dia alguem disse:
É tempo de lhe fazer derramar algum sangue.
No mesmo dia Carlos Alberto foi prevenido de que no exercito uma grande conspiração se tramava com o fim de lhe tirar o throno.
Os factos foram desnaturados, os perigos exagerados. Attacaram todas as fibras do homem e do principe para lhe dar esse ressentimento mortal de que tinham necessidade esses homens que se intitulam os salvadores das monarchias.
Uma commissão criminal extraordinaria foi creada em Turim para dirigir todos os supplicios que tivessem logar no Piemonte.
Esta commissão decidiu que todos os accusados militares ou paisanos seriam sentenciados por ella. Foi a primeira violação do codigo penal.
Por esta occasião é que se deu o facto memoravel que vamos relatar.
Um official que se assentava como juiz no conselho de investigação fez algumas perguntas sobre principios de direito criminal a um jurisconsulto. Este respondeu-lhe que a primeira base de toda e qualquer lei, que a primeira regra de todo o codigo era:
«Que um conselho de investigação militar se devia declarar incompetente para julgar cidadãos.»
—Isso é impossivel, disse o official, porque o general ordenou que nos declarassemos competentes.
D'esta vez a base da lei, a regra do codigo foi a ordem do general.
O primeiro que manchou com o seu sangue o manto do novo rei, foi o cabo Tamburelli, que foi fuzilado pelas costas, por haver commettido o crime de lêr aos seus soldados a Joven Italia. O segundo foi o tenente Tolla culpado por ter tido em seu poder livros sediciosos, e conhecendo o author não o haver denunciado. Como Tamburelli foi fuzilado pelas costas. Era uma engenhosa invenção da magistratura piemonteza para assemelhar o supplicio do fuzilado ao da forca.
Já não era sufficiente matar, era preciso tambem deshonrar. A de 15 de Junho foram tão bem fuzillados pelas costas o sargento Miglio, José Deglia e Antonio Gaortti.
Todos morreram com uma coragem admiravel.
Jacopo Rufini estava encerrado nas prisões da torre de Genova. Tentavam tirar-lhe as forças por todos os meios possiveis: falto de comida e de somno, sentia que se enfraquecia, não só physicamente, mas moralmente, por isso resolveu não esperar que o collocassem entre a morte e a vergonha, e receiando que chegado esse momento não tivesse forças para escapar á morte, arrancou uma lança de ferro da porta da prisão, afiou-a e degolou-se com ella.
Nas agonias da morte teve forças sufficientes para escrever na muralha com letras de sangue:
«Lego á Italia a minha vingança.»
Quando no dia seguinte entraram na prisão acharam-n'o morto.
Em Genova foram fuzilados Luciano Placenzo e Luiz Turfo.
Em Alexandria Domingos Ferrari, José Menardi, José Rigano, Assani Costa, Giovanni Marini e depois Andrea Vochieri.
Escreveremos algumas linhas sobre Andrea Vochieri, assim como fizemos de Jacopo Rufini.
Um condemnado d'Alexandria que escapou ás torturas de Fenestrelle, deixou nas suas memorias a narração da agonia de Andrea Vochieri:
«Tiraram-me, diz elle, fallando de si, os meus livros que se compunham de uma Biblia, de um livro de orações e de uma Historia dos Capuchos illustres do Piemonte. Depois pozeram-me ferros aos pés e conduziram-me a outra prisão mais humida mais escura e mais sordida que primeira. As janellas tinham duas ordens de grades e as portas cadêas dobradas. Esta prisão era proxima da do pobre Vochieri. Alguns buracos na parede permittiam-me ver tudo quanto ali se passava.
«Estava deitado em um miseravel banco com ferros aos pés, dois guardas collocados ao lado com a espada núa, e uma sentinella armada com uma espingarda se achava á porta. Reinava n'este medonho carcere um silencio sepulchral e os soldados pareciam mais consternados do que o proprio prisioneiro. Dois frades capuchos vinham com curtos intervallos vel-o e exhortal-o.
«Apesar da grande dôr que sentia em vêr aquelle martyr em similhante estado não podia deixar de o contemplar a todos os momentos. No fim de oito dias vieram buscal-o para o conduzir á morte.»
O que este prisioneiro não relata porque não o sabia, é que Vochieri foi levado ao supplicio pelo caminho mais longo, sendo obrigado a passar por defronte da casa aonde habitava sua irmã, sua esposa e seus filhos. Esperavam que vendo tudo o que elle tinha de mais cara no mundo perdesse a coragem e fizesse algumas revelações.
Vochieri sorriu tristemente:
—Esqueceram, disse elle, que ha no mundo uma coisa que adoro mais do que esposa, irmã e filhos... é a Italia. Viva a Italia!
Voltando-se então para os guardas que o iam fuzilar, e que eram condemnados das galés em logar de soldados, disse esta unica palavra:
—Vamos!
Quinze minutos depois cahia atravessado por seis ballas.
Havia n'essa época em Niza um mancebo de vinte e seis annos que vendo correr este sangue fazia comsigo mesmo o juramento de consagrar toda a sua vida ao culto d'essa liberdade pela qual morriam tantos martyres.
Esse mancebo era Garibaldi.
ALEXANDRE DUMAS.
MEMORIAS DE GARIBALDI
I
MEUS PAES
Nasci em Niza, a 22 de julho de 1807, não só na casa, mas no proprio quarto em que nasceu Masséna. O illustre marechal era, como ninguem ignora, filho de um padeiro. Nas lojas d'aquelle predio ainda hoje se conserva uma padaria.
Antes de fallar a meu respeito seja-me permittido dizer duas palavras de meus estimados paes de que o excellente caracter e profunda ternura tanta influencia tiveram na minha educação e disposições physicas.
Meu pae, Domingos Garibaldi, natural de Chiavari, era como meu avô maritimo. Vindo ao mundo o primeiro objecto que seus olhos viram foi o mar, e era no mar que devia passar quasi toda a sua vida. Estava bem longe de possuir os conhecimentos que são o apanagio dos homens da sua classe, e principalmente do nosso seculo. Não havia formado a sua educação em uma escóla especial, mas sim nos navios de meu avô.
Mais tarde capitaneou uma embarcação com grande felicidade. Soffreu immensos incidentes uns felizes, outros desgraçados, e muitas vezes ouvi dizer que nos poderia ter deixado mais bens de fortuna do que nos legou.
Mas que importa isso! Meu pobre pae era livre de gastar como intendesse um dinheiro tão laboriosamente ganho, e eu não lhe sou menos reconhecido por esse facto. De mais ha uma coisa, de que estou intimamente convencido e é, de que todo o dinheiro que dispendeu n'este mundo o que gastou com a minha educação foi o que com mais prazer saín das suas algibeiras apesar dos grandes sacrificios que para isso era obrigado a fazer.
Não julguem por isto que a minha educação foi aristocratica. Meu pae não me mandou ensinar gymnastica, jogo d'armas ou equitação. A gymnastica apprendi-a trepando pelos cabos dos navios, e deixando-me escorregar pelas enxarcias; a esgrima defendendo a minha cabeça e tentando o melhor que podia quebrar a dos outros, e a equitação tomando os exemplos dos primeiros cavalleiros do mundo, isto é, dos Gauchos.
O unico exercicio corporal da minha mocidade, para o qual tambem não tive mestre, foi a natação. Não me lembro quando, e como aprendi a nadar, mas julgo que sempre o soube, pois desconfio que nasci amphibio. Assim não obstante o pouco prazer que tenho em me prodigalisar elogios, como sabem todos aquelles que me conhecem, não posso deixar de dizer que, sou um dos melhores nadadores existentes. Sendo conhecida a confiança que tenho em mim é escuzado dizer que nunca hesitei em me atirar á agua quando era necessario salvar um dos similhantes.
Entretanto se meu pae não me mandou ensinar todos estes exercicios a culpa não foi sua, mas sim da epocha calamitosa porque atravessavamos. N'estes tempos desgraçados o clero era o senhor absoluto do Piemonte, e todos os seus esforços eram tornar os mancebos em frades inuteis e mandriões em logar de cidadãos aptos para servirem a nossa desgraçada patria. O amor profundo que me consagrava meu pobre pae, até lhe fazia receiar que se eu recebesse alguma instrucção, isso me fosse funesto para o futuro.
Rosa Raymundo, minha mãe, era, digo-o com bastante orgulho, o modelo das mulheres. Todo o bom filho deve dizer o mesmo de sua mãe, mas nenhum o dirá com mais justiça do que eu.
Um dos remorsos de toda a minha vida, talvez o maior, foi e será o ter tornado desgraçados os seus ultimos dias! Só Deus sabe quanto ella soffreu com a minha vida aventureira, porque só Deus sabe o immenso amor que minha mãe me consagrava. Se em mim existe algum sentimento bom, confesso-o, e com bastante ufania, é a ella a quem o devo. O seu caracter angelico devia forçosamente deixar-me alguns vestigios. Não será á sua piedade pelos desgraçados, á sua compaixão pelos infelizes, que eu devo este amor pela patria, amor que me mereceu a affeição e sympathia dos meus compatriotas?
Não sou supersticioso, mas devo dizer que nas circumstancias mais criticas da minha vida, quando o oceano rugindo erguia o meu navio como um pedaço de cortiça, quando as bombas assobiavam a meus ouvidos como o vento da tempestade, quando as ballas cahiam em volta de mim como a saraiva, via sempre minha pobre mãe ajoelhada aos pés do Senhor orando pelo filho das suas entranhas. Se algumas vezes mostrei uma coragem de que muitos se admiraram, é porque estava convencido de que não me succederia desgraça alguma quando tão santa mulher, quando similhante anjo orava por mim.
II
OS MEUS PRIMEIROS ANNOS
Os primeiros annos da minha mocidade foram passados, como são os de todas as creanças, isto é, rindo e chorando sem saber porque, estimando mais o prazer que o trabalho, os divertimentos que o estudo, e não aproveitando, como devia ter feito, os sacrificios que meus paes faziam por meu respeito. Cousa alguma extraordinaria aconteceu durante a minha infancia. Tinha um excellente coração, sendo este um bem emanado de Deus e de minha mãe. Escusado é dizer que os impulsos d'esse coração eram por mim immediatamente satisfeitos. Tive sempre grande compaixão por tudo o que era fraco e soffredor. Esta compaixão estendia-se até aos animaes, ou antes começava por elles. Lembra-me de que um dia apanhei um grillo e que levando-o para o meu quarto, ahi passei alguns momentos brincando com elle, até que com essa inepcia ou antes brutalidade da infancia lhe arranquei uma perna: a minha dôr foi tal, que passei muitas horas encerrado no meu quarto chorando amargamente.
Outra vez indo a Var á caça com um primo meu, parei ao pé d'um profundo fosso aonde as lavadeiras costumavam lavar a roupa e aonde n'aquelle momento se achava uma pobre mulher lavando a sua. Não sei como, mas esta desgraçada caiu no fosso. Apesar de ser mui novo—tinha então oito annos—atirei-me á agua conseguindo salval-a. Conto este caso para provar quanto é natural em mim um sentimento que me leva a soccorrer o meu similhante, e para se conhecer o pouco valor que tem o fazel-o.
Entre os professores que tive n'esta epocha da minha vida, contam-se o padre Giovanni e o senhor Arene, a quem eu conservo um reconhecimento particular.
Com o primeiro aproveitei pouco, porque, como já disse, tinha mais disposição para brincar e vadear, do que para trabalhar. Resta-me sobre tudo o pesar de não haver estudado o inglez, como o teria podido fazer, porque sendo o padre Giovanni de casa e quasi de familia, as suas lições resentiam-se da muita familiaridade que entre nós existia. Todas as vezes que sou obrigado a tractar com inglezes, que não são poucas, este sentimento renova-se sempre. Ao segundo, optimo professor, é a quem devo o pouco que sei, mas o que mais lhe agradeço, e porque lhe serei eternamente grato, é haver-me ensinado a minha lingua materna pela constante leitura da historia romana.
A grave falta de não ensinar ás creanças a lingua e historia patria é frequentemente commettida em Italia, e principalmente em Niza, onde a proximidade de França influe muitissimo na educação. É pois a esta primeira leitura da nossa historia, e á persistencia com que meu irmão mais velho, Angelo, me recommendava o seu estudo, que eu devo o pouco que sei da sciencia historica e a facilidade de exprimir os meus pensamentos.
Termino este primeiro periodo da minha juventude narrando um facto que, apezar da sua pouca importancia dará uma idéa da minha disposição para a vida aventureira.
Fatigado de estudar, e soffrendo muito pela vida sedentaria que era obrigado a levar, propuz um dia a alguns dos meus companheiros que fugissemos para Genova. A proposta foi logo approvada e desatando um barco de pesca fizemo-nos de véla para o Oriente. Estavamos nas alturas de Monaco quando um pirata, mandado por meu excellente pae nos apanhou e entregou cheios de vergonha ás nossas familias. Um abbade que nos havia visto foi o denunciante. D'este facto é que provavelmente vem as poucas sympathias que sinto pelos abbades.
Os meus companheiros n'esta aventura eram, se bem me recordo, César Parodi, Rafael de Andreis e Celestino Dermond.
III
AS MINHAS PRIMEIRAS VIAGENS
«Oh! primavera, juventude do anno. Oh! juventude, primavera da vida!» disse Metastasio, eu ajuntarei: Como tudo se aformosea ao sol da juventude e da primavera!
Foi illuminado por esse bello sol que tu linda Constanza, primeiro navio em que sulquei os mares, me appareceste. Os teus robustos flancos, a tua elevada e ligeira mastreação, a tua espaçosa coberta, e até o busto de mulher que se patenteava soberbo na tua prôa, ficarão eternamente gravados na minha idéa! Como os teus marinheiros, verdadeiros typos dos nossos Ligurios, se inclinavam graciosamente sob os remos!
Com que alegria me dependurava na amurada para ouvir as suas canções populares.
Cantavam canções de amor; ninguem então lhe ensinava outras, e estas por mais insignificantes que fossem, enterneciam-me e arrebatavam-me. Se esses cantos tivessem sido pela patria, talvez me enlouquecessem! Quem lhe diria então que havia uma Italia? Quem lhe diria que tinhamos uma patria a vingar e a tornar livre?
Ninguem!
Fomos educados e crescemos como judeus, isto é, na crença de que a vida não tem senão um fim—fazer fortuna.
Em quanto olhava alegre para o navio em que ia embarcar, minha mãe preparava, chorando, a minha bagagem.
A minha vocação era a vida aventureira do mar. Meu pae fez todo o possivel para me tirar similhante idéa, a sua vontade era que eu seguisse, uma carreira pacifica e sem perigos; que fosse padre, advogado ou medico. Mas a minha persistencia o fez desistir, e o seu amor cedeu á minha juvenil obstinação. Embarquei então na Constanza de que era capitão Angelo Pesante o mais atrevido maritimo que tenho conhecido. Se a nossa marinha tivesse tomado as proporções que se podiam esperar, o capitão Pesante teria direito ao commando de um dos nossos navios de guerra, e ninguem o teria excedido. Pesante nunca commandou uma esquadra, mas que se dirijam a elle, e em breve tempo já terá arranjado uma, desde as barcas até ás naus de tres pontos. Se elle algum dia obtivesse uma tal commissão, posso assegurar que haveria proveito e gloria para a patria.
Fiz a minha primeira viagem a Odessa. Estas viagens tornaram-se depois tão communs e faceis que é inutil descrevel-as.
A minha segunda viagem foi a Roma, mas na companhia de meu pae que tendo na minha primeira ausencia soffrido mortaes inquietações, se tinha resolvido visto eu não querer ceder da minha teima, a acompanhar-me.
Fizemos a viagem na sua tartana a Santa Reparata.
A Roma! Com que alegria eu partia! Já disse como pelos conselhos de meu irmão e pelos cuidados do meu digno professor havia estudado, a historia romana. Roma era para mim, admirador da antiguidade, a capital do mundo. É verdade que se achava destruida, mas as suas ruinas eram immensas, gigantescas e d'ellas sae a memoria de tudo quanto é bello e grandioso. Roma foi não só a capital do mundo, mas o berço d'essa religião santa que quebrou a cadêa dos escravos, que ennobreceu a humanidade, d'essa religião de que os primeiros apostolos foram os instituidores das nações, os emancipadores dos povos, mas de que infelizmente os successores degenerados teem sido o flagello da Italia, vendendo sua mãe, ou antes nossa mãe, aos estrangeiros! Não! não! a Roma que eu via nos sonhos da minha mocidade não era só a Roma do passado, mas tambem a do futuro, abrigando em seu seio a idéa regeneradora de um povo perseguido pela inveja das outras nações, porque nasceu grande e porque tem sempre marchado á frente dos povos, guiados por ella á civilisação.
Roma! quando penso na sua desgraça, no seu abatimento, no seu martyrio, parece-me superior a todo o mundo. Amava-a com todas as forças da minha alma, não só nos combates soberbos da sua grandeza durante tres seculos; mas até nos mais pequenos successos que eu recolhia no meu coração como um precioso deposito.
O meu amor em logar de diminuir, tem augmentado com o desterro. Muitas vezes, no outro lado dos mares, a tres mil leguas de distancia, pedia ao Senhor como uma graça especial o tornar a vêl-a. Finalmente, Roma era para mim a Italia, porque eu não vejo a Italia senão na reunião dos seus membros dispersos, e Roma é para mim o symbolo da unidade italiana.
IV
AS MINHAS PRIMEIRAS AVENTURAS
Durante algum tempo naveguei na companhia de meu pae; depois fui a Cagliari no bergantim Etna, de que era capitão José Gervino.
N'esta viagem presenciei uma horrivel catastrophe que me deixou uma eterna recordação. Vindo de Cagliari, na altura do cabo Noli, navegavamos na companhia de alguns navios, entre os quaes se achava uma encantadora falua catalã. Depois de gosarmos dois ou tres dias de um bello tempo, começámos a sentir algumas rajadas d'esse vento a que os nossos marinheiros chamam Libieno, por que antes de chegar ao Mediterraneo passa pelo deserto de Lybia. Impellido por elle o mar não tardou a enfurecer-se, e tão furiosamente que nos arrastou para Vado.
A falua de que já fallei sustentou-se admiravelmente no começo da tormenta, e não duvido dizer que todos nós receiando que a tempestade augmentasse, desejavamos antes estar a bordo da falua, do que dos nossos navios. Infelizmente a desgraçada embarcação estava destinada a offerecer-nos um doloroso espectaculo: uma vaga horrivel a cobriu, e em bem poucos instantes todos aquelles desgraçados foram submergidos. A catastrophe tinha logar á nossa direita, e por isso nos era absolutamente impossivel soccorrel-os. Os outros navios que nos acompanhavam tambem se achavam na mesma impossibilidade. Nove pessoas da mesma familia morreram á nossa vista, sem lhe podermos prestar o mais leve soccorro. Algumas lagrimas appareceram nos olhos dos mais endurecidos dos nossos marinheiros, mas o perigo proprio era tal que ellas bem depressa seccaram. A tempestade abrandou, como se estivesse satisfeita por haver immolado estas victimas; e chegamos a Vado sem incídente.
De Vado parti para Genova, e de Genova voltei a Niza.
Então comecei uma serie de viagens ao Levante, durante as quaes fomos tres vezes tomados e roubados pelos piratas. Duas vezes o fomos na mesma viagem, o que tornou os segundos piratas mui furiosos, visto que não nos encontravam cousa alguma para roubar. Foi n'estes ataques que comecei a familiarisar-me com o perigo, e a vêr que sem ser Nelson, podia como elle perguntar:—O que é o medo?
Foi n'uma destas viagens, no bergantim Cortese, capitão Barlasemeria, que fiquei doente em Constantinopla. O navio foi obrigado a fazer-se de véla, e prolongando-se a minha doença mais do que eu tinha julgado, achei-me muito falto de recursos.
Como em todas as situações desgraçadas em que me tenho achado, sempre encontrei alguma alma caridosa que me soccorresse, nunca pensei muito na falta de dinheiro.
Entre essas almas caridosas encontrei uma que nunca esquecerei: é a excellente senhora Luiza Sauvaigo, de Niza, que me fez convencer de que as duas mulheres mais perfeitas do mundo, eram minha mãe e ella.
Luiza fazia a felicidade de um marido, excellente homem, e tratava com uma admiravel intelligencia da educação de seus filhos.
Porque razão fallei agora de Luiza? É porque escrevendo para satisfazer uma necessidade do coração, ella me dictou o que acabo de lançar ao papel.
A guerra então existente entre a Porta Ottomana e a Russia contribuiu a prolongar a minha estada na capital do imperio turco. Durante este tempo e ignorando ainda como poderia alcançar recursos para viver, fui admittido como preceptor em casa da viuva Timoni. Este emprego foi-me dado sob recommendação de M. Diego, doutor em medicina, e a quem dou aqui um voto de agradecimento pelo serviço que me prestou. Estava, pois, preceptor de tres meninos. Assim fiquei muitos mezes, até que a vontade de navegar vindo de novo, me embarquei no bergantim Notre-Dame-de-Grace, de que tinha sido capitão Casanova.
Foi este o primeiro navio em que embarquei como capitão.
Não fatigarei o leitor fallando nas minhas viagens, em que nada de extraordinario me succedeu, direi unicamente que atormentado sempre por um profundo patriotismo, nunca cessei de perguntar noticias sobre a ressurreição de Italia, mas infelizmente até á edade de vinte e quatro annos todo o trabalho foi inutil.
Emfim, n'uma viagem a Taganrog veiu a bordo do meu navio um patriota italiano, que me deu algumas noticias sob a maneira porque marchavam os negocios de Italia.
Havia alguma esperança para o nosso desgraçado paiz.
Christovão Colombo, não foi mais feliz, quando perdido no meio do Atlantico, e ameaçado pelos seus companheiros a quem havia pedido só tres dias, ouviu gritar: «Terra», do que eu quando ouvi pronunciar a palavra patria, e vi no horisonte o primeiro pharol preparado pela revolução franceza de 1830.
Havia então homens que se occupavam da redempção da Italia!
Em outra viagem, transportei no Clorinde, a Constantinopla alguns Simoniacos, conduzidos por Emilio Parrault.
Tinha ouvido fallar pouco na seita de «Saint-Simon»; sabia unicamente que estes homens eram os apostolos perseguidos de uma nova religião.
Vendo em Parrault um patriota italiano, dei-lhe parte de todos os meus pensamentos. Então durante essas noutes transparentes do Oriente, que, como diz Chateaubriand, não são as trevas, mas unicamente a ausencia do dia, debaixo d'esse ceu marchetado de estrellas, sobre esse mar de que a brisa parecia cheia de inspirações generosas, discutimos, não só as mesquinhas questões de nacionalidade nas quaes havia pensado muito, questões restrictas á Italia, e a cada provincia—mas até a grande questão da humanidade.
Este apostolo provou-me que o homem que defende a sua patria, ou que ataca a dos outros, é no primeiro caso um soldado piedoso; injusto no segundo,—mas o homem que tornando-se cosmopolita, adopta a todas por patria e vae offerecer a sua espada e o seu sangue ao povo que lucta contra a tyrannia, é mais que um soldado—é um heroe.
Teve então logar no meu espirito uma mudança repentina. Pareceu-me vêr em um navio não o vehiculo encarregado de transportar mercadorias entre os diversos paizes, mas o mensageiro do Senhor. Havia partido avido de emoções, e curioso por vêr cousas novas, e a mim mesmo perguntava se esta idéa irresistivel que me perseguia não tinha horisontes mais dilatados e por descobrir. Via esses horisontes atravez o longiquo véo do futuro.
V
OS ACONTECIMENTOS DE S. JULIÃO
O navio em que desta vez voltei do Oriente destinava-se a Marselha.
Chegando a esta cidade soube da revolução suffocada no Piemonte e dos fuzilamentos de Chambéry, Alexandria e Genova.
Em Marselha travei relações intimas com Covi, que me apresentou a Mazzini.
Então estava longe de suspeitar a grande communidade de principios que um dia me uniria a Mazzini. Ninguem conhecia ainda o persistente e obstinado pensador, que nem a propria ingratidão tem feito desistir da grande obra que emprehendeu. Quando soube da morte de Vocchieri, Mazzini tinha dado um verdadeiro grito de guerra.
Escreveu na sua Joven Italia: «Italianos, é tempo de nos juntarmos, se queremos ficar dignos do nosso nome; e derramar o nosso sangue amalgamando-o com o dos martyres piemontezes.»
Mas em França, em 1833, não se diziam impunemente d'estas cousas. Algum tempo depois de lhe haver sido apresentado, e de lhe ter dito que podia contar comigo, Mazzini, o eterno proscripto, era obrigado a deixar a França e a retirar-se a Genova.
N'esta occasião o partido republicano parecia completamente morto na França. Era um anno apenas decorrido: estavamos a 5 de junho,—alguns mezes depois do processo dos combatentes do claustro Saint-Merry.
Mazzini havia escolhido este momento para fazer uma nova tentativa.
Os patriotas tinham respondido que estavam promptos, mas pediam um chefe.
Pensaram em Romarino, ainda coberto de louros por causa das suas luctas na Polonia.
Mazzini não approvava esta escolha, o seu espirito activo e profundo prevenia-o contra os grandes nomes; mas a maioria queria Romarino, e então Mazzini cedeu.
Chamado a Genova, Romarino acceitou o commando da expedição. Na primeira conferencia com Mazzini foi convencionado que duas columnas republicanas se deviam dirigir ao Piemonte, uma pela Saboia outra por Genova.
Romarino recebeu quarenta mil francos para fazer face ás primeiras despezas, e partiu com um secretario de Mazzini que ia encarregado de o vigiar.[3]
Todos estes acontecimentos tiveram logar em setembro de 1833; a expedição devia ter logar em outubro.
Mas Romarino conduziu tudo de tal modo que a expedição não estava prompta senão em janeiro de 1834.
Mazzini não obstante todas as tergivergencias do general tinha-se mostrado firme.
Em fim a 31 de janeiro, Ramorino collocado na ultima extremidade por Mazzini reuniu-se a elle em Genova, com dois outros generaes e um ajudante de campo.
A conferencia foi triste, e mal annunciada por pessimos agouros. Mazzini propoz que se occupasse militarmente a villa de S. Julião, onde se achavam reunidos os patriotas saboyanos e os republicanos francezes, que haviam adherido ao movimento.
Era em S. Julião que se devia levantar o grito de rebellião.
Ramorino era da opinião de Mazzini. As duas columnas deviam pôr-se em marcha no mesmo dia: uma partiria de Caronge, e a outra de Nyon, devendo esta atravessar o lago para se reunir á primeira na estrada de S. Julião.
Ramorino ficava com o commando da primeira columna: a segunda estava debaixo das ordens de Graboky.
O governo genovez receioso de se indispor, por um lado com a França, por outro com o Piemonte, viu com maus olhos este movimento. Quiz oppor-se á partida da columna de Caronge commandada por Romarino, mas o povo sublevou-se, e o governo foi forçado a deixal-a marchar.
Não succedeu o mesmo com a que devia partir de Nyon.
Dous barcos se haviam feito de véla, levando um soldados, e o outro armas.
Mandaram em sua perseguição um navio de guerra a vapor, que trouxe as armas e aprisionou os soldados.
Ramorino não vendo chegar a tropa que se lhe devia juntar, em logar de proseguir na sua marcha sobre S. Julião, começou a costear o lago.
Muito tempo se passou sem saber aonde iam. Não se conheciam as intenções do general: o frio era intenso, e os caminhos estavam em um estado deploravel.
Exceptuando alguns polacos, a columna era composta de voluntarios italianos, impacientes pela hora do combate, mas que cançavam facilmente pela extensão e difficuldade do caminho.
A bandeira italiana atravessou algumas pobres villas, nenhuma voz amiga a saudou, não encontrando por toda a parte senão curiosos ou indifferentes.
Fatigado pelos seus largos trabalhos, Mazzini que tinha trocado a penna pela espingarda, seguia a columna: soffrendo uma febre ardente, arrastava-se por aquelles asperos caminhos com a dôr escripta na fronte.
Já por varias vezes tinha perguntado a Ramorino quaes eram as suas intenções, e que caminho seguia.
As respostas do general nunca o haviam satisfeito.
Chegaram a Carra e detiveram-se para ahi passar a noite; Mazzini e Ramorino achavam-se na mesma camara.
Ramorino estava embrulhado na sua capa; Mazzini fixava sobre elle o seu olhar sombrio desconfiado.
—Não é seguindo este caminho, disse elle com a sua voz sonora, tornada mais vibrante pela febre, que temos a esperança de encontrar o inimigo. Devemos ir ao seu encontro, e se a victoria é impossivel, provemos ao menos á Italia que sabemos morrer.
—Não nos faltará nem o tempo, nem a occasião, respondeu o general, para affrontar perigos inuteis: considero como um crime o expôr inutilmente a flôr da mocidade italiana.
—Não ha religião sem martyres, respondeu Mazzini, fundemos a nossa, ainda que seja com o nosso sangue.
Mal acabava de pronunciar estas palavras, que o estrondo da fuzilaria se ouviu.
Ramorino deu um salto. Mazzini pegou n'uma carabina, agradecendo a Deus o ter-lhe feito encontrar o inimigo. Mas este era o ultimo esforço da sua energia: a febre devorava-o; os seus companheiros correndo de noite pareciam-lhe fantasmas, a fronte escaldava-lhe, e a terra tremia-lhe debaixo dos pés. Depois de alguns minutos de afflicção caíu desmaiado.
Quando voltou a si achou-se na Suissa, aonde os seus companheiros o tinham conduzido com grande trabalho: a fuzilaria de Carra tinha sido um rebate falso.
Ramorino declarou então que tudo estava perdido: recusou-se a ir mais longe e ordenou a retirada.
Durante este tempo uma columna de cem homens, da qual faziam parte um certo numero de republicanos francezes, partiu para Grenoble, e atravessou a fronteira da Saboya.
O perfeito francez preveniu as auctoridades sardas: os republicanos foram attacados de noute e de improviso, ao pé das grutas de Cobellos, e dispersos depois d'um combate que durou uma hora.
N'este combate os soldados sardos fizeram dois prisioneiros. Angelo Volantieri e José Borrel: conduzidos voluntariamente a Chamberg e condemnados á morte, foram fuzilados na mesma terra aonde ainda estava fumegante o sangue de Elfico Tolla.
Por este modo terminou aquella expedição.
VI
O DEUS DOS BONS
Tinha tambem a minha parte a cumprir no movimento que devia ter tido logar, e havia-a acceitado sem discutir.
Havia entrado no serviço do estado como marinheiro de primeira classe da fragata Eurydice. A minha missão era alcançar proselytos para a nossa causa, e para conseguir este fim tinha feito tudo quanto me era possivel.
Dado o caso que o nosso movimento tivesse bom resultado, devia com os meus companheiros apoderar-me da fragata e pôl-a á disposição dos republicanos.
Não havia querido, impellido pelo ardor que sentia, limitar-me a este papel. Tinha ouvido dizer que um movimento teria logar em Genova, devendo por esta occasião apoderarem-se do quartel dos gendarmes situado na praça de Sarzana. Deixei aos meus companheiros o cuidado de se assenhorearem do navio, e proximo da hora em que devia rebentar a rebellião de Genova deitei uma canôa ao mar e desembarquei na alfandega, gastando poucos momentos a chegar á praça de Sarzana, onde, como já disse, estava situado o quartel.
Esperei quasi uma hora, mas nenhum indicio de rebellião appareceu. Bem depressa ouvi dizer que tudo estava perdido, havendo-se posto os republicanos em fuga: dizendo-se tambem que varias prisões haviam sido feitas.
Como não me tinha engajado na marinha sarda senão para ajudar o movimento republicano, julguei inutil voltar a bordo do Eurydice, começando a pensar nos meios de me pôr em fuga.
No momento em que fazia estas reflexões, alguma tropa prevenida sem duvida do projecto de nos apoderarmos do quartel, começou a guarnecer a praça.
Vi então que não havia tempo a perder. Refugiei-me em casa de uma vendedeira de fructa e confessei-lhe a situação em que me achava.
A excellente mulher não fez nenhuma reflexão e escondeu-me nos quartos interiores do seu estabelecimento. No dia seguinte procurou-me um fato completo de camponez, e pelas oito horas da noite sahi, como se andasse passeando, de Genova pela porta da Lanterne, começando então essa vida de exilio, luto e perseguição, que, segundo todas as probabilidades, ainda não finalisou.
Estavamos a 5 de fevereiro de 1834.
Abandonando os caminhos batidos e trilhados dirigi-me por atalhos para as montanhas. Tinha bastantes jardins que atravessar, e muitos muros que saltar. Felizmente estava familiarisado com estes exercicios, e depois de uma hora de gymnastica achava-me fóra do ultimo jardim.
Encaminhado-me para Cassiopea, ganhei as montanhas de Sestri, e no fim de dez dias, ou antes de dez noites; cheguei a Niza, dirigindo-me logo a casa de minha tia, na praça da Victoria, a fim de que ella prevenindo minha mãe lhe tirasse todos os cuidados.
Descancei um dia, e na noite seguinte parti acompanhado por dois amigos, José Jaun, e Engelo Gostavini.
Chegados ao Var, achamol-o innundado pelas chuvas, mas para um nadador como eu, não era isto um obstaculo. Atravessei-o metade a nado, metade a vau.
Os meus dois amigos haviam ficado na outra margem. Disse-lhe adeus.
Estava salvo, ou quasi, como se vae vêr.
N'esta esperança dirigi-me a um corpo de guardas da alfandega; disse-lhe quem era, e qual o motivo porque havia deixado Genova.
Os guardas disseram-me que era seu prisioneiro, até nova ordem, e que a iam mandar pedir a Paris.
Julgando que acharia facilmente occasião de fugir, não fiz nenhuma resistencia, e deixei-me conduzir a Grasse, e de Grasse a Draguignan.
Em Draguignan metteram-me em um quarto do primeiro andar, cuja janella sem grades, dava para um jardim.
Aproximei-me d'ella como se quizesse vêr o jardim: da janella ao chão havia a altura de quinze pés. Dei um salto, e em quanto os guardas, menos ligeiros e estimando mais as pernas do que eu estimava as minhas, saíam pela escada; ganhei-lhe muita dianteira embrenhando-me nas montanhas.
Não conhecia o caminho, mas era marinheiro, e lendo no ceo, n'esse grande livro, aonde estava habituado a lêr, orientei-me e dirigi-me a Marselha. No dia seguinte de tarde cheguei a uma villa de que nunca soube o nome, porque nem tive tempo para o perguntar.
Entrei n'uma estalagem. Um mancebo e uma mulher ainda joven estavam á mesa esperando pela ceia.
Pedi alguma cousa de comer: desde a vespera que não havia tomado nenhum alimento.
O dono da hospedaria convidou-me para ceiar na sua companhia e de sua mulher. Acceitei.
A comida era boa, o vinho do paiz agradavel, e o fogo excellente. Senti então um d'esses momentos de bem estar e felicidade, como só se experimentam depois de se haver passado um perigo, e quando se julga não haver mais nada a receiar.
O dono da hospedaria felicitou-me pelo meu bom appetite, e pelo meu rosto alegre e prasenteiro.
Disse-lhe que o meu appetite não tinha nada de extraordinario, porque não tinha comido havia dezoito horas e que o achar-me alegre e satisfeito era por haver escapado talvez á morte no meu paiz—e em França á prisão.
Tendo-me adiantado tanto, não podia fazer segredo do resto. O estalajadeiro e sua mulher pareciam-me tão boas pessoas que lhe contei tudo.
Então, com grande espanto meu, o estalajadeiro ficou pensativo.
—Que tem? lhe perguntei.
—É que depois da confissão que acaba de fazer, respondeu elle, não tenho remedio senão prendel-o.
Dei uma grande gargalhada porque não tomei este dito ao serio, e demais se o fosse eramos um contra um, e não havia no mundo um unico homem que eu temesse.
—Bem, disse eu, mas como julgo que não tem muita pressa, peço-lhe que me deixe ceiar com todo o descanço, pois temos muito tempo depois do dessert. E continuei comendo sem mostrar a mais leve inquietação.
Infelizmente vi bem depressa que se o estalajadeiro tivesse necessidade de ajudantes para realisar os seus projectos, esses ajudantes não lhe faltavam.
A sua estalagem era o logar aonde toda a mocidade da villa se reunia ás noutes para beber, fumar, e fallar da politica.
A sociedade do costume começava a reunir-se, e bem depressa estavam na estalagem mais de doze mancebos, jogando as cartas, bebendo e fumando.
O estalajadeiro não tornou a fallar na minha prisão, mas tambem não me perdia de vista.
É verdade que não tendo eu a mais pequena mala, não tinha cousa alguma que lhe assegurasse o pagamento da minha despesa.
Como tinha na algibeira alguns escudos, fiz barulho com elles, o que pareceu socegar o meu homem.
No momento em que um dos bebedores acabava, no meio dos applausos geraes, de cantar uma canção, ergui o copo que tinha na mão:
—Agora pertence-me, disse eu:
E comecei a cantar o Deus dos bons.
Se não tivesse outra vocação teria podido fazer-me cantor, porque tenho uma voz de tenor que cultivada alcançaria uma certa extensão.
Os versos de Beranger, a franquesa com que eram cantados, a fraternidade do estribilho, a popularidade do poeta, arrebataram todo o auditório.
Fizeram-me repetir dois ou tres couplets e abraçando-me todos quando acabei, gritaram—Viva Beranger! Viva a França! Viva a Italia!
Depois de haver obtido tal successo era escusado pensar em prender-me; o estalajadeiro conheceu isso porque nunca mais me fallou de tal, ignorando eu por isso se elle fallava seriamente ou se zombava.
Passou-se a noite a cantar, jogar e a beber; e ao romper do dia todos os meus companheiros da noite se offereceram para me acompanhar, honra que acceitei sem difficuldade: caminhámos juntos seis milhas.
Com toda a certeza Beranger morreu sem saber o grande serviço que me prestou.
VII
ENTRO AO SERVIÇO DA REPUBLICA DO RIO GRANDE
Cheguei a Marselha sem incidente, vinte dias depois de ter deixado Genova.
Engano-me, um incidente, que li no Povo Soberano, me succedeu.
Estava condemnado á morte.
Era a primeira vez que tinha a honra de ver o meu nome impresso em um jornal.