Nota de editor: Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Novembro 2013)
NOCTURNOS
| 12 exemplares em papel Japão | n.os 1 a 12 |
| 12 exemplares em papel Whatman | n.os 13 a 24 |
| 12 exemplares em papel China | n.os 25 a 30 |
GONÇALVES CRESPO
NOCTURNOS
LISBOA
18, Rua Oriental do Passeio
1882
Direitos reservados
LISBOA—Imprensa Nacional
A MINHA MULHER
MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO
A ti, ó boa e rara e fiel amiga,
A mais sancta e a melhor das companheiras,
A ti, ó flôr mimosa e alma antiga,
—Doce Premio que ris ao meu cançaço—
A ti, ó meu Conselho, estas ligeiras
Folhas que ponho a medo em teu regaço.
CONFIDENZA
Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.
Mimosa e eburnea flôr,
Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava...
Ouviste, meu amôr?
Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço
Ficava-me a sorrir
Para os quadros que eu via em luminoso traço
Nas télas do porvir.
Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,
Os que me lembram mais:
Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida,
Os olhos teus leaes!
Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco,
Uma aurora de abril:
Da larga estrada á beira um campanario branco,
O céu profundo anil.
De uma casa á janella uma creança loura,
Loura como um trigal:
Fiando á luz do sol que leve a sobredoura
De aureola ideal.
Toda risos e festa a doce creatura
Olhava para mim,
E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura!
Serei feliz emfim!»
De um outro quadro então recordo-me saudoso,
E alongo os olhos meus
Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,
Que me cahiu dos céus!
Fica ao longe da vil poeira das cidades
E do seu vão rumôr,
O palacio esquecido; ás horas das trindades,
Entremos nelle, flôr!
Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,
E o oloroso pomar;
Subamos essa escada, agora, a furto e a medo,
Comecemos a olhar.
É vetusto o salão; em flaccida poltrona
Repoisa e scisma alguem:
Alguem que nos recorda a imagem da Madona,
Grave e sizuda mãe.
D'esse alguem no regaço um anjo se reclina
Confiado e feliz,
Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca pequenina.
Falla, não sei que diz.
É casta essa creança e pura entre as mais puras,
Que em sonhos vi jámais;
Tem o vago esplendôr das biblicas figuras
Dos antigos missaes.
É moça e é menina: olhar nenhum ainda
De leve a maculou.
Dorme no seio della o amôr, a crença infinda
Que Deus lhe confiou.
Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,
Ficamos a pensar
Nos mysterios do céu, nas cousas ignoradas
Que descobre esse olhar.
Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,
Cego de tanta luz,
E que tremulo beije o tépido veludo
De seus pésinhos nús!
E não córa, bem vês, a candida creança!
Antes meiga sorri,
E entre risos me diz, compondo a escura trança:
«Pensava agora em ti!
«Porque tardaste tanto, ó poeta? eu te esperava
«Na minha solidão!
«Vem os segredos vêr que para ti guardava
«Dentro do coração!»
Concertáe vossa orchestra, harmonicas espheras,
No célico esplendor!
Maria, essa creança, ó flôr das primaveras,
Eras tu, meu amôr!
O VELHINHO
A J. Cesar Machado
Aquelle que ali vae triste e cançado
E mais tremente que os juncaes do brejo.
Foi outrora o mais bello e o mais amado
Entre os moços do antigo logarejo.
Nas fitas d'esse labio desmaiado
Quantas mulheres tremulas de pejo
Não sorveram os néctares do beijo
Dos trigaes sobre o leito perfumado!
Hoje é velhinho, e falla dos francezes
Aos rapazes da eschola, e ás raparigas
Que não cançam de ouvil-o... As mais das vezes
Sobre a ponte, sósinho, ouve as cantigas
Das que lavam no rio, e o olhar extende
Ao sol que ao longe na agonia esplende...
ANIMAL BRAVIO
A Melle Eugenia Vizeu
Preferiras um ramo caprichoso
De escolha rara e de um concerto fino,
Onde visses o cácto purpurino
E os nevados jasmins do Tormentoso.
Em vez do ramo exotico e oloroso,
Casto recreio d'esse olhar divino,
Acceita, Eugenia, este animal felino,
Que o meu braço subjuga vigoroso.
Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
Acode á minha voz, e ao meu aceno
Como um jaguar á voz de um saltimbanco...
Vamos, sonêto! a prumo! ajoelhe, présto!
E á doce Eugenia, do sorriso honesto,
A fimbria oscule do vestido branco!
AD AGROS
Não tardes, flôr; a aldeia nos espera,
Chovem arômas dos folhudos ramos:
Suspensa do meu braço, eia! partamos!
Olha-nos Deus da crystallina esphera.
Nas manhãs da passada primavera
Com que delícia ethérea nos amámos!
Iremos vêr os nomes que traçámos
No rude tronco em que se enlaça a hera.
Não tardes, meu amôr, sei de um caminho,
Que sobe a encosta, e vae direito ao moinho,
Em cujas vélas bate o vento em cheio...
Seguir-nos-hão as aves namoradas,
Que ao som das tuas infantis risadas
Modularão seu tremulo gorgeio...
A NUVEM
De Th. Gauthier
As roupas deslaçando, entra no banho
A languida sultana enamorada:
Livre do pente, os hombros nús lhe beija
A longa e fina trança desatada.
Atraz dos vidros o sultão a espreita;
E comsigo murmura: «como é bella!
«Ninguem a vê, ninguem! o negro eunucho
«Do harem na tôrre solitario vela!»
—Eu a vejo, uma nuvem lhe responde
Do sereno e alto azul illuminado:
—Vejo-lhe os seios nús, vejo-lhe o dorso,
—E o seu corpo de perolas colmado—
Fez-se pallido Ahmehd bem como a lua,
E erguendo o seu kandjar de folha rara,
Desce, e apunhala a nua favorita...
Quanto á nuvem... no azul se dissipára...
O JURAMENTO DO ARABE
A Teixeira de Queiroz
Baçús, mulher de Ali, pastôra de camêlas,
Viu de noute, ao fulgor das rútilas estrellas,
Wail, chefe minaz de barbara pujança,
Matar-lhe um animal. Baçús jurou vingança;
Corre, célere vôa, entra na tenda e conta
A um hospede de Ali a grave e inulta affronta.
«Baçús, disse tranquillo o hospede gentil,
Vingar-te-hei com meu braço, eu matarei Wail.»
Disse e cumpriu.
Foi esta a causa verdadeira
Da guerra pertinaz, horrivel, carniceira
Que as tribus dividiu. Na lucta fratricida
Omar, filho de Amrú, perdêra o alento e a vida.
Amrú que lanças mil aos rudes prélios leva,
E que em sangue inimigo, irado, os odios céva,
Incansavel procura, e é sempre embalde, o vil
Matador de seu filho, o trêdo Muhalhil.
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
Recem-colhido em campo, o indomito guerreiro
Fallou severo assim:
«Escravo, attende, e escuta:
«Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta,
«Em que vive o traidôr Muhalhil, dize a verdade;
«Dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!»
E o moço perguntou:
«É por Allah que o juras?»
—Juro, o chefe tornou—
«Sou o homem que procuras!
«Muhalhil é o meu nome, eu fui que espedacei
«A lança de teu filho, e aos pés o subjuguei!»
E intrépido fitava o attonito inimigo.
Amrú volveu:—És livre, Allah seja comtigo!
NUM LEQUE
Amar e ser amado, que ventura!
Não amar, sendo amado, é um triste horrôr:
Mas na vida ha uma noite mais escura,
É amar alguem que não nos tenha amôr!
OLHOS DE JUDIA
No transparente olhar das virgens da Allemanha
Nada um fluido subtil tam pleno de scismar,
Que a gente cuida ouvir uma sonata extranha
Num castello do Rheno em noites de luar.
Flôr do Guadalquivir, gloria da ardente Hespanha,
Se dardejas, sorrindo, um teu lascivo olhar,
O crespo, o encapellado e procelloso mar
Dos desejos febris o coração nos banha.
Nos teus olhos porém venusta semi-deia,
Como nas mutações de um rapido scenario,
Desdobram-se ante mim paizagens da Judeia...
Vejo o louro Jesus vagueando solitario,
Vejo-o no Horto a chorar, ouço-lhe a voz na Ceia
E escuto-lhe o gemido extremo no Calvario.
H. HEINE
NUMEROS DO INTERMEZZO
A Melle Louìse de Almeida e Albuquerque
I
Rosas e lirios, pombas, sol radiante,
Tudo isso outrora, no fugaz passado,
Eu adorei constante.
E d'esse amôr, que tive immaculado
Por lirios e aves e subtis perfumes,
Nem já me lembro, seductôra amante,
Fonte pura de amôr, que em ti resumes
A rosa, o lirio, a pomba e o sol radiante!
II
De um lirio branco no mimoso calix
Se eu a fosse depôr
A vaga essencia de meu peito, em breve
Escutáras no calice de neve
Uma canção de amôr.
Canção divina relembrando as ancias,
E o languido tremôr
Daquelle beijo, em noite mysteriosa,
Que me deram teus labios côr de rosa,
Meu doce e casto amôr!
III
Á luz viva do claro sol radioso
O lóto inclina a fronte esmaecida,
E espera a noite pensativo e ancioso.
Rompe a lua, e derrama a luz querida
Na corolla mimosa
Da pobre flôr que se abre enlanguecida.
Pobre flôr amorosa!
Olhando o céu e a lua até parece
Que, em desmaios de amôr,
Treme, palpita, córa e desfallece
A scismadora e enamorada flôr!
IV
Sobre os olhos formosos
Da minha doce amada
Rimei canções que os astros decoraram;
E embalsamei-lhe a bôcca perfumada
Em tercêtos graciosos.
Innumeras estancias decantaram
Seu rôsto peregrino
Que os jaspeados lirios escurece.
Que sonêto divino
Eu rendilhára com subtis lavôres
Sobre o seu coração... se ella o tivesse!
V
Pozeram-te no rôsto o aéreo véu nupcial.
Bem sei que te perdi, mas não te quero mal.
Brilham do teu collar as pedras luminosas,
Mas no teu coração que noites luctuosas!
Em sonhos eu desci, ó misera mulher,
Ás sombras da tua alma, e vi-te o padecer...
Bem sei que te perdi, ó minha doce amada,
Mas não te quero mal, és muito desgraçada
[VI]
Sei-o; a tua vida é sem ventura,
É-nos commum esta funérea sorte.
Cáe sobre nós a mesma noite escura,
E isto não finda sem que chegue a morte.
Se vejo nesse olhar um rir travêsso,
E em teu labio a insolencia costumada,
E o orgulho inflar teu coração... padeço,
E murmuro: «és como eu, tam desgraçada!»
Bem sei que ris, mas o teu labio treme:
Nos teus olhos azues o pranto brilha:
Tens orgulho, e essa voz suspira e geme...
Como nós somos desgraçados, filha!
VII
Se as flôres do balsedo
Podessem ver meu peito alanceado,
Como allivio ao meu aspero degredo,
Mandar-me-hiam, das moitas do balsedo,
De seus prantos o balsamo sagrado.
Se os rouxinoes da floresta
Soubessem quanta dôr me rasga o seio,
Para espancar a minha noite mésta,
Mandar-me-hiam, das sombras da floresta,
O seu mais terno e encantadôr gorgeio.
Se as estrellas do espaço
Soubessem tudo quanto soffro em vida,
Para embalar d'esta alma o vil cançaço,
Mandar-me-hiam, dos concavos do espaço,
Uma doce palavra condoída.
E essa que sabe tudo,
O inferno e o horror da minha mocidade,
É a dona das tranças de veludo,
E das unhas rosadas... sabe tudo
E apunhála-me a vida sem piedade!
VIII
Não me sabes dizer, ó minha amada,
O motivo, a razão
Porque pendem a face desmaiada
As rosas para o chão?
Não me sabes dizer porque, no meio
Do vasto prado em flôr,
Das violetas cáe no roxo seio
Um véu de lucto e dôr?
Diz-me porque ouço a voz das cotovias
Hoje lugubre assim?
E porque exhalam mortes e agonias
As urnas do jasmim?
Por que motivo o sol tam claro e puro
De crepes se vestiu?
Porque um sinistro pezadelo escuro
Sobre a terra cahiu?
Bem sei eu porque vejo tudo triste
Sem luz e sem calôr...
É que tu, pomba branca, me fugiste
Meu amôr, meu amôr!
IX
Disseram-te de mim feios horrôres,
De imaginarias culpas me crivaram,
E sobre as minhas lastimaveis dôres
Um negro véu lançaram!
Distenderam os labios sacudindo
Com grave e serio gesto a fronte, e ao cabo...
(E acreditaste-os tu, meu anjo lindo!)
Chamaram-me o Diabo!
O que ha de mais escuro e de mais feio
Na minha vida, ignoram-no os sandeus,
Tam occulto este amôr vive em meu seio,
Ó luz dos olhos meus!
X
Naquella manhã ditosa
O sol mandava-nos beijos;
Do rouxinol os solfejos
Suspiravam na amplidão.
Se me lembro, ai! se me lembro
D'esse amplexo demorado,
Com que tu, meu lirio amado,
Uniste-me ao coração!
Grasnava o côrvo agoirento,
As sêccas folhas cahiam,
E uns tristes raios desciam
Da plumbea curva dos céus.
Se me lembro, ai! se me lembro
Da fria e grave mesura
Que, naquella tarde escura,
Fizeste ao dizer-me—adeus!
XI
Fôste fiel, no caminho
Doloroso que eu seguia,
Déste-me alentos, carinho,
Meu consôlo fôste, e guia.
Déste-me tudo, ó consorte,
Roupa branca e até dinheiro!
E ao partir para o extrangeiro
Compraste-me o passaporte!
Deus t'o pague, meu amôr!
E um viver te dê tranquillo!
Mas que te não faça aquillo
Que tu me fizeste, flôr!
XII
Emquanto eu andava viajando, a minha
Noiva gentil, o meu thesouro amado,
Julgando que eu tardava e que não vinha,
Fez á pressa o vestido de noivado,
E um dia, ao pé do altar, entrega anciosa
A um fôfo peralvilho a mão de esposa.