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GUILHERME D'AZEVEDO
A ALMA NOVA
LISBOA
TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO
Rua do Norte, 145
1874
A ANTHERO DE QUENTAL
A ANTHERO DE QUENTAL
_Meu amigo.
Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo, fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.
E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e generosa_.
Dezembro de 1873.
Guilherme d'Azevedo.
I
Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
E as desditas crueis do proprio coração;
Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
Da muza sem pudor que mostra no caminho
A liga á multidão.
A sagrada poesia, a peregrina eterna,
Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
Põe crémes triviaes!
Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
Ó deusa virginal das coleras celestes,
Das graças juvenis!
Retine a cançoneta alegre das bachantes,
Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
E julgam já escutar a voz do paraiso,
Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
Das musas dos cafés!
Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
Estiolada e gentil, que vem depois da missa
Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
Nem a fada que sente um vaporoso tedio
Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
Que a possa pagar bem!
Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
A menina gentil que ás portas das egrejas
Emquanto a multidão galante adora a cruz,
A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
Nas pompas ideaes da moda, que a consola
Das magoas do Jesus!
E nas horas de luta emquanto os povos choram
E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
Não posso dizer bem se acaso tu serás
A senhora que espalha os languidos fastios
Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
Á viva luz do gaz!
Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
De fronte immaculada e seios virginaes,
Que desenha no espaço o limpido contorno
E cinge na cabeça o virginal adorno
De folhas naturaes.
Tens a linha ideal das candidas figuras;
As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
Da austera virgindade; as bellas correcções;
E segues magestosa em teu longo caminho
Deixando fluctuar a tunica de linho
Ás frescas virações!
Quando trava batalha a tua irmã Justiça
Acodes ao combate e apontas sobre a liça
Uma espada de luz ao Mal dominador:
E pensas na belleza harmonica das cousas
Sentindo que se move um mundo sob as louzas
No germen d'uma flôr!
N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
O latego febril das grandes punições;
E vendo-te sorrir, a geração doente,
Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
Das morbidas canções!
Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
O manto constellado, ó deusa dos assombros,
Até chegar um dia ás regiões de luz,
Aonde, na poeira aurifera dos astros,
Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
As chagas de Jesus!
Logar á minha fada ó languidas senhoras!
E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
Dos novos ideaes!
II
Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
E as algas naturaes, serviam de roupagem
Á triste apparição das noites seculares!
Seguia tristemente ás regiões polares
Nos limos das marés; e a rija cartilagem
Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
No peito carcomido, uns grandes nenuphares!
Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias
Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça
Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
Das tuas creações fantasticas, divinas,
De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!
III
VELHA FARÇA
Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
E uma féra que dansa atada a um cordel.
Ó funambulos vis, comediantes rotos,
O vosso riso alvar agrada á multidão!
E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!
Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
D'uns velhos animaes que já foram crueis
E agora vão soffrendo os risos das creanças
E os apupos da turba a troco de dez réis.
Conta um velho histrião, descabellado e pallido,
Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,
E vae chicoteando um urso meio invalido
Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.
Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
A fera legendaria olhada com pavor:
E uma deosa gentil, vestida de bareje,
Annuncia o prodigio a rufo de tambor!
E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
E accresce á multidão a turba dos soldados,
—Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.
E o funambulo grita; impõe qual evangelho
Á turba extasiada a grande narração.
E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
Passeia nobremente os gestos de truão.
Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
E um archanjo que sua e pede de beber!
A tua imagem tens ó povo legendario
No comico festim que mal podes pagar,
Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
Que a vara do histrião nas praças faz dansar.
IV
GRAÇA POSTHUMA
Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
N'uma noite serena, ao teu berço final,
Um producto mimoso;—um grande lyrio branco
Da alvura do teu collo eburneo e divinal!
Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!
E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
—Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!—
E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
A fragrancia que exhala a candidez do linho
Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,
—Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
Depois do verme vil teu seio polluir,
Mais pura no frescor de tal metamorphose
Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!
Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
Da vida, são crueis mas passam como um som!
Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,
Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
Depois de te sagrar as ultimas canções!
V
HISTORIA SIMPLES
Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
Cavava todo o dia, andou sempre contente
E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.
Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.
A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
E tinha ainda mais não sei quantas creanças
Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.
O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
Era bebado e mau, batia na mulher;
E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
Cantava canções vis de a gente ensurdecer.
Um dia uma senhora honesta da cidade,
Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
E fez-lhe um certo gesto:—o moço não quiz ir.
Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,—irei!
Despediu-se dos seus: devia obediencia
Á senhora gentil que se chamava… a Lei!
Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
Choravam á partida:—um quadro doloroso!
A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!
Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
Primeiro foi medido e todos a final,
Depois de bem revisto, á uma, concordaram
Que ao serviço do rei convinha este animal!
Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
—A ordem—jubilava em doces pulsações!
Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
Gastando pouco mais:—uns cobres e uns feijões!…
Agora quando passa o batalhão luzente
Na rua, podeis ver o pobre cavador
Com modos imbecis, marchar pesadamente
—Heroe por conta alheia—ao rufo do tambor!
Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
Que trazem no chicote a salvação do rei.
E na pobre cabana ainda se conserva
O mesmo quadro triste:—a lacrimosa mãe;
Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!—
Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
Emquanto na campina alouram os trigaes,
Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
Receiam que Deus faça andar o mundo mais.
Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
Trazendo novamente a luz ao pobre lar.
E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!!
A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens!
—Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro
E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!
VI
Á meza do festim, cercada de formosas,
O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
Saudavam juntamente os bellos desalinhos
Das galantes vizões das ceias luminozas!
Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas!
E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
A gaze sobreposta á candidez dos linhos
Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!
Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos
Da menos trivial das fadas tentadoras,
Eu brindo aos mortos!—disse: á legião sagrada
Que foi á solidão, á eternidade, ao nada!
—Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.
VII
OS SONHOS MORTOS
Embora triste a noite, a vagabunda lua
Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
Igual a uma donzella ingenua e toda nua
No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!
O mar tinha talvez scintillações funestas.
A praia estava fria, as vagas davam ais;
Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
Fantasmas ao galope em monstros colossaes.
E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
Immerso no fulgor diaphano da luz,
Juncando tristemente o solo ensanguentado
Sinistra multidão de corpos semi-nus!
Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
Deposto em cada fronte um osculo brutal;
E um ironico rizo ainda em muita boca
Se abria, como a flôr fantastica do mal!
E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…
E sobre a corrupção das brancas epidermes
Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
Da santa formosura os ultimos Romeus!
Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
Memoria das vizões que amaste com fervor
Ahi as tens agora alimentando as ervas
De novo dando á terra o que ella deu á flôr!
São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
Que em pasto dão seu corpo a novos corações!
São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
As chymeras gentis, os vagos ideaes,
Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
E que não podem já da terra erguer-se mais!
VIII
FALA A ORDEM
Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?
Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
Começas a morder as purpuras reaes
Ó filho trivial da livida canalha!…
E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão?
Intentas já limar as grades da prizão,
Fazendo scintillar um ferro contra o solio
Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!…
Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.
Bandido eu bem dizia!—a carta do A B C!…
IX
Ó lirios da cidade, ó corações doentes
Das vagas affecções modernas e galantes;
Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes
Das orchestras febris,—nos sonhos dissolventes!
Sois os fructos gentis que balançaes pendentes
Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
Julgando-vos colher nas seivas innocentes!
E tragam com fervor o pomo apetecido
Que deve ter um mel oculto no tecido,
—Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;
Mas vós que sois da moda um luminozo aborto,
Como os fructos crueis das margens do mar morto
Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!
X
MISERIA SANTA
Entrando esta manhã n'um templo da cidade
Aberto á multidão mas triste e quasi só,
O ver ao desamparo a velha magestade
N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.
Restavam tão somente alguns dourados velhos
Do passado esplendor, e foi-me facil ver
Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
Como cousa esquecida e impropria de se ler!
A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;
Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
Tão velhos como o roto e desbotado manto
Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!
Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
Campeiam no fulgor de pompas theatraes.
Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
Proletarios do altar a quem ninguem sorri!
E ao ver esta humildade,—eu tenho d'isto ás vezes,—
Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
Que não passam de ser as filhas dos burguezes
Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!
XI
ASTRO DA RUA
Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
—Que insonia em mim produz este humido vapor!—
Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
Dos fumos do café, da luz e do rumor.
Um fantastico véo cobria as longas praças;
E o gaz ria atravez da grande cerração
Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
E em flocos d'alva neve humedecia o chão.
Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
Do subito eis que passa um astro radioso
Luzindo-me atravez do magico cendal!
Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!
Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.
Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
Mas hade erguer-se a escrava…—Assim dizia eu
E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
Agora pude vêl-a e posso recordar-me
Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.
O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
Deixava atraz de si um aroma de baunilha
D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!
Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
E aos labios aquentar os teus pequenos pés!
—Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
Ainda a perseguir-me a mesma aparição
E eu ainda sentia o lucido vestigio
Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!
Mas agora reparo, attento em sua chama!
Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
Na face macerada uns traços de carmim!
Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.
XII
Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
Não tratem d'orações;
Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
Á moda das visões.
Desejo vel-a então passar d'esta maneira
Depois de tal revêz,
Por entre a chama azul e tenue da poncheira
No fumo dos cafés.
Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
Monotonia azul;
Não temam que ella vá no fogo das espheras
Queimar o véu de tulle.
Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
A nuvem triste e vã,
E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
As nevoas da manhãa!
De noite ella virá com seus trajes singellos,
Archanjo d'outros ceus,
Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
Dizer-nos mal de Deus.
Contar-nos por que foge á doce transparencia
Que o ceu formoso tem,
Meiga filha gentil da mesma decadencia
Que é nossa boa mãe.
Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
Em noites de luar,
Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
Cingir-se n'um collar;
De certo ella daria ao pallido comêta
E á estrella trivial,
A mesma adoração que dava á cançoneta
Que amou até final!
E á saida do circo, ao astro romanesco,
Á noite iria, então,
Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
Do livido truão!
Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
Um hymno d'enfadar,
Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
Sem um que a possa amar!
E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
Do que ella amava mais:
—A vida illuminada á luz dos restaurantes
N'um sonho de cristaes!
XIII
AS VICTIMAS
Eu vejo muita vez e raro já me assombro
—Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!—
Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
No transito penozo as longas procissões,
De victimas da sorte e victimas do mundo!
Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,
Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
São magros peitos nús, são faces cadavericas,
São as tristes, as vís desolações carnaes.
São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
Nas lamas encharcando os regelados pés:
Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
—Flôres que enfeitarão a noite das galés!
São aquellas gentis e pobres costureiras
De peito comprimido; anemica expressão;
Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
Ganhando em todo o dia apenas um tostão,
Curvadas a cozer o languido velludo,
O irritante setim dos grandes enxovaes,
Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
Depois indo morrer nos tristes hospitaes!
São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
E os reis fazendo rir das suas maldições!
São da lugubre noite umas flôres sem nome
Batidas muito já dos grandes vendavaes,
Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
Derramam pelo seio aromas triviaes
E fingem depois ser apparições divinas,
Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
Aos apetites vís da multidão brutal!
São mineiros sem luz; são velhos britadores,
Que o contacto da pedra um dia endureceu,
Queimados pelo sol, gelados nos horrores
Do tumulo cruel que em vida os recebeu!
São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
Que sentiram na terra as vastas corrupções
E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
Tentaram espedaçar os ultimos grilhões
E que passam tambem um tanto contristados,
Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
Os deixamos seguir ainda apedrejados
Não raro desprezando a sua augusta voz!
E a grande multidão de martyres sublimes,
De tristes semi-nús, constante a caminhar,
Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!
A fila tenebroza, a procissão de victimas,
Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
E do estygma cruel das penas mais legitimas
Em muita fronte bella um traço podeis ver!
Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
Podia dividir a tunica cezarea
Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!
XIV
EVOCAÇÃO
Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes
E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz!
De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes
E as noites do passado, oh, devem ser enormes
Na atonia fatal das larvas e da cruz!
Conchega gentilmente ao peito carcomido
Os restos do teu manto:—assim, que bem que estás!
Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido
Que busca desdenhoso o centro do ruido
Nas horas vis do tedio e das insonias más.
O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo
Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez,
E tu filho gentil do velho romantismo,
Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
No berço onde sonhava a doce candidez!
No entanto pódes crer; faz muito menos frio
Á luz do novo sol; do gaz provocador;
E o seculo apezar de gasto e doentio,
Não pode já escutar o cantico sombrio
Que fala de edeaes e cousas sem valor!
Em paz deixa dormir a terna Julieta
Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos;
E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta,
Da muza alegre e vil da torpe cançoneta
Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!
Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira
Innunda-se na luz de mil constellacões!
E os archanjos da rua assomam na poeira
Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira
O astro creador das grandes sensações!
E quando a cotovia á estrella matutina
Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo,
Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina,
A trança da belleza anemica e franzina
Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!
XV
Boas noites coveiro: a tua enxada
Não cessa ha tanto tempo de cavar?!
Cavalleiro da morte, ó fronte desolada
Não sentes a mão tremula e cançada
De tanto trabalhar!
Tu esperas hoje as legiões sombrias
De mortos, que eu supponho ao longe ver?
Os felizes caídos nas orgias
E os tristes que além todos os dias
O gelo vem colher?!
Que immensa valla aberta! são medonhos
Os risos d'essa boca infame, alvar!…
Descansa dos teus dias enfadonhos!
—Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
Não posso descançar!
XVI
FLOR DA MODA
Alice, o turbilhão das salas elegantes,
Começa a entristecer; ninguem sabe por quê!
Aquella flôr doente amava muito d'antes
As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
Agora é desolada e penso que descrê.
Que tedio se abrigou na vaga transparencia
D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
—Moderna creação da santa decadencia,
Que alia gentilmente ás pompas da regencia
Os indecisos tons d'um ar sentimental?!
Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio
Das vagas oppressões da tua insomnia má,
E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio,
Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
Na conta d'uma cousa um tanto usada já!
No idylio pastoril das noites venturosas
Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar
N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!
E quando a augusta voz do mar ou das florestas
Abala o coração dos justos e dos bons,
Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,
No amor das castelãs scismar entre as giestas
Com medo que te acorde a bulha dos wagons!
Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
Abraza a geração de lyrios ideaes
Que passam, como tu, galantes e doentes,
D'um amor desordenado ás cousas dissolventes,
Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!…
E tem de os consumir a grande nostalgia
D'um mundo mais á moda e menos trivial,
Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
E se possa esquecer a vil monotonia
De tudo que nos cerca:—Alice eis o teu mal mal!
No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias
A febre, mãe cruel d'estranhas sensações,
Na fria placidez do gaz e das bigonias
Construe na tua mente as grandes babylonias
D'um mundo extraordinario e monstro de visões!
Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa:
És boa e fazes gala em que te julguem má.
E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa
E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
—Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!
E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
Que tu amortalhada em rendas e escumilha
Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!
XII
Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
Que a nova geração nos labios traz suspenso
Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!
Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!
Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
Mordeis o pedestal da velha Magestade!
E as grandes combustões que sempre vos consomem
Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!
XVIII
A CHRISTO
Precisamos Jesus, se não te sentes velho,
Que cinjas novamente o resplendor de luz
E venhas explicar a letra do evangelho
A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!
Ainda não cessou, de todo, essa contenda
Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:
E aquelles que são bons e adoram tua lenda
Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.
Apenas resoasse o teu verbo indignado,
O latego febril das grandes corrupções,
Iria atraz de ti um mundo revoltado
Que sente na consciencia a luz das redempções.
E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea
Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,
Havias d'encontrar essa alma de bohemia
Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!
Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido
Não póde supportar os gelos da manhã.
Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido
E a vida aqui é cara e longo o macadam!
Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
Se não fosses, em fim, comido pelos corvos
Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!
Serias apontado a dêdo, muitas vezes,
Como um simples bandido, um agitador feroz,
E haviam de esconder seus ouros os burguezes
Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!
Depois vinhas achar a par do proletario,
Ao pé do que se innunda em bagas de suor,
Aquelle velho Pedro, agora millionario,
E triste por pensar que já esteve melhor!
E perto do ocio vil á sombra do qual medra
O egoismo feroz que extingue o coração,
Lutando todo o dia o britador de pedra
A quem á noite espera, em casa, um negro pão;
E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome,
Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús;
Abrindo os olhos muito á codea que elle come
E indo-se deitar sem roupas e sem luz!
Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste
Recende uma fragrancia etherea e divinal,
Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste
Sem treguas combatendo as legiões do Mal!
Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
Que falaste do amor, da paz e do perdão,
E o ferro que varou teu corpo lado a lado
Comtudo inda reluz altivo em muita mão!
Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
O gladio vingador das oppressões crueis,
Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça,
E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!
Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,
N'esse velho sepulchro, o immenso vozear
Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,
Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia
A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus,
E tanto vae subindo a vaga da consciencia
Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus
XIX
Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.
Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:
Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo,
E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!
De subito surgiu, na praia, uma criança
D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão,
E o mar contemplou com tanta confiança
Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!
Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
Levando ia comsigo aquella flôr dos céos!
E em breve só boiava um tenue vulto branco
No mar onde fluctua o espirito de Deus!
Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem
Da mais casta mulher que em vida pude ver.
Detinha-se distante:—a espuma da voragem
Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!—
O immenso mar, porém, crescia a cada instante
Mais turvo e mais veloz! depois… Não quiz vêr mais.
Ergui-me e caminhei de val em val errante
Pensando tristemente em coisas ideaes!—
Ao longe, muito além, na serra desviada
De subito encontrei—ó estranha apparição—!
Uma pobre velhita enferma e desolada
Trazendo já no olhar a grande cerração!
Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora.
Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa?
Iria aonde vae o que hontem foi aurora
E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?…
Dos meus instantes bons, ó lucida chimera,
Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer!
Que importa a grande noite em plena primavera,
Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!
XX
O GRANDE TEMPLO
Eu não trajo o burel do magro cenobita
Nem me posso infligir crueis macerações;
Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita
No seio casto e bom das grandes solidões.
Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes
E certas vibrações que podem fazer mal;
Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes
Amal-o com fervor no templo universal!
Em quanto sobre o altar das serras azuladas
Mil lampadas do céo derramam toda a luz,
Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas,
O Tempo,—o grande verme!—até devora a cruz!
Depois é facil vêr, por entre os arabescos
Que a arte sensual traçou com tanto amor,
Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos
Pungindo cruelmente a face do Senhor.
Ou mais; podemos nós voar todos captivos
Do sereno ideal, d'aquelle summo bem,
Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
Olhando de revez a virgem nossa mãe?!
E ainda mil traições: as musicas, as flôres
Os lindos seraphins voando todos nús;
Da sêda que se arrasta os languidos rumores
Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!
Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes,
O vinho scintillante, a viva luz do gaz;
Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
Não cante apenas Deus; que solte alguns hurrahs!
O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta.
Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar,
Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta,
As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!
Da casta natureza ó templo gigantesco,
Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
O meigo e doce olhar do Christo romanesco
A multidão gentil não chama aos teus umbraes.
XXI
A UM CERTO HOMEM
Agora és todo nosso: a rude voz da historia
Já póde hoje falar
E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria
Rei-sol de boulevard.
Que dias d'esplendor! Porém como começa
A noite e a podridão!
Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa
Da eterna punição!
Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha
Que vejam ámanhã,
Que até lhe depennou as aguias de Bolonha
O abutre de Sedan!
E visto que em redor nenhuma estrella brilha
E a noite é longa e má,
No caminho do opprobrio acende a cigarrilha
E, cezar, ouve lá:
Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente
Que de Valmy levou,
Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente;
Nossa alma até Moscow!
Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes
Depois, caminham sós;
E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides
A alma dos Pharaós!
E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento,
Na gleba das nações,
Convictos semeando o novo pensamento
No sulco dos canhões!
Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
E quando a tens aos pés,
Celebras a victoria aos hymnos de Thereza,
A musa dos cafés!
Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína
Ainda a afrontam mais,
Tornando a Marselheza em torpe Messalina
D'um circo de chacaes!
E sobre alguns montões de mortos ainda quentes,
Emfim campeias, tu,
Que déste á sagração das cousas dissolventes
Um Petroneo-Sardou!
Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama
Um dia avanças mais,
Teu carro triumphal trambolha-te na lama
E então como tu saes!…
Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
De lodo e podridão,
E vaes de manto roto e vestes hediondas
Buscar a escuridão!
Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
Da luta que sorri,
Do fumo dos canhões fugiste, e de repente…
Matou-te um bistori!…
Que entrada a tua, então, na funebre morada,
Pizando, incerto, o pó,
Á luz d'uma lanterna, ao vir da encruzilhada,
Sinistro, sujo e só!
Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
Dos bons e dos leaes,
Apenas descobriste a marca dos castigos
Nas faces triviaes!
E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche
E o gesto de Danton,
Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
Meu cezar-Benoiton!
73—Janeiro.
XXII
Á HORA DO SILENCIO
Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico
A doce embriaguez do pallido luar,
Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico
Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!
A cidade dormia o somno dos devassos;
Aquelle somno turvo, infecto e sensual:
E a lua, antiga fada, erguia nos espaços
Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!
E sobre a quietação das coisas vis e exoticas
Sentiam-se as febrís, crueis respirações,
Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas,
Dos amantes fataes da febre e das paixões!
A noite era em silencio, a athmosphera doce
E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus.
De subito escutei, ao longe, o quer que fosse
D'um canto que suppuz então baixar dos céos!
Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco
Senti que era uma voz disforme e sensual,
Soltando uma canção n'aquelle accento rouco
Da triste inspiração alcoolica e brutal!…
Ó terna vagabunda, enamorada lua!
Emquanto ias assim, diaphana e sem véo,
Uma triste mulher passava, então, na rua
Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!
XXIII
Eu quizera depois das lutas acabadas,
Na paz dos vegetaes adormecer um dia
E nunca mais volver da santa lethargia,
Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas!
Seria bello ouvir nas moutas perfumadas,
Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria,
As sãas vegetações, em intima harmonia,
Aos troncos enlaçando as lividas ossadas!
Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo:
Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
—Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;—
Tu, felina mulher com garras de veludo
Havias de trazer meu espirito, comtudo,
Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!
XXIV
O VELHO CÃO
Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo
Uns doloridos ais,
Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo,
Cerrado aos vendavaes.
Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
Em seu triste chorar!
Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso
E um vago, um doce olhar!…
Eis a sorte cruel do pobre que não come,
Dos miseros sem pão!
Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome,
A negra apparição!
Latia o cão faminto. O frio era mordente,
Feroz, quasi voraz!
E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente
Que adora a santa paz.
Ora perto vivia uma galante rosa,
Etherea, virginal,
Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa
E a quem fazia mal,
Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios
Pender a fronte ao chão!
Saíram pois á rua impavidos lacaios
E foram dar no cão.
—Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
—O povo soffredor,
Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado
Ás portas d'um senhor.
O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos
O fim que ella ha de ter.
A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos
E manda-lhe bater!
XXV
AS VELHITAS
Eu não professo muito o culto das ruinas.
Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;
Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
No entanto nunca insulto as prateadas cãns.
Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,
A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,
Sagazes comentando as nossas illusões!
Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,
Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;
Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos
Dos lagos ideaes cubertos de luar;
As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!
Pendestes já scismando as frontes melancolicas
Nas varandas á noite, amantes dos Titães
Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!
E agora apenas sois as mães de nossas mães!
Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
As bellas da cidade, anémicas, gentis,
Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!
Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,
Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,
Que fostes já, tambem, galantes e nervosas
Mas destes isso tudo a varios corações!
Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
Sentidos contra nós; queixumes sem valor
E ao mundo importam muito os vossos testamentos
E importa muito pouco a vossa immensa dôr!
Batei á grande porta: os bellos dias vossos
Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
O residuo fatal das cousas virginaes!
XXVI
ÁS VISÕES
Pois que visões! não cessa a rapida corrida
E seja noite ou dia,
Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida
Na minha phantasia!
Parti chymeras vãs! archanjos ou madonnas,
Parti, que o mando eu,
Como um bando fatal de velhas amasonas
Que o circo aborreceu!
Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
O angelico sorriso;
E as azas d'escumilha em que eu voava
Á noite, ao paraiso!
Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
Sentindo-me feliz,
No somno machinal dos velhos acrobatas
Depois das farças vis!
Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
Lembrando-me—ó verdade!—
Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
E uns traços d'alvaiade.
Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,
D'aquelle meigo azul,
Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
Na dôr, ao rei de Thule;
E quando vos apraz, nas azas transparentes,
Mais alto ides por certo,
Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
Que vemos voar tão perto!
No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
Que o seculo, afinal,
Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
Que fazem muito mal!
E quando vós passaes, nas horas do mysterio
D'estrellas revestidas,
Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
Das rosas corrompidas!
Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
Archanjos ideaes,
Deixando-nos colher a flôr do realismo
Nas coisas triviaes!
XXVII
Melancolias do outono! Eu quando além descubro,
Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
Compungem-me as crueis desolações d'outubro!
Das orlas do poente, afogueado, rubro,
Ó moribundo sol! com que poesia douras,
As formas triviaes das cabecitas louras,
Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!…
Solta o canto final a orchestra da folhagem:
São horas de partir; apresta-se a viagem,
E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!
Mas as vistas lançando ás regiões saudosas,
Nos esforços crueis das tosses dolorosas,
Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!
XXVIII
O VELHO MUNDO
Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio,
A necrópole immensa, a campa dos colossos,
Aonde em paz descansa o velho megatherio,
Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!
E os grandes leviathaãs dos primitivos mares;
Os tremendos reptis, crueis, descommunaes,
Celebram no silencio as nupcias singulares
Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!
E os esqueletos nús dos lividos gigantes
Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova,
Deixando um logar vago aos velhos elephantes
Que vão fugindo á luz da natureza nova!
Tambem no mundo interno as almas vão seguindo.
Na corrente da vida, em mil circulações;
E da consciencia humana o largo abysmo infindo
Occulta, ha muito já, disformes creações!
Ellas dormem na sombra immensa do passado
Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos,
A velha Realeza e o trémulo Papado
Sem forças descançar os corpos corrompidos.
Depois virão mais tarde as gerações futuras
E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar,
Bem como a nossa voz, as grandes creaturas
Do mundo primitivo, obriga a despertar.
E as crianças terão seus nomes de memoria,
Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia,
Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;
Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo;
Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu,
Eguaes ao masthodonte armado para estudo
E exposto ás irrisões nas salas d'um museu!