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OS PRIMEIROS AMORES DE BOCAGE

COMEDIA EM CINCO ACTOS
POR
JOSÉ DA SILVA MENDES LEAL
(REPRESENTADA PELA PRIMEIRA VEZ NO THEATRO DE D. MARIA II EM 7 DE JUNHO DE 1865)

LISBOA TYPOGRAPHIA UNIVERSAL MDCCCLXV

INTRODUCÇÃO

Tentando traçar os primeiros lineamentos caracteristicos de um grande poeta, esboço a que serve de moldura uma época ainda pouco estudada, desejou ao mesmo tempo o auctor compendiar n'esta peça os tres principaes generos de comedia—a comedia de enredo, a comedia de caracteres, a comedia de costumes.

Dizendo-se que é uma comedia, bem se deprehende que não se coadunam com as suas condições os lances violentos, que só pertencem ao drama. Desejando-se que em tudo sahisse de feição portugueza, evidente se torna que não podia entrar no seu quadro o expediente de inverosimeis situações, que o theatro francez offerece com trivial abundancia.

Não é porém a comedia uma biographia. Não podia apparecer n'ella inteira a vida do poeta, com todas as modificações que os annos successivamente exercem nos espiritos. Por isso não tem por titulo Bocage, senão Os primeiros amores de Bocage; como para dizer—a aurora d'esse homem—um homem egualmente singular pela indole e pelo ingenho.

Aquelle homem, com effeito, encheu do seu nome o fim de um seculo e o principio de outro. Era elle essencialmente o homem do futuro. A morbida inquietação, progressivamente aggravada até ao desvario, vinha-lhe naturalmente do estreito ambito de idéas em que o seu talento se asphixiava!

Para bem o comprehender cumpre ler-lhe attentamente a anciosa poesia, e logo depois fixar a meditação e os olhos nas paredes negras da Inquisição, em seu tempo erguidas ainda, e ainda ameaçadoras!

Surgindo entre duas sociedades, uma que o instincto lhe adivinhava, outra que em torno d'elle se alluia, foi a sua existencia um indeciso protesto e uma turbida agonia. Os desvios dos annos ulteriores, precipitando-o tão cedo na sepultura, fizeram-se o triste refugio de uma actividade intellectual, convulsa de febre, comprimida de fóra, não bem conscia de si. Os seus ultimos desregramentos apparecem-nos hoje como as valvulas perigosas por onde se derramou, e brevemente se exhauriu, a exhuberancia d'aquella alma

«…—que sedenta em si não coube!»

A comedia, tomando o poeta nos primeiros annos e nas generosas paixões da mocidade, mede-lhe a grandeza do vulto pela grandeza dos impulsos, dá aos seus mesmos defeitos a explicação elevada e nobre que só se póde ter por verdadeira em tão alto e claro espirito, mas deixa sempre entrever o germe fatal das futuras aberrações.

Equivocar-se-ia de todo quem unicamente o quizesse ver segundo a tradição que ficou do derradeiro periodo da sua vida, transmittindo-se pela bocca dos que só então o conheceram e chegaram aos nossos dias. O versista das trovas ao Chrispiniano, á Estanqueira do Loreto, e ao Antão Broega, o vate plebeu dos sonetos ao Galina e aos novos árcades, não exclue o admiravel poeta de Leandro e Hero, de Areneu e Argira, do Tritão e das Epistolas. A propria mobilidade do seu talento duplica, multiplica as variantes d'um caracter, cujo principal distinctivo era a excessiva impressionabilidade.

Na comedia, Bocage mostra-se pelas duas faces essenciaes. Está n'isso a verdade: o contrario seria grave erro de observação. Ninguem se apresenta nas salas como na rua. Quando não houvesse esta distincção natural, que é de todos os tempos, bastaria o que a respeito d'elle escreveu o viajante Beckford, (que o tratou no tempo em que frequentava a casa dos Marialvas) para tornar evidente como o fogoso mancebo, apesar das suas singularidades, não podia ter ao despontar da vida desaprendido o que recebera da educação paterna, que recordava com desvanecimento da origem como provam alguns dos seus versos.

Releu cuidadosamente o auctor os preciosos trabalhos dos srs. Castilhos, Rebello da Silva, e Innocencio ácerca de Bocage; compulsou os documentos respectivos ao poeta com tanta meudeza, que teve a fortuna de poder rectificar a data da sua nomeação de guarda marinha para Goa, que não é a de 1782 como se lê na biographia que precede a ultima edição, mas a de 31 de janeiro de 1786, como authenticamente se vê no proprio documento official conservado nos archivos do ministerio da marinha; procurou sobre tudo o segredo d'aquelle complexo caracter nos seis volumes que encerram a collecção completa dos seus poemas, collecção inteirada pela illustrada solicitude e zelo incansavel do nosso primeiro bibliographo, o já citado sr. Innocencio.

A variada feição da indole e talento de Bocage, o seu advento, e os lances principaes da sua vida, alli com effeito se retratam.

Aos 8 annos improvisava uma quadra, que não poderia ter chegado até nós se não fosse logo repetida por apreciada, concluindo-se d'ahi que não póde parecer prematura reputação a que elle goza já aos 19:

Fui ver a procissão a S. Francisco,
A quem o vulgo chama da cidade,
E supposto o apertão, foi raridade
Que indo eu em carne não viesse em cisco.

Logo no primeiro soneto da collecção exclama:

Incultas producções da mocidade
Exponho a vossos olhos, oh leitores;
Vede-as com magoa, vede-as com piedade,
Que ellas buscam piedade e não louvores;

Ponderae da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lagrimas e amores;
Notae dos males seus a immensidade,
A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja apparencia
Indique festival contentamento
,

Crede, oh mortaes, que foram com violencia
Escriptos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependencia.

Ninguem dirá, em presença d'esta dolorosa confissão, que lhe eram extranhos os grandes affectos e os grandes pezares expressos na mais alta e culta lingua; ninguem poderá persistir em consideral-o exclusivamente homem de botequins e oiteiros, incapaz de outras aspirações e outras praticas; ninguem em summa presumirá conhecel-o melhor do que elle a si se conhecia.

O soneto 99.^o do Livro I attesta como n'esse privilegiado ingenho se revelou cedo a vocação, que cedo tambem o fez presado:

Das faixas infantis despido apenas
Sentia o sacro fogo arder na mente.

Se o testemunho d'elle não bastasse, removeria quaesquer duvidas o de
Philinto quando lhe escrevia:

Lendo os teus versos, numeroso Elmano,
E o não vulgar conceito, e a feliz phrase,
Disse entre mim: «Depõe, Philinto, a lyra
Já velha, já cançada,
Que este mancebo vem tomar-te os louros.»

Manifesto é pois que a fama não esperou muito para apregoar o nome de Bocage, e apregoal-o por voz tão auctorisada como esta, a que o moço poeta respondia n'um rapto de enthusiasmo em que se está revelando quanto o lisongeava tal suffragio:

Fadou-me o gran Philinto, um vate, um nume!
Zoilos, tremei! Posteridade, és minha!

O retrato physico de Bocage acha-se, além de outro inferior, no soneto 22.^o do Livro IV:

Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura.

O nome que mais frequentemente apparece nas suas queixas amorosas, indicando uma preoccupação e predilecção pouco vulgar em homem tão variavel, e consequentemente certificando que fôra aquelle o seu mais intenso affecto, é justamente o nome de Gertruria. Enlevos, desconfiança, zelos, saudades, presagios, alternam-se em impetuosos arrebatamentos e sentidos desaffogos nos sonetos 13.^o, 18.^o, 23.^o, 37.^o e 57.^o do Livro I, e Gertruria é o objecto d'estas persistentes recordações. Os sonetos 17.^o e 20.^o provam que, indo em viagem, é ainda esta a memoria que lhe enche o espirito. O soneto 58.^o é uma despedida a Gertruria na occasião de partir para a India. O soneto 47.^o chora a ausencia da patria e de Gertruria. Finalmente o 83.^o, com o respectivo mote, é o que o Bocage da comedia no segundo acto improvisa sem mudança de uma virgula, e serve nas mãos astutas do commendador, por intermedio do officioso mestre Amancio, para dar no 3.^o acto motivo aos temporarios arrufos entre a supposta afilhada de D. Filicia e o filho de Manuel Simões.

Já portanto se vê que, só desconhecendo-se totalmente as obras do poeta, se poderiam julgar destoantes do seu caracter estes amores, estes versos, e a feição d'elles, pois que ahi se encontra, n'aquelle periodo da sua vida, uma parte da sua propria individualidade com o que é mais d'ella, ou antes no que é mais ella!

Seria facil multiplicar infinitamente as citações das poesias que authenticam, digamos assim, o caracter e a expressão que lhe deu o auctor. Para que? Seria um estudo demasiadamente longo e prolixo; seria peior, seria pôr em duvida a licção e criterio dos leitores.

Poderia crer-se apenas um freguez do Izidro e do Nicola o poeta que ao partir para Goa soltava esta enternecida e magnifica despedida?

Amigos, patria minha, e lar paterno
Penates a quem rendo um culto interno!
Lacrimosos parentes
Qu'inda na ausencia me estareis presentes,
Adeus! Um vivo ardor de nome e fama
A nova região me atrae, me chama.

Não diz elle as suas arrojadas esperanças e secretas penas n'este quarteto tão cheio?

Camões! grande Camões! quão similhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Egual sorte nos fez, perdido o Tejo,
Arrostar co'o sacrilego gigante!

Não deixa entrever, n'est'outro mavioso trecho, a par d'aquelles grandiosos sonhos, a dôr mysteriosa que o impelle e o acompanha?

Eu parto; e vou teu nome repetindo Por que dê desafogo á magoa dura; Meus tristes ais, suspiros de amargura Áquem dos mares ficarás ouvindo!

De tudo isto se compõe o Bocage da comedia!

Em torno d'elle, concorrendo a uma acção fundada nos costumes do paiz e da época, grupam-se os typos que mais visivelmente representam os sentimentos e tendencias coevas. De um lado as antigas tradições, ainda na sua grave pureza. De outro lado a degeneração variada, mixturando os elementos d'onde surgirá a necessaria transformação. De um lado o marquez de Marialva, D. Maria Joanna, Gonçalo Mendo; do outro D. Felicia, o Commendador, o Morgado. Ao fundo a burguezia nascente, isto é, Manuel Simões e seu filho,—o proprio Manuel Simões concebido e desenhado por Garrett na Sobrinha do Marquez—quanto possivel guardado e acatado como se guardam e acatam as tellas dos mestres—e só passageiramente retocado com uma leve tintura de ambição, indispensavel para indicar a progressão dos tempos, e os futuros destinos de tal classe. Ao redor do todo, o povo em algumas physionomias rapidamente esboçadas. Ao longe, como horisonte melancholico, uma idéa do são e austero lar provinciano, com seus longes dos costumes patriarchaes e fragueiros que lhe eram usual apanagio.

Eis aqui resumido todo o pensamento e toda a economia da composição, que depois de experimentar a fortuna do palco, vae agora experimentar a fortuna da imprensa—duas temerosas experiencias.

Expondo assim o conjuncto do designio, cujas multiplicadas difficuldades calculou, não procura o auctor antecipar as desculpas, mas unicamente assentar as responsabilidades.

Se logrou o seu proposito não o dirá elle; decidil-o-ha o publico!

O singular favor com que foi acolhido este ensaio n'um genero pouco cultivado no nosso theatro, impõe ao auctor o gratissimo dever de exprimir aqui (vedando-lhe o respeito outra menção) o seu profundo reconhecimento para com o publico, indulgente e attento, que em todos os seus tentames o tem acompanhado como um amigo fiel, ora animando-o com o estimulo do applauso, ora advertindo-o com a benevolencia do conselho, e que, de certo apreciando a obra mais pela intenção que pela valia, recompensou os seus esforços por modo tal que lhe ficará indelevel memoria.

Á imprensa agradece tambem a benignidade com que até aqui o tem honrado.

Á direcção do theatro normal testemunha quanto o penhorou a solicita cooperação que n'ella encontrou.

Seja-lhe finalmente permittido certificar á graciosa actriz, que fez com a estreia da peça o seu beneficio, a sua inteira satisfação pela maneira verdadeiramente distincta com que interpretou o seu variado papel e lhe venceu as numerosas difficuldades, sendo a maior ter ao lado uma artista tão conscienciosa e completa como a sr.^a Delfina, que do esboço senhorilmente comico de D. Felicia tirou uma das suas mais acabadas creações.

Se a estas, pela primasia devida ao sexo, menciona o auctor em primeiro logar, nem por isso esquece que deve egual agradecimento aos mais actores, do primeiro até ao ultimo, tendo achado n'elles tamanho zelo, que, mesmo graduando-os pela ordem dos meritos bem conhecidos, não poderia especialisar um sem offender a boa vontade de todos.

A comedia Os primeiros amores de Bocage, se Deus der vida ao auctor, será o introito de uma trilogia, que se destina a abranger o mais notavel da vida do poeta, e dos curiosos periodos coetaneos da historia patria, até aos ultimos momentos d'elle em dezembro de 1805.

Junho 12—1865.

ADVERTENCIA

Além dos córtes, effectuados antes da representação, que vão designados com cômmas no impresso, a experiencia mostrou a necessidade de novas reducções. Como estas reducções tiveram logar depois de completa já a impressão dos respectivos actos, vão ellas aqui notadas para facilitar a execução da peça em quaesquer theatros.

ACTO II

SCENA II

Desde as palavras «estava de pedra e cal que se tinha já livrado» (exclusivè) até começar a phrase: «dizem que ha ahi uma tal senhora morgada, etc.» supprime-se tudo.

E depois, egual suppressão desde as palavras: «se não póde chegar a um rosicler de pedras» (exclusivè) até ao fim da scena.

SCENA IV

Suppressão desde as palavras: «elle só bastára para dar a immortalidade ao nome portuguez» (exclusivè) até onde Bocage diz: «ouça-me tambem, sr. Gonçalo Mendo».

ACTO III

SCENA X

Suppressão desde que o Commendador pergunta: «resolveu casar com sua prima quanto antes?» (exclusivè) até prender onde o mesmo Commendador diz: «chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que importa, etc.»

Á phrase de Gonçalo Mendo, na scena 2.^a do 5.^o acto: «disse-me que ia a Setubal despedir-se dos paes», phrase que por facil inadvertencia escapou na composição e revisão, cumpre substituir est'outra: «disse-me que ia a Setubal despedir-se do pae.»

A mãe do poeta não existia já havia nove annos.

PERSONAGENS

O Marquez de Marialva, 72 annos Sr. Rosa

Manuel Simões, mercador, 69 annos Sr. Theodorico

Gonçalo Mendo de Sendim, da casa de Mendel, tenente de dragões de Campo
Maior, 33 annos Sr. Tasso

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage, cadete do regimento de Setubal, 19 annos Sr. Santos

Bartholomeu Tojo, morgado da Gesteira, 44 annos Sr. Cezar

Sebastião de Brito Louzellos, commendador de S. Marcos de Monsarás, 52 annos Sr. Izidoro

Francisco Pedro Simões, filho do Manuel Simões, 26 annos Sr. Coelho

Um Transeunte Sr. Corrêa

Zé da Moita, guarda de montado, 30 annos Sr. Pinto

Luiz Manuel, escudeiro, 65 annos Sr. Moreira

D. Maria Joanna Galvão Lobo, morgada de Valmoreno, Fresnos e
Carregueiros, 23 annos Sr.^a E. Adelaide

D. Felicia Moutoso de Cerqueira, morgada da Torre da Palma, 48 annos
Sr.^a Delfina

Maria Gertrudes, sua afilhada, 20 annos Sr.^a Marianna

Tia Paschoa do Espirito Santo Sr.^a Maxima

Tia Vigencia da Purificação Sr.^a C. Emilia

Uma Palmilhadeira. Sr.^a Maria das Dores

Compadre Theotonio Alves Sr. Marcolino

Compadre Amancio Pires Sr. Sargedas

1.^o} { Sr. Amaro 2.^o} POETAS { Sr. Polla 3.^o} { Sr. Soller

1.^o} { Sr. Vencancio } MANCEBOS { 2.^o} { Sr. Christiano

O alcaide do bairro do Rogio Sr. J. Antonio

O tabelião

Um cavalheiro

O Almeirão }
} Picadores
O Gaeta }

Um cego, pregoeiro de impressos Sr. Farruja

Um Volantim

Um penitente

Um escudeiro do Marquez.—O mouro do Marquez.—O escudeiro de D.
Felicia.—Povo.—Convidados.—Damas.—Ronda do Alcaide—Criados, etc.

1785 a 1786

O COMMENDADOR (atrás de D. Maria Joanna, do mesmo modo)

Bem… bem diz Xenophonte!… Nem eu sei o que diz! (Deixa-se ir meio desfallecido sobre outra cadeira á entrada da porta do F.)

(Silencio geral. Cada um dos tres personagens procura resfolegar e reanimar-se.)

D. MARIA JOANNA (como tornando a si.) (Para os dois)

Que foi isto?… Como foi isto?…

MORGADO

Pois não sentiu?—Um tiro… tropel de cavallos…

D. MARIA JOANNA

E desappareceu tudo!… E deixaram-me só!… (meio reprehensiva) E o primo a fugir!

MORGADO (levantando-se)

Fugir eu, minha prima!… (Formalisado.) Fugir!… Seria a primeira vez.

D. MARIA JOANNA (recobrando gradualmente o bom humor)

Pois para a primeira não o fazia mal.

MORGADO

Avistei esta casaria… Corria para aqui… para me fazer forte… para nos fazermos fortes!

D. MARIA JOANNA

Mas corria diante… E eu corri tambem… corri que nem eu sei… corri devéras para o poder seguir… E até o commendador correu… Não correu, commendador?

COMMENDADOR (gravemente)

Affirmam boas auctoridades que muitas vezes é prudencia o correr… Pedibus celer, diz Virgilio com louvor.

D. MARIA JOANNA (sorrindo)

Já está mais em si, o commendador… Já não falla como toda a gente.

MORGADO (com extrema volubilidade, que é o seu natural)

Mas, prima, que havia de fazer um homem só, n'aquelle descampado, contra tanta gente!… Agora que venham. Dez, doze, vinte que sejam…

D. MARIA JOANNA (erguendo-se como escutando)

Espere…

MORGADO (assustado)

Que é?

COMMENDADOR (idem, levantando-se e approximando-se á D.)

Que é?

D. MARIA JOANNA (Applicando o ouvido, aos dois que se lhe reunem em grupo turbado)

Não ouvem?

COMMENDADOR

Tropear de cavallos!…

MORGADO (inquieto e interrogando as saidas com os olhos)

Não ter aqui a minha espada!…

D. MARIA JOANNA (com leve ironia)

Perdeu-a?

MORGADO (mais inquieto)

Não sei como foi… (dirigindo-se apressadamente a uma porta lateral)
Vou procurar uma arma.

D. MARIA JOANNA (com terror dirigindo-se a outra)

Chame gente, primo.

COMMENDADOR (que ficára escutando)

Vem subindo alguem! (encaminhando-se desorientado á outra).

(No momento em que os tres aterrados procuram debalde atinar com os fechos das portas a que se dirigem, apparece ao F. Gonçalo Mendo)

SCENA II

OS MESMOS e GONÇALO MENDO

GONÇALO

Da parte d'el-rei… nem mais um passo.

COMMENDADOR (apegando-se á umbreira)

Ai!

MORGADO (idem)

Jesus!

D. MARIA JOANNA

Desmaiava… se tivesse onde.

GONÇALO

Ninguem tente fugir ou esconder-se. Da parte d'el-rei está preso tudo.

MORGADO (esperançado, comsigo, e ainda voltado para a porta)

Da parte d'el-rei!

D. MARIA JOANNA (do mesmo modo)

Havia de jurar que me não é desconhecida esta voz.

COMMENDADOR (voltando dissimuladamente o rosto, e procurando reconhecer)

Da parte d'el-rei!… Então…

GONÇALO (adiantando-se)

Vamos… Toda a resistencia seria inutil…

D. MARIA JOANNA, MORGADO e COMMENDADOR

(voltando-se simultaneamente)

O sr. Gonçalo Mendo!

GONÇALO (attonito)

Que é isto! (affirmando-se e reconhecendo-os) Na verdade não sei se acredite… A sr.^a D. Maria Joanna Galvão!… O sr. morgado da Gésteira!… O sr. commendador Louzellos!… E eu que pensava colher um bando de salteadores!… (a D. Maria Joanna sorrindo) Não são os salteadores?

D. MARIA JOANNA (recobrando a jovialidade)

Somos os assaltados. Respondo-lhe por elles.—Agora diga-me antes de tudo. Que aventura é esta? Como veiu aqui? Onde estamos? Diga. Foi terrivel o susto, mas ainda é maior a curiosidade.

GONÇALO

Responderei logo; perguntarei primeiro. Estes senhores pódem auxiliar as explicações, e eu completo o meu dever. Vinham de jornada e foram atacados alli em baixo, na estrada, ao fundo do valle, entre a ribeira d'Aviz e o azinhal grande?

COMMENDADOR (no seu caracter habitual de prolixa gravidade)

Fomos. Tinhamos jantado em Portalegre, onde mais nos detivemos do que deviamos. E não foi por eu não repetir ao morgado, com a auctoridade de Cicero: «nos negocios graves são perigosas as demoras.» Jornadas, em boa razão, são graves negocios.

MORGADO (no seu caracter de costumada loquacidade)

A que proposito vinha o tal Cicero, ou o que é, quando eu tinha conseguido pôr na meza á prima, em Portalegre… em Portalegre, como se estivessemos na côrte!… tudo por diligencias minhas, tudo com receitas minhas!… uma ôlha á castelhana, um prato de gallinhas de alfitete, outro de coelho á Fernão de Sousa, outro de arteletes de vitella, outro de coroa real de folhado francez, sem contar as miudezas… Em jornada nem princezas teriam melhor, hade confessar, sr. Gonçalo Mendo… Não, que se não fôra a minha consummada pratica n'estas coisas…

D. MARIA JOANNA

Estavamos ha uma hora em Monforte… e provavelmente não nos tinha succedido o que nos succedeu.

MORGADO (desconsolado)

Ah! prima!

GONÇALO (a D. Maria Joanna)

Não me queixarei eu do succedido. (Aos homens.) Vamos ao caso…

COMMENDADOR

Era já ao pôr do sol e estavamos quasi ao meio do azinhal, a sr.^a D. Maria Joanna com a sua aia n'uma liteira, nós dois e dois criados, todos a cavallo, um pouco atrás uma azemola com as bagagens mais leves, e um moço de pé…

MORGADO

Bagagens leves!… Leves serão, mas preciosas!… Mil coisas necessarias!… Uma bateria de cosinha de viagem como não ha outra ainda em Lisboa… completa… completa… Fôrmas, facas, espatulas, agulhas, passadores… Nem na uxaria de Salvaterra!… E tudo precaução minha para commodidade da prima, tudo…

GONÇALO (interrompendo)

Vamos ao caso… vamos ao caso, commendador.

COMMENDADOR

A meio do azinhal, pouco mais ou menos, onde a estrada faz um cotovelo e se aperta entre os montes, damos de rosto com uns poucos de homens armados…

MORGADO

Poucos!… Quinze eram pelo menos… vinte talvez… vinte de certo, se não eram mais…

GONÇALO (atalhando impaciente)

O numero pouco importa.

MORGADO (protestando)

Importa pouco! Para o valor o numero…

COMMENDADOR

O numero não é indifferente… Por não ser indiferente se distinguiu em singular e plural… Basta ver o que a respeito do numero escreveu Prisciano Cesariense… mas n'este caso…

D. MARIA JOANNA

N'este caso, continúo eu… ou não se acaba.—Parámos. O morgado e o commendador vinham ainda um pouco distantes, penso. Os homens fazem menção de nos cercar a liteira. A minha aia desmaia. Os liteireiros fogem pelo azinhal, e creio que os criados tambem. Emfim achei-me não sei como a pé na estrada. N'isto o commendador caiu…

COMMENDADOR

Dei de esporas para acudir, e tropeçou-me o cavallo…

D. MARIA JOANNA

Muito a tempo.

MORGADO (que espreitava a occasião, apoderando-se da palavra)

No meio d'estes apuros, conservo toda a presença d'espirito… deito á carreira, faço parada firme, ponho pé em terra n'um relance, com todos os preceitos… os tres tempos velozes em meio circulo seguido… levanto o commendador que estava tolhido pela sella… não indago mais… a pé mesmo levo da espada, e caio como um raio sobre a malta… Ah! que se tenho tempo! Duas voltas, um cambiamento, treta sobre treta, talho e revez, e ensinava-lhes o que é o morgado da Gésteira com a espada na mão!… A prima veria… Por seu respeito!… Veria… Não digo mais!

D. MARIA JOANNA

Veria… estou certa. Mas não vi. Foi pena. Apagou-se o raio antes de fulminar!

GONÇALO (a D. Maria Joanna)

Depois?

D. MARIA JOANNA

Depois… nem eu sei bem… ouviu-se um galope… um tiro, creio… O morgado diz que foi um tiro…

MORGADO

Foi… Por signal, com o estrondo os nossos cavallos, que tinhamos deixado soltos na estrada, fugiram á desfilada…

D. MARIA JOANNA

Dando exemplo aos cavalleiros. Fugiram os cavallos, fugiram os salteadores… se eram salteadores… já tinha fugido o commendador, fugiu o primo, e eu, que estava desatinada, confesso, vendo-o fugir… segui-o. Debandada geral… Não se ria, sr. Gonçalo Mendo… Segui-o, é verdade, a correr, a bom correr, eu mesma, por essas ladeiras acima, por entre o matto… E tive folego!… Veja que forças dá o terror, e como eguala as condições!… Por fim viemos dar todos aqui. Póde explicar-me o enigma?

MORGADO

Tive a imprudencia de não trazer armas de fogo. Estava apeado, não esperava dois ataques ao mesmo tempo… Mettido assim entre os salteadores que nos esperavam, e o outro bando que atirou sobre nós… Senti assobiar a bala aos ouvidos.

GONÇALO

Admira. Disparei para o ar.

MORGADO (surpreso)

Disparou!

D. MARIA JOANNA

Então o outro bando era o sr. Gonçalo Mendo!

GONÇALO

Eu mesmo. Voltava de Marvão, com duas ordenanças do meu regimento, em direcção a Monforte. Ao descer a encosta avistei um ajuntamento na estrada… Não podia distinguir bem, porque estava distante ainda, e já começava a escurecer o valle com a sombra do arvoredo… Metti a galope, e desconfiei que era ataque a passageiros. Disparei então uma das pistolas para dar aviso de soccorro, e prevenir alguma ousadia maior. Não esperava tão grande resultado. N'um instante desappareceu tudo… menos a liteira e a sua aia, minha senhora!

D. MARIA JOANNA

Jesus! é verdade! A minha pobre Anna Maria! Que é feito d'ella?… Com o sobresalto, com tudo isto, quasi me tinha já esquecido.

GONÇALO

Tornou a si… Acompanha-a um dos meus dragões… Vem ahi já. Nem pode acreditar ainda, que esteja viva.

D. MARIA JOANNA

E os ladrões, os criados, os liteireiros…

GONÇALO

Dos ladrões, nem vestigios… Parece que se abriu a terra com elles…

MORGADO (que escutava attentamente, comsigo)

Ainda bem!

GONÇALO (fitando-o)

Como?

MORGADO

Nada, nada… Explica-se tudo perfeitamente. Ainda bem, dizia eu. Ainda bem que se explica, está visto.

GONÇALO

Os liteireiros e os criados… deixei a outra ordenança incumbida de procural-os, e esses de certo não hão de estar longe.

D. MARIA JOANNA

E como veio aqui ter, tanto a proposito?

(Vae carregando a noite)

GONÇALO

Porque vi que se acoitavam n'esta casaria alguns vultos… e por… (mais baixo) por destino talvez!

D. MARIA JOANNA (idem, motejando)

Como ha dois annos?

GONÇALO (gravemente e com ardor)

Como sempre!

D. MARIA JOANNA (afastando a conversação)

Mas a final, onde estamos? Que havemos de fazer?

GONÇALO

Em primeiro logar… procurar luz. É noite quasi. Sr. Morgado da
Gésteira, a casa tem ares de habitada. Se quizesse…

MORGADO

Pois não. Eu chamo. (Successivamente e a intervallos, ás portas da D.)
Olé! Oh!… ó de casa. Venha alguem? Está aqui o morgado da Gésteira!…
Está uma senhora!… Gente de bem, tudo!… (Silencio absoluto.) Nem
viv'alma!

GONÇALO

Estarão longe…

COMMENDADOR

É singular!

D. MARIA JOANNA (inquieta)

Será a propria guarida dos salteadores!

GONÇALO

Tem-se visto, mas não é provavel… Vamos, sr. morgado. Veja se acha uma luz. Bem reconhece que não posso ir eu. Está aqui uma dama, e agora, como militar, respondo pela sua segurança.

MORGADO (irresoluto)

Assim é, mas… (sem se atrever a ir) Commendador, mais vêem dois do que um.

COMMENDADOR

«Não é a luz dos olhos a que mais vê», como diz…

GONÇALO (instando)

Então! Cada vez se faz mais escuro, e não sabemos onde estamos.

MORGADO (resolvendo-se)

Vamos, commendador, antes que seja noite de todo! Por aqui… (indo á E.) Uma varanda… (indo á D.) d'este lado um corredor… Vamos a ver.

(Saem os dois pela 1.^a porta da D.)

SCENA III

GONÇALO, e D. MARIA JOANNA

(Longo silencio como se receiassem quebral-o)

D. MARIA JOANNA

Sr. Gonçalo Mendo, é ainda submisso como d'antes jurava?

GONÇALO

Nunca faltei a nenhum juramento.

D. MARIA JOANNA

Tornamos a vêr-nos em circumstancias extraordinarias… n'um ermo a bem dizer… entre sombras e mysterios… Não lhe permitto uma palavra de galanteio ás escuras… Estão entre nós…

GONÇALO (gravemente)

Estão tres seculos de honra… está a espada de um soldado.—Faz-me a injuria de suppôr necessario advertir-m'o?

D. MARIA JOANNA

Não. Desculpe. É ainda do sobresalto! Desculpe. Conversemos.—Estava bem longe de me encontrar, não? E assim, e aqui muito menos?

GONÇALO

Só adivinhando. Suppunha-a ainda em Paris.

D. MARIA JOANNA

Volto de lá. Um mez de jornada, faça idéa! Se não posso aturar o mar!

GONÇALO

Um mez!… Entre o commendador e o morgado?

D. MARIA JOANNA

O commendador…

GONÇALO

Uma reminiscencia das academias do sr. D. João V… a quem Deus perdôe…

D. MARIA JOANNA