JOANNI
AUGUSTISSIMO, PIISSIMO, FELICISSIMO,
PORTUGALIÆ PRINCIPI,
TOTIUSQUE IMPERII GUBERNACULUM
AUSPICATIUS MODERANTI,
BRASILIÆ
MAXIMO DECORI, SPEI, AC FIRMAMENTO,
LITTERARUM
FAUTORI EXIMIO,
DE REBUS A LUSIT. AD TRIPOLIM VIRILIT. GESTIS,
CARMEN
In obsequii, summae reverentiae, gratique animi
Devotionem
Perquam submisse
D. O. C.
JOSEPHUS FRANCISCUS CARDOSO.
Soteropoli Bahiensi
Regius Latinae Linguae Professor,
Ibidemque natus.
ULYSSIPONE,
TYPOGRAPHIA DOMUS LITTERARIÆ AD ARCUM CÆCI.
ANNO M. DCCC.
Suae Regiae Celsitudinis Jussu.
AO
SERENISSIMO, PIISSIMO, FELICISSIMO,
PRINCIPE REGENTE
DE PORTUGAL,
D. JOÃO,
ORNAMENT. PRIM., ESPERANÇA, E ESTABILIDADE
DO BRASIL,
E
PROTECTOR EXIMIO DAS LETRAS
CANTO HEROICO SOBRE AS FAÇANH. DOS PORTUGUEZES
NA EXPEDIÇAÕ DE TRIPOLI.
Em testemunho de vassalagem, profundo acatamento,
e gratidão, mui respeitosa, e humildemente
D. O. C.
POR
JOSÉ FRANCISCO CARDOSO,
Professor Regio de Grammatica Latina na Cidade da Bahia, e della natural;
TRADUZIDO POR
MANOEL MARIA DE BARBOSA DU BOCAGE.
LISBOA,
NA OFFIC. DA CASA LITTERARIA DO ARCO DO CEGO.
ANNO. M. DCCC.
Por Ordem de S. A. R.
Tels ont été les Grands, dont l’immortelle gloire
Se grave en lettres d’or au Temple de Mémoire.
Le Roi de Prusse Épit. 1. à son Frère.
Forão taes esses Grandes,
Cuja perenne Gloria
Se grava em letras de oiro
No Templo da Memoria.
O Rei da Pruss. Epist. 1. a seu Irmão.
CANTO HEROICO.
Musa, não temas; vibra afoita o plectro.
Se tentas sublimar-te a grandes cousas,
Se mais que a força tua he tua empreza;
Eis NUMEN Bemfazejo inspira o canto,
NUMEN, de QUEM rival não fôra Apollo,
Nem de Aonias Irmans turba engenhosa.
Sonhão Poetas vãos Parnaso, e Pindo;
Hippocrene hé quimera: a ti dimana,
Do Solio desce a ti feliz audacia,
Que a mente acobardada esfórça, agita.
Assim remontarás segura os vôos;
Assim, transpondo os Ceos, transpondo os Mares,
Irás desentranhar, colher arcanos,
Não corruptos na voz da Fama incerta.
Outros (como que folguem de illudir-se)
Mandem rogo importuno aos Deoses do Estro;
Cobicem na Castalia mergulhar-se.
JOAÕ, CUJO Poder no mundo hé tanto,
E a CUJO Arbitrio cabe alçar o humilde,
O elevado abater, protege, ó Musa,
Teos sons, teo metro; e com benigno Aceno
Ordena, que altos feitos apregôes:
Idéa, engenho, ardor de Lá te influem.
Á sombra já de Auspicios tão sagrados,
Claros louvores de immortaes Guerreiros
Anhela celebrar fervendo a mente;
Dizer, com que perfidia atroz, e infanda
Foi pela Maura estirpe despertado
Nos Lusos corações o fogo antigo;
Qual soffreo nova pena a Gente odiosa;
Té que Marte á justiça os constrangesse.
Longe, longe as ficções. TUA ALMA Ingénua
Só quer, PRINCIPE Augusto, a ingenuidade.
Onde o Mar pelas terras mais se alonga,
Em cuja bocca he fama erguera Alcides
Arduas columnas, das fadigas termo,
Jaz annosa Cidade[1], que parece
De Carthago ás ruinas esquivar-se,
Olhando ao longe de Sicilia as praias:
Outróra fundação nobre, opulenta,
Em tanto que do intrépido Navarro
Opprimida não foi com duro assedio:
Hoje triste enseada, e mal seguro
Surgidoiro aos baixeis. Dalli costuma
O rapido chaveco atraiçoado
Ás infestas rapinas arrojar-se;
De miseros mortaes alli mil vezes
C’os sanguentos despojos volve alegre:
Nem se apraz só do roubo a Raça infame,
Nódoa, horror da Razão, da Natureza;
Aos fracos agrilhoa as mãos inermes;
Quaes brutos, os alhêa a preço de oiro,
Ou lhe esmaga a cerviz com jugo indigno:
Eis seo louvor, seo nome, a gloria sua.
Alli preside asperrimo Tyranno[2],
De torpe multidão senhor mais torpe;
Monstro, que desde a infancia exercitado
Em tudo o que os Mortaes nomêão crime,
Sacrilego infractor das Leis mais sanctas,
Delicto algum não vê, que em si não queira,
E dóe-se de o perder, se algum lhe escapa:
Maldade horrivel, que prodigio fôra,
Se estes dos homens sórdido refugo,
Desparzidos no Globo, o não manchassem.
Oh quanto mais se deve estrago, e morte
Ao barbaro Tropel, que hum trato amigo,
E aquella mutua fé, que enlaça os Povos!
Mas se robustas Mãos, que o Sceptro empunhão,
Não chovem contra os Féros inda o raio,
Tempo, tempo virá que exterminada
(O coração mo diz com fausto agoiro)
Apraza acantoar a iniqua Turba
Lá onde dos invernos carregado,
Junto ás extremas Ursas vai Bootes
Regendo a custo o vagaroso carro;
Ou lá onde rebrama o Sul recente,
Haja taes Cidadãos deserta plaga,
Até que a Eternidade absorva as Eras:
E das brenhas no horror, no horror das grutas,
Companheiros das féras, monstros novos,
Vivão de sangue, como as féras vivem,
Na garra, e condição peiores, que ellas.
A Maldade em caracter convertida
Hé sempre mãi do crime, e a Natureza
Já despir-vos não sabe, Artes perversas.
Como ha de a voz saudavel do Remórso
Melhorar corações, depois que a peste
De corrupta Moral se arreiga nelles;
Fermenta, lavra em fim de vêa em vêa,
De séculos a séculos medrando?
Quando os dons se amontôão sobre a culpa?
Quando a penuria a probidade ancêa,
De hum vulgo detestavel accossada?
A tudo a negra Turma inverte os nomes;
O bom desapprovando, ao máo se aferra:
E hé tanta nos crueis do crime a sêde,
O exercicio do mal taes forças ganha,
Domina tanto alli, que nunca omittem
Opportuna estação de perpetrallo,
Ou do ardor de empecer, ou da cobiça
De illegitima presa esporeados;
Como se a Rectidão, como se a Honra,
O que a todos illustra, os deslustrasse.
Não com lingua fallaz taes vozes sólto:
Ninguem no mundo o que descrevo, ignóra.
Quem de olhos carecer, e quem de ouvidos,
Só não conhecerá, quão vis alumnos
Pela terra esparzio o audaz Mafoma,
O refalsado author de Seita infanda.
Que dólos, que traições, que iniquidades
Da caterva brutal provaste há pouco,
Tu, dize, tu, magnanimo Donaldo[3];
Conta os varios successos, conta os riscos,
Os trabalhos, que a ti, e aos teos urdira
Atro perjurio do bilingue Chefe;
Tudo porém troféo das forças tuas.
Lustroso do esplendor de imperio summo,
Tu foste quem primeiro apresentára
A dadiva da Paz, que, apadrinhado
De hum Rei potente[4], o Barbaro implorava.
Quando hé que as condições mais leves forão?
Entreguem-se os Francezes acolhidos
Brandamente de Tripoli nos muros,
Ao throno do Sultão[5] pesada offensa,
Grave infracção tambem do jus Britanno,
Da assentada concordia, e laço antigo.
Bachá, cumpre o dever, e a teos desejos
Verás a conclusão, verás o fructo.
Grão penhor te dará na fé, na dextra
AQUELLE, Cujas Leis adora o Tejo,
Ufano revolvendo arêas de oiro;
Cujas Leis teme o Niger, teme o Ganges;
São freio, acatamento do Amazonas,
Do Argenteo, que em torrentes resonantes
Immensos cabedaes aos Mares levão.
D’alta alliança o Régulo sedento,
Folga, exulta, accelera-se, convida
O animoso Guerreiro ao forte alcáçar.
Quer comtudo exercer primeiro astucias,
Que o feio coração lhe está brotando,
Bemque tanto aproveite, e tanto alcance
No que diz com a Razão, no que he justiça.
Dá-se pressa: ameacem muito embora
Caso fatal as hórridas Muralhas,
Encerre o que encerrar ambigua estancia;
Todo firmado em si, maior que o susto,
Vai demandar o Heróe a hostil morada.
Hé desta arte, que só, que destemido
Carlos[6] outróra ousou nos proprios lares
Encarar o Inimigo exacerbado,
Volvendo illeso aos seos, depois de muito:
Ou tal, fieis annuncios despresando,
Foi Cesar envolver-se entre os Conscriptos,
Dispostos a catástrofe cruenta;
De indócil ao temor, de habituado
Só có a presença a triunfar mil vezes.
Entre as sombras da noite absorto em tanto,
Metido em pensamentos veladores,
Até que ás ondas volte o grande Chefe,
(Se lhe hé dado talvez tornar, qual fôra)
Impéra n’alta Poppa o Delegado[7];
E o lucto, que lhe cinge a fantasia,
Recata com semblante esperançoso.
Partindo prescrevêra o Cabo invicto,
Que, a negar-lhe o regresso indigna força,
Apenas alvejasse a grata Aurora,
Trazendo novo lustre ao Ceo, e á Terra;
Com todo quanto impulso em Lusos cabe,
Os pérfidos Contrarios commettessem.
Nada cura de si; nem quer ausente
Ser obstaculo aos seos: có a idéa erguida
A bens de mais valor, de mais alteza,
A vida se lhe antólha hum sonho, hum nada.
Á mente perspicaz não se lhe esconde,
Sente no coração, votado á Gloria,
Que da existencia a luz hé luz de raio;
Que, se as tubas da Fama os não precedem,
Vastos nomes no Lethes se baralhão
Entre escuro montão de escaços nomes,
O que affecta os sentidos deixa ao vulgo;
Engeita o que hé do vulgo, o que hé da morte,
E mais que humano, e sobranceiro ao Fado,
Quer duração, que os séculos abranja.
Por que os Fabios direi, sós contra hum Povo
Todo o peso da guerra em si tomando?
E o Rei, que deo, morrendo, aos seos victoria,
Rei derradeiro na Cecrópia terra?
Ou porque os Moços, que exhalando as almas,
Ferem, matão, derrubão densas hostes,
Estorvo das correntes, que bebião?
Tropel dez vezes cento (oh maravilha!)
Maior, que seos terriveis Adversarios;
Não visto n’outro tempo, ou n’outros climas,
Nem por outrem guiado ao Marcio jogo?
Vetustos monumentos nada ensinão,
Que dê mais esplendor; ou antes nunca
Se afoitou a idear viril denodo
Empresa mais illustre, audaz, violenta.
Mas como transcender-se as métas podem,
Onde se crê parada a Natureza,
Donaldo o manifesta, o prova ao Mundo.
Alta fama de hum só consente apenas
A Codro, aos Fabios, aos Varões de Esparta
O secundario gráo. Soltando a vida,
Chama o triunfo aos seos o Heróe de Athenas,
Acção rara, exemplar; porém ao Povo
O Cidadão, e o Rei devião tanto,
E a tanto a voz dos Ceos o arrebatava.
Se os trezentos impávidos Romanos
Aos arraiaes hostis se arremessárão,
Forão-lhe origem da proeza estranha
Velha aversão, troféos imaginados,
E agoiros de segura eternidade;
Além de outro incentivo inda mais caro:
Morrer nas armas, escudando a Patria.
Laconios Campiões, sim defendestes
Com requintado alento, e planta immovel
Da apertada Thermópylas o passo;
Mas os deoses, os filhos, pais, e esposas,
Os objectos do culto, e do amor vosso
Á vossa heroicidade objectos forão;
E derão-vos os Fados, que a vingança
Aligeirasse em vós da morte o peso.
Porém de circunstancias mais sublimes
O egregio, immortal Feito se rodêa,
Que me cumpre levar por toda a Terra:
Graveza aos hombros meos descompassada,
E excessiva talvez de Atlante aos hombros.
Não, aqui não se offrece abrilhantada
De attractivos externos a Virtude:
Nua apparece aqui, por si formosa.
Donaldo, avesso ao crime, o crime odêa,
Por amor da Virtude, ama a Virtude.
Nada do que usa erguer ao alto as mentes,
Nem patria, nem desejos de vingança,
Nem propria utilidade, ou qualquer outra
Das humanas paixões Donaldo incita:
Ante si do Dever só tem a imagem,
Seja qual for o effeito, ou lédo, ou triste.
Ai! que tramas dispoem Bando horroroso!
Que ciladas no astuto pensamento!
Plebe sem lei, sem fé prepara á furto
Traidores laços ao Varão, que assoma.
Já na imaginação devóra a presa:
De engenho mais sagaz se crê dotado,
Mais jus colhe ao louvor quem da perfidia
No atroz invento sobresahe aos outros;
Quem das negras, pestiferas entranhas
Crime inaudito, insólito attentado,
Nova abominação vomita, arranca,
Rugindo em torno rábida caterva.
Mal que na odiada arêa a planta imprima,
Esperar n’hum punhal o Incauto, e ás ondas
Em pedaços (que horror!) lançar-lhe os membros.
Hé deste opinião; voto hé daquelle,
Que subito assaltêe impia cohorte
O immune Orgão da Paz, e ferreas pontas
Daqui, dalli no coração lhe embebão,
Quando a infiel Cidade entrar seguro.
Quer outro, que de longe á fronte heroica,
De inviolavel caracter decorada,
D’entre o lume sulfureo vôe a morte.
Outro, que subterránea estrada infensa
Debaixo de seos pés ardendo estoire.
Nem occorre isto só: revezão todos
Horrores, que requintão sobre horrores.
Émulo ardor nos animos damnados
Tanta aos delictos affeição lhe atêa!
Tão preciosa lhe hé, tão doce a infamia!
Mas o Eterno desfez insidia enorme.
Nos olhos do Varão, na voz, no aspecto
Tal reverencia poz, poz tal grandeza,
Que vai por entre a luz, e os Inimigos
Incólume, e sereno. Erão famosos
Por sanguineas, innumeras brutezas,
Quantos desta (a maior) se encarregárão.
Mas quando o pensamento abominoso,
Já já fito na presa, a mão dirige,