SENIO
A PATA DA GAZELLA
ROMANCE BRASILEIRO
RIO DE JANEIRO
EDITOR PROPRIETARIO
B. L. Garnier.—Rua do Ouvidor n. 6
1870
INDICE
CAPITULO [I]
CAPITULO [II]
CAPITULO [III]
CAPITULO [IV]
CAPITULO [V]
CAPITULO [VI]
CAPITULO [VII]
CAPITULO [VIII]
CAPITULO [IX]
CAPITULO [X]
CAPITULO [XI]
CAPITULO [XII]
CAPITULO [XIII]
CAPITULO [XIV]
CAPITULO [XV]
CAPITULO [XVI]
CAPITULO [XVII]
CAPITULO [XVIII]
CAPITULO [XIX]
[I]
Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.
Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de talhe, era talvez mais linda que sua companheira.
Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.
—Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.
—Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era desenhado por um roupão cinzento.
O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.
—O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento de impaciencia.
—É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.
Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro agalloado.
Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da carruagem, murmurou:
—Laura!... Laura!...
E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.
—O que é, Amelia?
—Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando.
—Que tem isto? disse Laura sorrindo.
—Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?
—Volta-lhe as costas!
—Vamos para diante.
—Como quizeres.
Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada.
Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de Amelia.
Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se naquella ardente contemplação.
O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.
Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi, brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes, fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr extremo.
O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado, não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas, e na magoa que lhe escurecia a fronte.
Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadello.
Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o corpo com vivacidade:
—Emfim; ahi vem!
—Felizmente! disse Amelia.
O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando.
Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:
—Vamos! vamos!
Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada.
Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com estas palavras de contrariedade:
—Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende!
Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os parallelepipedos.
Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que não tinha usurpado o titulo.
O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade.
Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a monotonia das relações habituaes.
Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno, como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de fazendas; talvez tivesse ahi feito compras.
Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no bolso e seguir seu caminho.
[II]
Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume, quatro da tarde.
Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social; todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão, distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no bolso do paletot.
Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão arrastava.... Ia dizer a aza, mas isso seria anachronismo; dizia-se no tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se arrastar a juba; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.
Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque, lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de senhora; mas não fizera grande reparo.
Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou um exame consciencioso.
Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e torquez.
Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante uso.
Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa minima circumstancia.
Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão, como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas.
Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita; fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma; perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda, que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr, ondas suaves.
O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa.
De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não podia ter um numero maior do que o de seus annos, vinte nove!
—Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado.
Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o semblante de Horacio.
—É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna: no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que, depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude.
Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as mãos.
—A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina, aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o ventre, este com a aza.
Horacio sorriu.
—Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa, como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é, finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor, do amor unico ambiente do coração!
Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio, que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e muito crespo.
—Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher; não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida, embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
Horacio voltou a botina.
—Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que me arrebata, que me enlouquece?...
Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo?
—Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente Horacio, sentindo a realidade da situação.
Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava; mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração. Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse.
—Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto?
O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor.
De repente ergueu-se d'um impeto:
—Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se prometteu o imperio da Asia.
[III]
Ninguem imagina que bellos talentos sorve essa voragem do mundo, que chamam a vida elegante.
São como as arvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala esteril e ephemera. Nunca ellas dão fructo, nem siquer flôr.
Horacio de Almeida era uma de tantas intelligencias, desperdiçadas no incessante bulicio da moda.
Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não empregaram na fabrica de seus versos o atticismo, a inspiração e a graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava um epigramma.
Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, e do supremo gôsto, que Horacio imprimia no laço de sua gravata, em suas maneiras distinctas, nos minimos accidentes de seu trajo apurado.
E a phisiologia?
Poucos homens conheciam como Horacio o coração da mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sabio professor ficaria estupefacto da lucidez admiravel, com que o leão costumava lêr nesse cahos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.
A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, colligiu observações alheias, e arranjou um systhema sobre o que não soffre regras; sobre a paixão cuja essencia é o imprevisto, o anomalo, o indefinivel.
Ao contrario, Horacio tinha estudado na realidade da vida; devassára os refolhos do polypo; lhe sentira as pulsações; e fizera experiencias in anima vilis. Não fatigou sua memoria com a inutil bagagem dos termos technicos e das noções scientificas: lia os hierogliphos do amor com a linguagem garrida do homem a moda.
A perspicacia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de observação, com que o nosso leão sondava o abysmo do coração, e rastreava no semblante da mulher os vagos symptomas de uma inclinação nascente, ou de uma affeição expirante; só os grandes medicos possuem tão altos dotes.
Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu bello talento pelas sallas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada intelligencia, as ia elle esparzindo nas elegantes futilidades de um ocio tão laborioso, como é o far niente de um leão.
Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado das horas sem occupação; ha nada mais difficil para o homem que ignora o trabalho?
Si o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no dia para dedical-os a um fim sério e util, á sciencia, á litteratura, á arte, que bellos triumphos não obteria sua rica imaginação servida por um espirito scintillante?
Mas o nosso leão tinha á este respeito idéas excentricas.
—A politica, dizia elle, quando não dá em especulação, passa a mistificação. A sciencia, si escapa de mania, torna-se uma gleba em que o sabio trabalha para o nescio. Litteratura e arte são plagios; quem póde fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de reproduzil-os; nem contempla estatuas, quem lhes admira os modelos animados e palpitantes.
Com taes paradoxos, Horacio não achava emprego mais digno para a intelligencia, do que a difficil sciencia de consumir gradualmente a vida, e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este valle de lagrimas, em que todos peregrinamos.
A mulher era para elle a obra suprema, o verbo da creação. Toda religião, como toda felicidade; toda sciencia, como toda poesia, Deus a tinha encarnado nesse mixto incomprehensivel do sublime e do torpe, do celeste e do satanico; amalgama de luz e cinzas; de lodo e nectar.
—Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e estatuas como nunca as realisou o genio humano.
Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se realisa é indissoluvel.
Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina.
O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista, elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em face dessas obras primas da natureza.
Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo; o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis.
Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil. A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para excitar-lhe a attenção e commovel-o.
Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo como o de um critico.
Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro seductor, um signal da face, uma graça especial, um não sei que; tudo recebeu culto do nosso leão.
Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um habito.
O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção.
Amar era um entretenimento do espirito, como passeiar á cavallo, frequentar o theatro, jogar uma partida de bilhar.
O amor já não tinha novidades nem segredos para elle, que o gozára em todas as fórmas; na comedia e no drama; no idilio e na ode. Como Richelieu, diziam até que elle já o havia calcado com o tacão da bota.
Nestas circumstancias bem se comprehende a impressão profunda que nelle produzia a mimosa botina, achada naquella manhã.
Almeida tinha admirado a mulher em todos os typos e em todos os seus encantos; mas nunca a tinha amado sob a fórma seductora de um pésinho faceiro. Era realmente para sorprender. Como lhe passára desapercebido esse condão magico da mulher, á elle que julgava ter esgotado todas as emoções do amor?
Succedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma ennervada por longa apathia, a reacção foi violenta. Inflammou-se a imaginação e especialmente com o toque do mysterio que trazia a aventura. Si o dono da botina, o sonhado pésinho, se mostrasse desde logo, não produziria o mesmo effeito; não teria o sabor do desconhecido, que é irmão do prohibido.
Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão, excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de sua fantazia?
As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer.
Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca o seculo.
Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma, consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai criando dessas monstruosidades incomprehensiveis.
Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool. A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue.
[IV]
Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação que então occupava na Gloria.
Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar; o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas magneticas, que desferia a alma.
Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde escapou-se vivo e rapido olhar.
Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a linda victoria:
—Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.
O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia nessa perseguição de uma sombra.
—Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella, como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua aspiração.
Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára, entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava.
Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia, prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi.
Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas, caprichosamente recortadas.
O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do espirito.
Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?
A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
—Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu coração?
As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar, que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem, deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.
—Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz! Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.
Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração; o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas, encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia.
Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para elle. Representava-se no theatro lyrico a Lucia de Lamermoor, o mais sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos.
O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido, que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, profanação de uma dôr santa.
Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém, ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes.
Vira a mulher amada.
Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos, influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a mulher fica esplendida, o homem sublime.
O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses cachos de arrependimentos, repentirs. Por que motivo? A alma que se arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê que os cabelleireiros tambem são poetas.
Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa, embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas.
Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.
Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro logar da frente.
O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como estylete para feril-a no coração.
Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.
[V]
Estava a subir o panno.
Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente, apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar. Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante cavalheiro.
Era Horacio.
O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da vaidade, como o outro era da innocencia.
A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria debuxar no quadro illuminado do camarote.
A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do mancebo.
Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão; embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno desconhecido.
Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr destacar-se o perfil gracioso da moça.
—Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser a côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.
O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava agora vendo-a na penumbra d'alma.
—Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito!
Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois.
Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o leão em seu posto.
—Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote.
Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que o separavam da segunda ordem.
—Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle, sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar de familia, um quer que seja!...
Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o binoculo de madreperola.
O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.
A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada, longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma raiva.
Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos. Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o facto inaudito á primeira derrota.
—Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
—Que pensa então?
—Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.
Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:
—Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor cliquot.
A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a suspeitava.
Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente. Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para restolhar alguma caça retardada.
Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações. Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor, sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:
—Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.
Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado. Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas, eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas, cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em pratica durante o dia.
Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes, porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho; que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com que neste seculo se assassina mais cruelmente.
Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da botina.
Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle, atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:
—Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...
Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé que habitara aquelle ninho de amor.
Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar, defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.
Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza?
Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso desdêm!
—Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela fada desta botina!
Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote. Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás vistas ardentes do leão.
—É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella, immergindo-se no azul.
O leão desceu as escadas murmurando:
—Vêl-o e morrer.
Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado seu.
Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava que lhe escapasse.
—Adeus, Horacio.
—Boa noite, Leopoldo.
Amelia appareceu nesse momento.
—Conheces aquella moça, Horacio?
Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido. Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente pelo chão.
Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se.
O leão fez um movimento de desespero.
—Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro! Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho.
[VI]
Seriam duas horas da tarde.
Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que molhára as calçadas.
Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor.
Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.
Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de subir, levantára demais a saia.
Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro. O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina.
Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza.
O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de uma moça.
Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou, embora passasse de relance diante de seus olhos.
Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca immediatamente.
É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua virtude ambigua e seu mesquinho talento.
O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o effeito, de uma monstruosidade moral.
Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante, que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo!
Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam.
A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na elegancia e delicadeza.
A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos, e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido pelo enthusiasmo.
É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral, opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par com a eloquencia?
O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua admiração por esse membro nobre da creatura racional.
Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé não era um enfant gaté, um benjamim acostumado á essas delicias; desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes prodigalidades.
O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do cabedal, como do trabalho.
Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?
O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante.
—Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando.
O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o sorpreso:
—Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana?
—É verdade!
—Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar os companheiros.
O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados.
Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.
Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão.
Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com semelhante pata de elephante?
Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade. Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo; não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era uma posta de carne, um cepo!
Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé até o calcanhar.
Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio, deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel.
A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias.
Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a apparencia de uma botina elegante.
A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto, porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela botina superior, podiam abrigar-se.
Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o tamanho do calçado.
Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão, incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação do amor proprio.
Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á portinhola do carro, na rua do Ouvidor.
—Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto.
—Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de casa rica.
—É só embrulhar.
Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho.
—Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.
—Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos.
Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua duvida!
—A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança!
[VII]
A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo, fumava o seu conchita, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher.
O leão pensava:
—Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo.
Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria. Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o sorriso da moça.
Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:
—Que passo gracioso! É o andar da garça!
Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com effeito a fineza.
Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar:
—Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que esse andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?... Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado! Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher, sómente para que ella instituisse o beija-pé. Como eu seria cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito!
O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho fronteiro. Era Laura.
Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado?
A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado. Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um estado de perturbação indizivel.
—Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.
—Nada! balbuciou a moça.
A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria si caminhasse sobre rico tapete.
—Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões fluminenses?
O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito pensativo.
—É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar, atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a serpente tentadora da mulher.
Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava, e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de cortejal-a, ou antes a seu pésinho.
—Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.
Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante, na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas differentes lojas e casas de modas.
Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada:
—Trouxe?
—Sim, senhora; está ahi dentro.
—Bem!
O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse:
—Podiamos ir agora ao Passeio Publico?
—Tão tarde! replicou Laura.
—Deixa-te disso! observou a mãi da moça.
—Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos.
—Não ha nada de novo.
—Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.
—Viste sim!
—Mas não reparei n'uma cousa!...
—Em que!
—Uma cousa. Depois direi.
Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que chegasse até o portão do Passeio Publico. As senhoras desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado ao seu.
Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do Passeio Publico. Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não se movêra.
A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.
Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da Quitanda; não havia duvida.
O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.