Nota de editor: Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Dezembro 2013)

CINCO MINUTOS

J. DE ALENCAR


CINCO MINUTOS


EDIÇÃO ESPECIAL


RIO DE JANEIRO
Typ. Mont'Alverne—Rua do Ouvidor 82
1894

A D***

I

II

III

«Julga mal de mim, meu amigo; nenhuma mulher póde escarnecer de um nobre coração como o seu.
Si me occulto, si fujo, é porque ha uma fatalidade que á isto me obriga. E só Deus sabe quanto me custa este sacrificio, porque o amo!
Mas não devo ser egoista e trocar sua felicidade por um amor desgraçado.
Esqueça-me.

C.»

«Meu amigo.

C.»

IV

Non ti scordar di me
Addio!...

V

VI

«Devo-te uma explicação, meu amigo.
Esta explicação é a historia de minha vida, breve historia, da qual escreveste a mais bella pagina.
Cinco mezes antes do nosso primeiro encontro, completava eu os meus dezeseis annos, a vida começava á sorrir-me.

A educação rigorosa que me dera minha mãi me conservára menina até aquella idade, e foi só quando ella julgou conveniente correr o véo que occultava o mundo aos meus olhos que eu perdi as minhas idéas de infancia e as minhas innocentes illusões.
A primeira vez que fui á um baile fiquei deslumbrada no meio d'aquelle turbilhão de cavalheiros e damas, que girava em torno de mim sob uma atmosphera de luz, de musica, de perfumes.
Tudo me causava admiração; o abandono com que as mulheres se entregavam a seu par de valsa, o sorriso constante e sem expressão que uma moça parece tomar na porta da entrada para só deixal-o á sahida, esses galanteios sempre os mesmos e sempre sobre um thema banal, ao passo que me excitavam a curiosidade, faziam desvanecer o enthusiasmo com que tinha acolhido a noticia que minha mãi me dera de minha entrada nos salões.

Estavas n'esse baile; foi a primeira vez que te vi.
Reparei que n'essa multidão alegre e ruidosa tu só não dansavas nem galanteavas, passando pelo salão como um espectador mudo e indifferente, ou talvez como um homem que procurava uma mulher e só via toilettes.
Comprehendi-te, e durante muito tempo segui-te com os olhos: ainda hoje me lembro de teus menores gestos, da expressão de teu rosto e do sorriso de fina ironia que ás vezes fugia-te pelos labios.
Foi a unica recordação que trouxe d'essa noite, e quando adormeci, os meus doces sonhos de infancia, que, apezar do baile, vieram de novo pousar nas alvas cortinas de meu leito, apenas foram interrompidos um instante por tua imagem, que me sorria.

No dia seguinte reatei o fio de minha existencia, feliz, tranquilla e descuidosa, como costuma ser a existencia de uma moça aos dezeseis annos.
Algum tempo depois fui á outros bailes e ao theatro, porque minha mãi, que guardára a minha infancia como um avaro esconde seu thesouro, queria fazer brilhar a minha mocidade.
Quando cedia a seu pedido e me ia a apromptar, emquanto preparava o meu simples trajo, murmurava:
—Talvez elle esteja.
E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse parecer bella, para te merecer um primeiro olhar.
Ultimamente era eu quem, cedendo á um sentimento que não sabia explicar, pedia á minha mãi para irmos á um divertimento, só na esperança de encontrar-te.

Nem suspeitavas então que entre todos aquelles vultos indifferentes havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava teus pensamentos, que expandia-se quando te via sorrir e contrahia-se quando uma sombra de melancolia anuviava teu semblante.
Si pronunciavam o teu nome diante de mim corava, e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que elle estava escripto.
E entretanto nem siquer ainda me tinhas visto; si teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um d'esses momentos em que a luz se volta para o intimo, e se olha mas não se vê.
Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei o que me dizia que era impossivel não me amares.

O acaso deu-se, mas quando a minha existencia já se tinha completamente transformado.
Ao sahir de um d'esses bailes apanhei uma pequena constipação, de que não fiz caso. Minha mãi teimava que eu estava doente, e eu achava-me um pouco pallida e sentia ás vezes um ligeiro calafrio, que eu curava sentando-me ao piano e tocando alguma musica de bravura.
Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos e os labios ardentes, a respiração era difficil, e ao menor esforço humedecia-se-me a pelle com uma transpiração que me parecia gelada.
Atirei-me sobre um sofá, e com a cabeça recostada ao collo de minha mãi cahi em um lethargo que não sei quanto tempo durou. Lembro-me sómente que, no momento mesmo em que ia despertando d'essa somnolencia que se apoderára de mim, vi minha mãi sentada á cabeceira de meu leito chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho.

—Não desespere, minha senhora; a sciencia não é infallivel, nem os meus diagnosticos são sentenças irrevogaveis. Póde ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.
O homem partio.
Não tinha comprehendido suas palavras, ás quaes não ligava o menor sentido.
Passado um instante, ergui tranquillamente os olhos para minha mãi, que escondeu o lenço e tragou em silencio o pranto e os soluços.
—Chora, mamãi?
—Não, minha filha... não... não é nada.
—Mas está com os olhos cheios de lagrimas!... disse eu assustada.

—Ah! sim!... uma noticia triste que me contáram ha pouco... sobre uma pessoa... que tu não conheces.
—Quem é este senhor que estava aqui?
—É o Dr. Valladão, que te veio visitar.
—Então eu estou muito doente, boa mamãi?
—Não, minha filha, elle assegurou que não tens nada; é apenas um incommodo nervoso.
E minha querida mãi, não podendo mais conter as lagrimas que lhe saltavam dos olhos, fugio pretextando uma ordem á dar.
Então, á medida que a minha intelligencia ia sahindo do lethargo, comecei á reflectir sobre o que se tinha passado.
—Aquelle desmaio tão longo, aquellas palavras que eu ouvira ainda entre as nevoas de um somno agitado, as lagrimas de minha mãi e a sua repentina afflicção, o tom condoìdo com que o medico lhe fallára...

Um raio de luz esclareceu de repente o meu espirito.
Estava desenganada.
O poder da sciencia, o olhar profundo, seguro, infallivel, d'esse homem, que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto em meu seio um atomo imperceptivel.
E esse atomo era o verme que devia destruir as fontes da vida, apezar dos meus dezeseis annos, apezar de minha organisação, apezar de minha belleza e dos meus sonhos de felicidade!»

VII

«Sim, meu amigo!...
Estava condemnada á morrer; estava atacada d'essa molestia fatal e traiçoeira, cujo dedo descarnado nos toca no meio dos prazeres e dos risos, nos arrasta ao leito, e do leito ao tumulo, depois de ter escarnecido da natureza, transfigurando as suas mais bellas creações em mumias animadas.

É impossivel descrever-te o que se passou então em mim: foi um desespero mudo e concentrado, que me prostrou em uma atonia profunda; foi uma angustia pungente e cruel.
As rosas da minha vida apenas se entreabriam, e já eram bafejadas por um halito infectado; já tinham no seio o germen da morte que devia fazel-as murchar!
Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, que nem siquer ainda tinha colhido o primeiro sorriso, este horizonte, que ha pouco me parecia tão brilhante; tudo isto era uma visão que ia sumir-se, uma luz que lampejava prestes á extinguir-se.
Foi preciso um esforço sobrehumano para esconder de minha mãi a certeza que eu tinha sobre o meu estado, e para gracejar dos seus temores, que eu chamava imaginarios.

Boa mãi! Desde então só viveu para consagrar-se exclusivamente á sua filha, para envolvel-a com esse desvelo e essa protecção que Deos deu ao coração materno, para abrigar-me com suas preces, sua solicitude e seus carinhos, para lutar á força de amor e de dedicação contra o destino.
Logo no dia seguinte fomos para Andarahy, onde ella alugára uma chacara, e ahi, graças á seus cuidados, adquiri tanta saude, tanta força, que me julgaria boa si não fosse a sentença fatal que pesava sobre mim.
Que thesouro de sentimento e delicadeza que é um coração de mãi, meu amigo! Que tacto delicado, que sensibilidade apurada, possue esse amor sublime!

Nos primeiros dias, quando ainda estava muito abatida e era obrigada á agasalhar-me, si visses como ella presentia as rajadas de um vento frio antes que elle agitasse os renovos dos cedros do jardim, como adivinhava a menor neblina antes que a primeira gotta humedecesse a lage do nosso terraço!
Fazia tudo por distrahir-me; brincava commigo como uma camarada de collegio; achava prazer nas menores cousas para excitar-me á imital-a; tornava-se menina e obrigava-me á ter caprichos.
Emfim, meu amigo, si fosse á dizer-te tudo, escreveria um livro, e esse livro deves ter lido no coração de tua mãi, porque todas as mãis se parecem.
Ao cabo de um mez tinha recobrado a saude para todos, excepto para mim, que ás vezes sentia um quer que seja como uma contracção, que não era dôr, mas me dizia que o mal estava alli, e dormia apenas.

Foi n'esta occasião que te encontrei no omnibus de Andarahy; quando entravas a luz do lampeão illuminou-te o rosto e eu reconheci-te.
Faze idéa que emoção sentiria quando te sentaste junto de mim.
O mais tu sabes; eu te amava, e era tão feliz de ter-te á meu lado, de apertar a tua mão, que nem me lembrava como te devia parecer ridicula uma mulher que, sem te conhecer, te permittia tanto.
Quando nos separámos, arrependi-me do que tinha feito.
Com que direito ia eu perturbar a tua felicidade, condemnar-te á um amor infeliz e obrigar-te á associar tua vida á uma existencia triste, que talvez não te podesse dar sinão os tormentos de seu longo martyrio?!
Eu te amava; mas, já que Deos não me tinha concedido a graça de ser tua companheira n'este mundo, não devia ir roubar ao teu lado e no teu coração o lugar que outra mais feliz, porém menos dedicada, teria de occupar.

Continuei á amar-te, mas impuz-me á mim mesma o sacrificio de nunca ser amada por ti.
Vês, meu amigo, que não era egoista e preferia a tua á minha felicidade. Tu farias o mesmo, estou certa.
Aproveitei o mysterio do nosso primeiro encontro, e esperei que alguns dias te fizessem esquecer essa aventura e quebrassem o unico e bem fragil laço que te prendia á mim.
Deus não quiz que acontecesse assim: vendo-te só em um baile, tão triste, tão pensativo, procurando um ser invisivel, uma sombra, e querendo descobrir os seus vestigios em algum dos rostos que passavam diante de ti, senti um prazer immenso.
Conheci que tu me amavas; e, perdôa, fiquei orgulhosa d'essa paixão ardente, que uma só palavra minha havia creado, d'esse poder do meu amor, que, por uma força de atracção inexplicavel, tinha-te ligado á minha sombra.

Não pude resistir.
Approximei-me, disse-te uma palavra sem que tivesses tempo de ver-me; foi essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor, e que depois do primeiro encontro era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.
Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deos, chamo a tua imagem para pedir-te que não te esqueças de mim.
Quando tu te voltaste ao som da minha voz eu tinha entrado no toilette; e pouco depois sahi d'esse baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo da minha imprudencia, mas alegre e feliz por te ter visto ainda uma vez.

Deves agora comprehender o que me fizeste soffrer no theatro quando me dirigias aquella accusação tão injusta, no momento mesmo em que a Charton cantava a aria da Traviata.
Não sei como não me trahi n'aquelle momento e não te disse tudo; o teu futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruil-o para satisfação de meu amor-proprio offendido.
No dia seguinte escrevi-te; e assim, sem me trahir, pude ao menos rehabilitar-me na tua estima; doia-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, tivesses sobre mim uma idéa tão injusta e tão falsa.
Aqui é preciso dizer-te que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro tinhamos voltado á cidade, e eu via-te passar todos os dias diante de minha janella, quando fazias o teu passeio costumado á Gloria.

Por detrás das cortinas seguia-te com o olhar, até que desapparecias no fim da rua, e este prazer, rapido como era, alimentava o meu amor, habituado á viver de tão pouco.
Depois de minha carta tu deixaste de passar dous dias; estava eu á partir para aqui, d'onde devia voltar unicamente para embarcar no paquete inglez.
Minha mãi, incansavel nos seus desvelos, quer levar-me á Europa e fazer-me viajar pela Italia, pela Grecia, por todos os paizes de um clima doce.
Diz ella que é para mostrar-me os grandes modelos de arte e cultivar o meu espirito; mas eu sei que essa viagem é sua unica esperança, que não podendo nada contra minha enfermidade, quer ao menos disputar-lhe sua victima durante mais algum tempo.
Julga que fazendo-me viajar sempre me dará mais alguns dias de existencia, como si estes sobejos de vida valessem alguma cousa para quem já perdeu sua mocidade e seu futuro.

Quando ia embarcar para aqui lembrei-me que talvez não te visse mais, e diante d'essa derradeira provança succumbi. Ao menos o consolo de dizer-te adeos!...
Era o ultimo!
Escrevi-te segunda vez; admirava-me da tua demora, mas tinha uma quasi certeza de que havias de vir.
Não me enganei.
Vieste, e toda minha resolução, toda minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, conheci que me amavas como eu te amo.
O mal estava feito.
Agora, meu amigo, peço-te por mim, pelo amor que me tens, que reflictas no que te vou dizer, mas que reflictas com calma e tranquillidade.

Para isto parti hoje para Petropolis sem prevenir-te, e colloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas e uma distancia de muitas leguas.
Desejo que não procedas precipitadamente, e que, antes de dizer-me uma palavra, tenhas medido todo o alcance que ella deve ter sobre teu futuro.
Sabes o meu destino, sabes que sou uma victima cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, immenso, profundo, não te póde dar talvez dentro em bem pouco sinão o sorriso contrahido pela tosse, o olhar desvairado pela febre e caricias roubadas aos soffrimentos.
É triste; e não deves immolar assim tua bella mocidade, que ainda te reserva tantas venturas e talvez um amor como o que eu te consagro.
Deixo-te, pois, meu retrato, meus cabellos e minha historia: guarda-os como uma lembrança, e pensa algumas vezes em mim; beija esta folha muda, onde os meus labios deixáram-te o adeos extremo.

Entretanto, meu amigo, si, como tu dizias hontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; si te achas com forças de partilhar esta curta existencia, estes poucos dias que me restam á passar sobre a terra, si me queres dar esse consolo supremo, unico que ainda embellezaria minha vida, vem!
Sim, vem! iremos pedir ao bello céo da Italia mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos onde tu quizeres, ou onde nos levar a Providencia.
Errantes pelas vastas solidões dos mares ou pelos cimos elevados das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protector de Deos, á sombra dos cuidados de [nossa mãi], viveremos tanto um do outro, encheremos de tanta affeição os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja minha existencia, teremos vivido por cada minuto seculos de amor e de felicidade.
Eu espero; mas temo.

Espero-te como a flôr desfallecida espera o raio do sol que deve aquecel-a, a gotta de orvalho que póde animal-a, o halito da briza que vem bafejal-a. Porque para mim o unico céo que hoje me sorri são teus olhos, o calor que póde me fazer viver é o do teu seio.
Entretanto temo, temo por ti, e quasi peço á Deos que te inspire e te salve de um sacrificio talvez inutil!
Adeos para sempre, ou até amanhã!

Carlota»

VIII

IX

X

«Bem vês, meu amigo, dizia-me ella, que Deos não quer aceitar o teu sacrificio. Apezar de todo o teu amor, apezar de tua alma, elle impedio a nossa união; poupou-te um soffrimento e á mim talvez um remorso.
Sei tudo quanto fizeste por minha causa, e adivinho o resto; parto triste por não te ver, mas bem feliz por sentir-me amada, como nenhuma mulher talvez o seja n'este mundo.»

«Sei que tu me segues. Até logo.»

Minas, 12 de Agosto.

«P. S.—Tudo isto é verdade, D***, menos uma cousa.
Elle não tem ciumes de minhas flôres, nem podia ter, porque sabe que só quando seus olhos não me procuram é que vou visital-as e pedir-lhes que me ensinem á fazer-me bella para agradal-o.
N'isto enganou-a; mas eu vingo-me roubando-lhe um dos meus beijos, que lhe envio n'esta carta.
Não o deixe fugir, prima; iria talvez revelar nossa felicidade ao mundo invejoso.

Carlota.»

Lista de erros corrigidos

Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

OriginalCorrecção
[#pág. 28]figindo...fingindo
[#pág. 82]nosa mãi...nossa mãi
[#pág. 121]vaparoso...vaporoso
[#pág. 121]Sentado o seu lado...Sentado a seu lado
[#pág. 124]foças...forças
[#pág. 130]asssignatura...assignatura