INFANTA

DO AUTOR

Oração da Raça1918
Infanta1921
a seguir:
O Rei Luziada

EDIÇÕES LUSITANIA
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INFANTA

TRAGEDIA POR

MANUEL DE FIGUEIREDO

Diz a Lenda que certo Poeta se apaixonou por uma filha do Rei D. Manuel I, o Venturoso. Chamava-se a Princeza, Beatriz e o Poeta, Bernardim.

A Infanta foi Duqueza de Saboia, e, exilada no seu Ducado humilde e pobre, deu provas de grande engenho e sabedoria, mas a sua vida, dizem as Chrónicas e a Lenda foi triste e saudosa...


Este livro não é, nem mesmo em sua origem, a historia do amor do Poeta e da Princeza, ou uma evocação da côrte manuelina.

Só depois de abstractamente ter «vivído» o sonho das Descobertas e das Conquistas, e de ter encontrado, para mim, o seu significado, procurei as personagens, fixei os seus valores, defini as suas atitudes e os seus gestos.

Tem portanto este livro um sentido mais alto e mais profundo. É a Tragédia d'um momento que passou e a crença, a fé, a certeza, n'um momento que ha-de vir. É o triumpho eterno da Raça perante o Mundo, os Homens, e o Destino.


Não fiz nem quiz fazer theatro. As personagens têem um sentido mais symbolico do que humano.

A minha Alma viveu o momento passado e visionou o momento futuro:—o Triumpho espiritual da Raça!

DRAMATIS PERSONAE

INFANTA
POETA
NAUTA
ASTROLOGO
PINTOR
UM BANDARRA
O PHYSICO D'EL-REI

AIAS, NOBRES, PAGENS, GENTE DO POVO, MARITIMOS, MULHERES, SOLDADOS E VELHOS.

Salla ampla, forrada d'Arrazes, abrindo para uma larga arcaria praticável. Por entre as columnatas e os rendilhados da balaústrada, avista-se o rio espraiado e colorido. Hora de sol-poente. Na distancia, terras em bruma.

PINTOR—na arcaria

O Céu está um boqueirão de fogo. E no movimento constante do vai-vem das aguas, os reflexos de luz estão bailando como se fôra um bailado de pedrarias a arder.

Sinto que os meus olhos enlouquecem de tanta luz, de tanta côr...

POETA—que se aproximou

Olha antes, álêm, os galeões que hão-de levar a Princeza!

Sem vellas, lembram ossadas...

Envolvem-nos as sombras, e as sombras são caricias de abandono e esquecimento, adormecendo meus olhos magoados...

PINTOR—surprêso

Para que continuar sonhando?...

POETA—n'uma exaltação quási desvairada

Sonhar é bem differente!

É crear um mundo nosso, onde uma só alma exista, e n'essa alma, a alegria e a dôr do Universo. É modelar o nosso sonho numa imagem, e nessa imagem viver milhares de vidas!... Vivê-las encantado n'um momento, soffrê-las perdidamente até á loucura, resurgi-las depois em novas formas, para de novo as soffrer e exaltar!...

O sonho que é attingido, que se deixa tocar, desfaz-se, aniquila-se, em esquecimento, em abandono.

Para viverem, meus sonhos em cada hora se transformam.

A imagem é sempre a mesma, é sempre Ella; n'Ella os encarno e lhes dou vida...

PINTOR

E é assim que pouco a pouco vai morrendo o amor desvairado d'outr'ora?...

POETA—sereno, quasi indifferente

Adormecendo, dizei antes, que morrer é apenas um gesto; o vôo necessário para uma vida maior.

Morre-se na vida infinitamente. Morre-se sempre para viver... até ser attingida a luz final, suprema, em que vida e sonho se confundem...

Na imagem, na sua imagem mystica, dulcissima, o meu amor é sempre o mesmo; na alma, maior, sempre maior...

PINTOR

Mas para que soffrer, agora que vai partir, tão doidamente?

POETA—muito calmo

Para a remir em minha dôr! Exalta-la no meu coração—altar do seu sacrificio!

Para a santificar na minha alma!

n'uma mudança brusca

Conheces bem as terras para onde vai. Por lá andaste, peregrino annos e annos e d'ellas tens dito maravilhas...

PINTOR

Minhas palavras, de tão pouco que dizem, são quási mentirosas...

POETA

Eu nunca sahí d'esta cidade de maravilha e de encanto, mas n'ella tenho sentido, vivido, o mundo inteiro!

em exaltação

Que importa o mundo?! As maravilhas estranhas de que fallais que importam?

A vida estonteante, allucinada, que me cerca, tem para mim, agora, a indifferença da morte e é de agonia a alegria em que vivo! Ando a enterrar a toda a hora as minhas dôres. Sou um eterno coveiro, e cavo fundo, fundo, mas os sonhos—ai de mim!—tambem teem alma!

Como hei-de enterrar minhas saudades!?

com dolorosa serenidade

Vai partir... Longe, alguem a espera!... E vai tê-la em seus braços, possui-la!...

Amar, é a dor mais forte e mais profunda, a dor que humanisa a creatura e a torna mulher.

Ella será mulher tambem... Mas a sua alma—eu sei, eu sinto—estará longe, estará distante, indecisa, como receosa de acordar para a vida, receosa de adormecer na morte!

n'um esforço de recordar, materialisando

Nunca os seus olhos serenos, suavissimos, de princeza e de menina, me olharam. Se os encontro, fogem, receosos...

Não sei o que elles buscam olhando os longes?! Ficam vagos, anciosos, illuminados, distantes... Olhar immenso, olhar profundo, visionario, de sonho, d'amor e de triumpho!

Nunca os seus olhos me olharam assim! Parecem sorver a luz! Embebem-se de luz como o céu ao acordar; são sombras de soes os olhos d'ella! Prendem-se na distancia, e assim presos, de encantados, por largo tempo nada vêem! E como ella fica então queda e hieratica!

dolorosamente

Para a sonhar de novo, em nova forma, anniquilo a minha carne, despedaço-a!

Nunca mais a verei olhando os longes, assim immaterial, assim divina...

Vai partir... Um principe a espera... Para que veio até mim quem tão alto nasceu?!

PINTOR—suavemente

E para que tão alto erguer os olhos? Há, na Terra, imagens que são sombras; lindas para ver, não para sonhar!...

Fóra, vozes, entrecortadas, gritam

O POVO

A armada!—A armada que volta!—A frota toda!—A nau S. Bento!—Santa Maria da Barca!—O galeão maior!—Deus os levou, Deus os trouxe na sua guarda!—Deus é Pae!—Deus é bom!—Pela Virgem Mãe!—Pelas Cinco Chagas!—Milagre!—Milagre!—A armada!—A frota toda!—A armada!—Vinde ver!—Milagre!—Milagre!—Deus os salvou!—Deus os trouxe na sua mão...

Continuam vozes

PINTOR

Não ouves?...

indo á arcaria

Na frota que entra a todo o pano, de tão vermelhas que veem, as vellas lembram enormes labaredas!...

POETA—longe, distante, com dôr que tenta visionar para soffrer, continuando intimos pensamentos

Há-de tocá-la!... Há-de beijá-la... Far-se-há carne tambem a sua alma!...

ao pintor, que de novo se aproximou

Aquellas vozes?!

PINTOR

De longe que estavas nem me ouviste... A frota grande que volta e entra a barra:—o povo, de joelhos, rezando na praia.

Escuta... vem gente...

POETA—depois de curta hesitação, indo á arcaria, dominado

Encantamento da morte!

Pagens afastam o largo reposteiro de brocado. Entram, lentamente, a Infanta, suas aias e alguns nobres. O Poeta e o Pintor, de joelhos, beijam as mãos á Princeza—esguia, branca, serena, triumphal.

INFANTA

É «Frol de la mar» que vem entrando?

PINTOR

Se os meus olhos não mentem, julgo ser...

UM NOBRE—na arcaria

O galeão maior... Santhiago... Santa Maria da Barca... A nau São Bento... Toda a frota.

UMA AIA

A Senhora ouviu os nossos rogos pelos que andavam perdidos por sôbre as aguas do mar...

OUTRA AIA

Levou-os e trouxe-os em sua guarda...

INFANTA—que lentamente se aproximara da arcaria, depois de um longo silencio, com deslumbramento e mysticismo.

É mais, muito mais do que uma armada entrando de novo a barra!

Ha almas n'aquellas vellas:—sinto-as, vivem, palpitam em mim!

exaltando-se

São como mãos do Destino aquellas naus! Ellas andam buscando, a toda a hora, o mundo maior que Deus creou! Andam buscando, perdidas entre as ondas, os reinos da luz e do mystério, os reinos das pedrarias e do oiro!

Errantes, sem rumo, á aventura, foram quebrando o feitiço ás ilhas perdidas do mar! As ilhas, castellos encantados, que, por nossa voz, despertam a cantar! São como nossas mãos aquellas naus!

Dia a dia, andam realizando o nosso sonho! Abrindo nossos olhos deslumbrados ante horizontes novos e estranhos! Por ellas, transfigurado, o mundo acorda, desperta, da noite negra! Por ellas o mar e a terra são maiores! Por ellas o céu tem mais estrellas!

São como mãos do Destino aquellas naus! São como nossas mãos! São como mãos de Deus!

nos olhares deslumbrados da côrte passam, por momentos, as palavras da Infanta.

Ao Poeta

Que faz alêm, na praia, o povo?!

POETA

Chora saudades...

INFANTA

Chorar?! E de joelhos?!...

POETA

Rezam...

INFANTA—quási com violencia

Mas para que rezar, chorando?! Eu rezo erguendo um cantico em minha alma deslumbrada.

Se fossem esquifes as caravellas e as naus, como rezar? Como rezar pelos mortos?

Só o sol é triumphante e glorioso! E é n'aquella luz de poente, n'aquelle céu em fogo, triumphal, supremo, que eu rezo a minha oração.

Em vez de cantarem a morte gloriosa, rezam pedindo a vida humilde que renuncia ao sonho creador... Ajoelham-se... Cegam os olhos, baixam-nos para a terra, quando os deviam abrir á luz e erguê-los para o Céu!

UMA AIA

Perdoai, mas o povo, Senhora, é simples demais para comprehender...

INFANTA

Mas não para sentir! As arvores não veem o sol, mas sentem-no e adoram-no, e para elle estendem sempre seus ramos, e para elle vão crescendo sempre, para mais o sentir e adorar!

A intelligencia vê, o sentimento adivinha!

E o mundo, por nós, é maior, mais bello, em cada dia! Communga em nós a toda a hora, e por nós se redime e engrandece!

olhando vagamente em seu redor

Olho os montes d'alem, aquellas terras, o rio e a casaria e tudo que me cerca, tudo, tudo, tem para mim o encantamento de um mysterio no maravilhoso de uma revelação. Tudo ri e canta e vibra e se espiritualiza em reflexos!

Só o povo chora e reza! Sente dôr o povo? São de dôr as suas orações? Em vez de entoar canticos reza ladainhas?

á côrte

E vós?! Acaso não sentis como eu tambem? Olhando as náus, só vêdes náus?!

sahindo fóra, á arcaria

Olhai agora. Vêde, como ellas vêem! A Cruz n'aquellas vellas ganhou azas. Está mais perto do Céu, é mais divina!

com violencia

Não sentis em verdade como eu?

Não olhais para aquellas naus como milagres de Deus?!

Não comprehendeis que é um mundo de phantasmas, tenebroso, horrendo, sombrio, que desappareceu, illuminado por nova luz, por nossa luz? Que o novo mundo que nasce em novos povos, em novas terras, em novos ideais, é nossa creação?!

em exaltação crescente, com violencia maior, n'uma alucinação

Onde estão os mares de sangue? Os mares de fogo? Os deuses infernais, os gigantes disformes, horrorosos, os negros boqueirões dos abysmos profundos?! Ilhas de morte! terras de fogo! brumas eternas! onde estais?!... onde estais?!...

UMA AIA—baixo, a outra aia

Como desvaira...

POETA—a meia voz, ao pintor

E sempre longe... cada vez mais longe de nós!...

INFANTA—mais calma, continuando

É um mundo de sangue e de morte, creado pelos homens, que desapparece. É um mundo novo de vidas novas que nasce, e em que se ergue bem alta, na tragedia suprema de luctar e vencer, a luz de Deus!

Os deuses infernais onde estão elles?!

São como nossas mãos, são como mãos de Deus, aquellas naus!...

POETA

Mas ha cadaveres, Senhora, boiando no mar...

INFANTA

Que importa triumphar ou morrer, quando, na morte e na victoria, se reza o mesmo cantico, vivendo o mesmo sonho?! Se, para alem da morte, a alma continua, e da vida ficou, em rasto triumphal, uma Via-Lactea de Herois, perpetuando...

ao pintor

Fixai bem a armada...

PINTOR

Meus olhos, em seu deslumbramento, estão cegos, Senhora!

Movimento entre o povo, sussurro, vozes...

UMA VOZ—atona, sombria

Dia e noite, ha uma estrada de luar por sobre as águas... São os mortos que vão a enterrar... São os mortos, amantes das vagas... Cortejo de naufragos, por cyrios de luar alumiados...

Olhae, olhae agora... É a estrada da Morte que a armada vem seguindo...

INFANTA—com horror

O agoiro...

UMA AIA

Vinde, Senhora, não lhe deis ouvidos.

UM NOBRE

Que os pagens o mandem afastar...

INFANTA—em grande exaltação

Que o afastem. Que se cale. Que ninguem o ouça. Mente!... Mente!...

caindo em si, n'uma mudança brusca, novamente serena

Calai-vos. Eu quero ouvir, quero entendê-lo. Como disse elle? Cortejo de naufragos...

A VOZ—novamente

Mas qual rumo seguir? Olhai! não vedes?! É a Morte que vem por timoneira...

A luz, pouco a pouco, torna-se crepuscular. O rio escurece. As terras, na distancia, desapparecem na bruma.

VOZES DO POVO—desencontradas

Cala-te!—Cala-te!—Mau agoiro!—Pelas Cinco Chagas!...—Pela Virgem Mãe!...—Misericordia!—Misericordia!...

INFANTA

O povo nem o olha; tem-lhe medo!

De rastos, de joelhos, a gritar misericordia! Que estranho e desvairado está o povo!

O «BANDARRA»—afastando-se

Mas para que rezais?... para que chorais?!

Olhai o sol, olhai a luz! É tudo oiro... é tudo oiro!... O despertar não tarda, mas ainda não veio...

Por que chorais? É tudo oiro... Toca a cantar... toca a bailar, que ainda é folia...

Olhai!... porque rezaes?! Bailai!... Bailai!...

VOZES DO POVO—a distancia, entrecortadas

Por Santhiago!—Pela Virgem Mãe!...—Misericordia!—Christo, ouvi-nos!—Christo, valei-nos!—Christo, ajudai-nos!—Ave agoirenta!...

INFANTA

Que tem o povo? Que loucura a d'elle! Que estranha voz! Quem o entendeu?

olhando em roda

Ninguem?! E mestre Lopo onde está? Ide chamá-lo...

ao Poeta e ao Pintor

Ficai...

a um fidalgo

Trazei-mo aqui.

A VOZ DO «BANDARRA»—ainda mais distante

Porque rezais? É tudo oiro... é tudo oiro... Toca a cantar... Ide bailar... Toca a cantar que ainda é folia!...

Curto silencio. A tarde continua escurecendo.

INFANTA—recordando, como n'um sonho

Quando eu, criança ainda, ia com El-Rei meu Pae ver chegar as naus, o povo não rezava, não chorava... Cantava e ria o povo; e era ainda cantando que resava! Agora chora!... Porque estranha loucura chora o povo agora?! Que vê, que sente, elle?!

A terra tem o mesmo encanto e a mesma alegria o céu! É o mesmo scenario de magia. E o povo chora... e o povo reza...

Parece não vêr o que o cerca; fica como cego a ouvir o agoureiro. Chamam-lhe a Ave-agoirenta; receiam-no, temem-no, acreditam n'elle!

Mas que verdade, teem, acaso, as suas fallas?! A sua voz, fria e distante, lembra morte, é certo. É uma voz d'alem tumulo, d'alem vida—prophetica! Ainda a julgo estar ouvindo!...

UMA AIA

Desviai de vós, Senhora, tão negro imaginar. Para que recordar palavras doidas? Para que estar, Senhora, a dar-lhe ouvidos?!

INFANTA—impressionada

Palavras doidas sim, palavras doidas!... Se não fôra o tom da sua voz! Como ella é fria, fria, e lembra a Morte!

UM VELHO PHYSICO—rudemente

A Morte não vê, não falla, não ouve. É cega, é surda, é muda a Morte! Para que estar, Senhora, imaginando que ella pode fallar na voz de um doido?

Eu, que sou physico d'El-Rei, e já um velho, a quem a morte de manso vem tomando, por vezes, estudando as caveiras interrogo-me!

Olho-as bem... Vejo n'ellas o meu dia de amanhã, e não as olho com horror; pelo contrario, vejo-as com amor, com simpathia... e até, recordando as minhas dôres, acaricio-as!

As orbitas não teem olhos; as boccas não teem lingua; os ouvidos são buracos apenas. Não podem ouvir, nem ver, nem fallar!

Porque, Senhora!? Porque a Morte é paz, socego, anulamento; é nada... Os mortos dormem e não querem que os acordem. Que se importam elles dos vivos, se repousam!?... Deixai a voz do doido...

INFANTA—serenamente

Porque só olhaes e interrogaes caveiras não podeis comprehender os mysterios que nos cercam. Só mestre Lopo, que lê nos astros, poderá dizer toda a verdade.

Docemente, na distancia, os sinos tocam as Trindades.

Ave-Marias! Rezemos...

pondo as mãos, em prece, mysticamente

E um anjo do Senhor, cheio de luz, desceu dos Céus á Terra e disse: «Ave-Maria cheia de graça, o Senhor é comtigo...»

Silencio. A corte ajoelha e reza por momentos; os pagens, acendem luzes.

INFANTA—finda a oração, indo á arcaria

Como é grande a calma religiosa d'esta hora!

Como anoiteceu depressa! A terra dorme já em sombra e bruma. Só o rio e o céu teem ainda luz!

PINTOR

Tudo adormece em silencio, tudo dorme...

Só eu fico ancioso esperando a madrugada! Tenho ancia de luz como as flores e as aves! As sombras são negras, entristecem-me; fico como cego. Só no sol, só nas côres, sinto a vida e tenho alegria e ancia de viver.

POETA

A luz só a adoro, só a sinto, no adormecer suave d'esta hora, em que a natureza inteira está tambem de mãos postas a rezar!

Luz que queima, que enlouquece, e tudo revela, tudo acorda, eu a maldigo!

Luz que é fogo em minha alma, e maravilha em meus olhos, eu a odeio.

Mas esta, em que a saudade se deixou cruxificar, e tem mãos de mysterio e acaricia, e vem de manso afagar meus olhos, embalando meu sonho pela noite fora, e em negrumes abafa minha dôr, dando-me paz, serenidade, calma, esta, Senhora minha, eu a adoro, eu a bendigo.

INFANTA

Mas porque odiar assim a luz, assim a vida?

POETA—com intensão

Porque acorda... Porque tece feitiços de loucura... Porque illumina, revela, transfigura. Porque cria sonhos. Imagens que são reaes e que se afastam, que vemos e não podemos alcançar...

Odeio a luz, Senhora, porque ella illumina o meu soffrer, e entra em meu coração e abre-o de par em par ao soffrimento!

Porque estendo os braços, anciosos, loucos, e meus braços se perdem no ar!...

Vejo o meu sonho e não o alcanço... Tenho-o junto a mim e está distante... E soffro mais ainda!

Antes a noite! Vejo-o, sinto-o, palpita e vive em mim, como se meu coração ganhasse azas e em meu peito ficassem a bater, como a quererem livrarem-no da Morte, antes da Morte vir e lhe tocar!

INFANTA

Mas se sonhais... O sonho é pensamento, não se vê, nem se alcança, só pode ser imaginar...

POETA—muito calmo

Senhora, perdoai... Tendes razão, por certo. Mas foram meus olhos, de encantados, que peccaram, foram meus olhos que sonharam primeiro.

Elles viram, sentiram, deslumbraram-se. Que culpa teem elles?! Depois... minha alma enlouquecida, encheu-se de sombras e de dôr!

E a Dôr é a grande alma do Universo, que entrando em nós toma-nos todo, torna-nos meninos em seus braços, e fica a embalar-nos para a Morte, a cantar e a chorar!...

Senhora, por muito alto que estais, perdoae ter-vos fallado de mim...

Um longo silencio.

VOZES DO POVO—mais dolorosas, mais espaçadas, mais distantes

Pela Virgem Mãe...—Por Santhiago...—Miserere nobis...—Misericordia!...

INFANTA—com forçada naturalidade, como querendo, fallando, affastar seus pensamentos

E sempre o povo!... Escutai... ainda se ouve... Só o sinto rezar, só o ouço chorar!... Assim só se reza pelos mortos...

Mestre Lopo entende o povo?!

POETA

Mestre Lopo nunca vê o povo. Foge da multidão com horror, quasi com medo.

Sosinho, em silencio, olha as estrellas toda a noite. E levado por ellas, em seus roteiros, é um caminheiro do céu, a desvendar segredos de Deus!

INFANTA

Oh! quem me dera ver como elle vê! Desvendar o mysterio... mas eu olho o céu e nada vejo.

O PHYSICO

Comprehender estrellas, em verdade vos digo, Senhora, que não entendo. Parece-me phantasia ou loucura de astrologo.

POETA

Olhá-las e escutá-las!... Quantas vezes meus olhos, pela noite, as teem ouvido...

UMA AIA

Que dizem ellas?

POETA—indiferente

Trovas... Talvez as minhas...

O vozear do povo toma-se mais intenso.

INFANTA

O povo... o povo, que desvairado está! Que loucura a d'elle! Não o entendo, nunca o vi assim!

UM NOBRE

Chora e reza, mas acreditae, Senhora, que não sabe porque o faz. Chora e reza como poderia cantar e bailar...

INFANTA

O povo é adivinho,—todos dizem... Sente apenas. O povo chora; soffre. Reza; tem medo. A alma do povo é de presagios.

A mestre Lopo, que entra

Bemvindo sejaes Mestre Lopo.

ASTROLOGO—ajoelhando e beijando-lhe a mão

Em que vos posso servir, Senhora Infanta?

INFANTA

Dizendo-me o que dizem as estrellas...

ASTROLOGO—hesitando

O que dizem?! Em verdade vos digo, Senhora, que não sei.

INFANTA

Porque não dizer a verdade?! Porque fingir não saber?!

vincando as palavras, com intenção

Não ha presagios negros pelo céu?...

ASTROLOGO—mais hesitante ainda

Presagios!... Muito ao longe, talvez... De distantes que estão ainda os não poude comprehender.

INFANTA

Mas porque chora o povo?

Porque reza chorando? Porque, de joelhos, pede misericordia? Porque em grita desvairada, louco, transfigurado, parece ver naufragios?! É a armada que entra triumphal e dir-se-hia estar vendo entrar esquifes...

E o agoireiro! Mestre Lopo, dizei-me, se sabeis, que sentido querem ter as suas fallas?

ASTROLOGO

Não sei, não sei!... O povo sente, Senhora, e eu só sei comprehender os mystérios do céu.

O povo sente a morte já?! Ainda está longe, muito longe, mas foi isso que o agoireiro quiz dizer.

A armada vai fundear, e o povo bailará ao redor dos que chegaram... O povo é bailador. Ainda é folia.

Bailará á luz dos archotes, dos brandões, logo, no terreiro. E o agoireiro julgará ver, não archotes, mas cyrios...

INFANTA—serenamente

Quereis dizer... É a Morte que vem?!

ASTROLOGO

De manso, a rastejar... E vem tão linda! Cobrem-na brocados, pedrarias... Nem parece ella! Mas não me deis ouvidos, que isto diz o povo e não estrellas...

A Princesa pouco a pouco transfigurou-se; parece nem vêr, nem ouvir.