ROMANCEIRO GERAL

COLLIGIDO DA TRADIÇÃO

POR
THEOPHILO BRAGA

Procuré con mi sudor

Y con inmenso trabajo

Juntar diversos romances

Que andavan discarriados....

ROM. GENERAL, de 1594.


COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1867

DO COLLECTOR


As primeiras poesias portuguezas, conservadas casualmente nos Chronicons, não são de origem popular, e o seu valor litterario acha-se destituido pela auctoridade de João Pedro Ribeiro. Depois do Concilio de Trento a musa do povo foi banida da egreja, aonde tomava parte na liturgia, participando tambem da inspiração hymnica. Os latinistas ecclesiasticos e o cultismo provençal excluiram-na das côrtes. Dom Diniz, apprendendo a fazer versos na lingua provençal, desprezou o verso octosyllabico, inteiramente popular e do genio rythmico da lingua, pelo endecasyllabo de diez syllabas a la manera de los limosis, como diz o Marquez de Santillana. Os nossos Cancioneiros são aristocraticos.

No tempo de Dom Fernando começa a sentir-se a influencia normanda, isto é, a implantação das tradições do norte e dos diversos povos, trazidas pelos aventureiros que divagavam então pela Europa vivendo d’este seu mister.

O cyclo da Tavola Redonda é imitado nas aventuras dos passos d’armas, na Ala dos Namorados e da Madre Sylva, nos Doze de Inglaterra, desenvolvendo-se a ponto de crear um typo messianico em Dom Sebastião, em tudo similhante a el-rei Arthur. No maravilhoso popular encontram-se vestigios das superstições germanicas, e o cyclo carolino toma o sentimento cavalheiresco da fidelidade allemã como principio de unidade, em vez da independencia altiva do genio franko.

No seculo XVI a eschola italiana absorveu a attenção dos espiritos a ponto de sacrificarmos o genio nacional ás exagerações classicas. Foi Gil Vicente o unico que não desprezou o sentimento popular, decidindo-se abertamente por elle, com mais franqueza do que o douto Sá de Miranda, que tergiversa entre a seducção estrangeira e a indole do nosso povo. Emquanto o endecasyllabo novo se expraia nas eclogas enfadonhas do gosto siciliano, a redondilha popular salva-se com a facilidade chistosa de Gil Vicente. O povo ia elaborando a sua poesia maritima, inspirado pelo sentimento profundo da aventura, a que o proprio Camões, classico do fundo d’alma, não se eximiu de modo que a influencia que recebeu não fosse o caracteristico por onde é hoje admirado na Europa. A Historia tragico-maritima era o nucleo das narrações em prosa d’onde havia de sahir já feito o verso octosyllabico, verso por assim dizer falado, da mesma sorte que das Chronicas hespanholas saiu a maior parte e a mais celebre dos Romanceiros antigos.

A perda de Alcacer Kibir foi o termo da edade heroica de Portugal; o povo, no desalento, nas extorsões de uma dominação extranha, volveu-se ás suas esperanças imaginarias, atou as tradições do campo de Ourique aos destinos da patria, fel-a o Quinto Imperio do mundo. De facto as prophecias nacionaes são a unica poesia popular do seculo XVII. As reminiscencias do cyclo de Arthur e as esperanças do genio celtico vêm coadjuvar a mente popular na formação de um ideal messianico. Dom Sebastião tornou-se o Encoberto que hade vir soltar o sonho em que Portugal succederá na gerarchia das grandes nações. De todos os povos da Europa, nós fômos o ultimo que deu importancia á poesia popular. As discussões dos philologos allemães sobre o Niebelungen, a publicação das epopeas francezas dos seculos XII o XIII, a polemica sobre a originalidade dos poemas de Ossian e a critica homerica encetada por Vico, concorreram bastante para o esclarecimento da grande these das creações anonymas, renovando o amor pela restauração d’estes thesouros perdidos. Entre nós os que primeiro recolheram algumas poesias primitivas, por mera curiosidade erudita, foram Fr. Bernardo de Brito, Miguel Leitão e Manuel de Faria e Sousa, que mutuamente reproduziram essas quatro duvidosas reliquias dos seculos XII e XIII. Sobre todos, Garrett foi quem descubriu a poesia popular das nossas provincias. Que delicadissimo artista para perceber a alma do povo! Não lhe comprehenderam o alcance do trabalho entre nós; em um prologo se queixa elle com pesar d’esta insufficiencia. A chamada geração nova atirou-se ao verso octosyllabico, pondo-se a rimar solaos e baladas, superfetações ridiculas, sem imaginação, nem arte. Muitos dos romances que formam a presente collecção, já andavam na lição de Garrett melhor dramatisados, e com um colorido encantador. Desanimámos por vezes, quando confrontavamos as versões que recolhiamos com as d’elle, sempre mais primorosas e extensas. Por fim vimos, e as palavras de Garrett o confirmam, que elle por vezes de muitas variantes formava um só romance, supprindo versos, ou completando-os pelos manuscriptos do Cavalleiro de Oliveira. Assim apresentou um trabalho excellente sob o ponto de vista artistico, pelo gosto de Percy, mas que não merece a absoluta confiança dos que quizerem surprehender a alma do povo na elaboração da sua poesia. Esses sessenta romances, que a todo o custo alcançámos de pessoas que não sabem dizer sem cantar, e que logo que as interrompem perdem o fio da cantilena, de outras supersticiosas e que temem de ser escarnecidas, todos estes romances foram, por assim dizer, apanhados em flagrante delicto do enthusiasmo popular. Comparámo-los com as versões de Garrett, e creio que aonde lhes são inferiores assenta a sua valia. A classificação adoptada não é a de Duran: é tirada da natureza da poesia popular, que por si mesmo se divide e aconselha as partes em que se deve agrupar. A poesia do povo não é uma habil curiosidade; como um facto profundo do espirito, não deve de ser estudada somente pelo lado artístico; é principalmente pelo lado psychologico que a sua rudeza e ingenuidade pittoresca tem valor. A presente collecção, pode sem orgulho nacional dizer-se, é composta do que ha de mais bello e antigo na poesia popular da Peninsula; quasi todos estes sessenta romances que andam na tradição, se encontram nas velhas recopilações hespanholas, mas aqui melhor dramatisados, mais breves e simples, e tal vez mais puros, porque passaram directamente da versão oral para a lição escripta. Quando a observação nos confirmou a grande verdade que ha na poesia do povo e fez vêr n’ella a sua principal belleza, para de logo um sentimento de respeito venerando obrigou a conservar sempre na sua rudeza as coplas e narrativas que iamos recolhendo. E assim, para os homens que se dedicam a este genero de trabalhos, para os psychologos que procuram surprehender as manifestações da alma na sua verdade, diante d’esses protesto, em nome da probidade do homem e da intuição de artista, que todos os romances populares que da tradição recolhi são estremes e genuinos.

ROMANCEIRO GERAL


FLOR DOS ROMANCES ANONYMOS DO CYCLO CARLINGIANO E DA TAVOLA-REDONDA


I—ROMANCES COMMUNS AOS POVOS DO MEIO DIA DA EUROPA

1
Romances da Dona Infanta

(Versão da Beira-Baixa)

Andando a Dona Infanta

No seu jardim passeava;

Deitou os olhos ao mar,

Viu vir uma grande armada:

«Dizei-me, oh meu capitão,

Dizei-me por vossa alma,

Marido que Deos me deu

Se ahi vem na vossa armada?

—Diga-me minha senhora

Que signaes é que levava?

«Levava cavallo branco,

Cavallo branco levava,

Levava cella amarella,

Por cima sobredourada;

E adiante de si levava

A cruz de Christo pregada.

—Eu o lá vi, oh senhora,

Elle na guerra ficava,

Com tres chagas bem abertas

E todas eram mortaes.

Por uma se via o sol,

Por outra o bello luar;

Por outra tambem se via

Rica bola de jogar.

«Ai triste de mim viuva,

Ai triste do mim coitada!

Ir-me-hei por esse mundo

Chamando-me desgraçada.

Ai triste da só viuva,

De mim que nemja de si.

—Quanto dereis vós senhora

A quem o trouxera aqui?

«Dera-lhe ouro e prata,

Fôra mais rico que mim.

—O vosso ouro e a vossa prata

Não me servem para mim.

Eu sou soldado de el-rei,

E não posso estar aqui;

Mas quanto davas, senhora,

A quem o trouxera aqui?

«Tres laranjaes que tenho

Todos tres os dera assim.

—Não quero os seus laranjaes

Não me servem para mim;

Que sou soldado de el-rei

E não posso estar aqui.

«Os tres moinhos que tenho

Todos tres os dera a si;

Um que móe pau de canella,

Outro móe pau do Brazil;

Outro móe rica farinha

Que el-rei me manda pedir.

—Eu não quero os seus moinhos,

Não me servem para mim;

O que dereis vós, senhora,

A quem o trouxera aqui?

«Essas tres filhas que tenho,

Todas tres quizera dar,

Uma para vos vestir,

Outra para vos calçar,

A mais linda d’ellas todas

Para comsigo casar.

—Eu não quero as vossas filhas,

Não me servem para mim.

O que dereis mais, senhora

A quem o trouxera aqui?

«Não tenho mais que lhe dar,

Nem você mais que pedir.

—Inda tem mais que me dar,

E eu tambem que lhe pedir:

Esse corpo delicado

Para commigo dormir.

«Merece ser arrastado

O maroto que tal diz

Ao rabo do meu cavallo,

Á roda do meu jardim.

—Não se amofine, senhora,

Que eu consigo já dormi.

O anel de cinco pedras

Que eu comvosco reparti.

Que é da vossa metade,

Pois a minha eil-a aqui?

«Pois a minha ametade

Esqueceu-me no jardim.

Vão-me já chamar meus manos,

Que o venham conhecer;

Se elle o meu marido for

Eu o quero receber;

E se algum maroto fôr

Veja como se hade haver.»

2
Dona Catherina

(Variante da Beira-Baixa)

’Stando Dona Catherina

No seu jardim assentada,

Com um pente de ouro na mão

Seu cabello penteava.

Deitou os olhos ao largo

Viu vir uma grande armada;

Capitão que ’nella vinha

Trazia-a mui bem guiada.

—Catherina, Catherina,

Catherina de Menezes,

Sabbado vou para França,

Catherina que quereis?

«Saúdai-me o meu marido,

Que por lá o achareis.

—Diga-me minha senhora

Que signaes levava elle?

«Levava cavallo branco,

E espada de Marquez;

Capote de camellão

Forrado de setim verde.

—Pelos signaes que me daes

Não o vi senão uma vez;

Vi-o morrer em França,

Enterral-o em Santa Inez.

Já Catherina chorava

Lagrimas de tres a tres.

—Calai-vos oh Catherina,

Casae commigo outra vez.

«Senhoras da minha laia

Não casam mais que uma vez.

—Quanto déreis vós, senhora,

A quem vol-o traga, aqui?

«Dera-lhe armas e cavallos,

Que cresceram de Dom Luiz.

—Suas armas, seus cavallos

Não me servem para mim;

Que eu sou capitão da armada,

Já me vou para o Brazil.

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Dera ouro, dera prata,

Fôra mais rico que mim.

—O seu ouro e sua prata

Não me servem para mim;

Eu sou capitão da armada

Já me vou para o Brazil.

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«As tres azenhas que tenho

Todas tres te dera a ti;

Uma móe cravo e canella,

A outra móe serzelim,

Outra móe rica farinha

Para el-rei, mais para mim.

—Vossas azenhas, senhora,

Não me servem para mim,

Sou capitão das armadas,

Já me vou para o Brazil.

Quanto dereis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Uma pereira que eu tenho

No meio do meu jardim,

Pois quando ella dá pêras

O rei m’as manda pedir.

—Eu sou capitão da armada,

Já me vou para o Brazil;

Quanto déreis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Essas tres filhas que eu tenho

Todas tres te dera a ti,

Uma para te calçar,

Outra para te vestir,

A mais linda d’ellas todas

Para comtigo dormir.

—As suas filhas, senhora.

Não me servem para mim,

Sou capitão das armadas

Já me vou para o Brazil.

Quanto dereis mais, senhora,

A quem vol-o traga aqui?

«Não tenho mais que vos dar,

Nem vós mais que me pedir.

—Ainda não me offereceu

Esse seu corpo gentil.

«Cavalleiro que tal fala,

Cavalleiro que tal diz,

Merece a lingua arrancada,

Cortada pelo nariz.

Levantai-vos meus criados,

Vinde-lh’o fazer assim,

Ao rabo do meu cavallo,

Ao redor do meu jardim.

—Os criados que a servem

Já me serviram a mim,

As suas filhas, senhora,

Tambem são filhas de mim.

Suas azenhas, senhora,

Tambem pertencem a mim;

Sua pereira, senhora,

Tambem me pertence a mim.

Suas armas e cavallos

Tambem pertencem a mim;

Seu ouro e a sua prata

Tambem pertencem a mim.

O anel que vos eu dei

Quando eu d’aquí sahi,

Mostrai-me a vossa metade,

Pois a minha eil-a aqui!

O anel que vos eu dei

Que se nos partiu no chão,

Mostrai-me a vossa metade,

Aqui está o meu quinhão.

3
Romances de D. Martinho de Avizado

(Versão da Beira-Baixa)

—Grandes guerras ’stão armadas

Entre França e Aragão!

Mal o hajas tu mulher,

Mais a tua criação;

Sete filhas que tiveste

Sem nenhuma ser varão!

Respondeu logo a mais velha

Com todo o seu coração:

«Dê-me armas e cavallo

Que eu irei por capitão.

—Tendes o cabello louro,

Filha, conhecer-vos-hão!

«Dê-me cá uma thezoura,

Verei-o cahir no chão.

—Tendes os olhos fagueiros,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Quando passar pelos hombres

Eu os ferrarei no chão.

—Tendes os peitos crescidos,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Mande fazer um justilho

Que me aperte o coração.

—Tendes as mãos mui mimosas,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Lá virá vento e chuva,

Que ellas se callejarão.

—Tendes o pé pequenino,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Dê-me cá as suas botas

Encherei-as de algodão.

—Tendes o passo miudo,

Filha, conhecer-vos-hão.

«Quando passar pelos hombres

Farei passo de ganhão.

—Filha, se fores á guerra

Como te lá chamarão?

«Dom Martinho do Avizado,

Filho do Rei Dom João.»

—Ai minha mãi que me morro,

Morro-me do coração;

Os olhos de Dom Martinho,

Mi madre, matar-me-hão,

O corpo tiene de hombre,

Os olhos de mulher são.

—«Convidai-o vós, meu filho,

Que vá comvosco jantar,

Se então elle fôr mulher

Em baixo se hade assentar.

Dom Martinho de Avizado

Cadeira mandou chegar,

Com o seu capote em cima

Para mais alto ficar.

—Ai minha mãi que me morro,

Morro-me do coração,

Os olhos de Dom Martinho,

Madre minha, matar-me-hão.

O corpo tenia de hombre,

Os olhos de mulher são.

—«Convidai-o vós, meu filho,

Que vá comvosco enfeirar,

Elle então se for mulher

Ás fitas se hade pegar.

«Oh que espadas finas estas

Para hombre guerrear!

Oh que fitas para damas,

Quem lh’as pudera mandar.

—Ai minha mãi, que me morro,

Morro-me do coração,

Os olhos de Dom Martinho,

Madre minha, matar-me-hão!