VISCONDE DE TAUNAY

INNOCENCIA

Decimo Primeiro Milheiro

1906

N. FALCONE & Cia.—editores

65—Rua de S. Bento—65

S. PAULO

INDICE

CAPITULO
I. [O sertão e o sertanejo]
II. [O viajante]
III. [O doutor]
IV. [A casa do mineiro]
V. [Aviso previo]
VI. [Innocencia]
VII. [O naturalista]
VIII. [Os hospedes da meia-noite]
IX. [O medicamento]
X. [A carta de recommendação]
XI. [O almoço]
XII. [A apresentação]
XIII. [Desconfianças]
XIV. [Realidade]
XV. [Historias de Meyer]
XVI. [O empalamado]
XVII. [O morphetico]
XVIII. [Idyllio]
XIX. [Calculos e esperanças]
XX. [Novas historias de Meyer]
XXI. [Papilio Innocentia]
XXII. [Meyer parte]
XXIII. [A ultima entrevista]
XXIV. [A villa de Sant'Anna]
XXV. [A viagem]
XXVI. [Recepção cordial]
XXVII. [Scenas intimas]
XXVIII. [Em casa de Cesario]
XXIX. [Resistencia de corça]
XXX. [Desenlace]
EPILOGO. [Reapparece Meyer]

A
José Antonio de Azevedo Castro
AMIGO DE INFANCIA

Azevedo Castro,

Se nos antigos tempos da Grecia, me fora possivel erigir custoso templo, dedicava-o á Amizade para no frontispicio gravar o teu querido nome.

Daquelle vivo sentimento permitte-me hoje, amigo, dentro do circulo de fracos e limitados meios, qualquer demonstração.

Não é em valioso monumento que vou inscrever a tua lembrança; simplesmente na primeira pagina de uma narrativa campestre e despretenciosa, de um livro singelo e sem futuro.

Aceita-o como um dos mais espontaneos movimentos da minha alma, que n'esta declaração sincera julga assentar direitos a completo indulto.

A. D'ESCRAGNOLLE—Taunay.

Rio de Janeiro, 8 de Julho de 1872.

PREFACIO

Em pouco mais de dous annos esgotou-se a sexta edição de Innocencia e a setima; os dous mil e quinhentos exemplares impressos em meiados de 1903 espalharam-se com relativa rapidez attendendo-se ao facto de que o romance appareceu em 1873 e que a procura de livros no Brazil infelizmente ainda não é das maiores.

Nos ultimos dous annos foi Innocencia muitas vezes publicada em folhetim por periodicos brazileiros e portuguezes; em volume porem só temos conhecimento de duas edições novas; uma allemã, da traducção de Karl Schuler, illustrada por Max Tilke e impressão da casa D. Dreyer & Comp. de Berlim e outra da versão japoneza de Kawana Kwandzo pela revista Fastos Japonezes.

Actualmente conta pois a formosa novella oito traducções enfeixadas em volume das quaes, duas francezas, duas allemãs, uma ingleza, uma hespanhola, uma italiana e uma japoneza; existindo alem dessas, publicadas na imprensa uma em polaco e outra em dinamarquez.

É provavel que brevemente appareça mais uma edição ingleza de nova versão dedicada ao Conselheiro José Antonio de Azevedo Castro, padrinho do livro, a quem o Visconde de Taunay dedicava a mais extremada amizade e affeição retribuida da mais forte maneira.

Soffreram os primeiros capitulos da presente edição ligeiros retoques, á vista de originaes deixados pelo autor e que infelizmente não estiveram ao alcance do revisor da sexta.

O nome dos acreditados livreiros editores Srs. N. Falcone & Comp. é um cunho da elegancia da factura do livro.

S. Paulo, Dezembro de 1905.

... Innocencia. Este livro terá longa vida, do mesmo modo que se póde, ainda hoje, viajar a Escossia com as novellas de Walter Scott por guias.

FRANCISCO OCTAVIANO.

INNOCENCIA

CAPITULO I
O SERTÃO E O SERTANEJO

Todos vós bem sentis a acção secreta
Da natureza em seu governo eterno;
E de infimas camadas subterraneas
Da vida o indicio á superficie emerge.

GOETHE.—Fausto, 2.ª parte.

Então com passo tranquillo mettia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, me denunciasse a servidão e o dominio; asylo em que pudesse crêr ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpôr-se entre mim e a natureza.

J. J. ROUSSEAU.—O encanto da solidão.

Corta extensa e quasi despovoada zona da parte sul-oriental da vastissima provincia de Matto-Grosso a estrada que da villa de Santa Anna do Paranahyba vae ter ao sitio abandonado de Camapoan. Desde aquella povoação, assente proximo ao vertice do angulo em que confinam os territorios de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Matto-Grosso até ao rio Sucuriú, affluente do magestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de leguas, anda-se commodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas ás outras; raream, porém, depois as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro[1] de João Pereira, guarda avançada daquellas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados páramos, offerece-lhe momentaneo agazalho e o provê da matolotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiry, ou da Vaccaria e Nioac, no Baixo Paraguay.

Alli começa o sertão chamado bruto[2].

Pousos succedem a pousos, e nenhum tecto habitado ou em ruinas, nenhuma palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está cahindo. Por toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a vegetação virgem, como quando ahi surgio pela vez primeira.

A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se á maneira de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na composição de todo aquelle solo, fertilisado aliás por um sem numero de limpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos contingentes são outros tantos tributarios do claro e fundo Paraná ou, na contravertente do correntoso Paraguay.

Essa areia solta e um tanto grossa tem côr uniforme que reverbera com intensidade os raios do sol, quando nella batem de chapa. Em alguns pontos é tão fofa e movediça que os animaes das tropas viajeiras arquejam de cansaço, ao vencerem aquelle terreno incerto, que lhes foge de sob os cascos e onde se enterram até meia canella.

Frequentes são tambem os desvios, que da estrada partem de um e outro lado e proporcionam, na matta adjacente, trilha mais firme, por ser menos pisada.

Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as paizagens em torno.

Ora é a perspectiva dos cerrados[3], não desses cerrados de arbustos rachiticos, enfezados e retorcidos de S. Paulo e Minas-Geraes, mas de garbosas e elevadas arvores que, se bem não tomem todas o corpo de que são capazes á beira das aguas correntes ou regados pela lympha dos corregos, comtudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que os alimenta; ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa gramma, toda salpicada de sylvestres flores; ora successões de luxuriantes capões[4], tão regulares e symetricos em sua disposição que surprehendem e embellezam os olhos; ora, emfim charnecas meio apaúladas, meio seccas, onde nasce o altivo bority e o gravatá entrança o seu tapume espinhoso.

Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e resiccado pelo ardor do sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incendio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, atêa com uma faulha do seu isqueiro.

Minando á surda na touceira queda a vivida scentelha. Corra d'ahi a instantes qualquer aragem, por debil que seja, e levanta-se a lingua de fogo esguia e tremula, como que a contemplar medrosa e vacilante os espaços immensos que se alongam diante della. Soprem então as auras com mais força, e de mil pontos a um tempo rebentam sofregas labaredas que se enroscam umas nas outras, de subito se dividem, deslisam, lambem vastas superficies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam, roncando pelos matagaes de tabocas e taquaras, até esbarrarem de encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não as tanja para além o vento, ajudando com valente folego a larga obra de destruição.

Acalmado aquelle impeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, alli, a consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até se extinguir de todo, deixando como signal da avassalladora passagem o alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes passos.

Atravez da atmosphera ennublada mal póde então coar a luz do sol. A incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e granulos de carvão que redemoinham, sobem, descem e se emmaranham nos sorvedouros e adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao embaterem umas de encontro ás outras.

Por toda a parte melancolia; de todos os lados tetricas perspectivas.

É cahir, porém, dahi a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de fada andou por aquelles sombrios recantos a traçar ás pressas jardins encantados e nunca vistos. Entra tudo n'um trabalho intimo de espantosa actividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim, em que não desabrochem rebentões com o olhar sofrego de quem espreita azada occasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de penosa clausura.

Áquella instantanea resurreição nada, nada póde pôr peas.

Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro, verde-gaio, assetinado, cubra todas as tristezas de há pouco. Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que desabotoam ás caricias, da brisa as delicadas corollas e lhe entregam as primicias dos seus candidos perfumes.

Se falham essas chuvas vivificadoras, então por muitos e muitos mezes, ahi ficam aquellas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente illuminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma esperança de vida, com todas as suas opulencias e verdejantes pimpolhos occultos, como que raladas de dor e mudo desespero por não poderem ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.

Nessas afflictas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz, tão frequente antes do incendio. Só de vez em quando echoa o arrastado guincho do algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao chegar-se á terra afim de agarrar um ou outro reptil chamuscado do fogo que lavrou.

Rompe tambem o silencio o grasnido do caracará, que aos pulos procura insectos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubús, cujos negrejantes bandos, guiados pelo fino olfacto, buscam a carniça putrefacta.

É o caracará commensal do urubú. De parceria se atira, quando urgido pela fome, á rez morta e, intromettido como é, a custo de alguma bicada do pouco amavel conviva, belisca do seu lado no immundo repasto.

Se passa o caracará á vista do gavião, precipita-se este sobre elle com vôo firme, dá-lhe com a ponta da aza, atordoa-o, atormenta-o só pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.

Nada, com effeito, o mette em brios.

Pelo contrario, mal levou dous ou tres encontrões do miúdo, mas audaz adversario, baixa prudente á terra e põe-se ahi desageitadamente aos saltos, apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade das azas levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão.

Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a serpesinha, que, em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse, mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.

II

Taes são os campos que as chuvas não vêm regar.

Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe se avistam nas encostas das collinas e baixuras, ao redor de alguma nascente orlada de pindahybas e boritys?!

Com que alegria não saúda os formosos coqueiraes, nuncios, da lympha que lhe hade estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!

Enfileiram-se ás vezes as palmeiras com singular regularidade na altura e conformação; mas não raro amontoam-se em compactos massiços, dos quaes se segregam algumas mais e mais, a acompanhar com as raizes qualquer tenue fio d’agua, que collea falto de forças e quasi a sumir-se na ávida areia.

Desde longe dão na vista esses capões.

É a principio um ponto negro, depois uma cupola de verdura, afinal, mais de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros lassos do viajante exhausto de fadiga, para os seus olhos encandeados e sua garganta abrasada.

Então com sofreguidão natural acolhe-se elle ao sombreado retiro, onde prestes desarreia a cavalgadura, á qual dá liberdade para ir pastar, entregando-se sem demora ao somno reparador que lhe trará novo alento para proseguir na cansativa jornada.

Ao homem do sertão afiguram-se taes momentos incomparaveis, acima de tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto circulo de ambições.

Satisfeita a sede que lhe seccara as fauces, e comidas umas colheres de farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos brancos das pindahybas, a copa dos ipês e as palmas dos boritys a ciciar a modo de harpas eólias, musicas sem conta com o perpassar da brisa.

Como são bellas aquellas palmeiras!

O estipite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta denso feixe de peciolos longos e canulados, em que assentão flabellas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexiveis e tremulantes.

Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas spathas, densos cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia revestida de escamas rhomboidaes e de um amarello alaranjado desafia por algum tempo o ferreo bico das araras.

Tambem com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a appetecida e saborosa amendoa! Em grupos juntam-se ellas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras pelo contrario de todo azues, de maior viso e que, por parecerem negras em distancia, tem o nome de araraúnas.[5] Alli ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, ás immensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quasi sempre, porem estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha á outra.

Vê tudo aquillo o sertanejo com olhar carregado de somno. Cahem-lhe pesadas as palpebras; bem se lembra de que por alli podem rastejar venenosas alimarias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preoccupação, adormece com serenidade.

Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra, rijo o vento. Não ciciam mais os boritys; gemem, e convulsamente agitam as flabelladas palmas.

É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d'agua; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para o outro e corre afinal a buscar o animal, que de prompto ensilha e cavalga.

Uma vez montado, lá vai elle a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espirito, por aquelles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa á terra com o cahir da tarde!

Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Ennegrece o solo; formam os matagaes sombrios massiços, e ao longe se desdobra tenue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, resaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.

É a hora, em que se aperta de inexplicavel receio o coração. Qualquer ruido nos causa sobresalto; ora o grito afflicto da zabelê nas mattas, ora as plangentes notas do bacuráu a cruzar os ares. Frequente é tambem amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.

Quem viaja attento ás impressões intimas, estremece mau grado seu ao ouvir n'esse momento de saudades o tanger de um sino muito, muito ao longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossivel. São insectos occultos na macega que trazem essa illusão, por tal modo viva e perfeita que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos fóra a doudejar e a crear mil fantasias.

III

Espalham-se, por fim, as sombras da noite.

O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde, nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a solidão, pára, relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lugar presente alguma aguada, por má que seja, apeia-se, desensilha o cavallo e, reunindo logo uns gravetos bem seccos, tira fogo do isqueiro, mais por distracção do que por necessidade.

Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espirito ou o bem-estar do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado a conversar.

Raros são os seus pensamentos: ou rememora as leguas que andou, ou computa as que tem que vencer para chegar ao termino da viagem.

No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquella esplendida natureza, recomeça elle a caminhar, como na vespera, como sempre.

Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as mesmas. Dá-lhe o sol, quando muito, os pontos cardeaes, e a terra só lhe prende a attenção, quando algum signal mais particular póde servir-lhe de marco milliario na estrada que vai trilhando.

—Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado ou uma disposição especial de terras, lá está a péuva grande... Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré ha quatro leguas bem puxadas.

E, olhando para o sol, conclue:

—D'aqui a tres horas estou batendo fogo.

Occasiões ha em que o sertanejo dá para assoviar. Cantar, é raro; ainda assim, á surdina; mais uma voz intima, um rumorejar comsigo, do que notas sahidas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom humor.

É-lhe indifferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na arêa da estrada.

—Que bichão! murmura elle contemplando um rasto mais fortemente impresso no solo; com um bom onceiro[6] não se me dava de acuar este diabo e metter-lhe uma chumbada no focinho.

O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, familia. Em quanto moço, seu fim unico é devassar terras, pisar campos onde ninguem antes puzera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras[7] e furar mattas, que descobridor algum até então haja varado.

Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importancia das viagens emprehendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudaes que transpoz, os ribeirões que baptisou, as serras que trasmontou e os pantanaes que afoutamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeal-os com rara paciencia.

Cada anno que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e accrescenta uma pedra ao monumento da sua innocente vaidade.

—Ninguem póde commigo, exclama elle emphaticamente. Nos campos da Vaccaria, no sertão do Mimoso e nos pantános[8] do Pequiry, sou rei.

E esta presumpção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de gesticular magestatico em sua singela manifestação.

A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de infallibilidade.

Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara peremptoriamente:

—N'este rumo daqui a 20 leguas, fica o espigão mestre de uma serra braba, depois um rio grosso; dalli a cinco leguas outro matto sujo que vai findar n'um brejal. Se vassuncê frechar direitinho assim umas duas horas, topa com o pouso do Tatú, no caminho que vai a Cuyabá.

O que faz n'uma direcção, com a mesma, imperturbavel serenidade e firmeza indica em qualquer outra.

A unica interrupção que aos outros consente, quando conta os innumeros descobrimentos, é a da admiração. Á minima suspeita de duvida ou pouco caso, incendem-se-lhe de colera as faces e no gesto denuncia indignação.

Vassuncê não credita! protesta então com calor. Pois ensilhe o seu bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas assumpte[9] bem, que no terceiro dia de viagem ficará decidido quem é cavoqueiro[10] e embromador[11]. Uma cousa é mapiar[12] á toa, outra andar com tento por estes mundos de Christo.

Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros cansados e entorpecidos, os olhos já ennevoados pela idade, os braços frouxos para manejar a machadinha que lhe dá o substancial palmito ou o saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para esposo, alguma viúva ou parenta chegada, forma casa e escola, e prepara os filhos e enteados para a vida aventureira e livre que tantos gozos lhe dera outr'ora.

Esses discipulos, aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas descripções das grandes scenas da natureza, n'um bello dia desertam da casa paterna, espalham-se por ahi além, e uns nos confins do Paraná, outros nas brenhas de S. Paulo, nas planuras de Goyaz ou nas bocainas de Matto-Grosso, por toda a parte emfim onde haja deserto vão pôr em activa pratica tudo quanto souberam tão bem ouvir, relembrando as façanhas do seu respeitado progenitor e mestre.

[1]Chama-se em Matto-Grosso retiro o local em que os criadores de gado reunem as rezes para as contar, marcar e dar-lhes sal.

[2]Sem moradores.

[3]Florestas de arbustos de 3 a 4 pés de altura mais ou menos, mui chegados uns aos outros.

[4]Excellente palavra brazileira derivada da lingua geral caá-púan (matto isolado).

[5]Araras pretas.

[6]Cão caçador de onças.

[7]Despontar cabeceiras é rodear as nascentes do rios, procurando sempre terreno enxuto.

[8]No interior pronuncia-se a palavra grave e não esdruxula, mais conforme assim com a etymologia.

[9]Ver o assumpto, observar, attender.

[10]Cavoqueiro é qualificativo empregado para exprimir qualquer qualidade má.

[11]Enganador.

[12]Termo peculiar aos sertões de Matto-Grosso—quer dizer parolar, tagarellar.

CAPITULO II
O VIAJANTE

Proprio de espirito sorumbatico, é andar sempre calado: tagarellar é o encanto e a alma da vida.

LA CHAUSSÉE.

Commigo, respondeu Sancho, meu primeiro movimento é logo tal comichão de fallar que não posso deixar de desembuxar o que me vem á bocca.

CERVANTES.—D. Quixote.

O dia 15 de Julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam ser os chamados de inverno no interior do Brazil.

Ia o sol alto em seu percurso, illuminando com seus raios, não muito ardentes para regiões intertropicaes, a estrada, cujo aspecto ha pouco tentámos descrever e que da villa de Sant'Anna do Paranahyba vai ter aos campos de Camapoan.

Á essa hora, um viajante, montado n'uma boa besta tordilho-queimada, gorda e marchadeira seguia aquella estrada. A sua physionomia e maneiras de trajar denunciavam de prompto que não era homem de lida fadigosa e commum ou algum fazendeiro daquellas cercanias que voltasse para casa. Trazia na cabeça um chapéu do Chile de abas amplas e cingido de larga fita preta, sobre os hombros um ponche-pala de variegadas cores e calçava botas de couro da Russia bem feitas e em bom estado de conservação.

Tinha quando muito vinte e cinco annos, presença agradavel, olhos negros e bem rasgados, barba e cabellos cortados quasi á escovinha e ar tão intelligente quanto decidido.

Na mão empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com que ia distrahidamente fustigando o ar ou batendo nos ramos de arvores que se dobravam ao alcance do braço.

Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela historia, achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de Albino Lata e a do Leal, a sete boas leguas da sezonatica e decadente villa de Sant'Anna do Paranahyba.

Nesta porção de estrada, ensombrada pelas arvores de vistoso cerrado, o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais álea de bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.

Ainda augmenta os encantos daquelle lance a innumera quantidade de rolas caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater de azas produz um arruido tão caracteristico e singular.

O nosso viajante, se caminhava distrahido e meio pensativo, não parecia, comtudo, de genio sombrio ou pouco divertido.

Muito ao contrario, sacudia ás vezes o torpôr em que vinha e entrava a cantarolar, ou assoviar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento cadencial da cabeça.

N'uma dessas reacções contra alguma preoccupação, disse em voz alta, puxando por um relogio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:

—Ás duas horas pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o meio dia, e tenho tempo diante de mim a botar fóra...

Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais activamente recomeçou a zurzir os galhos das arvores bocejando de tedio.

Tambem pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado emparelhou outro viajante, escanchado n'um cavallinho feio e zambro, mas muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo quasi a galope.

Homem já de alguma idade, o recem-chegado era gordo, de compleição sanguinea, rosto expressivo e franco. Trajava á mineira e parecia como realmente era, morador daquella localidade.

Olá, patricio, exclamou conchegando a cavalgadura.

—Olá, patricio, exclamou elle conchegando a cavalgadura á da pessoa a quem interpellava, então se vai botando para Camapoan?

Olhou o nosso cavalleiro com desconfiança e sobranceria para quem o interrogava tão sem ceremonia e meio-enviezado respondeu:

—Talvez sim ... talvez não ... Mas a que vem a pergunta?

—Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem siquer o saudei... Sou mesmo um estabanado... Deus esteja comvosco. Isto sempre me acontece... A minha lingua fica as vezes tão douda que se põe logo a bater-me nos dentes ... que é um Deus nos acuda e ... não ha que avisar: agua vae! Olhe, por vezes já me tem vindo damno, mas que quer? É sestro antigo... Não que eu seja malcriado, Deus de tal me defenda, abrenuncio; mas pega-me tal comichão de fallar que vou logo, sem tir-te, nem guar-te, dando á taramela...

A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto ao mancebo e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta feita com mais demora e ar menos altivo.

Notou então a physionomia alegre e bonachã do tagarella e, com ar de sympathia, correspondeu ao communicativo sorriso daquelle que, á força, queria travar conversação.

—Pelo que vejo, disse elle, o Sr. gosta de prosear.

—Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma cousa: é de um christão com quem de vez em quando dê uns dedos de parola. Isto sim, por aqui é vasqueiro. Tudo anda tão calado!... uma verdadeira caipiragem!... Eu, não. Sou das Geraes[13] geralista como por cá se diz; nasci no Parahybuna, conheci no meu tempo pessoas de muita educação, gente mesma de truz e fui criado na Matta do Rio como homem e não como bicho do monte[14].

—Ah! o senhor é de Minas?

—Geraes, se me faz favor. Baptizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da gemma. Andei séca e méca antes de vir deitar poita neste paiz. Isto já faz muito tempo, pois tambem vou ficando velho. Ha mais de quarenta annos pelo menos que sahi da casa dos meus pais...

E interrompendo o que dizia, perguntou:

—O senhor também é de Minas?

—Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de S. Paulo: nasci na villa de Casa-Branca, mas fui criado em Ouro-Preto.

—Ah! na cidade Imperial[15]?...

—Lá mesmo.

—Então é quasi de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente. Ora, quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu rasto fresco na areia. Ahi vai, disse eu por vezes com os meus botões um sujeitinho que não tem pressa de pousar. Tambem tocando o meu canivete, tratei de agarral-o para não fazer a viagem a olhar para o céu e a banzar. Acha que obrei mal?

—Não, senhor, protestou o moço com affabilidade. Muito lhe agradeço a intenção. Assim alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar hoje com os ossos.

—Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu rico senhor, eu moro a meia legua do Leal, torcendo á esquerda, e se vosmecê não tem compromissos lá com o homem fár-me-ha muito favor agasalhando-se em tecto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha tapera[16] é pouco retirada do caminho, e quem vem montado como o senhor, não tem que andar contando bocadinhos de leguas.

Convite tão espontaneo e amavel não podia deixar de ser bem aceito, sobretudo naquellas alturas, e trouxe logo entre os dous caminhantes a familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.

—Com toda a satisfacção irei parar em sua casa, retrucou o joven. Nunca vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este sertão, e ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho para passar a noite com os meus camaradas.

—Traz então tropa?

—Tropa, não; apenas dous bagageiros que vem com as minhas cargas e uma besta á dextra.

—Olá! o amigo viaja á fidalga, observou o mineiro com gesto folgazão.

—Qual!... Bastantes privações tenho já cortido.

—De certo não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quizer ficar. Não encontrará luxarias[17] nem cousas da capital, unicamente o que se póde ter nestes mundos[18]: quatro paredes de páo a pique mal rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, hervas á mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café com rapadura e talvez até um lombo fresco de porco.

—Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de capitão-mór. Não queria tanto, bastava-me...

—O que sobretudo desejo é que tenha commigo o coração na boca. Se não gostar do passadio, vá logo desembuxando. Na minha rancharia pousa pouca gente, porque fica para dentro da estrada ... assim, talvez lhe falte alguma cousa; em todo o caso farei pelo melhor...

Depois de breve pausa, continuou:

Mas porem creio que já é occasião, agora que nos conhecemos como dous amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha historia conto-lh'a em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte?

—Cyrino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para o servir.

—Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortezmente e levando a mão ao chapéu. Como lhe disse ha pouco, minha historia é historia de entrar por uma porta e sahir por outra. Minha gente não é de má raça, pelo contrario; meu pai, que Deus lhe dê a gloria, possuia alguma cousa de seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada qual de nós—eramos sete—tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negocio. Depois de alguns annos, uns bons, outros caipóras, morreu minha dona e mudei-me, a principio, para Piumhy e mais tarde para Uberaba. A vida começou a desandar-me de todo, e fiz logo este calculo: estar tão longe, antes afundar-me no matto de uma boa feita. Vendi minha lojinha de ferragens e internei-me até cá com tres escravos. Ha doze annos que moro nestes socavões[19] e, palavra de honra, até ao presente não me tenho arrependido. Na minha situação ha fartura, e louvado seja! nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Christo tem olhado para mim, e me julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do despotismo[20] de miserias, que vai por estas terras fóra... Cruzes! nem falar n'isto é bom... Diga-me porém uma cousa: vosmecê para onde se atira?

—Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.

—Deveras? Então está caminhando á toa?

—Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes fundões[21] curando maleitas e feridas brabas.

—Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor, não é? Physico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.

—É facto, confirmou Cyrino com alguma satisfacção.

—Ora, pois, muito que bem, cahe-me a sopa no mel; sim, senhor, vem mesmo ao pintar ... a talhe de fouce.

—Porque?

—Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê leu nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na côrte do Imperio?

—Não, respondeu Cyrino, primeiro no collegio do Caraça; depois fui para Ouro Preto, onde tirei carta de pharmacia.

E acrescentou com infatuação:

—Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é um milagre.

—Ah! a sabença é cousa boa... Eu tambem tinha geito para saber mais do que lêr e escrever, isto mesmo malmente; mas quem nasceu para carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o que, entonces, vosmecê entende de curar?...

—Entendo, affirmou Cyrino sem o menor constrangimento.

—Pois cahiu-me muito ao geito na mão; sim, senhor. Estou com uma menina doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a Sant'Anna buscar quina do commercio; mas lá não havia da maldita e voltava bem agoniado. Ora...

—Trago, interrompeu o outro, muito remedio nas minhas malas. Para sezões, tenho uma composição infallivel...

—Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mézinha. A pequena tomou a do campo; mas essa pouco talento[22] tem, de maneira que a sezão não lhe deixou o corpo.

—Ha quantos dias appareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado doutor.

—Faz hoje, salvo engano, dez dias.

Até agora era uma rapariga forçuda, sadia e rosada como um jambo; nem sei até como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguem póde fiar-se na tal villa de Sant'Anna; é uma peste de febres. Eu bem a não queria levar até lá; mas ella pediu tanto que consenti! demais como era para ver a madrinha, uma boa senhora, de muita circumstancia[23], a mulher do major Mello Taques... Não conhece?

—Pois não.

—E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo á sua garrulice.

—Quando pousei na villa, estive com elle.

—E não gostou? Aquillo sim é homem ás direitas. Tambem é páu para toda a obra na Senhora Sant'Anna é o tutú[24] de lá. Em querendo taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas lettras... Escreve ao governo; é juiz de paz, major reformado, serve de juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul para as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Móra n'uma casa de andar[25] e tem loja muito sortida, por signal que bem baratinha para a distancia. E as historias que conta? É um nunca acabar. O homem parece que sabe o Imperio de cór e salteado! Nem o vigario! Olhe, Sr. Cyrino, vou dizer-lhe uma cousa, que talvez lhe pareça embromação: ás vezes dou um pulo até á villa só para bater lingua com o major, porque com esta gente daqui não se tira partido: escurraçada e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia contando, galopeio até lá, e pego n'uma mapiagem[26] que me enche as medidas. Não ha...

—Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cyrino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei por aqui algum negocio?

—Homem, conforme. Gente doente é matto[27]: mas tambem mofina[28] como ella só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está morre não morre ha muitos annos, e é homem de boas patacas. Este, se vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma récula de gente mais ou menos.

—Vosmecê traz bastante quina do commercio? perguntou em seguida.

—Trago, respondeu Cyrino, mas é cara.

—Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo são sezões.

Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas molestias que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas perigosas; e com esse thema ás ordens achou meios e modos de falar até quasi perder o folego.

Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preoccupado, ou em todo caso, muito distrahidamente, o que lhe contava o seu novo amigo, sahindo, de vez em quando, da apathica attenção para instigar com a voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar descanso ou buscava comer os rebentões mais appetitosos do capim a grelar.

Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro.

—Vosmecê a modo que está triste? disse elle. Deixou alguma cousa de seu lá por traz?

—Homem, para ser franco, respondeu Cyrino dando um suspiro, deixei; e essa cousa é uma divida ... divida de jogo.

—Isso é mau, retrucou o mineiro fechando um tanto a cara. Por causa desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem á beira das estradas. Mas é côco[29] grosso?

—Trezentos mil réis.

—Já é gimbo[30] graúdo. E com quem jogou?

—Com o Totó Siqueira, de Sant'Anna. Por isto pretendeu atrazar-me a viagem; mas prometti mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e passei-lhe um papel. No que estou pensando, é se acharei até lá meios de cumprir a palavra.

—Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco com os doentes.

—Não imagina, replicou Cyrino com verdadeiro sentimento, quanto me tem amofinado essa maldita divida. Não pelo dinheiro, que delle faço pouco caso; mas por ter pegado em cartas, cousa que nunca tinha feito na minha vida; isto sim...

—Pois meu rico senhor, proseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram nas suas casas, socegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas e carreiros. Isso sim, é uma sucia de jogadores que andam armados de baralhos e visporas e, por dá cá aquella palha, empurram uma facada na barriga de um christão ou descarregam uma garrucha na cabeça de um companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demonio do jogo, quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e mulheres á toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe fala, teve um tio morador nas Traíras, para cá de Camapoan cinco leguas, que trabalhava todo o anno na terra para vir jogar até perder o ultimo cobre nas rancharias do Sucuriú.

Pereira, de posse de tão largo assumpto, contou mil historias, umas lugubres, outras jocosas, veridicas, inventadas na occasião ou reproduzidas.

Haviam no entretanto os dous caminhado bastante. Inclinára-se no horizonte o sol, e a briza da tarde já vinha soprando do lado do poente, viva, perfumosa.

—Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixámos os nossos animaes vir cochilando. Também já está aqui a minha estradinha. Metta-se nella, Sr. Cyrino; em frente ia parar no Leal: minha fazendola começa neste ponto á beira do caminho e vai por ahi afóra até bem longe, um mundo de alqueires de terra, que nem tem conta.

Ao dizer estas palavras, tomou elle a dianteira e dando a direita á estrada geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreada que levava com voltas e tortuosidades á margem rasa de copioso e limpido ribeirão, de alveo areento, todo elle. Que sitio risonho, encantador, esse, ensombrado por magestosa e elegante ingazeira, toda ponctuada das mimosas e balsamicas floresinhas!

Os animaes, ao perceberem o bater da agua, apertaram o passo e, entrando na fresca corrente quasi até aos peitos, estiraram o pescoço e pozeram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro ao fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em lympha.

—Não deixe a sua besta se empanzinar observou Pereira. Upa! continuou elle puxando pela redea do cavallo e batendo-lhe amigavelmente na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!

Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada matta, abria-se n'uma verdadeira estrada, que os dous cavalleiros tomaram a meio galope.

Trasmontava afinal o sol, quando, além de ralo mattagal, surgiu a ponta de um mastro de S. João, que o mineiro saudou com mostras de grande alegria, como signal percursor da querida vivenda.

Antes, porém, de n'ella penetrarmos, digamos quem era aquelle mancebo que viajava ornado do pomposo titulo de doutor, e, o que mais é, revestido de autoridade para ir, a seu talante, applicando remedios e preconisando curas milagrosas.

[13]De Minas Geraes.

[14]Matto.

[15]É o titulo honorifico que tinha a capital de Minas-Geraes.

[16]Casa velha e abandonada.

[17]Superfluidades de luxo.

[18]Lugares.

[19]Buracos, lugares retirados.

[20]Grande quantidade.

[21]Sitios distantes, ermos.

[22]Força, valentia. É quasi sempre tomado no sentido material.

[23]Importancia.

[24]Tutú, isto é, a pessoa de mais consideração e que tudo póde. Pereira fala do major Martinho de Mello Taques, o qual morava com effeito na villa de Sant'Anna do Paranahyba e gozava de merecida influencia.

[25]Sobrado.

[26]Conversação.

[27]Isto é: ha abundancia.

[28]Pouco liberal.—Tambem quer dizer: ou doente ou covarde.

[29]Dinheiro.

[30]Quantia.

CAPITULO III
O DOUTOR

Semeai promessas: a ninguem causam desfalque, e o mundo é rico de palavras.

A esperança quando outros n'ella creem faz ganhar muito tempo.

OVIDIO.

Ao morreres, dota a algum collegio ou o teu gato.

POPE.

Sganarello—De toda parte vem gente procurar-me, e se as cousas continuarem assim, sou de parecer que de uma vez devo dedicar-me á medicina. Acho que de todos os officios é este o preferivel por que, ou se faça bem ou mal, sempre no fim ha dinheiro.

MOLIÈRE.—O medico á força.

Nascera Cyrino de Campos, como dissera a Pereira, na provincia de S. Paulo, na socegada e bonita villa de Casa-Branca, a qual demora umas 50 leguas do littoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava boticario e a esse officio accumulava o importante cargo de administrador do correio, crescera debaixo das vistas paternas até á idade de doze annos, completos os quaes fôra enviado, em tempos de festas e a titulos de recordação saudosa, a um velho tio e padrinho, morador na cidade de Ouro-Preto, em Minas-Geraes.

Este parente, solteirão, de genio rabugento, misanthropo, e dado ás praticas da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com máu modo e manifesto descontentamento, tanto mais quanto a presença de um estranho vinha interromper os habitos de completa solidão a que se acostumara desde longos annos.

Era homem que trajava ainda á moda antiga usando de sapatos de fivela, calções de braguilha, e cabelleira empoada com o competente rabicho.

A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro Preto, tão bem firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz publica a affirmar que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo enterrado em numerosos buracos no chão da alcova de dormir.

—Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cyrino, poucos dias depois da chegada, fique sabendo que por qualquer cousinha lhe sacudo a poeira do corpo. Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um fuso.

O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar n'um canto sombrio da casa, onde relembrou, até lhe vir o somno, a alegre vida de outr'ora, os folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do Cruzeiro á entrada da villa Casa-Branca e sobretudo os carinhos da saudosa mamãe.

Em seguida áquella admoestação preventiva fôra o tio á casa de uns padres que tinham influencia na direcção do Collegio do Caraça e com elles arranjara a admissão do afilhado n'aquelle estabelecimento de instrucção.

Como finorio que era, conseguiu este resultado sem muita difficuldade, pagando-o, a juros compostos, com tentadoras promessas.

—Por ora, resmoneou elle, nada poderei fazer pela educação do rapaz; mas ... emfim ... um dia ... estou já velho, e tratarei de mostrar que não me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.

Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentaria, ficou decidida a entrada de Cyrino na casa collegial.

O presentimento da falta de protecção natural torna as crianças doceis e resignadas. Tambem não tugiu nem mugiu o caipirasinha ao penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores annos da sua adolescencia.

Optimo negocio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão somente desembolsando boas palavras e, por estar agarrado á vida, chegou até a levar ao cemiterio dous dos padres que se haviam prendido ás esperanças de valiosa recordação.

Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um bello dia morreu quando menos se esperava, deixando muito recommendado um seu testamento, que foi com effeito aberto com sofreguidão digna de melhor exito.

Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso arrazoado todo da letra do velho; barras de ouro, porém, ou maços de notas, nem sombra.

Esfuracou-se a casa de alto a baixo levantaram-se os soalhos; escutaram-se todas as paredes; quebraram-se os moveis: nada appareceu, nada denunciou esconderijo de riquezas, nem cousa que com isso se avizinhasse.

Descobriu-se então que aquelle carola fôra um pensador desabusado, antigo admirador de Xavier, o Tira-Dentes, que nunca tivera vintem e vivera como philosopho, grazinando lá comsigo mesmo, de tudo e de todos.

Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia, atirada de além tumulo e corroborada pelo legado sarcastico que em pomposo codicillo, fazia aos padres do Caraça da sua bibliotheca «afim, dizia elle, de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as boas intenções dos seus honrados e virtuosos directores.»

Procuraram-se os taes livros, e topou-se com um bahú cheio de obras, em parte devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues ás chammas de um grande auto de fé. Eram as Ruinas de Volney, o Homem da Natureza, as poesias eroticas de Bocage, o Diccionario philosophico de Voltaire, o Citador de Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os romances do Marquez de Sade e outras producções de igual alcance e quilate, algumas até em francez, mas annotadas por leitor assiduo e mais ou menos convencido.

A consequencia desse pesado gracejo posthumo, que destruia de raiz o conceito de uma vida inteira, foi a immediata exclusão de Cyrino do collegio do Caraça.

Tinha então dezoito annos e, como era vivo conseguiu, apezar da natural pecha que lhe atirava o parentesco com o estrambotico e defunto protector, ir servir de caixeiro n'uma botica velha e manhosa onde entre drogas e receituarios lhe foram voltando os habitos da casa paterna.

Leve era o trabalho, e o aviamento de prescripções tão lento que os ingredientes pharmaceuticos ficavam mezes inteiros nos embaçados e esborcinados frascos á espera de que alguem se lembrasse de tiral-os daquelle bolorento esquecimento.

Em localidade pequena, de simples boticario a medico não ha mais que um passo. Cyrino, pois, foi aos poucos e com o tempo creando tal ou qual pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso de tanto uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da garupa, as visinhanças da cidade á procura de quem se utilisasse dos seus serviços.

Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor. Então para melhor o firmar, depois de se ter despedido da botica em que servia, matriculou-se na escola de pharmacia de Ouro-Preto com a intenção de tirar a carta de boticario, que o presidente de Minas Geraes tem o privilegio de conferir, dispensando documentos de qualquer faculdade reconhecida.

Antes, porém, de conseguir a posse d'aquelle lisonjeiro documento, fez-se Cyrino, n'um dia de capricho, de partida decidida e começou então a viajar pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar, unindo a alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiencia lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição lhe ministravam.

Toda a sua sciencia assentava alicerces no tal Chernoviz. Tambem era o inesperavel vade-mecum; seu livro de ouro; Homero á cabeceira de Alexandre. Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava á sombra das arvores ou junto ao leito dos enfermos.

Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita cousa inutil e até disparatada; entretanto no interior do Brazil é obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações tem força de evangelho.

Conhecia Cyrino o seu exemplar de cór e salteado; abria-o com segurança nos trechos que desejava consultar e graças a elle formara um fundo de instrucção real e até certo ponto exacta, a que unira o estudo natural das utilissimas e ainda pouco aproveitadas hervinhas do campo.

Afim de augmentar os seus recursos em materia medica vegetal, foi a pouco e pouco dilatando as excursões fóra das cidades, para as quaes voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, digamol-o sem rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com a clinica do sertão.

Afinal, afeito a habitos de completa liberdade, resolvera emprehender viagem para Camapoan e sul de Matto-Grosso, não só com o intuito de estender o raio das operações, como levado do desejo de ver terras novas e longinquas.

Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte grangeando o tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si proprio, titulo inherente á sua pessoa e a que tinha incontestavel direito.

Bem formado era o coração daquelle moço, sua alma elevada e incapaz de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caracter se haviam insensivelmente enraizado certos habitos de orgulho, repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insufficiencia scientifica, como da roda em que sempre vivera.

Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do commum dos medicos ambulantes do sertão, typos que se encontram frequentemente naquellas paragens, eivados de todos os attributos da mais crassa ignorancia, mas rodeados de regalias completamente excepcionaes.

Por toda parte entra, com effeito, o doutor; penetra no interior das familias, verdadeiros gyneceos; tem o melhor lugar á mesa dos hospedes, a mais macia cama, é emfim, um personagem cahido do céu e junto ao qual acodem logo, de muita leguas em torno, não já enfermos, mas fanatisados crentes, que durante largos annos se haviam medicado ou por conselhos de vizinhos ou por suas proprias inspirações e que na chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do almejado restabelecimento.

CAPITULO IV
A CASA DO MINEIRO

Está a ceia na mesa. Torne o bom acolhimento desculpavel o mau passadio.

WALTER SCOTT.—Ivanhoe.

Quando assomaram os dous viajantes á entrada do terreiro que rodeava a vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada de alegria.

Puzeram-se algumas gallinhas a girar atarantadas, ao passo que varios gallos, ja empoleirados na cumieira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam de entre palhas de milho e, estremunhados, olhavam para os recem-chegados com olhos pequenos e cheios do somno.

Do interior da habitação, não tardou a sahir uma preta idosa, mal vestida, trazendo atado á cabeça um panno branco de algodão, cujas pontas pendiam até ao meio das costas.

—Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que ha de novo por cá?

—A benção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.

—Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocencia?

—Nhã está com sezão.

—Isto sei eu, rapariga de Christo; mas como passou ella de trasanthontem para cá?

—Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

—Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a janta?... Está prompta? Venho varado de fome. Que diz, sr. Cyrino? indagou, voltando-se para o companheiro.

—Não se me dava tambem de comer alguma cousa. Temos razão para...

—Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte, que o terreno é nosso. Minha casa, já lh'o disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguem fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavallinho zambro, o qual foi por si correndo em direcção a uma dependencia da casa com formas de tosca estrebaria.

Apeou-se igualmente Cyrino, mas, ao penetrar n'uma especie de alpendre de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na physionomia.