IV

Amanheceu glorioso o dia seguinte.

Ás sete horas da manhã, já o conselheiro Antunes andava no velho mercado da praça do Sapal, comprando as melhores fructas que pôde encontrar. Tambem comprou algumas flôres para offerecer a D. Estanislada e a Soledad. Seguiam-n’o dois rapazitos com cêstas á cabeça. Do Sapal, onde não olhou a dinheiro, dirigiu-se para o mercado do peixe, onde comprou o melhor e o mais caro. A sorte favoreceu-o: os salmonetes eram a rôdos. A caldeirada devia ficar famosa.

Foi no mercado do peixe que o estudante d’Alcacer lhe appareceu todo açodado.

—Tão matutino, sr. Julio de Lemos! exclamou, ao vêl-o, o conselheiro.

—Ha caso! respondeu o estudante.

—Caso! repetiu com surpresa o conselheiro. Querem vêr que a D. Estanislada tornou a apanhar uma indigestão, e que já não vamos a Troia! Pois ha de perder-se tudo isto!

E com um olhar desalentado, em que se liam poemas d’angustia, relanceou os olhos ás flores, ás fructas, ao peixe. Se podesse olhar para si mesmo, o conselheiro Antunes tel-o-ia feito involuntariamente, significando a magua que lhe causava o perder-se tambem elle proprio, o seu raro talento culinario, que desejava exhibir, n’esse dia, perante D. Estanislada, e os outros.

—Qual! Nada d’isso e melhor que isso!

Aquietou-se o semblante do conselheiro, que entretanto se havia lembrado de que se perderia tambem o excellente azeite, que finalmente podéra descobrir. Não era isso? Ainda bem! Salvava-se tudo, incluindo o azeite magnifico e o talento culinario.

Julio de Lemos, rapidamente, explicou:

—Chegaram hontem á tarde as netas do Padre Eterno!

O conselheiro fez uma cara de espanto, de surpreza, e desconfiança: cara de quem não percebia nada.

—Como! exclamou. As netas do Padre Eterno! Então vossa senhoria, sr. Julio de Lemos, propõe-se agora brincar com o Padre Eterno e comigo!

E, de repente, reconquistou toda a plenitude do seu bello ar conselheiratico, muito emproado.

—Pois vossa excellencia imagina que estou brincando! respondeu o estudante. As netas do Padre Eterno são tres lindas meninas da Messejana, que já cá estiveram ha dois annos, e deixaram toda a gente encantada.

—Mas o que têm essas tres lindas meninas com o Padre Eterno? perguntou auctoritariamente o conselheiro.

—Têm... que são netas do avô. Nós pozémos-lhes a alcunha de netas do Padre Eterno, porque o avô, o Rodarte, é um velho de grandes barbas brancas, que faz lembrar as imagens do Padre Eterno. Não ha ninguem mais estimavel do que o bom velho, que morre por jogar o voltarete, e que mette as cartas pelos olhos dentro, porque é muito myope. Mas as netas, as netas, sr. conselheiro, são as tres graças, acredite!

—Bem! Bom é que a praia se vá animando cada vez mais! Mas não percebo a razão por que o sr. Julio de Lemos classifica de caso esse acontecimento, aliás vulgar!

—É que eu encontrei-as agora. Estive-lhes a contar o que ia por cá, o que nos temos divertido com a familia de D. Enrique, e a caldeirada que hoje vamos fazer, graças ao talento culinario de vossa excellencia.

—Muito obrigado pelo seu obsequio, disse o conselheiro, lisongeado nas suas prosapias de Vatel amador.

—E, como ellas mostrassem pena de perder a caldeirada, julguei que não era decente deixar de convidal-as. Vinha, portanto, prevenir d’isto vossa excellencia, na sua qualidade de nosso amavel amphitryão, e pedir-lhe desculpa da minha ousadia, que aliás as circumstancias justificam.

—É um acto de gentileza, que se deve ter sempre com as damas... Nada tenho que objectar. Apenas, não sei se a familia de D. Enrique deveria ter sido prevenida primeiro...

—Qual! N’uma praia não ha dessas etiquetas. De mais a mais D. Estanislada e Soledad são muito sociaveis, gostam immenso de boa companhia, e a prova está em que apreciam sempre a presença de vossa excellencia...

—Oh! sr. Julio de Lemos! Mil vezes obrigado... Bem! bem! Eu vou reforçar um pouco o contingente dos salmonetes, visto que os ha com abundancia no mercado, felizmente! Só peço a vossa senhoria que tenha a bondade de explicar a D. Estanislada o gentil passo que deu, de modo a não me poder ser imputada a iniciativa d’elle.

—Perfeitamente. Mil vezes obrigado. Então a que horas é a partida? Preciso ir prevenir as Rodartes.

—Ás duas em ponto, no caes do Livramento.

—Bem! bem! Ás duas em ponto lá estaremos, e terá vossa excellencia occasião de conhecer as tres lindas netas...

—Do Padre Eterno, atalhou, sorrindo, o conselheiro.

E foi d’ali reforçar, como elle disse, o contingente dos salmonetes.

O estudante andára com certa finura em todo este negocio.

Quando viu as Rodartes, que eram realmente tres lindas mulheres, ficou contentissimo por se lhe deparar tão feliz achado. Lembrou-se logo de que ellas cahiam do ceu para disputar a Soledad o premio da belleza. D’este modo conseguir-se-ia abater, pela concorrencia, o orgulho da andaluza. E elle, namorando alguma das tres, a Hilda, principalmente, a quem já havia, dois annos antes, arrastado a aza, vingar-se-ia dos desdens com que Soledad acolhia por vezes, sempre caprichosa e indefinida, os seus galanteios.

Inculcou-se ao Rodarte e ás netas como um dos promotores da caldeirada, tendo portanto auctoridade para fazer o convite, que, n’essa fé, foi acceito.

Depois correu a procurar o conselheiro, mudando as guardas á fechadura: desculpando-se do que fizera, pois que o conselheiro era o amphitryão da caldeirada.

E, tendo visto flôres dentro de um dos cestos, flôres que eram certamente destinadas a D. Estanislada e Soledad, não quiz ficar atraz em gentileza para com as Rodartes. Foi ao Sapal comprar dois ramos de flôres, que uma palmelôa lhe vendeu por quatro vintens. O seu desejo era comprar tres ramos, mas, para isso, não lhe chegava o dinheiro. Cortou o nó gordio, desfazendo em casa os dois ramos, e compondo tres, que sahiram mais geitosos do que estavam os dois.

Olhando, contente da sua obra, para elles, teve Julio de Lemos esta observação sensatissima:

—Para saber economia, não é preciso ser economista: basta não ter dinheiro.

Depois foi avisar a familia Rodarte de que ás duas horas em ponto partiriam todos do caes do Livramento.

Ficaram contentissimas as Rodartes com a boa estreia que a sua estação balnear ia ter.

Orphãs de pai e mãe muito novas, era com o avô que tinham sido creadas. Baboso por ellas, o velho Rodarte fazia o que as netas queriam, não tinha vontade propria. Extremamente myope, como o estudante d’Alcacer dissera, ia para toda a parte comboyado pelo braço de alguma das netas, quasi sempre Salomé, que era a mais velha, e das tres a menos formosa. Tinha vinte e tres annos.

Hilda e Maria Ignez eram gémeas e encantadoras. Vinte e um annos adoraveis. Mulheres fortes, de olhos negros, faces radiosas, braços potelés, cobertos de um frouxel que reluzia ao sol como uma pennugem de ouro.

Salomé era menos forte e menos bella. Mas havia na sua physionomia uma graça peninsular, que não tinha inveja á formosura. E a sua conversação, os seus ditos de espirito, partiam da sua bocca graciosa e sã como settas que brilhavam mais do que feriam.

Eram ricas, duplamente ricas, pelo pae e pela mãe. No districto de Beja não havia casa melhor do que a sua, cujas herdades e montados se espalhavam para o oriente até ao Chança e para o sul até Almodovar.

O avô recommendava-lhes sempre que não tivessem pressa de casar, porque não poderiam encontrar noivos que as estimassem mais do que elle.

E enterradas na Messejana, lonje das tentações do mundo, ellas pareciam, realmente, não ter pressa de casar.

No tempo dos banhos costumavam ir para Sines, que era uma semsaboria pouco melhor que a Messejana. Um anno, para variar, conseguiram arrastar o avô até Setubal, onde fizeram sensação, e ficaram sendo conhecidas pelas netas do Padre Eterno. Mas o avô fatigara-se com a jornada, e no anno seguinte voltaram para Sines. Agora fôra elle que voluntariamente, conhecendo que as suas tres graças preferiam naturalmente Setubal a Sines, se offerecera de motu proprio ao sacrificio, com a sua patriarchal bonhomia de avô baboso.

Julio de Lemos, que encontrára na Physica da Escola Polytechnica um barranco ainda não vencido, resignava-se, durante as ferias, do desgosto que no fim de todos os annos lectivos recebia em Lisboa. Namorando e perpetrando o seu verso, preparava-se para no anno seguinte investir novamente com a Physica.

Fôra um dos mais dedicados satellytes das Netas do Padre Eterno, quando ellas pela primeira vez appareceram em Setubal. Versejára em honra de todas tres, mas não era um namorado que ninguem tomasse a serio. Todos os galanteios que as irmãs Rodartes inspiraram, e foram muitos, não podiam auctorisar-se com a esperança de casamento. Mas, em compensação, ellas haviam atravessado triumphantemente Setubal, durante toda uma epocha balnear, sob uma chuva de flores.

Agora, que voltavam inesperadamente, encontravam ainda Julio de Lemos escravisado pela Physica da Escóla Polytechnica, mas disposto a divinisal-as mais uma vez, não só para honrar o passado, como para aligeirar o presente, e, sobretudo, para vingar-se da altivez castelhana de Soledad.

Orientado por este complexo programma, não podendo disfarçar a alegria com que se propunha realisal-o, appareceu ás duas horas em ponto, no caes do Livramento, acompanhando as formosas Netas do Padre Eterno, á frente Hilda e Maria Ignez, elle a par das duas, mais atraz Salomé dando o braço ao avô myope, como Antigone a Œdipo.