V
Estava já no caes a bella Soledad com toda a sua côrte.
O conselheiro Antunes dava ordens, fazia recommendações aos barqueiros: que não esquecessem isto, que não deixassem ficar em terra os cabazes com as loiças, e as celhas com o peixe.
D. Enrique lia um jornal hespanhol, recebido n’essa manhã, e de momento a momento commentava a leitura monologando: Qué broma!
D. Estalisnada mostrava-se encantada com a solicitude cavalheirosa do conselheiro Antunes, e fallava tantas vezes no azeite, que o morgado de Reguengos disse para o proprietario das Alcaçovas: «N’isto do azeite anda marosca; é linguagem combinada.»
Quando o grupo das Rodartes chegou, houve sensação no grupo de Soledad. Foi como se duas côrtes se chocassem.
O morgado de Reguengos, o proprietario das Alcaçovas, os dois officiaes de caçadores 1 e o Vianninha já as conheciam. Correram a cumprimental-as, a dar-lhes as boas-vindas, a fallar ao avô.
Julio de Lemos, muito expansivo, apresentou a familia Rodarte aos que pela primeira vez a viam.
Dirigindo-se a Soledad, teve uma phrase tão amável como ironica:
—Ficará eternamente na memoria do rio Sado este encontro da belleza de Portugal com a belleza de Hespanha.
Uma explosão de riso saudou esta apresentação original. As tres Rodartes sorriram, mas coráram. Soledad sorriu, mas feriu-se. Percebeu que n’esse momento lhe vacillava na cabeça a corôa de rainha da belleza, até ahi indisputada.
A apresentação ao conselheiro Antunes foi, por parte do estudante, muito respeitosa:
—Apresento a vossas excellencias um dos mais illustres e respeitaveis cavalheiros que tenho tido a honra de conhecer: o abastado proprietario de Santarem, dr. Antonio José Antunes, do conselho de sua magestade fidelissima, e presidente da junta geral d’aquelle districto. A vossa excellencia, sr. conselheiro, apresento o abastado proprietario da Messejana, o sr. Araujo Rodarte, e suas encantadoras netas.
Julio de Lemos, em attenção a ser o conselheiro o amphitryão da festa, carregou a mão nos elogios que lhe teceu, para de algum modo o indemnisar da despeza que elle fizera reforçando um pouco o contingente dos salmonetes.
D. Enrique, na primeira occasião que teve, perguntou a Julio de Lemos se o velho Rodarte era bom conversador. Ficou contente de obter uma resposta affirmativa, porque encontrava mais uma victima para as suas estopadas sobre a politica hespanhola.
E, para estreitar desde logo as relações com a sua victima, dirigiu-se a ella dizendo-lhe:
—És usted un imponente anciano, de mi mayor respeto.
Imponente anciano! Esta só podia lembrar a um hespanhol! Mas as barbas brancas do velho Rodarte eram dignas da hespanholada.
Embarcaram todos, não sem a hilaridade que o embarque de senhoras produz sempre. D. Estanislada precisou que o conselheiro Antunes, muito cavalheiresco, lhe désse a mão. Os barcos, largando do caes, aproáram a Troia.
Soledad quiz que o sueco, cujo nome eu não citarei emquanto o não souber escrever correctamente, o que aliás não é facil, se sentasse a seu lado. Era a resposta ao cartel de desafio, que o estudante lhe trouxera com a presença das Rodartes. O seu raciocinio devia ter sido este: «Portugal quer esmagar-me? Pois bem! eu esmagarei Portugal.» E sobre o Sado, como na vespera, era a Suecia que triumphava.
Chegados a Troia, tratou-se em primeiro logar de montar o arsenal culinario.
O conselheiro Antunes quiz desde logo installar-se como Vatel amador. Muito methodico, elle mesmo dispunha os utensilios, procurava os tempêros, emquanto os barqueiros accendiam o lume. Dir-se-ia que elle desejava imprimir o cunho da sua individualidade não só á caldeirada, que ia cosinhar, mas ao trem da cosinha, que estava organisando com o maior esmero.
Como, durante a travessia do Sado, o Vianninha e os officiaes de caçadores 1 fossem explicando que em Troia existira uma cidade romana, chamada Cetóbriga, de que se encontravam ainda ruinas e outros vestigios, taes como amphoras e medalhas, toda a caravana, com excepção de duas pessoas, quiz ir procurar as ruinas, especialmente as medalhas, pois que o Vianninha affirmava que se encontravam com facilidade, e que elle mesmo possuia uma de bronze do tempo de Trajano.
As duas pessoas, que não acompanharam as outras, eram o conselheiro Antunes e D. Estanislada, que se offereceu para auxilial-o no mister de cosinheiro.
D. Enrique achou isto muito natural, e o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas disseram entre si, commentando: «Azeite não falta; a caldeirada ha de ficar magnifica.»
Soledad, fingindo que lhe custava a andar sobre a area, enfiou o braço no do sueco, pendurando-se d’elle com abandono. Continuava, portanto, a sustentar o seu plano de combate. Em Troia, como no Sado, era a Suecia que triumphava.
Os outros perceberam a intenção de Soledad, e rodeavam, em despique, as tres Rodartes, acompanhando-as n’uma especie de cortejo triumphal e de certamen galante. O proprio hespanholito D. Ramon, julgando-se vencido pela Scandinavia, vingava a Iberia masculina arrastando a aza a Maria Ignez. O jornalista Aurelio Goes e o marialva do Chiado pareciam propender mais para Hilda. O proprietario das Alcaçovas e o morgado de Reguengos entabolaram conversação com Salomé sobre assumptos graves do Alemtejo: porcos e cortiça. Os officiaes de caçadores 1 e o Vianninha iam adiante dos grupos em exploração archeologica. Julio de Lemos, já despeitado pela concorrencia dos outros, especialmente de Aurelio Goes, que não respeitava os seus direitos de apresentante, e lhe estorvava a conquista de Hilda, principiava a lamentar-se de ter perdido a occasião do duello para lhe atravessar o coração com uma bala.
«Quem o seu inimigo poupa, pensava elle, nas mãos lhe morre.»
D. Enrique apossara-se do imponente anciano, levava-o a reboque pelo braço, e descrevia-lhe os horrores da insurreição cantonal, parando a cada momento, exclamando:
—Que barbaridad!... que atentado!
O alferes Ruivo, o tenente Epaminondas e o Vianninha indicaram alguns vestigios da antiguidade romana de Cetóbriga, a que ninguem deu grande importancia.
Como o morgado de Reguengos mettesse á bulha o Vianninha por causa da grande abundancia de moedas, que segundo elle, se encontravam em Troia, o Vianninha, auxiliado pelos dois militares, ainda quiz justificar-se, excavando no areal.
Soledad, conversando com o sueco, cuja face irradiava como uma aurora polar, olhava desdenhosamente para tudo aquillo.
Aurelio Goes, colhendo uma florinha que brotava da areia humida, offereceu-a a Hilda Rodarte.
Julio de Lemos estava fulo; a sua sêde de vingança abrangia agora duas pessoas: Soledad e o redactor da Trombeta Ullyssiponense.
Mastigava represalias... em sêcco.
Não appareceu nenhuma moeda romana, apesar das affirmações categoricas do Vianninha, e do padre Vicente Salgado, um franciscano erudito, que, occupando-se do assumpto, havia chamado a Troia—terreno fertilissimo d’estes achados.
Como o sol apertasse, o numeroso grupo, dividido em pelotões, retrocedeu, a fim de procurar o abrigo do toldo que os barqueiros já deviam ter armado, para sob elle ser servida a caldeirada.
Com effeito, estava quasi prompto o improvisado pavilhão, feito de vélas de barco.
O conselheiro Antunes e D. Estanislada, afogueados do rosto, debruçados sobre a caldeira, provavam pela mesma colhér o tempêro da caldeirada, e annunciavam que estava divina.
Soledad, fingindo-se fatigada, sentou-se á sombra do toldo, deixando ficar a descoberto metade do sapato enfitado. O sueco, embasbacado, bebado de amor, contemplava-lhe o pé, respondendo muito abstracto ao que ella lhe dizia.
Julio de Lemos começou a fazer troça do sueco, com os outros. Havia risinhos. Soledad percebia, e de vez em quando ella mesma, com uma audacia castelhana, olhava para a ponta do sapato, como a encaminhar para esse alvo, que aliás era preto, o olhar do sueco.
Mas, de repente, notando que Aurelio Goes tivera a ousadia de sentar-se na areia perto de Hilda, perdeu a tramontana e começou a escancarar umas gargalhadas alvares. Resolveu logo embebedar-se para tirar a desforra.
O conselheiro Antunes, apparecendo debaixo do pavilhão, annunciou que ia ser posta a toalha, porque a caldeirada estava prompta, e que por isso cada um devia tratar de occupar logar em volta do recinto destinado á toalha.
Por uma evolução rapida, mas estrategica, Julio de Lemos sentou-se na areia entre Hilda e Soledad, ganhando uma excellente posição. O sueco poude ainda aninhar-se á direita de Soledad, e o Goes á esquerda de Hilda. Mas o estudante de Alcacer ficou ardendo entre dois fogos, tinha á direita a Hespanha e á esquerda a Messejana: ficou no meio da Peninsula.
Quando D. Estanislada appareceu, notou-se que ella vinha um pouco mascarrada n’uma das faces.
—É talvez do fumo da caldeira, explicou, muito solicito, o conselheiro Antunes.
Os homens, com excepção de D. Enrique, trocavam entre si olhares intelligentes: o conselheiro Antunes pintava o bigode.