VI
A caldeirada estava deliciosa: até os anjos a poderiam comer.
O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.
A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões, referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda, quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem.
O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor da Trombeta, muito habituado a lunchs, comia como uma frieira, mettendo a colherada em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista.
Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes.
Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam.
O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal a que o tinha subido.
D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher, acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete.
O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco, contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso para elle.
O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro, dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe soubesse melhor.
Julio de Lemos, já meio tonto, aproveitou de uma vez a deixa do Rodarte, e, pondo-se de joelhos, caneca em punho, declamou:
Eu saúdo o illustre conselheiro,
Ultimo em nada, e em tudo o mais primeiro
Aurelio Goes desfechou uma gargalhada, interrompendo o improviso.
—Que é lá isso?! perguntou o estudante esgalgando-se, para o ver, por deante de Hilda.
E o Rodarte, muito prudente, muito discreto, deitou agua na fervura:
—Não é nada. Tudo aqui se passa em boa amisade. Queira continuar, sr. Lemos.
—Acha mau talvez, o menino! Elle que os faça melhores, se é capaz, insistiu o estudante.
—Então!... então! atalhou o Rodarte. Queira continuar o seu improviso.
—Já lhe perdi o fio! Não sei... Ora esta!... Acho que era isto:
Mas unico talvez na caldeirada:
Que é comêl-a e morrer...
Julio de Lemos engasgou-se.
—Não diz mais nada?! exclamou o tenente Epaminondas completando o verso em que o estudante se pegára.
Uma explosão de gargalhadas saudou este comico episodio, e o estudante, que não tinha espinha com o tenente, antes era seu amigo, riu tambem, aproveitando a tangente para fugir á difficuldade do verso.
Então Aurelio Goes, pondo-se de pé, bateu as palmas, e recitou:
Eu, n’esta agradavel festa,
Tão grata e tão jovial,
Brindo, honrando o bello sexo,
Por Hespanha e Portugal.
—São de cravo da Praça da Figueira! berrou o estudante.
—Viva! viva! clamaram muitas vozes cobrindo com applausos a inconveniente apostrophe do estudante.
E o velho Rodarte, apoiando-se no hombro de Salomé, levantou-se pausadamente.
—Tambem eu quero fazer o meu brinde.
Logo se estabeleceu um silencio respeitoso.
—Ora, meus senhores, como eu, nas barbas, me pareço um pouco com S. Pedro, permittam-me que feche a porta dos brindes. Bebo em honra do illustre conselheiro, dignissimo presidente da junta geral do districto de Santarem.
Beberam todos. E levantaram-se a pouco e pouco, alguns com difficuldade.
O conselheiro foi abraçar o Rodarte, agradecer-lhe, e, emquanto se abraçavam, cochicharam ao ouvido.
Os barqueiros trataram de recolher as loiças, e os cabazes.
E o Rodarte, muito previdente, disse que, seria melhor que o barco fosse primeiro a Setubal levar as senhoras, e que voltasse depois. Que elle, pela sua idade avançada, desde já se considerava senhora; que o sr. conselheiro, que devia estar fatigado, iria tambem com as senhoras, bem como D. Enrique, para acompanhar a esposa e a filha. Era a combinação que tinham feito ao ouvido, suggerida pela prudencia do velho Rodarte.
Os outros ficaram com cara de parvos, mas o Rodarte, chamando de parte o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas, explicou-lhes:
—Que aquillo era preciso por causa dos rapazes. Que desculpassem. E que lhes pedia o favor de olharem por elles.
Um e outro concordaram:
—Que era bem pensado. Que estivesse tranquillo.
Largou de Troia o barco com as senhoras, D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro.
Os rapazes ficaram por longo tempo acenando com os lenços, dizendo adeus.
Desembarcaram as damas no caes do Livramento, e o barco voltou a buscar os que tinham ficado.
Entretanto cahia a noite, as trevas principiavam a descer sobre o Sado, a envolvel-o n’um veo que a pouco foi perdendo a transparencia. Apenas um ponto luminoso brilhava ao longe na areial de Troia.
Deram oito horas, e o barco não tinha voltado ainda.
No café Esperança, do Zé Lapido, esperava-se o regresso dos rapazes.
Uns commentavam:
—Que tal foi a bebedeira!
Outros, mais timoratos, diziam:
—Queira Deus que não acontecesse por lá alguma semsaboria!
Deram nove horas, e o barco não voltava.
Então alguns officiaes de caçadores resolveram ir a Troia ver o que tinha acontecido.
Tomaram um barco, e largaram.
A meio do rio, ouviram o ranger de remos, e perguntaram:
—Quem vem lá?
—Somos nós, respondeu a voz do proprietario das Alcaçovas.
—Ha novidade a bordo? disseram os officiaes.
—Nenhuma, respondeu o morgado de Reguengos.
Mas não se ouvia nenhuma outra voz.
—Ali houve coisa!... disseram entre si os officiaes.
E perguntaram:
—Vem ahi os nossos camaradas?
—Vamos, respondeu o alferes Ruivo.
—Vamos, respondeu o tenente Epaminondas.
—Ali houve coisa, porque elles vem muito silenciosos!... continuavam a dizer entre si os officiaes que tinham ido procurar os outros.
Os dois barcos chegaram quasi ao mesmo tempo ao caes do Livramento. Então poude verificar-se que effectivamente os da caldeirada vinham macambuzios, entrombados, e que o sueco, estatelado no fundo do barco, e occupando-o quasi todo, dormia profundamente, a ponto de terem que acordal-o berrando.
E como elle grunhisse uns roncos cavernosos, sem comtudo se levantar, foi preciso que o proprietario das Alcaçovas, com o seu pulso de ferro, o filasse pelo gasnete, e o pozesse de pé.
—Mas o que se passou? o que se passou? perguntavam cheios de curiosidade os que tinham ido buscal-os.
—Vamos lá para o Zé Lapido tomar um copo de genebra, disse o das Alcaçovas, e conversaremos.
Quando entraram no café, e logo que se sentaram, deram pela falta do sueco, que se tinha escapulido.
Todos os conhecidos, que estavam no botequim, lhes fizeram circulo, sentando-se em torno da mesma mesa.
O tenente Epaminondas contou miudamente as peripecias do pic-nic, incluindo a mascarra de D. Estanislada, historia que produziu grande hilaridade no auditorio.
Depois poz em relevo a prudente astucia com que o Padre Eterno, pois que no café todos lhe chamavam assim, se safára com as netas e as hespanholas quando vira romper as hostilidades entre o estudante e o jornalista.
Disse que, logo que o barco partiu, o sueco investira, muito bebado, contra o estudante, accusando-o de acintosamente ter ido sentar-se ao lado de Soledad para o prejudicar nas vantagens que, como preferido, havia conquistado nos ultimos dias.
Que, por sua vez, o estudante, não menos bebado, começara a implicar com o Goes, accusando-o de o ter querido metter a ridiculo, prejudicando-lhe o improviso com uma gargalhada insolente.
O sueco agarrava-se ao estudante, e o estudante ao jornalista.
Fôra preciso que os outros interviessem apartando-os a murro, e contou o tenente que o proprietario das Alcaçovas conseguira abalar a columna vertebral e a colera do sueco com um valente pontapé applicado em cheio no sitio em que as costas mudam de nome.
—E a Scandinavia resoou! observou humoristicamente o alferes Ruivo.
Gargalhada geral.
—Que no meio de toda esta balburdia o morgado de Reguengos lembrára jovialmente que, para de uma vez pôr termo a tão impertinentes conflictos, e definir a situação de todos, o melhor seria confiar á sorte a distribuição do papel amoroso de cada um.
Esta lembrança produzira um excellente effeito, foi como que um punhado de areia atirado aos olhos de todos. Cegou-os. Todos imaginavam que seriam favorecidos pela fortuna e que, d’esse modo, ficariam livres de concorrentes perigosos e incommodos.
Deram pois a sua palavra de que respeitariam fielmente os decretos da sorte.
Trataram então de espertar a fogueira, que tinha servido para a caldeirada. E á luz d’ella fizeram, de cartas velhas e outros pedaços de papel, pequenas listas, em que escreveram a lapis os nomes de todos elles. Enroladas as listas, deitaram-n’as na copa de um chapeu. Depois inscreveram n’outras listas os nomes das quatro damas, mas, n’esta occasião, houve um protesto do proprietario das Alcaçovas, que reclamou a favor do recenseamento de D. Estanislada, como premio de consolação ao que ficasse a ver navios.
O jornalista observou que D. Estanislada já pertencia, pela mascarra, ao conselheiro Antunes.
O morgado sustentou o seu protesto, auctoritariamente, dizendo que, desde o momento em que a sorte era chamada a decidir, desapparecia a principio dos direitos adquiridos.
Por essa occasião o estudante observára:
—Sim, senhor! Fica abolido o direito pautal do azeite.
Todo o café Esperança ria, a bandeiras despregadas, com a narração do tenente Epaminondas.
Lançadas as cinco listas, e mais algumas em branco na copa de outro chapeu, procedeu-se ao sorteio, que deu o seguinte resultado:
Morgado de Reguengos—D. Hilda.
Proprietario das Alcaçovas—D. Maria Ignez.
D. Ramon Mendoza—Soledad.
Vianninha—Salomé.
O sueco—D. Estanislada.
Os que a sorte desfavorecera, especialmente o sueco, o estudante e o jornalista, romperam em protestos contra o acto eleitoral, distinguindo-se o sueco que, nem pelo diabo, queria resignar-se a acceitar D. Estanislada.
E tanto berrava e barafustava, que o proprietario das Alcaçovas teve que atiral-o para o fundo do barco, onde elle escabujou ao principio e adormeceu depois.