VII
No dia seguinte, pela manhã, appareceu affixado nas esquinas de Setubal o seguinte pasquim:
A roda que andou em Troia,
Andou bem, quem o diria!
Nem mesmo a da Santa Casa
É tão boa loteria.
O premio grande de Hespanha
Ficou na Hespanha. Era justo.
E o sueco, derreado,
Inda assim, salvou-se... a custo!
O Alemtejo, que a sopapo
Tudo escaca e tudo arrasa,
Não apanhando a taluda,
Ficou bem, ficou em casa.
Setubal, n’esta partilha,
Tem motivos d’alegria,
Porque a sorte, previdente,
Deu-lhe sal na loteria.
Só Minerva e Guttemberg,
Marte e a junta geral,
Por não beberem azeite,
Ficam olhando ao signal.
Este pasquim attraiu a curiosidade, produziu risota, foi lido com vivo interesse.
Como era natural, todos procuraram interpretar as allusões n’elle contidas, e assim aconteceu que não só o facto principal, o sorteio, se tornou ao dominio publico, mas tambem tiveram grande notoriedade todos os episodios que accidentaram alegremente o pic-nic da vespera.
De pergunta em pergunta todos ficaram sabendo o que se tinha passado, e entendendo cabalmente o pasquim, com excepção de uma só quadra.
Não restou duvida a ninguem de que Minerva se referia ao estudante, Guttemberg ao jornalista, e Marte ao alferes e ao tenente de caçadores.
Uma só passagem permaneceu obscura por muito tempo, o sentido da quarta quadra ficava em suspenso, pois que não podia atinar-se com a allusão ao sal no ultimo verso.
Que aquillo era com o Vianninha, percebia-se, visto ser elle o unico setubalense que tinha assistido a caldeirada. Mas o sal, sublinhado, era um problema, um enygma, um hieroglipho.
Alguns curiosos roiam as unhas parados ás esquinas, matutando deante dos pasquins. Que diabo de sal era aquelle? O que queria dizer aquillo?
Alguem lembrou que o Castanha, mestre-escola, apezar de vesgo, via bem as charadas. Era um alho para as decifrar. Chamou-se o Castanha, que estava a dar aula, decifrando enygmas do Almanach de Lembranças, emquanto os pequenos se entretinham uns com os outros.
Era como elle dava aula sempre.
O Castanha veio quasi em triumpho até á primeira esquina,—essa esquina que devia, em breve, converter-se para elle n’um monumento de gloria... salvo o mictorio.
Explicaram-lhe o caso, o que se tinha passado, e a duvida em que estavam quanto ao vocabulo sal.
O Castanha enviezou o olhar strabico ao cartaz, deteve-se um momento a engulir em sêcco, até que de repente, com a sagacidade de um charadista que combina idéas, perguntou:
—Elle como se chama ella?
O Castanha tinha o costume de anteceder pelo pronome—elle—todas as phrases interrogativas.
—Ella, quem? perguntaram-lhe.
—A madama que sahiu ao Vianninha?
—Salomé.
E o Castanha, desfiando as syllabas, Sa-lo-mé, monologava:
—Não pode ser isso!
Mas, de subito, exclama:
—É isso, é!
—Então é ou não é? perguntaram.
—Não vêem, disse elle triumphalmente, não vêem que o nome—Salomé—principia por sal?!
—É verdade! exclamaram vozes.
—É isso! applaudiram bôccas.
E o Castanha, muito enchicharrado, muito vesgo na commoção nervosa do triumpho, apartava os grupos para passar, charadista glorioso.
Durante todo esse dia o sueco, o estudante, o jornalista e os dois officiaes de caçadores estiveram recebendo bilhetes de visita, a pesames, com palavras de sentimento, expressões de condolencia, pelo desgosto que acabavam de soffrer.
Foi uma scie medonha, que partia do café Esperança, dizia-se, e dos outros officiaes de caçadores, rapazes alegres, que gostavam de divertir-se e não tinham muitas occasiões para isso.
O sueco embatucou, deu sorte com a chalaça. Desappareceu de repente. Constou que tinha vindo para Cintra, a fim de evitar que a troça o perseguisse.
Não se conheciam ainda outras consequencias d’aquella brincadeira fatal. Parecia que D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas não aconteceu inteiramente assim.
Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso o conselheiro Antunes.
Fallando com o estudante, extranhou, com palavras severas, que se rifasse uma senhora casada. Textual. Accrescentou que, se D. Enrique o soubesse, poderia haver uma tragedia de sangue. Tambem textual. Pela sua parte, apenas sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado a occasião para um tão grave desacerto, inventando a caldeirada. Que o caso ja havia dado de si, porque o respeitavel snr. sueco, um cavalheiro digno de toda a estima, se havia auzentado, desgostoso.
Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não tinha passado de uma brincadeira inoffensiva, que em nada podia affectar a honra das cinco damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—rifa—era violento, porque a rifa presuppunha immediata adjudicação do objecto rifado, e não se dava esse caso.
Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua opinião, descobriu um pouco as baterias. Deixou perceber que a expressão do pasquim—junta geral—o tinha maguado pessoalmente. E como o estudante se lembrasse de dizer que a junta geral do pasquim não era a do districto de Santarem, mas a collectividade dos pretendentes amorosos das trez Rodartes e da hespanhola (velhacamente, o estudante ia pondo de parte D. Estanislada para lisongear o seu interlocutor) o conselheiro, muito formalisado, disse que não era pretendente á mão de nenhuma dama, que apenas se considerava um solteirão aposentado. Que se tivesse querido casar, o poderia ter feito ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras de Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. Que não só receiava que D. Enrique o viesse a saber, e se desgostasse, mas tambem que o venerando Rodarte, um modelo de cortezia e prudencia, se chocasse com essa brincadeira de mau gosto, que envolvia o nome das suas tres netas.
No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi visto no Sapal, passeiando e lendo, peripateticamente, uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado. O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique disse-lhe que ia passar alguns dias a Lisboa. Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se ia só ou acompanhado. Mas não se atreveu a tanto. E logo conjecturou que era um pretexto de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. Aqui está, pensou o conselheiro com os seus excellentissimos botões, o que aquelles diabos arranjaram com a brincadeira da rifa!
Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, principalmente aos implicados na patuscada de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as consequencias d’aquelle grave desacerto; que D. Enrique ia á Lisboa ou, segundo elle suspeitava, para Lisboa, d’onde talvez não voltasse, desgostoso.
A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, que tinham rido com o pasquim, começaram a queixar-se de que por uma imprudencia alheia estivessem arriscados a perder freguezes importantes.
O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e foi á estação vêr partir o comboyo para Lisboa. D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada ficava, portanto, só, em Setubal, durante alguns dias. Oh felicidade! exclamou mentalmente o conselheiro.
De tarde, na Praia, o conselheiro parou a conversar com alguns grupos.
—Então, D. Enrique sempre se retira para Lisboa?
—Creio que sim, respondia elle; supponho que parte ámanhã.
O velhaco! O que elle não queria era que se soubesse que o hespanhol já tinha partido, e que D. Estanislada ficára.
Houve logo quem aventasse a ideia de que uma commissão do setubalenses viesse a Lisboa, no caso de D. Enrique partir, pedir-lhe que não desse importancia a uma mera brincadeira, e que voltasse.
O Rodarte, esse, parecia ignorar tudo o que se passava. Ninguem o informou de que tivessem apparecido pasquins; não ousou fazel-o ninguem. E elle, muito myope, não podia tel-os lido.
Conversando com o morgado de Reguengos apenas dissera que os pic-nics eram a mais arriscada de todas as distracções de uma praia. Que se felicitava por ter tido a boa ideia de deitar agua na fervura, fechando a serie dos brindes, que já estavam denunciando uma certa excitação dos convivas, quando julgou opportuno intervir.
O proprietario das Alcaçovas tambem, n’essa tarde, acompanhava o grupo do Padre Eterno e das netas, porque, tanto elle como o morgado, estavam resolvidos a fazer valer os direitos que a sorte lhes proporcionára.
Poderiam, ambos elles, ter supplantado a murro e a pontapé todos os outros concorrentes. Mas fazel-o seria violento... especialmente para as victimas. Os dois, homens fortes, de musculo tuchado, possuiam o bom humor e a prudencia que os nevroticos desconhecem.
A hespanhola impozera-se-lhes pela belleza, no primeiro momento. Mas depois appareceram as Rodartes, bellas mulheres, habituadas á vida do Alemtejo, ricas, bem educadas, e ambos elles, sem o terem communicado um ao outro, acharam preferivel jogar com tino, na banca do Amor, a aventurarem-se á conquista de uma hespanhola, que tinha o grande defeito de ser caprichosa e de saber quanto valia.
A primeira confidencia que os dois tiveram entre si foi á volta de Troia, quando o de Reguengos explicou ao das Alcaçovas que propozera a loteria, porque a sorte nunca deixára de o beneficiar sempre que a tentava.
—Eu estava certo, disse elle, de que me calhava a hespanhola ou a Hilda, que eu preferia á hespanhola. Em loterias tenho uma sorte brutal.
—Pois eu, respondeu-lhe o das Alcaçovas, sou infelicissimo em todos os jogos d’azar. Agora explico a minha sorte por termos sido parceiros no jogo.
E riram ambos, riram muito, tomando a brincadeira... a serio.
O Vianninha tambem n’essa tarde andou no grupo das Rodartes, arrastando a aza a Salomé, que o não recebia bem nem mal.
O estudante de Alcacer appareceu, mas sumiu-se logo que viu o morgado de Reguengos a passeiar ao lado de Hilda Rodarte.
—Então aquella grande besta, exclamou elle, toma a coisa a serio!
O jornalista, com os officiaes de caçadores, e outros, sentados fóra da porta do Lapido, bebiam gazosa e faziam a critica do grupo que ia passando.
D. Ramon Mendoza appareceu no botequim, e os da mesa da gazosa perguntaram-lhe com desfructe:
—Então o que é feito do premio grande d’usted?
—Eu sei lá! Nunca mais tornei a ver Soledad!
E, batendo as palmas, mandou vir gazosa.