VIII
Ao anoitecer, o conselheiro Antunes foi, muito disfarçado, bater á porta de D. Enrique.
Respondeu-lhe, do patamar, D. Estanislada, que perfeitamente lhe conheceu a voz.
—Que D. Enrique tinha sahido com Soledad, disse ella, mas que subisse, que lhe dava com isso muito prazer.
Tudo parecia correr ás mil maravilhas para o ditoso conselheiro. Que D. Enrique e a filha haviam sahido, bem o sabia elle: mas a facilidade amavel com que D. Estanislada o recebia em sua propria casa, não estando o marido, era quasi promessa de felicidade... immediata.
O conselheiro, bastante manhoso para dissimular a alegria que esta risonha situação lhe causava, disse, parado ainda ao fundo da escada, algumas palavras aconselhadas por apparencias de conveniencia e respeito.
—Mas, minha senhora, não sei se deva entrar...
—Que entrasse, que subisse, porque, de mais a mais, havia de gostar da companhia.
Esta phrase—gostar da companhia—pareceu maliciosa ao conselheiro. E, a seu ver, a promessa de immediata felicidade accentuava-se n’essa phrase.
Subiu, pois, sentindo palpitar vertiginosamente o coração, que lhe dava saltos dentro do peito.
Mas, entrando na saleta, ficou tão admirado, como contrariado, vendo que D. Estanislada não estava só.
Ó desillusão! ó desapontamento!
D. Estanislada apresentou-lhe as suas visitas: a senhoria e a filha.
A senhoria, a sr.ª Magdalena, era uma mulher de cincoenta annos, viuva, muito devota e temente a Deus. A filha, a menina Ricardina, tinha vinte e dois annos, e um palmo de cara que não era desengraçado.
D. Estanislada alludia á menina Ricardina quando disse ao conselheiro que—havia de gostar da companhia.
A mulher que se sente amada tem d’estes falsos assomos de modestia, para experimentar o valor da affeição que inspirou, qualquer que seja a sua idade. Diz que todas as outras são mais bellas, mais tentadoras do que ella, porque se sente lisonjeada de triumphar da concorrencia de todas as outras.
D. Estanislada seguiu esta tactica.
Elogiou muito ao conselheiro a belleza da menina Ricardina, que se envergonhava dos gabos, côrando.
A mãe, a sr.ª Magdalena, rindo de satisfeita, repetia esta phrase:
—É sãsinha, graças a Deus!
O conselheiro, muito contrariado, procurava no seu espirito uma phrase com que, sem correr o risco de ser indiscreto, podesse dar a entender a D. Estanislada que, ao pé d’ella, o rosto de qualquer outra mulher lhe passava despercebido.
Finalmente, pareceu-lhe que tinha achado a phrase precisa, e disse-a:
—O rosto d’esta menina é realmente muito interessante, e eu felicito por isso a senhora sua mãe; porem não permittamos á sr.ª D. Estanislada que se esteja escondendo na sombra, qual timida violeta.
D. Estanislada gostou de se vêr tratada por violeta. E, saboreando a amabilidade, como se estivesse chupando um rebuçado, contestou:
—Yo, pobrecita de mi, yo estoy hecha una vieja!
—Pelo amor de Deus! exclamou o conselheiro levantando os braços quasi até á altura da cabeça.
—Que não, acudiu a sr.ª Magdalena, que estava ainda muito fresca, muito bem disposta, que até parecia irmã mais velha da filha.
E a menina Ricardina accrescentava que a sr.ª D. Estanislada não devia dizer a ninguem que era mãe da señorita Soledad.
Este tiroteio de lisonjas, de que D. Estanislada foi alvo, durou alguns minutos.
O conselheiro, quando entre todos pareceu ficar decidido que D. Estanislada era qual timida violeta, sem que ella já ouzasse protestar, fingiu-se novamente admirado da ausencia de D. Enrique e de Soledad.
—Fueron á Lisboa, respondeu D. Estanislada.
—Mas demoram-se pouco? insistiu o conselheiro.
—Vuelven el lunes, no sé si por la mañana ó por la tarde.
—Ainda bem, pensou o conselheiro, e ainda mal! Ainda bem, porque D. Enrique ou não tinha lido o pasquim ou lhe não dava importancia: continuaria portanto a demorar-se em Setubal. Ainda mal, porque a ausencia era breve de mais para que elle conselheiro podesse encher a medida dos seus desejos.
Fez menção de levantar-se para sahir.
—Que não, que ficasse, insistiu D. Estanislada, que iam tomar chá, e que lhes désse o prazer da sua amavel companhia.
—Que não desejava ser importuno... que ia dar uma volta.
Mas D. Estanislada, com toda a sua intimativa de hespanhola, ordenou-lhe que ficasse, e o conselheiro Antunes ficou de muito bom grado.
Foram para a casa de jantar e abancaram para tomar chá.
D. Estanislada fez sentar o conselheiro á sua direita, e a sr.ª Magdalena á sua esquerda. A menina Ricardina ficou ao lado da mãe, posição estrategica que D. Estanislada lhe distribuiu... por cautela. Ella bem sabia quanto o conselheiro Antunes, apesar da sua grave encadernação de presidente da junta geral de Santarem, era lambareiro de mulheres.
Emquanto tomaram chá, ao dialogo respeitoso de D. Estanislada e do conselheiro, sobre coisas frivolas, correspondia, debaixo da mesa, outro dialogo bem menos respeitoso: o dialogo dos pés.
Certamente que este dialogo nos interessa muito mais do que o outro. Vamos pois escutal-o.
A bota do conselheiro, explorando terreno:—Onde estás tu, adoravel pé de D. Estanislada? Pois que o teu senhor se acha ausente, pódes vir ao mirante do castello escutar a minha serenata de amor...
O sapato de cordovão de D. Estanislada:—Eu fujo-te, menestrel audaz, para tornar mais intensa a febre dos teus desejos. Bem deves saber que toda eu sou a timida violeta de que fallaste ha pouco.
A bota:—A violeta é a flôr da sombra, e debaixo da meza tudo é sombra e mysterio. Estás, pois, no teu logar, violeta timida. Não me fujas, ó esquiva Galatéa, cujo adorado pé eu ando procurando ás escuras, como um cego d’amor.
O sapato:—Tenho medo de que a sr.ª Magdalena e a menina Ricardina dêem tino do que se está passando no soalho. Para entalação bem bastou já aquella mascarra que o teu beijo de Troia me deixou na face... Não me persigas, que me tentas, seductor!
A bota:—Eu sou discreto como um conselheiro, que me prézo de ser. Muitas vezes, na junta geral de Santarem, tenho tido necessidade de pisar o pé a um collega para o prevenir de qualquer maniversia politica, e a junta nunca deu por isso, tão bem eu sei pisar o proximo! Encantadora Estanislada! fica sabendo que a electricidade procura as extremidades: os meus pés estão, portanto, carregados da electricidade do meu coração. Chega-te, e verás.
O sapato, aproximando-se:—Quem póde resistir á fascinação das tuas palavras, e á discrição dos teus processos?! Pois que tudo se vae passar na sombra, com a cautela de que tu sabes usar, como conselheiro e como amante, consentirei que o meu sapato caminhe para a tua bota, com o pejo, aliás, que fica bem a toda a mulher, e com a timidez que é propria de toda a violeta.
A bota, encontrando o bico do sapato, e arrastando-o ternamente:—Vem, vem finalmente cahir nas doces talas do amor, adorado pé! Quero apertar-te com a ternura com que Romeu abraçava Julieta. Nas dôres physicas do amor, ha uma voluptuosidade que endoidece de deleite. Vem, ó pé feiticeiro! ó pé encantador!
O sapato:—Eis-me aqui, como um escravo que não póde resistir, que não ouza luctar.
Então, o pé esquerdo do conselheiro Antunes, tendo empolgado o pé direito de D. Estanislada, demora-se um momento como para certificar-se de tudo que se está passando em segredo. E, após esse momento de pausa, a bota do pé direito acode a comprimir ternamente, de accordo com o pé esquerdo, o sapato de D. Estanislada, que fica entalado entre as duas botas.
Toda a electricidade acode pois ás extremidades de um e outro.
D. Estanislada, com a perna direita torcida, offerece mais chá á sr.ª Magdalena, e o conselheiro Antunes, com ambas as pernas repuxadas para a esquerda, mette a colhér dentro da chicara, faz menção de não querer mais chá.
Devia ter sido deliciosa toda essa secreta iberisação de duas botas portuguezas junto de um sapato andaluz; deliciosa, principalmente, se nenhum dos pés tinha calos.
A conversação foi-se arrastando á custa da sr.ª Magdalena, que entrou no seu assumpto predilecto, os milagres do Senhor do Bomfim.
D. Estanislada e o conselheiro apenas contribuiam com monossyllabos, interjeições, porque a electricidade, que acudia ás extremidades, os tinha n’uma vibração nervosa, que os entaramelava.
A menina Ricardina, a quem um dos seus namorados havia pisado o pé, n’uma occasião em que jogára o loto em familia, desconfiou da marosca, e as suas suspeitas foram-se accentuando em convicção, porque lhe não passou despercebido que o corpo do conselheiro estava visivelmente esguelhado para a esquerda e o de D. Estanislada enviezado para a direita.
Com essa subtil astucia que é propria da gente moça, a menina Ricardina imaginou tirar a prova real das suas suspeitas. Arrancando do dedo um annel de ouro, começou a brincar com elle sobre a mesa: fazia-o rodopiar, dançar, graças ao impulso combinado dos dedos indicadores.
A folhas tantas, o impulso foi maior e o annel saltou ao chão.
—Ai! o meu annel! exclamou ella, curvando-se rapidamente para apanhal-o.
Pôde ainda, vêr, perfeitamente, a fuga precipitada, e algo ruidosa, dos tres pés cumplices.
D. Estanislada fez-se rubra; o conselheiro fez-se branco. E a menina Ricardina, apanhando o annel, disse com o seu melhor ar de riso:
—Não se incommodem; já aqui está. Muito obrigada.
Aquelle inesperado incidente do annel desarranjou a agradavel união iberica dos tres pés.
O conselheiro, levantando-se, disse que iam sendo horas da sr.ª D. Estanislada se recolher. A sr.ª Magdalena, ouvindo isto, lembrou-se de que ás seis horas da manhã tinha de ir cumprir uma promessa ao Senhor do Bomfim.
Despediram-se todos, e o conselheiro, voltando-se no patamar da escada, exclamou:
—Já me ia esquecendo, D. Estanislada! Encommendei o azeite. Mandaram-me dizer em telegramma que era expedido hoje mesmo ás onze horas.
—Muchas gracias, respondeu ella encostando-se á porta da saleta.
Quando batiam em S. Julião as onze horas da noite, um embuçado, cosendo-se muito com a sombra das paredes, dirigia-se mysteriosamente para casa de D. Enrique. Era o azeite: o conselheiro. Mas teve de fazer torcicollos porque reconheceu o sueco, que estava contemplando as janellas de D. Estanislada. Por sua vez, o sueco, mal que viu aproximar-se um vulto, deitou a fugir.
O presidente da junta geral do districto de Santarem, lembrando-se da rifa, e, portanto, de que D. Estanislada havia sahido em premio ao sueco, teve uma forte commoção de ciume.
—Pois então elle, pensou o conselheiro, tinha ido para Cintra e apparece mysteriosamente em Setubal ás onze horas da noite!
E, como um Othello furioso, empurrou a porta de Desdémona e entrou.
Por dentro dos vidros da sua janella, a menina Ricardina, muito matreira, tendo apanhado no ar a phrase do azeite, estava á côca, e vira tudo o que se passára.