IX
O conselheiro Antunes, subindo a escada, deixou-se guiar mansamente, na treva, pela mão da hespanhola. Parecia um borrego amoroso comboyado pela respectiva cordeira. Mas logo que se apanhou no quarto de D. Estanislada e a luz da lamparina lhe aclarou a situação, o borrego transformou-se em lobo cerval. Desdémona teve que haver-se com Othello.
Ora o que ali se passou, em rapidos momentos, foi pouco mais ou menos a famosa fabula do lobo e do cordeiro.
Othello accusou violentamente Desdémona: era o lobo que fallava.
Não alludiu á rifa, mas affirmou saber de boa origem que o sueco disfarçava com a filha as suas pretensões á mãe. A hespanhola, entre lisonjeada e surprehendida, tomou o logar do cordeiro do apólogo, salvo o sexo. Procurou tranquillisar o conselheiro, dizendo-lhe que o sueco não a pretendia a ella, mas á filha, que era mais nova. O lobo pediu provas, visto que só com provas importantes poderia desfazer a impressão que lhe deixára a presença do sueco, n’aquella rua, ás onze horas da noite, sendo certo constar em toda a cidade que Soledad tinha ido para Lisboa com o pae.
D. Estanislada pôde, felizmente, lembrar-se de uma prova. Era uma carta que n’aquella mesma tarde tinha chegado pelo correio, dirigida a Soledad Saavedra. A lettra do sobrescripto era esquisita, estrangeirada: naturalmente seria do sueco.
—Pois bem! propozera D. Estanislada, abrir-se-ia a carta e, se effectivamente fosse do sueco, talvez a questão podesse ficar esclarecida.
Foi pé-ante-pé buscar a carta, e abriu-a com denodo. Era effectivamente do sueco.
Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos.
Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta.
Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no pic-nic de Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás onze horas da noite.
Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor.
Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos, esperava que a janella de Soledad se abrisse.
Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta de um rez-de-chaussée.
Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um psiu, tres vezes repetido, um psiu que não podia ser senão para elle, porque na rua não havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.
Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher, mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher? Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava dizendo cautelosamente:
—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.
O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe soube tão bem como um copo de Kirsch-Vasser.
—Faça favor de fallar baixo, disse ella, que está ali minha mãe a dormir.
—Ó encantadorra menina! exclamou elle.
—Ainda que eu mal pergunte, continuou ella, o sr. estrangeiro anda aqui por causa da mãe ou da filha?
—Que dizerr menina?
—Sim, porque eu tenho visto o sr. estrangeiro no grupo da hespanhola, mas não sei ao certo se anda arrastando a aza á señorita Soledad ou a D. Estanislada...
—Linda menina desfrructarr-me a mim?
—Não, senhor! Pelo contrario. Desejo ser-lhe agradavel. Posso dar-lhe informações tanto a respeito da señorita como da mãe. Se é por causa da filha, o sr. estrangeiro andava aqui hoje a perder o seu tempo...
—Porque dizerr linda menina isso?
—Porque Soledad foi esta tarde para Lisboa com o pae, e só volta depois d’amanhã.
—Mas quem serr então uma pessoa homem que andava esprreitando inda bocadinho?
—E o sr. estrangeiro não dirá nada do que lhe vou contar?
—Oh! nó!
—Era o conselheiro Antunes.
—E onde estarr elle?
—Lá dentro.
—Aqui?
—Credo! Lá dentro da casa de D. Enrique.
—Mas estarr só?
—Não, sr. Está fazendo companhia á D. Estanislada... O sr. desculpe...
—Nó! D. Enrrique é que desculparrá, se quizerr.
—É uma pouca vergonha como nunca se viu! Minha mãe tem alugado aquella casa a muitas familias hespanholas, mas ainda não vi gente tão levantada da cabeça como esta! Entre mãe e filha venha o diabo e escolha!
—Mãe menina serr senhorria casa?
—Sim, senhor.
—Então menina terr visto tudo?
—Tudo! Não, senhor. Tenho visto muita coisa. Ainda esta noite...
—Que terr visto menina esta noite?
—Eu e a minha mãe fomos visitar D. Estanislada por imaginarmos que, estando o marido e a filha em Lisboa, não teria quem lhe fizesse companhia. Estavamos lá quando entrou o conselheiro Antunes. Ó sr. estrangeiro, aquillo foi mesmo uma pouca vergonha!
—Como serr?
—Debaixo da mesa...
—Como debaixo de mesa?!
—Pisando os pés um ao outro, D. Estanislada e o conselheiro! Estiveram toda a santa noite n’aquelle debique. Depois sahimos todos, mas o conselheiro, á sahida, disse a D. Estanislada que ás onze horas vinha o azeite...
—Oh! sim! o azeite! Serr uma combinação entrre ambos!
—Tal qual. Mas eu, que não gosto que me façam o ninho atraz da orelha, fiquei aqui á espreita por dentro dos vidros. Vi chegar o sr. estrangeiro e pasmar-se para a casa de D. Enrique. Vi chegar depois o conselheiro Antunes. O sr. estrangeiro fugiu, e o conselheiro entrou.
—Menina terr cerrteza que conselheirro estarr lá?
—Sim, sr.! Como dois e dois serem quatro...
—Pouca verrgonha!
—Ó sr. estrangeiro! mãe e filha é tudo a mesma loiça! A filha, quando não anda pela rua com todos os namorados, está á janella a catrapiscar a um e a outro, a todos os que vão chegando! O sr. estrangeiro tambem tem feito bem bonitos papelinhos!
—Serr porr brrincadeirra. E terr muitos namorrados?
—Mais de um cento! Elle é o Lemos de Alcacer, elle é o tal das gazetas de Lisboa, elle é o hespanholito esgrouviado, elle é o tolo do Vianninha que tem a pobre da Sequeira a morrer por causa d’elle; elle são os officiaes de caçadores; elle são os morgados do Alemtejo; elle era o marialva que andou ahi um tempo. E elle é tambem o sr. estrangeiro... disse Ricardina sorrindo.
—Eu serr brrincadeirra.
—Olhe, da parte d’ella talvez fosse, porque quando o sr. voltava costas, a señorita e a mãe desatavam a rir pelas casas dentro.
—Pouca verrgonha!
—Pois olhe que é a pura da verdade!
—Muito obrrigado, linda menina. Eu poderr virr amanha á mesm’horra fallarr com menina aqui?
—E para que quer o sr. estrangeiro fallar comigo? É porque está apaixonado pela señorita e deseja saber noticias...
—Nó! É por gostarr de menina.
—O sr. estrangeiro está a caçoar com uma pobre rapariga!...
—Caçoarr! Nó! Eu virr amanhã mesm’horra. Linda menina, fazerr favorr esperrar mim?
E o sueco, apertando na sua manápula a mão de Ricardina, sentiu-se deliciosamente agitado por esse contacto, que era um triumpho amoroso cahido do céo.
Por sua vez, Ricardina, que sahira vibrante de casa de D. Estanislada, sentia-se bem, feliz, por ter podido até certo ponto descarregar a electricidade que de lá trouxera.
O sueco era um homem sadio, de boas côres, e devia ter dinheiro, porque estava ali como commissario de uma importante casa da Suecia, importadora de sal.
De mais a mais Ricardina, como todas as mulheres, lisonjeava-se de ter arrancado um vassallo ao coração da señorita, que estava absorvendo todas as attenções de Setubal.
O sueco, ruminando a sua boa fortuna, foi passear audaciosamente para a praia, como se já não temesse os ridiculos da troça.
Dados alguns passos, encontrou o estudante de Alcacer, que, muito noctivago, recolhia do café Esperança.
—Ó seu sueco! disse-lhe o Lemos. Então você não tinha ido para Cintra?!
O sueco respondeu-lhe que effectivamente tinha estado em Cintra, por passeio, e não porque se houvesse importado com a historia do pic-nic; que se estava rindo da señorita, que era uma tola, e até de D. Estanislada, que era a amante do conselheiro Antunes.
E, sem se referir a Ricardina, contou ao Lemos que Soledad e D. Enrique tinham ido para Lisboa e que o conselheiro estava áquella hora em casa de D. Enrique.
—Está lá com certeza? perguntou o Lemos.
O sueco affirmou positivamente que estava; que tinha entrado ás onze horas.
—Olhe lá, disse o Lemos, venha comigo, vamos pregar uma partida a essa marafona da D. Estanislada.
E, mettendo o braço ao sueco, foi-o levando comsigo a reboque.
Depois que passára a tempestade do ciume, D. Estanislada e o conselheiro reconciliaram-se n’um longo idillio de amor. Tinham adormecido nos braços um do outro, e D. Estanislada sonhava afflictivamente que D. Enrique, voltando de Lisboa, estava batendo á porta.
Accordou sobresaltada, sentou-se na cama offegante, olhando para o conselheiro que dormia tranquillamente e assobiava por um dos cantos da bôcca.
Agitada entre a impressão do sonho e da realidade, isto é, entre a imagem de D. Enrique e a pessoa do conselheiro, estava limpando o suor da testa, quando ouviu resoar tres pancadas na porta e uma voz roufenha dizer:
—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
Agarrando-se trémula, convulsa ao conselheiro, accordou-o, e elle, despertando aturdido, ouviu tambem, distinctamente, a voz roufenha dizer:
—Eu sou D. Enrique! Eu sou D. Enrique!
Era o estudante d’Alcacer, que se tinha lembrado de pregar aos dois esta partida.